quarta-feira, maio 17, 2006

Sobre os Direitos do Homem



Já Afonso Lopes Vieira sentia a necessidade do contacto com a Natureza,
coisa cada vez mais longínqua nos dias de hoje, especialmente nas cidades que vão sendo construídas com a principal preocupação de "fazer dinheiro" para quem tem o poder na mão.

Em rotadosescritores.org podemos saber um pouco mais sobre a sua vida e acção.

Vejamos o que ele diz no poema:


As flores e a horta

Nos Direitos do Homem, quanto a mim,
faz uma falta enorme que não venha
que toda a humana criatura tenha
direito a ter um jardim!

Este jardim é apenas um cantinho,
como convém;
mas as coisas do rude jardinzinho
criam-se bem.

Temos cravos vermelhos a cantar
com rubra voz,
que perfuma, com a côr e o cheiro, o ar
em roda de nós.

Temos os girassóis, que todo o dia
olham de frente
o Sol, e ensinam, simples, a alegria,
heroicamente.

Temos as sardinheiras, - raparigas
filhas do povo,
que vão prá festa com seu lenço novo
e a rir cantigas.

Temos as rosas bravas, linda flor
do meu amor;
e as doces moreninhas dos poetas:
as violetas.

Entre a beleza pródiga das cores
e dos perfumes,
florescem essas outras verdes flores:
os legumes.

As couves, com seu ventre meigo e ledo
são tão belas!
(E houve tempo em que os poetas
tinham medo
de falar de elas...)

Enfim todo ele é apenas um cantinho,
como convém;
mas as coisas do rude jardinzinho
criam-se bem.

Dá-nos as flores e a horta e, ao fim do dia
sentimo-lo sorrir e respirar...
E a mim dá-me a ilusão de essa alegria
de lidar com a terra - e de a cavar!

Canções do Vento e do Sol
1911

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