quarta-feira, outubro 25, 2006

Apelo de militares americanos



"Como americano patriótico, orgulhoso de servir a Nação em uniforme, respeitosamente solicito aos meus dirigentes políticos do Congresso que apoiem a retirada de todas as forças militares americanas que se encontram no Iraque. Permanecer no Iraque não dará os resultados esperados nem compensará o esforço. É tempo para os EUA regressarem."

Tradução da petição encontrada em: Appeal for redress

segunda-feira, outubro 23, 2006

Debbie Andalo - Empresários propõem o ensino de ciências gratuito

O governo britânico está a sofrer pressões para tomar medidas que contrariem o actual declínio do número de estudantes que optam por um ramo das ciências, Engenharia ou Matemática. Um relatório conjunto da Conservation of British Industry (CBI) e da empresa de tecnologias de informação LogicaCMG sugere a abolição ou, pelo menos, a redução dos preços do Ensino (level of tuition) para estas áreas, como forma de aumentar o número de estudantes que optem por estas carreiras. As administrações universitárias reportaram uma queda de 25% no número de estudantes que escolheram Matemática ou ciências de computação entre 2002 e 2005. O ralatório também pede que se estabeleça uma melhor coordenação entre as universidades e o sector industrial das tecnologias da informação, como forma de garantir a relevância do Ensino, assim como a criação de novos programas vocacionais dirigidos aos jovens do 14 aos 19 anos, a começar em 2008. Igualmente se sugere o alargamento da prática do "Professor Convidado", pelo qual os profissionais da indústria das tecnologias da informação são envolvidos na actividade docente. "O Mundo aproxima-se da terceira revolução industrial... O Reino Unido deve assegurar-se que possui as aptidões necessárias para preencher os espaços deixados vazios pelas actividades que se deslocalizam. Agora, mais do que nunca, o governo deve equipar os jovens com os conhecimentos certos em ciências, Engenharia e Matemática" - afirmou o director geral da CBI, Richard Lambert.

Tadução (excerto) do original em inglês publicado no Education Guardian em 19 de Outubro de 2006.
Em caso de dificuldade em seguir o link, eis aqui uma versão em modo texto do artigo completo.

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quarta-feira, outubro 18, 2006

Nelio de Sousa - licença de maternidade



Se uma coisa pode ser dita de todo, deve ser dita claramente. Do que se não pode falar, é melhor calar-se.(Witgenstein)

Apesar da sua formação em humanísticas, a recomendação do filósofo não perece ter exercido grande influência no pensamento da Doutora Maria de Lurdes Rodrigues.

Nelio de Sousa, ao destrinçar o emaranhado da proposta ministerial de revisão do Estatuto da Carreira Docente, mais parece alguém a esgrimir um adversário que vai trocando a espada pela lança, logo pela funda, logo por qualquer arma invisível.

Procure o leitor compreender este problema simples: que sorte espera um professor que queira usufruir da licença de maternidade ou de paternidade, à luz daquela proposta.

terça-feira, outubro 17, 2006

VI Convenção Internacional de Killifilia Portuguesa


Irá decorrer este fim de semana a VI convenção da Associação Portuguesa de Killifilia (APK).
É uma excelente oportunidade para iniciantes e aficionados de:
  • conhecer pessoalmente alguns biólogos de renome;
  • visitar os bastidores do Aquário Vasco da Gama;
  • encontrar peixes que não são vendidos em lojas de aquariofilia;
  • aprender a manter e reproduzir peixes.
A exposição e as palestras ocorrem no Espaço Monsanto durante o dia 21 (Sábado) . Aproveite esta oportunidade para gozar um fim de semana diferente.

segunda-feira, outubro 16, 2006

A Finlândia - a "coqueluche" do nosso governo



Excertos de uma entrevista feita ao Ministro da Educação da Finlândia (Antti Kalliomaki) pelo D.N:

- Na Finlândia todos têm direito a uma educação básica gratuita que inclui o equipamento necessário e os livros escolares, transporte, se for preciso, serviços de saúde e refeições.

- Na sociedade de informação, a inclusão exige que todos os cidadãos tenham acesso aos meios técnicos e às capacidades para os usar. Só assim será permitido a todos os indivíduos o desenvolvimento dos seus potenciais ao máximo.

- No nosso país as autoridades locais são responsáveis por quase toda a educação pré-primária, básica e secundária.
Cerca de 2/3 do ensino vocacional e profissional é garantido pelas autoridades locais ou cooperativas de educação municipais.

- A autorização para abrir novas escolas depende do M.E. Os municípios têm um dever estatutário de fornecer educação pré-primária e básica. Também são responsáveis pelo ensino secundário e formação profissional. E são os agentes educativos que decidem as questões práticas como o recrutamento de professores.

- A Direcção Nacional de Educação é responsável por desenvolver e implementar os currículos nos níveis básicos e secundário. No entanto, muitas questões são decididas pelos próprios agentes educativos, ou seja, as autoridades locais e seus parceiros.

- O ensino pré-primário e básico, assim como o secundário geral e vocacional são geridos por objectivos estabelecidos na legislação e pelos currículos nacionais. A educação geral e formação vocacional são co-financiadas pelo governo e pelas autoridades locais.

- Na Finlândia, todas as crianças têm direito a uma educação competente e de alta qualidade e a um ambiente de estudo seguro e confortável. Um sistema de educação flexível e uma segurança educacional básica garantem equidade e consistência nos resultados.
É importante encontrar um equilíbrio entre os trabalhos da escola e o descanso.
A comunicação entre os professores e os pais dá frutos.

- Todas as crianças têm o direito de participar na educação pré-primária voluntária durante o ano que precede a entrada para a escolaridade obrigatória. A educação pré-primária é gratuita. As autoridades locais têm a obrigação de a fornecer, mas a participaçãodas crianças é voluntária e decidida pelos pais. Cerca de 96% das crianças frequentam-na.

- A rápida expansão da inserção das mulheres no mercado de trabalho nos anos sessenta teve uma relação simbiótica com o desenvolvimento do Estado-Providência finlandês, que foi um dos seus principais empregadores. Esta política baseou-se em construir sistemas de educação e de saúde públicos e unidades de cuidados de dia-a-dia, para todos os residentes no país, garantindo-lhes o acesso gratuito ou muito barato a estes serviços.

- A gestão da escola é da responsabilidade do reitor e do vice-reitor. O reitor deve ter formação de professor.

- A escolaridade obrigatória e o direito a receber educação pré-primária e básica gratuita são garantidos por lei, assim como a formação noutras áreas que levem à educação qualificada, incluindo a pós-graduação universitária.

- Os nossos pontos fortes são a nossa economia competitiva, uma baixa taxa de corrupção, uma administração pública eficiente e um ambiente saudável.

- Têm sido feitos esforços para dotar todos os grupos populacionais e regiões do país de oportunidades iguais.

- Em cada ano, um total de 147 mil estudantes frequentam a via de ensino vocacional e formação profissional. Na Filândia, esta via é cada vez mais popular.
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Da visita de Sócrates à Finlândia, segundo ele, para se inteirar do modelo educativo finlândês, o que ficou foi que os professores trabalhavam lá cerca de 50 horas por semana, aliás, ideia sublinhada por Jorge Sampaio, então presidente da República.

Mas que, por exemplo, a escolaridade básica é verdadeiramente gratuita, desde os livros às refeições, para todos, incluindo cuidados de saúde, sem discriminação, eu não me recordo de ele o ter realçado.

Que não havia propinas nem no Secundário nem no Superior também não passou.

O que ficou, sim, foi que os professores são os responsáveis pelo estado actual da educação no nosso país.

Sócrates é fingido porque sabe muito bem que a realidade actual é resultado de muitas variáveis, umas controláveis outras não.

O que de facto pretende é arranjar bodes-expiatórios para poder desviar as atenções do que anda a fazer este governo que é simplesmente dar cabo do que resta de uma saúde e ensino públicos que não eram satisfatórios mas que ainda serviam muita gente sem possibilidades económicas. Agora é cada vez mais difícil o acesso às necessidades básicas, quer do ensino quer da saúde.

Queixam-se que a taxa de natalidade é baixa, no nosso país. E que medidas promove Sócrates para a fazer crescer? Quantos casais jovens, com 2 ou 3 filhos e trabalhando ambos, suportam prestações de casa e infantários privados? Restringe o acesso aos infantários do Estado antes dos 5 anos e, mesmo depois, obriga a pagar as refeições!

Andamos a brincar aos governos? Aos países? Não!

Todas as decisões tomadas visam favorecer o capitalismo-feroz que já existia nos países, dantes designados do 3º mundo e agora, em vias de desenvolvimento, por ser politicamente mais correcto. Em Portugal, tal como nesses outros países, está a cavar-se uma vala cada vez mais funda que separa os poderosos dos descamisados.

Hoje é dia de luta no seio dos professores, vamos ficar sem receber 2 dias, para quem fizer greve.
Quero deixar aqui expresso que vou aproveitar estes 2 dias para me recompôr fisicamente e para preparar materiais de trabalho. É que, ao contrário do que o 1º ministro pensa, nós professores trabalhamos para além das horas lectivas, fora do local de trabalho, e como desde há 1 ano para cá estou com o dobro das horas que tinha para dar à escola e continuo a fazer o que fazia em casa, se calhar os professores portugueses estão a fazer mais do que 50 h por semana.

Jean-Guy Bruneau - Petróleo, a verdadeira parada da Guerra no Iraque


11 de Abril de 2003
"A parada da Guerra no Iraque é só uma e é económica."


"Ao memo tempo que o conflito armado desencadeado pelo governo americano alimenta ódios no Iraque, o Mundo interroga-se sobre quem assumirá o controlo das imensas reservas de petróleo que jazem no sub-solo iraquiano logo que os canhões parem de troar.

Para Michel Chossudowsky, professor de economia da Universidade de Otawa e especialista em globalização da economia, é manifesto que esta dinâmica explica a razão de ser da intervenção americana. Na sua opinião, o objectivo último da iniciativa guerreira de Georges W. Bush é substituir Saddam Hussein por um regime muito mais disponível aos olhos dos interesses anglo-americanos.

Nesta perspectiva, é preciso entender bem o potencial de petróleo iraquiano, acentua o professor Chossudowsky. As reservas do Iraque constituem cerca de 11 por cento das reservas mundiais. São cinco vezes superiores às reservas dos Estados Unidos. Sem contar que a extracção é muito menos cara no Iraque.

Ora, as grandes sociedades americanas, especialmente a Exon Mobil, a Chevron Texaco e a ConocoPhilips foram todas mantidas à distância destes imensos recursos pela lei americana Iraq Sanctions Act, decretada na sequência da Guerra do Golfo de 1991. Durante esse tempo, as firmas franco-belgas, russas e mesmo chinesas consolidaram as suas posições no Iraque.

Foram as mais activas, planearam e negociaram enormes investimentos com o regime de Bagdad. Quiseram assim ocupar a sua posição e esperavam impacientemente pelo levantamento das sanções da ONU para completarem os trabalhos iniciados e recolherem enfim o fruto dos seus esforços. E que recolha abundante tería sido.

Segundo o professor Chossudowsky, esta era uma perspectiva que o complexo militar-industrial-político americano não podia tolerar. Washington optou então pela acção militar para controlar os esforços de reconstrução e de exploração das reservas de petróleo iraquianas.

Nesta dinâmica é de prever, segundo este autor, que os grandes campos petrolíferos sejam privatizados e colocados em hasta pública para benefício das grandes empresas ocidentais, encontrando-se as firmas americanas desta vez em posição dominante. Além disso, o regime pós-Saddam poderá muito bem não reconhecer a legitimidade dos acordos estabelecidos durante o período das sanções, estima o Sr Chossudovsky.

Autor de um livro de choque sobre a Guerra e a mundialização - A Verdade por detrás do 11 de Setembro - o professor Chossudovsky sustenta que a Guerra desencadeada pela Casa Branca viola as leis internacionais, assim como a Carta das Nações Unidas e os acordos de Nuremberga.

Enfim, receia que o conflito se alargue ao conjunto da região, sendo o Irão - na sua opinião - a etapa seguinte mais plausível dos esforços de Washington para assegurar o domínio da exploração dos gigantescos recursos de petróleo nesta parte do Mundo."

Traduzido do original da Universidade de Otawa, em francês.


Para uma actualização deste tema, ver:


http://www.alternet.org/waroniraq/43045
16 de Outubro de 2006
Bush's Petro-Cartel Almost Has Iraq's Oil

quinta-feira, outubro 12, 2006

Howard Zinn - Guerra contra quem?


Chego à conclusão que, dado o actual desenvolvimento da tecnologia bélica, a guerra é inevitavelmente feita contra as crianças, contra os civis. Quando olhamos para a proporção de mortes civis para mortes militares, ela alterou-se de 50%-50% na Segunda Guerra Mundial, para 80%-20% na Guerra do Vietname, podendo encontrar-se hoje já próximo de 90%-10%... E, quando encaramos estes factos, verificamos que a Guerra é hoje feita contra os civis, logo contra as crianças. Nenhum objectivo político pode justificá-lo, e portanto, o maior desafio do Homem hoje é resolver o problema da tirania e da agressão, e resolvê-lo sem recorrer à Guerra.

Tradução do Asia Time, em inglês.

Paulo Guinote - público versus privado


A avaliar pelo barulho ensurdecedor dos mentores do ensino privado - convenientemente suportado por subsidiação pública - o que está em causa é a questão da liberdade de escolha, da promoção da qualidade pela concorrência dos sectores e outras abstracções que já não disfarçam os apetites.
Eis uma pequena advertência do professor Paulo Guinote a este respeito.

Richard Horton - Terrível desventura no Iraque

Muitas pessoas recusaram-se a acreditar no relatório Lancet de 2004, feito por um grupo de cientistas americanos e iraquianos que trabalham na área da saúde pública. O censo foi levado a cabo com visitas a casas em todo o território do país e concluiu que o número de mortes desde o início da invasão em Março de 2003 excedia o valor publicado oficialmente em 100.000. Muitos ministros e gabinetes ministeriais empenharam-se em destruir a credibilidade do nosso relatório e, em grande medida, conseguiram-no. Mas agora os seus desmentidos voltam-se contra os próprios, pois os números encontrados são confirmados por um novo estudo.

A mesma equipa da Universidade John Hopkins trabalhou com médicos iraquianos e visitaram 1800 lares seleccionados ao acaso no Iraque, para evitarem factores de desvio sistemático que pudessem incidir sobre os resultados apurados.

Identificaram mais de 12.000 membros de famílias e pesquisaram aqueles que morreram ao longo de um período que abrange datas tanto anteriores como posteriores à invasão. Os entrevistadores iraquianos falavam fluentemente inglês e árabe e foram todos treinados nas técnicas de recolha da informação que se pretendia. Pediram autorização a cada família inquirida para poderem usar a informação que lhes foi dispensada. E descartaram quatro em cada cinco certificados de falecimento para terem a certeza que os casos e causas indicadas para os falecimentos pelas famílias eram comprovados por uma segunda verificação.

Todas estas verificações e ajustes apontam para o aumento de 650.000 como a estimativa mais fiável que possuimos do valor de perdas de vida de civis iraquianos após a invasão. Quase todos são homens entre os 15 e os 44 anos.

Não chegámos apenas a um melhor conhecimento do alcance da nossa invasão ao Iraque; chegámos também a uma compreensão mais correcta de como as mortes se verificaram. Antes da invasão, apenas um parte das mortes minúscula (tinny proportion) era motivada pela violência. Mas desde a invasão, mais de metade das mortes ficaram a dever-se a causas violentas. É a nossa ocupação e a nossa permanência no Iraque que fez disparar esta violência. Alegações de que a ameaça terrorista sempre esteve presente no país foram simplesmente desmentidas por estas averiguações.

A causas das mortes variou também. No início da invasão, a causa dominante foi o bombardeamento aério. Mas actualmente as causas mais importantes são os ferimentos com armas de fogo e as explosões em carros armadilhados. Longe de representar um factor de estabilização ou de contrariar o aumento das mortes violentas, a nossa presença parece estar a contribuir para o seu agravamento. Em todos os anos que passaram desde a invasão, a taxa de mortalidade devida à violência aumentou.

O valor total de 650.000 é verdadeiramente desconcertante. Representa 2,5% da população iraquiana. Em 2004, a Lancet foi criticada por publicar um número que parecia ter um elevado grau de incerteza. A melhor estimativa na altura era de 98.000 mortes. Mas a incerteza significava que o valor verdadeiro podería ser tão baixo como 8.000 ou tão alto como 194.000.

No último apuramento há também um largo grau de incerteza, mas o novo valor mais baixo da estimativa do número de mortes - 400.000 - torna clara quão terrível foi a nossa intervenção no Iraque. Agora, o valor mais alto subiu acima dos 900.000. Olhando para estes números, temos que reconhecer que criámos um desastre humanitário de amplitude sem precedentes, justificada por uma política internacional que era suposta promover a protecção das populações civis, não sujeitá-las a sacrifícios ainda maiores.

Porque é a estimativa Lancet tão díspar dos números anunciados pelo Presidente Bush no website Iraq Body Count? Nesta fonte, os valores estão indicados em dezenas de milhares, não centenas de milhares. Para ser justo, o Iraq Body Count não reclama exactidão absoluta para o número de mortes. Ao invés, os números publicados servem para medir tendências. Mas a razão para a discrepância entre estes valores mais baixos e o valor de 650.000 reside no método de apuramento utilizado. O método mais comum para a estimativa do número de perdas civis é a vigilância passiva, que resulta sempre numa sub-estimação. Sabemos isto a partir de valores indicados em guerras e conflitos regionais do passado, em que as estimativas se situaram em valores reduzidos por um factor de 10 ou mesmo 20.

Só quando saímos e batemos à porta das casas das famílias, procurando activamente os falecimentos, começamos a aproximar-nos dos números certos. Este método está agora experimentado e testado. Foi a base das estimativas de mortalidade ocorridas em zonas de guerra como Darfur e Congo. É curioso que, quando reportamos os números destes países, os políticos não os contestam. Franzem o sobrolho, acenam com a cabeça e concordam que a situação é grave e intolerável. A comunidade internacional deve agir, propõem. Só quando chegamos ao Iraque, a situação muda. Só então podemos esperar dos políticos os possíveis por desacreditar o trabalho feito por estes americanos e iraquianos. Só então podemos esperar dos políticos a acusação de o Lancet se ter tornado demasiado político. Só então poderemos ver os políticos a fazerem tudo o que podem para desvalorizar toda esta história, descartarem-se das suas responsabilidades ou tomar estas conclusões a sério.

Mas quando falamos sobre o risco do tabaco para a população, e publicamos a nossa investigação sobre o efeito do tabaco na mortalidade, poucos questionam a mensagem ou a importância de os cientistas e as publicações médicas estarem activamente envolvidas no debate público. Para o Iraque, a questão da violência é agora a prioridade número um da saúde pública. É um assunto adequado para os cientistas e um assunto adequado para as publicações médicas se pronunciarem.

Então, qual a conclusão certa para este estudo? Como devería esta última investigação chegar ao conhecimento dos poderes públicos? Primeiro, o Iraque é uma inequívoca emergência humanitária. Os civis estão a ser feridos pela nossa presença no Iraque, não ajudados. Isto devería obrigar-nos a parar e interrogar-nos sobre o que estamos a fazer e porquê? Não é vergonha declararmos que enveredámos por uma política errada. Além disso, temos a obrigação, à luz das Convenções de Genebra, de fazermos tudo o que pudermos para protegermos as populações civis. O que temos vindo a descobrir é que, não só não estamos a cumprir estas obrigações legais, mas estamos a subvertê-las ano após ano.

E finalmente podemos com segurança declarar que a nossa política externa, baseada que está nas noções do estado-nação do século 19, esgotou há muito o seu prazo de validade. Precisamos de um novo conjunto de princípios para governar a nossa diplomacia e a nossa estratégia militar - princípios que se baseiem na noção de segurança humana e não na noção de segurança nacional, e de saúde e bem estar e não no exclusivo interesse económico ou na ambição territorial.

A melhor esperança que podemos ter, a partir da terrível desventura no Iraque, é a de que cresça um novo movimento político e social que ultrapasse esta política de humilhação. Somos uma família humana. Ajamos em conformidade.

Richard Horton é o editor do Lancet

richard.horton@lancet.com

Tradução do original em inglês publicado no "The Guardian" de 12 de Outubro de 2006

domingo, outubro 08, 2006

Marcelo Rebelo de Sousa e a avaliação dos professores


...não vá toda a gente ter EXCELENTE e MUITO BOM.




É sabido que o governo pretende instituir quotas de MUITO BOM e EXCELENTE na avaliação dos professores. Questionado hoje sobre o Estatuto da Carreira Docente (RTP1- "As Escolhas de Marcelo", 8 de Outubro de 2006), o Professor de Direito cortou a direito nesta matéria: "É uma medida a apoiar, não vá toda a gente ter EXCELENTE e MUITO BOM". Além de demonstrar indiferença perante os seus colegas do Ensino Secundário, o conhecido Professor revela também algo mais preocupante: a sua capacidade de emitir opiniões sem pensar.

O Leitor concederá que ao falarmos de um professor, falamos de alguém para quem o acto de avaliar é rotineiro. Que conclusões poderíamos retirar se, numa das provas do Professor Marcelo Rebelo de Sousa, todos os alunos tivessem classificação de BOM ou EXCELENTE. Tentemos ver pela positiva: a prova teve um grau de dificuldade médio, até mesmo com inclusão de uma ou duas perguntas de grau de dificuldade susceptível de diferenciar alunos especialmente empenhados. Neste caso, deveríamos concluir que a turma estava bem preparada, aplicou-se entusiasticamente ao estudo e o Professor, tanto como os seus alunos, estava de parabéns. O Professor, atento ao progresso inesperado dos alunos, aproveitaria a oportunidade para subir a fasquia dos objectivos do ano, desenvolvendo nas aulas seguintes detalhes mais ricos e mais exigentes, aproveitando para aprofundar mais a matéria, certamente para satisfação geral.

Há, no entanto, outra hipótese quando surgem resultados deste tipo. A prova situou-se abaixo do nível geral de preparação dos alunos. Neste caso, quem falhou não foram os alunos classificados, mas o próprio avaliador, que não se apercebeu a tempo das capacidades adquiridas pelos que prestaram provas. Em grau maior ou menor, não há professor que não sinta que a sua acção se situa sistematicamente entre estes dois pólos.

É notória a aversão que a Ministra da Educação tem a uma inflacção de MUITO BONS e EXCELENTES na classificação dos professores. Levada à letra, esta posição revela que a Ministra
1) não deseja que os professores sejam dignos dessas classificações,
2) ou não tem a mínima confiança que os mecanismos de classificação sejam adequados a uma diferenciação dos níveis competência.

Não estão claras as razões da Ministra, mas não posso crer que se trate de uma pessoa que não ficasse satisfeita e orgulhosa ao saber que os professores em Portugal são todos MUITO BONS ou EXCELENTES, pelo que me sinto naturalmente propenso a aceitar a segunda hipótese como a mais provável.

Supondo que os mecanismos de avaliação dos professores estão feridos de debilidades que justificam as suspeições da Ministra e do Professor Marcelo Rebelo de Sousa, que fazer? Corrigir, naturalmente! Afinar o método, ajustar o nível e introduzir elementos promotores da diferenciação do mérito individual dos professores, de forma a resgatar o papel positivo dos actos. É isso o que os contribuintes esperam, já que há sempre dispêndio de recursos financeiros nestas acções.
A vigilância sobre a correcção dos actos administrativos do Ministério é uma função da Ministra da Educação (é para isso que lhe pagam o salário). Se a Ministra se recusa a fazer o seu trabalho, a sua posição enquanto mulher competente na política é também afectada.

O Professor Marcelo Rebelo de Sousa, assumindo um seguidismo certamente precipitado, diminuiu-se enquanto profissional da Educação, mas também enquanto analista social e profissional da Ciência do Direito. Não viu analogias entre aspectos fundamentais de dois campos da mesma actividade: avaliar alunos e avaliar professores. Entre a acção sobre as causas e a acção sobre as consequências, pugnou pela segunda. Assumiu pressupostos que facilmente podería ter questionado. Aceitou como bom o mais fácil. Ao propôr o segundo erro (a imposição das quotas), ajudou a escamotear o primeiro e a consagrar a sua perpetuação.

Só me resta desejar que esta ligeireza de raciocínio não seja apanágio das suas aulas. E que não começe a aplicar aos seus alunos o princípio das quotas que acha bem aplicadas na avaliação dos professores.

sexta-feira, outubro 06, 2006

Satélites GPS e órbita geoestacionária


Imagem: http://cimss.ssec.wisc.edu/satmet/modules/sat_basics/geo_orbit.html


Imagem: http://www.colorado.edu/geography/gcraft/notes/gps/gif/orbits.gif



A História regista um tempo dilatado entre a descoberta de uma lei da Natureza e os progressos técnicos que resultam da sua aplicação. Esta precedência da Ciência sobre a Técnica devería ser respeitada no desenvolvimento dos currículos escolares. Os alunos não deveríam ser confrontados com formulações tecnicas para as quais não foram desenvolvidas as bases. Uma coisa é, por exemplo, um jovem ouvir falar da existência de naves espaciais, outra é discernir sobre os requisitos de equilíbrio orbital dos satélites. Por alguma razão que me escapa, a ordem histórica da aquisição dos conhecimentos foi invertida no programa de Física em Portugal. Para ilustrar o facto, vejamos as considerações que foram feitas àcerca de satélites GPS em dois livros de Física adoptados em diversas escolas:


No primeiro pode ler-se, na página 31:
"A posição dos satélites do sistema GPS (Global Positioning System), deve ser conhecida com grande exactidão, pois é a partir desses satélites geoestacionários que se determina a posição de um observador..." (sublinhado meu)

No segundo título, na página 8, pode ler-se, a propósito do sistema GPS, o seguinte:
Este sistema é formado por:
- um conjunto de pelo menos 24 satélites artificiais geoestacionários (mantêm a sua distância ao centro da Terra e a posição relativamente a um ponto da superfície da terra, bem conhecido), com órbitas conhecidas..."
(sublinhado meu).

Aparentemente, a Lei da Gravitação Universal de Newton é apresentada também no 11º ano, depois de se falar nos satélites GPS e, no pior dos casos, como as transcrições documentam, depois de terem sido induzidas idéias que contradizem a Física. Tal a pressa que a confusão começa a instalar-se mesmo entre alguns autores.

É certo que se pode consultar as horas sem se conhecer o mecanismo interno dos relógios. Mas, se o nível de conhecimento que se pretende do GPS se situa apenas no da utilização, mais vale, de início, não aprofundar a caracterização das órbitas. Após a apresentação da Lei de Gravitação; após a apresentação da expressão da força centrífuga; e após ter sido respeitado um prazo para assimilação dos conhecimentos, só então fará sentido tecer considerações sobre órbitas geoestacionárias. Para se concluir rapidamente que os satélites GPS não estão nesta categoria (não estão à distância certa, nem as suas órbitas se situam no plano equatorial da Terra).

Para os interessados:

Vida prática

Se trabalhas para viver,
Então porque é que te matas a trabalhar?

Frase encontrada na parede d'um prédio da Tapada do Mocho.

Avó

quinta-feira, outubro 05, 2006

A nossa República - 5 de Outubro

Só quero recordar 3 dos sonhos que os republicanos de há 96 anos atrás perseguiam e tentaram implementar a partir de 5 de Outubro de 1910:

- O Estado laico;
- O ensino obrigatório;
- O ensino gratuito.

96 já são muitos anos, muita coisa foi feita nestes campos mas muito mais há para fazer.

Mas é bom recordar a ignorância, a miséria, a fome, os abusos de poder, as emigrações em busca de melhores condições de vida das populações, no fim da monarquia.

Muitos pensam romanticamente no rei, na família real, mas esquecem-se, ou não sabem, do poder que a Igreja Católica tinha nas mãos e como ela ajudava a manter a ignorância da população. É que quem não conhece não pode cobiçar!

terça-feira, outubro 03, 2006

C'était si bon, Yves Montand!

Há 15 anos atrás ainda o podíamos ouvir.

Escutem-no em c'est si bon e outros autores também.
Quel plaisir!

Aqui:
http://www.malhanga.com/musicafrancesa/

De origem italiana, Ivo Livi - Yves Montand, foi actor de cinema, cantor, dançarino e teve uma relação muito forte com Simone Signoret.

Nasceu a 13 de Outubro de 1921, em Monsummano Alto, na Toscânia - Itália.
Deixou-nos a 9 de Novembro de 1991, com um enfarte do miocárdio, em l'Oise, France.

Ouvia-o muitas vezes cantar, em pequena, na rádio e em discos vinil pois meu pai tinha prazer em ouvi-lo, sabia algumas letras, arranhava as melodias e treinava o nosso francês. Depois, normalmente a seguir ao jantar, íamos para fora de casa, sentávamo-nos em espreguiçadeiras e espreitávamos o céu. Deitada na cadeira, de olhos pregados no manto negro salpicado de pequenos pontos luminosos, ía aprendendo onde ficava a estrela Polar, o Cruzeiro do Sul, as 3 Marias, as Ursas... a imensidão do Universo.

Minha mãe chegava e dizia: - vamos que é tarde!
E eu, toda picada pelos mosquitos, coçando-me, lá ía deitar-me, pensando no dia em que seria livre do jugo paterno/materno e poderia, enfim, usufruir de uma noitada completa de estrelas.

Entretanto já ultrapassei a idade que eles tinham nessa altura e ainda não aguentei mais do que uma hora a olhar para o alto!

Montand nasceu e faleceu nos mesmos anos que meu pai e com o mesmo problema.
Como ficar indiferente a esta situação?

Obrigada, Montand!


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