domingo, dezembro 31, 2006

E agora, uma palavra do Chile...


Todos os que seguiram o debate de 2005 sobre a privatização da Segurança Social têm vivas recordações do modelo chileno. Parecia, às vezes, impossível sugerir qualquer solução do problema da Segurança Social sem que se levantassem as ladaínhas do mercado livre sobre a maneira como o Chile concedeu aos seus trabalhadores o controlo sobre os seus próprios fundos de poupança - seguido pela recomendação feita aos Estados Unidos para que tomassem o mesmo barco.

Vale então a pena reparar agora que o modelo chileno está a afundar-se.

O governo chileno anunciou recentemente que, em 2007, pretende desenvolver reformas de longo alcance destinadas a aumentar o papel do Estado na segurança para a terceira-idade. As reformas são necessárias com urgência. Passou cerca de uma geração desde que o regime do general Pinochet começou a protelar o sistema de reformas do Estado a favor de um plano que estipulava uma poupança de dez por cento do salário em contas privadas. Hoje, cerca de metade da força de trabalho chilena não participou ou não acumulou o suficiente para gerar a receita que o governo considera mínima de 140 dólares por mês.

O problema estrutural do Chile - e a lição real para os Estados Unidos - é que as poupanças privadas não são substituto para o apoio vinculativo à terceira-idade. A primeira medida do sucesso de um sistema de reforma não é quanto alguns indivíduos são capazes de poupar, mas se o sistema globalmente oferece dignidade básica para todos. Nesta optica, o sistema privado do Chile falhou e a Segurança Social venceu.

A Segurança Social necessita de algumas mudanças para se proteger a longo prazo. A melhor solução envolve uma combinação de um ligeiro corte nos benefícios com um ligeiro aumento das deduções, que podem ser introduzidas gradualmente ao longo de décadas e podem garantir ao Estado receitas durante a carreira contributiva na ordem de 30% em média, contra os 35% actuais.

Para se chegar lá, sería necessário que os dois partidos aceitassem concessões: os republicanos teriam que abdicar dos seus esforços de privatização; e os democratas teriam que controlar a sua tendência para começar qualquer discussão sobre a Segurança Social com um juramento de nunca reduzir os benefícios futuros de quem quer que seja. O presidente Bush também deve avançar mais, se ainda houver alguma oportunidade de progresso enquanto está no poder. A subida dos impostos deve constar de qualquer conjunto de medidas credíveis para a Segurança Social. Infelizmente, o presidente parece inamovível na sua oposição até a numa coisa tão ultrapassada como o alargamento aos dividendos agrícolas da tributação para a Segurança Social.

Enquanto a subida dos impostos estiver fora de perspectiva, muitos cortes nos benefícios tornar-se-ão inevitáveis. Para cobrir o deficit financeiro da Segurança Social apenas com os cortes nos benefícios, ter-se-ía que reduzir o valor médio das pensões para cada trabalhador a dez por cento do seu vencimento antes da passagem à reforma. Estes benefícios exíguos implicariam o fim da Segurança Social, tão certo como a privatização.

Com o ressurgimento do debate no Novo Ano de 2007, outra lição vital da experiência chilena é a de que as instituições, uma vez desmenteladas, não se restauram facilmente.

Tradução do original em inglês:
Editorial
And Now, a Word From Chile ...

publicado no The New York Times a 31 de Dezembro de 2006

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FINALMENTE

O Jorge deu à costa num verdadeiro blog da internet.
Olá convivas Ferrões e Amigos de...
Preparem-se para ouvir novas contribuições...
Em breve num blog perto de si!

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sábado, dezembro 30, 2006

Georges Gurwitch - Tecnicização das ciências humanas

...A tecnicização atinge também as "ciências humanas", muitas vezes tocando a raia da paródia. Os representantes das ciências humanas, em particular os da psicologia (individual, "social" e colectiva) e da sociologia, dão-se ares de técnicos da vida psíquica e da vida social e reivindicam cada vez mais o título de "tecnocratas". Os detentores do poder económico e do poder público recorrem frequentemente às suas pretensas competências em diversos ramos do serviço público, com o único fito de justificar medidas não razoáveis, impopulares e autocráticas.
Estes psicólogos e sociólogos revelam-se assim como "tecnocratas de palha", servindo apenas como biombos destinados a encobrir o lado arbitrário e autoritário dos poderes públicos, por um lado; e dos trusts e cartéis privados nacionais e internacionais, por outro. Estes pseudo-sábios, que nada têm a ver com as ciências verdadeiras que pretendem representar (tais como organizadores das "sondagens" da opinião pública e de estudos de mercado, etc) só conseguem desfigurar as ciências humanas. Desembocam na mecanização e na tecnicização das "relações humanas" e dos problemas reais que a vida mental e social coloca, com o único objectivo de os subordinar às orientações recebidas de antemão.

Excerto (tradução) de :
Les Cadres Sociaux de la Conaissance
Georges Gurwitch (1966)

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O mar de todos nós


Este mar de prata que me toca, me reflecte a luz do Sol, fresco de Inverno, é meu, teu, nosso.
Sussurra-me histórias inimagináveis, conta-me casos passados e traz-me a força que deles emana.
Lambe-me os pés, retira-me dores, põe-me sal, dá-me o tempero certo para o dia.

Pulula de vida, embora não a veja. Apenas a suspeito porque sei que está repleto dela.

Água que tudo mistura, avança e recua; sobe aos céus e cai em locais diferentes. Depois, corre, escorre, infiltra-se, fica retida, transborda, dissolve substâncias que lhe servem de leito, continua... continua... e regressa ao lago de todos os mares, acrescentando o que traz.
Descansa agora, ronrona, suspira, reflecte novamente a luz do Sol, ora ouro ora prata. Vejo-o alternar cores, correr atrás de pessoas, num vai e vem frenético, salgar corpos injectando-lhes pitadas de vida e desmaiar ao fim do dia.

Mais tarde farei parte dele, serei mar também e contarei as minhas estórias beijando os pés de quem por nós passar...

Praia da Galé, 29 de Dezembro de 2006

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terça-feira, dezembro 26, 2006

Joseph E Stiglitz - Para quê a propriedade intelectual?

Sempre que chega o Natal, voltamos a contar a história de Scooge, o personagem de Charles Dickens mais preocupado em cuidar do seu dinheiro que da sorte dos seus semelhantes humanos. Que poderíamos pensar de um Scrooge capaz de curar doenças que afectassem a vida de milhares de pessoas e que se recusasse a fazê-lo? Ficaríamos horrorizados. Mas é exactamente isto que tem acontecido em nome da economia, sob a designação aparentemente inofensiva de "direitos de propriedade intelectual".

A propriedade intelectual difere das outras formas de propriedade - a restrição ao seu uso é ineficiente, pois o custo da sua utilização por outra pessoa é nulo. Thomas Jefferson, o terceiro presidente dos Estados Unidos da América (EUA), colocou a questão de forma mais poética que os econimistas modernos (que usam expressões como "custos marginais nulos" e "consumo livre de concorrência") quando disse que o conhecimento é como uma vela, quando uma acende outra, esta não diminui com a luz da primeira. A propriedade intelectual, no entanto, permite a uma pessoa ou companhia deter o controlo exclusivo do uso de uma parte específica do conhecimento, criando assim um poder monopolista. Os monopólios distorcem a economia. As restrições ao uso dos conhecimentos médicos não afectam apenas a eficiência económica, mas a própria vida.

Toleramos estas restrições na crença de que podem estimular a inovação, equilibrando os custos com os benefícios. Mas os custos das restrições podem exceder os benefícios. É difícil aceitar como a patente editada pelo governo dos EUA sobre as propriedades curativas do açafrão, que são conhecidas há centenas de anos, poderão estimular a investigação. Tivesse essa patente sido ceite pela Índia, os pobres que quisessem usar esse composto teríam que pagar direitos aos EUA.

Na ronda de negociações de 1995 da Organização Mundial do Comércio, que teve lugar no Uruguai, foi imposta a todo o Mundo a forma do direito de propriedade intelectual que vigora nos EUA. Estes direitos pretendiam reduzir o acesso aos medicamentos genéricos à medida que estes surgissem. Como os medicamentos genéricos custam apenas uma fracção dos medicamentos de marca, os milhares de milhões de pessoas não poderíam pagar por aquilo de que necessitam. Por exemplo, um ano de tratamanto com uma combinação de medicamentos genéricos para sa SIDA poderá custar 130 dólares (os 65 libras estrelinas, os 170 euros), a que se contrapõem os 10 mil dólares das respectivas versões de marca. E as coisas estão a caminhar para pior. Os novos medicamentos recomendados pela Organização Mundial da Saúde como defesas de segunda linha contra os efeitos secundários dos remédios principais podem custar muito mais.

Os países pouco desenvolvidos pagam um preço elevado por este acordo. Mas o que receberam em troca? A indústria farmaceutica gasta mais em publicidade do que em investigação, mais em investigação de remédios prescindíveis (lifestyle drugs) do que em remédios que salvam vidas e orientam os seus investimentos para elevar os lucros ao máximo. O presidente da Novartis, uma empresa farmaceutica com história de responsabilidade social, disse: "Não temos um modelo que nos permita satisfazer as necessidades de novos medicamentos de forma sustentada... Não se deve esperar que as organizações lucrativas consigam fazê-lo a longo prazo."

Artigo completo em inglês em:
Scrooge and intellectual property rights

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domingo, dezembro 24, 2006

Andy Mckee - Drifting



Ou a guitarra como instrumento de percursão.

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sábado, dezembro 23, 2006

Professores - nos bastidores da avaliação


Ou o lado menos visível de uma mentira oficial instalada pelo Ministério da Educação, com a devida vénia à Madalena.

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Política de Aborto nos Países Desenvolvidos

Existe uma forte tendência nos países desenvolvidos em permitir o aborto, assim como uma forte tendência nos países "em desenvolvimento" em proibir o aborto.


Violação ou
incesto
Má formação
do feto
Razões sócio-
-económicas
A pedido da
mãe
Número de
países
desenvolvidos
em que o
aborto
é
permitido
39393631
Número de
países desenvolvidos
em que o aborto
não é permitido
991217


Violação ou
incesto
Má formação
do feto
Razões sócio-
-económicas
A pedido da
mãe
Número de
países não desenvolvidos
em que o aborto
é permitido
44372721
Número de países
não desenvolvidos
em que o aborto
não é permitido
101108118124

Fonte: Unsafe Abortion, Organização Mundial de Saúde (2004) Pag. 10

É a minha opinião que esta tendência dos países desenvolvidos em permitir o aborto está directamente relacionada com a educação média da população em cada país.

Espero francamente que o próximo referendo tenha a adesão necessária para que seja possível dar um passo em frente neste tema. Neste momento sinto vergonha das leis em vigor que mostram quão forte é a tradição religiosa no nosso estado.

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sexta-feira, dezembro 22, 2006

Espanha - Tudo à trolha com os toiros de morte



Cristina Narbona, Ministra do Ambiente:
- "Espanha devería adoptar o estilo português de não matar os toiros na arena."







Henrique Garza, Associação dos Organizadores de Touradas:
- "O que a Ministra devería fazer era defender os interesses dos espanhóis comuns, incluindo os milhões de aficionados das touradas."







Pío García-Escudero, líder do Partido Popular:
- "Isto apenas demonstra os instintos intervencionistas e totalitários do Governo."






Gaspar Llamazares, líder da coligação Izquierda Unida:
- "A Ministra tenta importar preconceitos anglo-saxónicos."










Joan Herrera Torres, porta-voz parlamentar da Izquierda Unida:
- "A proposta vem alterar uma tradição selvagem e atávica."







Consuelo Polo, Ecologistas en Acción:
- "Precisamos de um governo com coragem e dignidade suficientes para por um termo ao espectáculo macabro de pessoas sentadas num estádio a ver alguém a trespassar repetidamente um ser vivo."






Alfredo Pérez Rubalcaba, Ministro do Interior:
- "É uma ideia pessoal da Ministra."









Tradução de excertos do artigo:
End bullring killing, Spanish minister says
publicado no The Guardian
em 22 de Dezembro de 2006

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quarta-feira, dezembro 20, 2006

Thom Shanker - General preconiza compromisso internacional

[O Iraque transformou-se no mal-amado dos Estados Unidos: os políticos procuram uma solução militar e os militares procuram uma solução política. Hum... What's next? A.F.]


O novo Secretário da Defesa, Robert Gates, auscultando opiniões sobre o Iraque nesta semana, irá encontrar-se com o General John P. Abizaid, o comandante senior do Médio Oriente, adverso ao aumento das forças militares presentes no terreno.

O General Abizaid, que completa os últimos meses de uma carreira militar fortemente condecorada, reconhece que as forças adicionais americanas, propostas por alguns altos conselheiros do Presidente Bush, poderão aumentar a segurança a curto-prazo; mas defende que as tropas estrangeiras constituem uma panaceia tóxica que será rejeitada pelos iraquianos e que a expansão das tropas americanas apenas adiará o momento em que os iraquianos se verão obrigados a assumir a responsabilidade pela sua própria segurança.

Ainda que as forças instaladas no Iraque possam ser reposicionadas para responder aos desafios crescentes da segurança, especialmente em Bagdad, a resposta não poderá ser apenas militar. O papel principal nos combates não poderá recair indefinidamente sobre as tropas americanas, disse o General Abizaid.

"A situação da segurança em Bagdad exige mais tropas iraquianas", disse numa entrevista durante uma recente digressão de trabalho pelo Iraque, onde manteve contacto com os comandantes americanos.

As sua abordagem, que inclui planos para aumenter o número de instrutores americanos a trabalhar com unidades iraquianas, é apoiada pelo General George W. Casey Jr., o comandante senior das tropas americanas no Iraque, assim como pelo Estado Maior, que é responsável pelo envio das tropas e que resistiu até agora a aumentar os efectivos sem que sejam clarificados os objectivos a serem atingidos no terreno.

Mas o general vê-se confrontado com uma abordagem diferente por parte de um número crescente de funcionários civis da administração Bush, que vêem num aumento drástico da força militar um modo eficaz de estabilizar Bagdad e como a derradeira iniciativa para o presidente anunciar em Janeiro.

O General Abizaid defende, para o Iraque, uma solução mais ambrangente que esta que visa simplesmente terminar o fogo em Bagdad.

"Vocês têm que internacionalizar o problema", disse o General Abizaid. "Têm que atacá-lo diplomaticamente, geo-estrategicamente. Não podem contentar-se com ver à lupa um problema específico na cidade baixa de Bagdad e outro problema específico na cidade baixa de Kabul e esperar que, de qualquer maneira, se for aplicada força militar suficiente, ficarão resolvidas as questões mais gerais do extremismo na região."

Estas opiniões estão desfasadas das de alguns funcionários em Washington.

O General Abizaid foi criticado por senadores de ambos os partidos por aquilo que chamaram ideias feitas a respeito do nível de intervenção militar no Iraque e por partilhar responsabilidades na estratégia que o Iraque Study Group deu com estando a falhar. Ao mesmo tempo, exasperou muitos dos seus superiores civis por não se cingir às explicações oficiais sobre a guerra, contrapondo uma visão mais aguda, ainda que rude, sobre a missão militar no Iraque desde que tomou posse do cargo de Comandante central em Julho de 2003.

O General Abizaid foi o primeiro a chamar guerrilha à guerra no Iraque, mesmo quando a Casa Branca e o Pentágono desautorizaram esta descrição. E foi o primeiro general de quatro estrelas a avisar que o crescimento da violência sectária no Iraque, a seguir à explosão de uma bomba na mesquita de Samarra em Fevereiro, fez emergir o terrorismo e os rebeldes sunitas como o maior desafio à segurança local, comunicando ao Congresso que o Iraque se arriscava a deslizar para a guerra civil.

Numa súbita mudança de atitude durante a recolha de testemunhos pela Comissão do Senado para os Assuntos Militares, o Senador republicano do Arizona John McCain exclamou ao general: "Lastimo que hoje advogue basicamente a manutenção do status quo, pois pensava que o povo americano tinha rejeitado essa hipótese nas últimas eleições".

A relutância do General Abizaid em subscrever um golpe de força das tropas americanas não se deve a qualquer divergência quanto à questão de os Estados Unidos poderem confiar ou não em um número significativamente menor de efectivos nas zonas de combate por possuirem uma tecnologia avançada. O General Abizaid, que é descendente de libaneses, esteve ao serviço de uma missão das Nações Unidas no Líbano, frequentou a Universidade na Jordânia e tirou um mestrado de Estudos sobre o Médio Oriente em Harvard.

Ele sublinha que a ameaça para os interesses da segurança nacional americana se estendem muito para além de um qualquer país na sua área de responsabilidade.

"Quando se observa a penetração da forma de extremismo apresentado pela Al Quaeda, não falamos apenas do Afganistão, nem apenas do Iraque - falamos do Paquistão, da Arábia Saudita, do Reino Unido, da Espanha", declarou. "Atacou os Estados Unidos. Organiza-se num mundo virtual e de forma sem precedentes, muito moderna e muito perigosa."

Perguntem por uma solução aos rebeldes sunitas da província de Anbar, e descobrirão os apoios na Síria e as consequências que esperam que se abata sobre os shiitas no Iraque vindas da Arábia Saudita.

Acerca dos rebeldes talibãs no Afganistão, o General Abizaid disse que a única via era tentar compreender as lealdades tribais no Paquistão. Concentrando-nos no terrorismo do Médio Ortiente, excluimos dos nossos esforços militares os abrigos que dispoem em recantos ingovernáveis em Africa.

O General Abizaid é referido como o inventor da frase "a guerra prolongada" para descrever o desafio do combate ao terrorismo, em especial a sua forma radical islâmica. Ainda a usa, mas já não a prefere, segundo os seus ajudantes, porque muita gente tende a favorecer a palavra "guerra" e privilegiar a solução militar.

Afirma que o governo dos Estado Unidos está organizado de forma desadequada para se opôr a este tipo de ameaça e que o sucesso da missão antiterrorista no Irão, Iraque ou qualquer outro lado exige que a totalidade do governo se disponha à guerra, não apenas os militares.

"Penso que a nossa estrutura para os desafios da segurança no século XXI precisam adaptar-se a este tipo de inimigo", disse. "O século XXI exige realmente que descubramos o modo de combinar elementos do poder económico, diplomático, político e militar para actuarem em conjunto contra problemas específicos onde quer que eles surjam".

Muito antes do Iraque Study Group incluir na solução para o Iraque as negociações com o Irão e a Síria, o General Abizaid defendia que o combate ao extremismo islâmico dependia de uma concertação regional. Sobre recomendações feitas em privado para negociações directas com o Irão e a Síria, bem como o nível de intervenção militar futura no Iraque, o General recusou-se a desmenti-las à Casa Branca, ao Pentágono e ao Departamento de Estado.



Tradução do original em inglês:
General Opposes Adding to U.S. Forces in Iraq
Publicado no The New York Time de 20 de Dezembro de 2006

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terça-feira, dezembro 19, 2006

Festa escolar de Natal

Na sala onde se apinhavam cerca de cem pessoas, como uma onda que se propagasse do palco para o balcão ao fundo, o burburinho foi substituído pela voz clara da menina de três anos interpretando o canto no tom que lhe aprouve. Durante dois a três minutos, até que o coro entrasse, a voz branca a solo impôs-se como única realidade, prendendo a atenção quase ao ponto de cada um se recriminar por não suster a respiração. O coro cumpriu a coda. O inesperado momento de puro deleite desfez-se numa estrondosa ovação.

- Ó Jorge, - perguntei - mas onde é que foste descobrir esta preciosidade?
- Sabes lá. Esta aluna foi a que mais me desesperou. Com uma voz forte, talvez porque não conseguisse ouvir os outros, nunca consegui que resultasse no coro. Decidi isolá-la.

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Karma Nabulsi - Isto é uma tentativa para torpedear as nossas eleições

Mahmoud Abbas declarou ontem: "Deixem as pessoas decidirem por si próprias o que querem". Mas já há um consenso nacional: deve haver eleições na Palestina, não para presidente da Autoridade Palestiniana ou para membros do Conselho Legislativo, mas para o Conselho Nacional Palestiniano, o corpo institucional que forma a base da soberania da Organização da Libertação da Palestina (OLP), único legítimo representante do povo palestiniano. O povo palestiniano já elegeu um conselho legislativo que representa uma parte do seu corpo político. Agora, exige eleições para a totalidade da população palestina.

Quando a Fatá perdeu o poder a favor do Hamás em Janeiro, a Fatá precisou de ponderar os benefícios democráticos que advêm para todos aqueles que perdem o poder numas eleições: a oportunidade para se aproximarem dos seus constituintes, para aprenderem porque perderam e como voltar a ganhar a confiança das pessoas. Em vez disso, a "comunidade internacional" disse à Fatá que esta ainda detinha o poder e que tinha de continuar a desempenhar este papel sob pena de se tornar responsável por abandonar o seu povo ao sofrimento e a um destino ainda mais cruel.

Aquilo que estamos a testemunhar hoje é o resultado de um processo de coerção deliberada, planeado para forçar um povo submetido à ocupação estrangeira a capitular, abdicando dos seus representantes eleitos. Que esta coerção fosse exercida pela força militar ocupante de Israel, apoiada pelos neoconservadores, já se esperava - e motivava a resistência. O que é mais difícil de entender é que esta coerção seja também exercida, de modo tão óbvio, pelo Reino Unido e pela União Europeia - que eram supostos apoiar a Palestina, senão pelos valores da decência, ao menos enquanto signatários da Quarta Convenção de Genebra.

O povo palestiniano, claramente, já se exprimiu: é pelas eleições para o Conselho Nacional; é pelo levantamento do boicote económico a uma autoridade democraticamente eleita; e é pela liberdade e pela independência.


Tradução de:
This is an attempt to overturn our elections
publicado no The Guardian de 19 de Dezembro de 2006

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quinta-feira, dezembro 14, 2006

Fernando Torres - O último homem da Junta

Todos os membros originais da junta militar que derrubou Allende e o seu governo, com o conhecimento e apoio directo do governo dos Estados Unidos, já partiram.

Nixon já partiu; Kissinger ficou sozinho na Terra.

Agora nunca saberemos a quantidade de segredos e as memórias que arrastaram com eles para a tumba. Nem o paradeiro dos desaparecidos - um só que seja. Espantar-me-ia que a justiça prevalecesse e caísse sobre Kissinger, o último homem da Junta. F. T.

"Não vejo porque devamos esperar para ver um país ir para o comunismo devido à irresponsabilidade do seu povo. As questões são demasiado importantes para que deixemos os eleitores chilenos decidirem por si próprios." - Henry Kissinger

Carta aberta a Henry Kissinger

Não fui um dos chilenos "irresponsáveis" senhor, mas sofri uma pena pesada pelas suas palavras.

Senhor Henry Kissinger
Kissinger Associates
New York

Lembro-me da sua repreensão aos chilenos, quando elegeram o socialista Salvador Allende em 1970: "Não podemos permitir que um país vá para o marxismo só porque o seu povo é irresponsável".

Se bem que estivéssemos habituados a esta retórica vinda da Casa Branca naqueles anos, não imaginávamos que essas suas palavras vergonhosas iriam eventualmente selar o futuro do Chile ao mais horrendo episódio da história da América Latina. Sim - devo dizê-lo - nós subestimámo-lo, Senhor.

Bombas a cair do céu, torres e edifícios destruidos,a carnificina de centenas de pessoas. Milhares de desaparecidos e estádios de futebol transformados em campos de concentração. Lembra-se disso, do seu próprio 11 de Setembro?

Desde o primeiro dia; desde antes de Allende ter sido ractificado pelo parlamento chileno como o legítimo presidente, o Senhor, Secretário de Estado e Conselheiro da Segurança Nacional, o Senhor Henry Kissinger planeava secretamente derrubar Allende. Conjurou o assassinato do General René Schneider - que apoiava a Constituição chilena - de forma a provocar um golpe militar.

Planeou a política da "dupla via" relativamente a este pequeno país que pretendia, com uma mão, isolar Allende internacionalmente e, com a outra (mais suja), provocar o golpe militar através de assassinatos, subversão política e sabotagem económica.

O seu objectivo, Senhor Kissinger, ao reunir os dirigentes militares dos países vizinhos para pressionar o Chile, na operação que mais tarde se denominou "Operação Condor", foi a coordenação das polícias secretas para trocarem informações e prisioneiros, levarem a cabo raptos, torturas e assassinatos como o de Orlando Letelier e seu ajudante de campo Ronni Moffit em Washington DC, realizado por terroristas chilenos e cubanos sob o comando dos agentes Michael Townley e Novo Sampol da CIA (que mais tarde foram condenados no Panamá por vários ataques terroristas e pela tentativa de assassinato de Fidel Castro, tendo sido libertados depois sob os auspícios dos Estados Unidos, que puxou os cordelinhos à sua marionete, o presidente demissionário Mireva Moscoso).

Você, Senhor Kissinger, e Nixon mentiram ao Congresso, prestando informações falsas e assegurando que os Estados Unidos não desempenharam qualquer papel no esmagamento da democracia chilena. Deve saber que naqueles tempos não havia o perigo das aludidas "armas de destruição maciça", mas sim o "perigo" da expansão do comunismo no cone Sul. Acreditou que o povo "irresponsável" do Chile representava um mau exemplo: Chile era um punhal cravado no coração da América. Um punhal que havia que remover a qualquer preço. Allende tinha que ser travado, ainda que ao preço da própria democracia.

Porque o 11 de Setembro de 1973 foi da sua absoluta responsabilidade, Senhor Kissinger, nós, o povo "irresponsável" do Chile, nomeamo-lo a versão chilena de Osanma Bin Lagen, para dizer o mínimo.

Senhor Kissinger, eu não fui um "irresponsável" chileno porque tinha 14 anos e não pude votar; mas na realidade paguei a pesada e sangrenta factura das suas palavras por inteiro, Senhor. No entanto, pensando no papel que desmpenhou não só no Chile como na Indochina, Timor Leste, Chipre, a sua traição aos curdos no Iraque, o seu apoio incondicional à segregação racial na África do Sul, etc, etc, eu posso dizer algo que o senhor não pode: as minhas mãos estão limpas.

Sinceramente

Fernando A. Torres

Traduçao da versão em inglês:
The Last Man of the Junta
Publicado em
CounterpunchCounterpunch em 12/12/2006

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domingo, dezembro 10, 2006

O Presente

Ontem é história
Amanhã é mistério
e Hoje é prenda
Eis porque o chamamos
- o Presente


Autor desconhecido em godalen, Noruega

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sábado, dezembro 09, 2006

Transformações semânticas


O linguarejar mercantil e autocrático vai alterando imperceptivelmente a acepção de determinados termos correntes, de modo que convém estar atento a estas derivas.

Noticiário:
Período de apresentação de notícias. Errado.
A resposta certa era: pretexto para passagem de anúncios prime-time entremeados por material de almanaque em diferido.

Avaliação:
Procedimento destinado a recolher informação sobre conhecimentos ou competências de alguém. Errado.
A resposta certa era: pretexto para impedir a justiça no reconhecimento das competências à maior parte dos interessados.

Militar:
Cidadão integrado num corpo disciplinado cuja missão é preservar a integridade do território nacional. Errado.
A resposta certa era: cidadão destituído de parte dos direitos civis a integrar um corpo supletivo da polícia (GNR) ou como moeda de troca para a diplomacia da Guerra contra países que não nos atacaram.

Imagem: the black cat gallery

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João Andrade Peres - responsabilidade intelectual


Imagem: de 23 de Novembro de 2006

No país em que, infelizmente, a mediocridade ascende demasiadas vezes ao domínio público, eis que surge um verdadeiro acto de responsabilidade intelectual. Pelo menos desta vez, não será possível dizer que em Portugal os intelectuais se acobardaram num silêncio entorpecedor, para regalo dos incapazes, ávidos de sacarem proveitos desses silêncios. A discussão sobre a TLEBS parece ter encontrado um fim definitivo com a publicação, no passado dia 6, da crítica do Professor João Andrade Peres, cuja leitura é praticamente incontornável para todos os que se interessem pelo assunto. A descoberta do texto, devo-a a Paulo Guinote.

João Andrade Peres
ELEMENTOS PARA UMA CRÍTICA CIENTÍFICA
DA TERMINOLOGIA LINGUÍSTICA
PARA OS ENSINOS BÁSICO E SECUNDÁRIO (TLEBS)

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quinta-feira, dezembro 07, 2006

ECD meritocrático


da promessa programática
pela paixão educacionática
inspiração tecnocrática
e energia autocrática
fez-se norma burocrática
de matiz meritocrática
eis a solucionática
da problemática
socrática


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USA: Iraque no centro da discórdia

James A. Baker III
Chefe do Iraq Study Group

Por alturas do primeiro trimestre de 2008, sujeito a desenvolvimentos inesperados da situação no terreno, todas as brigadas de combate não necessárias para impor a protecção devem ter-se retirado do Iraque.



General Jack Keane
Antigo Chefe do Exército (reformado)

A julgar pela situação em que nos encontramos agora, não chegaremos lá.
As conclusões do relatório dizem mais sobre a ausência de vontade política em Washington do que sobre a dura realidade no Iraque.



General Barry R. McCaffrey
General reformado de 4 estrelas

Chegaram a um pensamento político e puseram-se então a tergiversar sobre tacticas que, na minha opinião, não fazem qualquer sentido.
Esta é uma receita para uma humilhação nacional.


Excertos traduzidos de:
Will It Work on the Battlefield? Options Are Based on Hope
publicado no The New York Times de 7/Dez/2006

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Quando o dólar se retrai


Festejar as subidas do dólar é uma tradição entre os funcionários do governo, sempre desejosos de evitar que as oscilações das taxas de câmbio degenerem num afundamento acelarado do dólar - um pesadelo económico que sería marcado por picos elevados dos preços e das taxas de câmbio. Enquanto o dólar caía nas duas últimas semanas, o Secretário do Tesouro Henry Paulson Jr. desempenhou o seu papel, afirmando que "um dólar forte é claramente do melhor interesse para o nosso país". E Ben Bernanke, o presidente da Reserva Federal, produziu um discurso em que foi moderadamente optimista sobre o crescimento económico e informou que não descería as taxas de juro nos próximos tempos.

Crescimento e taxas de juro relativamente elevadas - se por acaso ocorresem - sería uma boa combinação para o dólar. Mas até ontem o dólar não tinha recuperado muito das recentes descidas face a outras divisas importantes. Os investidores permanecem largamente cientes das fragilidades económicas dos Estados Unidos e recolhem forças na Europa - o que pressagia um dólar fraco, o que quer seja que se diga.

Uma divisa mais fraca é inevitável para um país tão individado como os Estados Unidos. Durante os anos de Bush, o défice expandiu-se - no orçamento federal e no comércio. O que quer que seja que afecte a predisposição dos investidores em financiar défices enormes empurra o dólar para baixo - incluindo melhores oportunidades de investimento fora, como acontece agora.

A grande incógnita é a duração e profundidade do declínio sustentado do dólar. Nos últimos anos, os investidores que apostaram num dólar em queda perderam dinheiro. Mas o actual megulho é uma lembrança de que nenhuma nação, mem mesmo os Estados Unidos, pode pedir emprestado constantemente sem se sujeitar às consequências económicas.

O governo tem assumido - por enquanto, correctamente - que os Estados Unidos são demasiado grandes para falharem. Os funcionários da Administração parecem confiantes de que os chineses, em especial, continuarão a financiar os défices da nação, porque assim ajudam as suas exportações. Também assumem que a China e outros países não irão vender porções das suas enormes disponibilidades em dólares, e ainda menos conduzir à queda do dólar, e com ele o valor dos seus activos remanescentes em dólares.

Isto soa mais a uma paragem do que a uma estabilidade, e vai demasiado longe na entrega do bem-estar da nação às mãos de banqueiros centrais estrangeiros. Mas é o melhor que a coroa de Bush tem para oferecer, porque a verdadeira estabilidade das finanças globais baseia-se na responsabilidade fiscal doméstica, coisa que falta à administração.

O equilíbrio geral das contas exige a cooperação. Quando o Sr Paulson viajar à China este mês, encontrará sem dúvida maneira de ajustar as divisas americana e chinesa de forma controlada. Mas não há substituto para a manutenção das contas da casa de cada um em ordem.

Tradução do original em inglês:
When the Dollar Talks Back
publicado no The New York Times de 6/Dez/2006.

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quarta-feira, dezembro 06, 2006

Eugénio Rosa versus Manuel Pinho

O papel do gestor é fazer...
o do líder, acertar.

Em Portugal, esta distinção parece ser desconhecida por uma nova classe de políticos saídos directamente dos bancos da ignorância e elevada ao máximo expoente do Estado.
Foi assim com José Sócrates que - coitado - não encontrou tempo para telefonar ao seu correlegionário Vítor Constâncio, tão ocupado estava na campanha eleitoral a prometer baixar os impostos. Não acertou, errou, auto excluíu-se da classe dos líderes. Ou, para ser mais brando: passou a andar à trela dessa eminência parda do FMI, que ostenta - para português ver - o título de Governador do Banco de Portugal. "Vamos lá ver quem manda nesta terra. Só porque ganhou mais de dois milhões de votos e não se ajeita com os telemóveis, não vai armar-se agora em carapau de corrida. O respeitinho é muito bonito. Já lhe digo com quantos paus se faz uma canoa." - deve ter pensado Vitor Constâncio antes de o pôr na ordem.
Seguindo o exemplo do seu mestre, o Senhor Professor Doutor Manuel Pinho, Ministro da Economia e da Inovação (delicioso, este último epíteto politicamente correcto) vem agora defender a necessidade de aumentar o preço da electricidade aos consumidores domésticos, sem mesmo se dar ao trabalho de ler os relatórios. Mas já é doutor mesmo, não é? E essas minudências não lhe tiram o título e, pelos vistos, também não o cargo. Pudera, com semelhante chefe. "Se Sócrates nem telélés sabe usar, havería eu de me aborrecer com relatórios. Ora bem." - deve ter pensado.

O texto de Eugénio Rosa é bem elucidativo. Destaco apenas um parágrafo:

Segundo o Eurostat, entre 1995 e 2006, o preço da electricidade, sem incluir os impostos, aumentou em Portugal +6,6% enquanto o preço médio comunitário (UE15) desceu em -0,7%. Em 2006 o preço da electricidade em Portugal é superior ao preço médio comunitário em 18%. Por países, em 2006, exceptuando o caso da Alemanha em que o preço é superior ao de Portugal em apenas 3%, da Itália (+16%) e de Luxemburgo (+4%), em todos os outros países o preço da electricidade doméstica, sem impostos, é inferior ao preço praticado em Portugal. Em alguns deles a diferença é significativa como sucede na Grécia (-52%), na Espanha (-30%), na França (-32%), na Áustria (-3%), na Finlândia (-40%), na Inglaterra (-28%), na Suécia (-35%), e na Noruega (-38%). É com um preço superior que a EDP obtém lucros escandalosos.

Texto completo em Resistir.info

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Oscar Wilde happiness


Some cause happiness wherever they go;
others whenever they go.

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sexta-feira, dezembro 01, 2006

Buracos negros: da teoria á realidade

Em 1915, Einstein publicou a Teoria da Relatividade (TR) que revolucionou a nossa percepção do mundo físico:

enquanto o espaço e o tempo de Newton são absolutos, fixos, semelhantes a uma rede de ferro, o tempo e o espaço de Einstein formam uma rede elástica que pode ser deformada (por exemplo pela massa de um corpo – daí o efeito da gravidade) e que é diferente segundo o sistema de referência que consideramos.
O espaço e o tempo de uma pessoa que está em movimento com uma velocidade próxima da luz serão diferentes dos da pessoa que o está a observar (relativamente ao sistema do observador – em repouso – , o tempo do viajante é mais lento).

A TR prevê que uma estrela de massa superior a duas massas solares (Msol ) que chega ao fim do seu combustível nuclear colapsa sob o efeito da sua própria força gravítica. A sua densidade vai aumentar; passando por uma fase de colapso mais lento jà que a pressão interna dos neutrões estabiliza um pouco a estrela (por causa dessa pressão, ela oscila, e como é muito maciça faz o espaço-tempo à sua volta oscilar tambèm criando ondas gravitacionais). Como a massa dela é muito importante, a força gravítica é mais forte do que essa pressão e o colapso recomeça e nunca acaba. A densidade da estrela continuar sempre de aumentar tendendo para o infinito.

Ao chegar a uma certa densidade, a força gravítica da estrela é tão grande que a velocidade necessária para um corpo lhe escapar (= velocidade de escape ve –> ve terra = 11,2 km/s) é superior à velocidade da luz (Schwarzschild calculou o raio máximo necessário para um corpo de massa M ter este tipo de gravidade – no caso da terra esse raio é da ordem de milímetros), ora um observador que se deslocasse à velocidade da luz veria a luz como estacionária o que contradiz a 2ª lei da teoria da relatividade: “a velocidade da luz é constante qualquer que seja a velocidade e a direcção do observador” – ninguem se pode deslocar á velocidade da luz, e ainda menos a velocidades superiores.
Foi em 1967 que J. Wheeler chamou a este tipo de corpo buraco negro (sendo errado já que um buraco negro é um corpo muito denso). A sua estrutura é definida pela sua massa (que define o tamanho do raio de schwarzschild e a sua força gravitacional e que sabemos ser > 2 Msol
 ), a sua carga (que tende a ser 0 já que se tiver uma carga positiva ou negativa vai atrair objectos de sinal contrário e tenderá a ficar neutro) e o seu momento angular (efeito da sua rotação sobre a distribuição da sua matèria – é o momento angular da terra que faz com que o raio equatorial seja 20km maior do que o raio polar).

O raio de Schwarzschild forma um “horizonte de evento”, uma linha imaginária atràs da qual não conseguimos ver o que se passa (porque nem a luz consegue escapar). Isso implica que só podemos observar buracos negros pelos seus efeitos sobre o espaço que o rodeia. Por exemplo, quando ele se encontra num sistema binário com uma estrela gigante azul (cada uma gira em torno da outra e ambas seguem uma trajectória elíptica), ele vai atrair a matéria da estrela, essa matéria vai aglomerar-se num disco de acreção onde vai haver fricção e portanto um aumento de temperatura. Quando essa temperatura chega a 600 K, a materia emite raios X que conseguimos detectar e que a gigante azul não emitiu.

Ultimamente, tambem foi descoberto que pares virtuais (pares de particulas de matéria e de anti matéria- sendo ambas da mesma massa mas de cargas electricas contrárias) estão constantemente a ser formados e destruidos (logo que são formados atraiem-se e anhilam-se formando fotões). Se um desses pares virtuais se formar próximo do horizonte de eventos do buraco negro, a atracção do buraco negro vai ser maior do que a atracção entre as duas partículas e uma delas e atraída para là do horizonte, a outra vai tornar-se real (vamos poder detectá-la). Para isso, necessita de energia (= massa já que E= mc2) que vai tirar do buraco negro. É assim que os buracos negros podem “evaporar-se” (este fenómeno tem pouca importância nos buracos negros actuais mas seria assim que desapareceram os mínusculos – do tamanho de átomos – buracos negros que S. Hawking acredita que foram formados durante a creação do universo).

Para saber mais:

Freedman, R.; Kaufmann, J. – Universe 6ed,

Dinah L.Monté – Astronomia, 5ed, Lisboa, Gradiva, 2000

P.Murdin, M. Penstoc - Encyclopedia of Astronomy,

T.A. Jacobson, R. Parentani – Propagação nos buracos negros in Scientific american Brasil, nº44, janeiro de 2006

J.R. Minkel – Bye bye black hole in New scientist, nº2483, 22 janeiro de 2005

H. Muir – No place like home in New scientist, nº2499, 14 de Maio de 2005

www.wikipedia.pt

http://www.damtp.cam.ac.uk/user/gr/public/bh_home.html

http://cosmology.berkeley.edu/Education/BHfaq.html

http://www.cdcc.sc.usp.br/cda/aprendendo-superior/evolucao-estelar/estrela03.html

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