quarta-feira, março 07, 2007

Heinrich Wohlmeyer - o mundo em que vivemos



...Se não fecharmos os olhos, descobrimos os sinais da tempestade. Sucedem-se as terapias dos sintomas, mas não se atacam as causas. Como exemplo, as reacções ao último inquérito PISA relativo à qualidade do ensino: a psicóloga Chrisla Meves já previa, há 25 anos, numa conferência dada em Österreichische Industriellenvereinigung, que a destruição da família protectora e o enfraquecimento da cultura dos valores da vida comunitária daria lugar a indivíduos insatisfeitos, incapazes de concentração, de perseverança e inadaptados para os constrangimentos da vida conjugal. Tais indivíduos tornar-se-iam um fardo e trariam a ruptura do contrato social. A isto, acrescem os regulamentos económicos, cuja alteração já era também considerada necessária nas décadas de 1970 e 1980 (reforma fiscal, por exemplo), mas que não foram tocados, por egoismos privados, lassidão, lealdades não declaradas ou simples ignorância (ou ainda tudo à mistura). A corrida - organizada de maneira «efficaz» - para a autodestuição individual e mundial prossegue à vista desarmada.

Mundialização dos mercados financeiros

Toda a terapia supõe um diagnóstico lúcido. Eis porque iremos debruçar-nos brevemente sobre as grandes tendências que se podem detectar.

O primeiro domínio mundializado, motor de toda a mundialização, é o dos mercados financeiros. As finanças lutaram para alcançar a liberalização mundial e, com a ajuda da electrónica e da informática (redes mundiais), tranformarem-se na primeira forma de mundialização verdadeira. Isto não conduziu apenas à acumulações transnacionais de dinheiro, mas também a pressões enormes sobre a economia real. Com os juros acumulados, os capitais aumentam de forma sustentada; volumes de capitais cada vez maiores absorveram investimentos cada vez mais significativos (sem contemplações pelas situações sociais e ecológicas locais), mas são atraídos tambem pelo mercado monetário, em especial os mercados derivados que estão desligados da economia real. Esta tendência não satisfaz o conceito de tecnologia adequada nem o de descentralização, logo, contraria o princípio da adaptação.

A maior parte das instituições financeiras nacionais carecem de dimensão para disputarem nesse terreno. Então, estabelecem parcerias com os «global players» ou deixam-se absorver por eles. Em ambos os casos há alienação, pois os que decidem são desprovidos de lealdade nacional ou sentido de responsabilidade ecológica, social ou económica local. Isto é confirmado pelo facto de o volume comercial representar aproximadamente o dobro do valor dos bens produzidos e as transferências financeiras representarem quinze vezes esse valor. Este comércio hipertrofiado ilustra a medida em que as finanças globais se desprenderam da economia real.[...]

Aumenta a clivagem social

A distância entre os países mais pobres e os países mais ricos, tomando como medida o produto nacional bruto, aumentou ao longo das três últimas décadas, tendo passado da razão de 1 para 30 para a razão de 1 para 60. Dentro dos estados, também se alargou de forma contínua o fosso entre os mais ricos e os mais pobres. Isto deve-se, em parte, à dinâmica dos capitais - devida à acumulação de juros e às vantagens fiscais - mas principalmente ao facto de os rendimentos dos salários não acompanharem os aumentos de produtividade. O conhecido desígnio do capitalismo renano (Ludwig Erhard 1897-1977), pelo qual os progressos da produtividade deviam beneficiar a população, aumentando o seu poder de compra, caducou.[...]

Problemas orçamentais do estado e das organizações internacionais

A dinâmica que poupa aos ricos o peso dos impostos e impõe ao resto da população a redução dos rendimentos, especialmente devido ao desemprego, resulta na redução das receitas do estado. Com os orçamentos nacionais deprimidos, as contribuições dos estados para as organizações internacionais também sofre. A margem de manobra para investimentos sociais fica reduzida.

Perda contínua da legitimidade dos políticos nacionais

As tendências acima apontadas também conduzem à instablidade política, porque a maior parte dos cidadãos atribui a responsabilidade pela deterioração da sua situação aos eleitos locais, ainda que a acção destes políticos seja limitada por constrangimentos materiais da economia global que não está na sua mão alterar. Os descontentes tendem a engrossar as fileiras dos movimentos extremistas, que prometem transformações radicais. Emergem então fenómenos que lembram os anos 1930.

Para além das tendências referidas, que interagem mutuamente, é necessário considerar outros factores.

Hipermobilidade geográfica

A concepção neoliberal em voga exige mobilidade total da mão-de-obra. A sua velocidade de adaptação deve seguir a vertigem dos movimentos de capitais, o que leva à erosão social, pelo que representa de dissolução dos laços de solidariedade locais que só são possíveis com um mínimo de estabilidade. Sofrem os processos de socialização das crianças e o dos adolescentes, cujo desenvolvimento requer um espaço delimitado onde possam experimentar os seus comportamentos sociais.

Mas este requisito de mobilidade profissional excessiva conduz, antes do mais, à substituição do sentimento profundo de segurança pelo de medo, assumindo um carácter pandémico. Nos anos do pós-guerra na Europa, a política económica foi o oposto desta: em favor do desenvolvimento regional, com acesso criterioso aos meios financeiros e colocação à disposição de infra-estruturas que facilitassem o desenvolvimento de postos de trabalho para todos. Foi uma política consciente de descentralização, resultante do conhecimento de que a reconstrução, após o colapso das relações interregionais, só podería efectuar-se pela revitalização da vida comunitária na base da auto-organização.

Hipermobilidade profissional

Bem cedo, Hans Zeier alertou para o ritmo de adaptação intrínseco ao homem. O sobre-esforço pode conduzir a uma grave instabilidade psicológica, susceptível de empurrar os indivíduas para refúgios em mundos virtuais. Ao sobre-esforço provocado pela adaptação desregrada, junta-se o medo de perder o emprego e a impossibilidade de prever a sua situação social assim como a sua situação económica no momento da velhice.

A resposta a estes medos é, frequentemente, a fuga para a falsa segurança oferecida pelo nacionalismos fundamentalistas e pelas seitas religiosas. Em casos extremos, isto pode conduzir ao aparecimento de «associações mutualistas» paralelas às do estado. Os custos sociais elevados associados a estas escapatórias não são tidos geralmente em consideração.[...]

Estratégias de dominação desestabilizantes dos Estados Unidos da América (EUA)

Ao fazermos o exame dos duzentos anos de história dos EUA, observamos que, excepção feita à guerra pela independência, todas as outras foram guerras de conquista ou guerras de «recuperação de fundos». Entre as guerras de conquista estão o extremínio dos índios, a do controlo do canal do Panamá e a do Novo México. A guerra de «recuperação de fundos» mais séria foi a Primeira Guerra Mundial. Como W. F. Engdahl mostrou no seu livro A Century of War: Anglo-American Oil Politics and the New World Order, já na primeira guerra mundial a qustão foi o petróleo. Com o caminho-de-ferro de Bagdad, os alemães tinham ganho o acesso às jazidas de petróleo recém-descobertas de Mossul e KirKuk contornando o canal de Suez. A Inglaterra inquietou-se logo que os engenheiros alemães conseguiram passar as montanhas da Anatólia e diante dles se estendeu a planície da Mesopotâmia.


Excertos traduzidos da versão em francês de:
Heinrich Wolhlmeyer, "Globales Schafe Scheren. Gegen die Politik das Niedergangs"
publicado por Horizons et débats em 2 de Março de 2007

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