terça-feira, março 13, 2007

O genocídio dos funcionários públicos - Santana Castilho - Jornal: Público - 12 de Março

Atrevo-me a trancrever o que lá foi escrito por este professor por quem nutro grande respeito:

O que o Governo acaba de propor para o funcionalismo público é a continuação de um genocídio em que os professores foram os primeiros imolados. Muitos dos que aplaudiram a cruzada, sendo funcionários públicos, perceberão, quando lhes tocarem à porta, que os dividendos do egoísmo são efémeros. O que se fez aos professores vai agora ser aplicado aos restantes funcionários públicos. Concluído este segundo assalto, o sector privado ficará à mercê da lógica dos patrões: se a precaridade já é máxima no público, por que havemos de manter o que sobra de estabilidade no privado? Pela mão de Sócrates, o Ùnico, a esquerda moderna terá então feito, numa legislatura, mais do que a direita desejou, mas não fez, durante toda a Terceira República.

Os comportamentos mudam-se com incentivos, com formação, com comunicação organizacional, com chefias competentes, com gestão adequada. O grande problema dos serviços públicos não radica nos que obedecem. Está nos que mandam. Os que mandam querem convencer os indígenas de que a chave do sucesso é a avaliação do desempenho. Mas não sabem do que falam. O que produzem é tecnicamente grosseiro e com objectivos únicos: diminuir as remunerações, aumentar as horas de trabalho, despedir, vergar. Não será por aí que aumentarão a qualidade e a produtividade.

A avaliação do desempenho só serve se for um instrumento de gestão do desempenho. Os reformadores ignorantes confundem avaliação do desempenho com classificação do desempenho. Avaliar é comparar um percurso percorrido com um percurso planeado, para identificar obstáculos e formas de os superar. Supõe objectivos claramente definidos e estratégias adequadas. À boa gestão importa, sobretudo, o carácter formativo da avaliação: para identificar as dificuldades das pessoas e ajudá-las a superá-las, com formação e assistência; para apurar a ineficácia e a ineficiência dos processos e substituí-los por outros. mais adequados. Um processo credível de avaliação tem uma lógica de 360º. Envolve todos. Não deixa de fora os chefes, obviamente.

Classificar é seriar. Tão-só! Tendo aplicações e importância, não põe conhecimento onde ele não existe. Pode haver avaliação sem classificação. Mas não se deve classificar sem se avaliar. A obsessão dos nossos reformadores reside na classificação. Construiram uma fantasia com a qual julgam chegar ao fim sem abordar o inicial e o intermédio. O que têm produzido são grelhas de classificação mal feitas, a aplicar por processos e critérios que a gestão moderna há muito abandonou.

Isto não provocará mudança organizacional. Isto vai gerar, por parte dos funcionários visados, o que a literatura da especialidade denomina por retaliação organizacional. Ou seja, oposição dissimulada e desmotivação generalizada, a última coisa de que necessitamos para melhorar os serviços. Quando tal acontece, é evidente que a culpa não reside nos funcionários, mas nos chefes e nos processos e sistemas que impõem. Sobre o essencial para reformar a função pública, continuará a pairar o silêncio do Olimpo.Quanto a avaliação do desempenho, pura e simplesmente não exixte. Apenas bolsa da pesporrência retórica e oca dos novos justiceiros.

O que se conhece da grelha proposta para classificar os professores que concorrerão ao topo da carreira é paradigma do que acabo de afirmar. Está lá tudo: o atropelo grosseiro à lei; a evidência de que legislam por impulso, sem coerência nem norte (começaram por achar que 120 pontos eram o mínimo e já baixaram para 95); o primado do administrativo sobre o pedagógico (menosprezo escandaloso da docência e do conhecimento, que chega ao ridículo de valorar ou não um doutoramento em função do dia em que foi feito).
É a burocracia posta num altar, que nenhum Simplex disfarça.

Eu subscrevo inteiramente o que Santana Castilho publicou.

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3 Comentários:

At 23:29, Blogger Jorge Ferrão disse...

Ouvi dizer que ainda há recibos verdes na função pública.
É verdade?

 
At 16:42, Blogger António Chaves Ferrão disse...

Jorge: já deverias saber que os nossos governantes são pessoas de bem, que não tolerariam na sua administração vínculos de trabalho tão precários.

 
At 13:18, Blogger Maria Lisboa disse...

Ah! Pois não!!!
E os contratos para as AEC? Pois.... não são da competência directa do estado! Mas não foi a forma induzida pelo ME para a aquisição destes serviços?
E a nova legislação para contrtação em Oferta de Escola?

Claro, pessoa s de bem (sei que estás a gozar! :))... mas quando me falam deste tipo de pessoas, pergunto sempre: de bem?... e são boas? ou más?

 

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