segunda-feira, março 12, 2007

O que é a palavra "homem"?




Estão registados exemplos de línguas vivas de comunidades primitivas em que árvores da mesma espécie são chamadas por nomes diferentes, dependendo da localização relativamente à aldeia e da utilidade que os habitantes encontraram para elas.

Mas o que é a palavra "homem"?

  • Gramática:
    Substantivo comum concreto.
    É um substantivo porque designa um ser, algo que existe. Mas "duende" também é um substantivo e aquilo a que duende se refere só tem existência na imaginação. O mundo real e o mundo virtual confundem-se na Gramática.
    É comum porque não tem poder designatório suficiente para individualizar, senão seria um substantivo próprio. É concreto porque não se refere a uma acção, qualidade ou estado; doutro modo seria um substantivo abstracto.

  • Filosofia:
    Abstracção de: Pedro, Francisco, Alberto, Joaquim...
    Repare-se desde logo que os substantivos comuns, mesmo "concretos" na classificação gramatical, são abstracções das suas instâncias ou materializações particulares. Dir-se-ía que constituem o primeiro nível de abstracção do real. Quando, entre dois substantivos comuns encontramos semelhanças, por exemplo entre uma pedra branca e uma flor branca, criamos abstracções de segunda ordem - o branco, uma qualidade - que a Gramática já reconhece como abstracção ou substantivo abstracto. A Gramática dedica uma importância diminuta aos níveis da abstracção. Em contrapartida, a posição, a velocidade e a aceleração aparecem com as respectivas constelações de termos associados em três níveis claramente diferenciados na Física.

  • Lógica:
    Termo variável.
    É um termo porque designa: é um termo variável porque designa indistintamente um de entre uma multiplicidade de objectos possíveis, estando destituído de poder identificador completo dos objectos. Os termos variáveis identificam parcialmente, ficam a meio caminho. Um objecto referido por um termo variável é sempre um entre vários possíveis, um num conjunto.
    A Lógica qualifica como variável o que a gramática qualifica como comum. Haverá alguma possibilidade de acordo na classificação entre os gramáticos e os lógicos, que facilite a vida aos pedagogos e demais divulgadores? Creio que não, os especialistas tendem a construir as suas teorias mais preocupados com a consistência interna que com a universalidade do conhecimento. Desta maneira, o mundo singular dá origem a tantas mundividências quantas as escolas interpretativas. O preço desta falha de uniformização é o acréscimo desnecessário de dificuldade na aprendizagem, tornando-se díspar e confuso o que haveria de ser uno e claro. Terão que ser os pedagogos a impor um dia a sua lei, quando tiverem força para tanto.
    Os termos variáveis, por serem incompletos no seu poder de identificação dos objectos, adquirem um poder diferente: o da significação. Os substantivos próprios, que os lógicos chamam de constantes - como os antropónimos e os topónimos - porque referem objectos individuais, estão desprovidos de significado.

  • Matemática:
    Elemento genérico do conjunto Humanidade.
    Os matemáticos preferem pôr em evidência o carácter ambivalente dos termos como "homem". Subentendem imediatamente um conjunto, mas referem apenas um dos seus elementos. É como se tivessem a pretensão de viver simultâneamente nos dois mundos: o dos objectos e o das colecções de objectos. O conjunto de todos os seres que podem ser referidos pelo elemento genérico é a extensão do termo (ou conceito). O conjunto de todas as relações que podemos estabelecer com os objectos - ou propriedades que podemos encontrar nos objectos - (abstracções de nível superior) comunmente referenciados é a sua intensão. Quanto mais rico em propriedades, menos extenso tende a ser o conjunto dos objectos referidos e vice-versa: é a consagrada lei da relação inversa entre a extensão e a intensão dos conceitos. Se o número de propriedades ou atributos do conceito for exagerado, pode eventualmente descobrir-se que, de todos os elementos inicialmente possíveis, resta apenas uma hipótese. Esta operação é muito vulgar nos problemas de matemática. Mas a ruptura da multiplicidade da referência por esta via, que permitiu seleccionar atributivamente um único elemento, isto é, individualizá-lo no conjunto, ou particularizá-lo até ao nível de uma constante, não constitui prova de que as constantes possuam algum significado. A solução encontrada é novamente um conjunto, apenas um conjunto singular. As constantes, ou elemmentos individuais, não possuem as propriedades operatórias dos conjuntos, que foram estudadas inicialmente pela Filosofia, mais tarde pela Lógica, finalmente integradas na Álgebra e que hoje são tão instrumentais como os circuitos bi-estáveis dos computadores.

  • TLEBS:
    Na classificação das palavras já há campo suficiente para avançar no sentido da simplificação em nome da eficácia pedagógica. A viva controvérsia gerada à volta da TLEBS, mesmo entre literários e linguistas profissionais, parece indiciar que se fez um esforço para desenvolver novas fragmentações, não para construir de forma racional um quadro mais amplo e unificado do conhecimento, que exigiría uma convergência de esforços para além dos linguistas.

Como testemunham os registos de línguas primitivas, as variáveis ou termos abstractos não apareceram na linguagem logo no início.
Os homens têm nomes próprios e, além disso, o conjunto dos homens (uma abstracção), também tem um nome. Mas nem sempre a linguagem oferece este quadro completo. Podem os elementos não ter nomes próprios que os individualizem na nossa linguagem (os carapaus que são apanhados pela rede dos pescadores), ou o conjunto implícito no substantivo comum concreto - por exemplo, "berlinde" - não ter um nome específico. Esta é uma das muitas ciladas que a introdução da abstracção trouxe para a linguagem corrente. Pode levar-nos a esquecer que há sempre um conjunto associado a cada substantivo comum concreto-abstracção-variável-elemento genérico. Se, por exemplo, perguntarmos cruamente a um aluno do secundário o que ele entende por variável - um conceito fundamental - teremos, muito provavelmente, a oportunidade de observar o efeito do acréscimo desnecessário de dificuldades. No pior dos casos, essas dificuldades subsistem em pessoas com formação completa.
Vimos aqui que, de "Pedro" para "homem" foi necessário dar um salto na abstracção. Se quiséssemos tratar um conceito mais elaborado, como o de número, teríamos que dar mais alguns saltos. Uma das maiores virtualidades da linguagem é o seu carácter recursivo, que permite construir andares sobre andares. Por vezes, a mesma palavra reaparece num andar muito superior. Foi isto que aconteceu com a palavra "planta", originária de um étimo que significava "pequeno galho". Ora planta é das palavras mais abstractas que se pode imaginar. Quantos andares foi necessário levantar?
Um espectro de classificação das palavras mais aberto a ajustado aos primeiros três ou quatro níveis de abstracção do real, sería uma boa notícia.

Um relaxamento da longa tradição de compartimentação dos conhecimentos parcelares, de forma a começar a esboçar-se a sua unidade, traduzida em aproximação das terminologias de base das meta-linguagens, sería notícia ainda melhor. Assim como estamos, fazemos - a uma escala diferente - o papel das comunidades primitivas: damos nomes diferentes a coisas idênticas, porque não descobrimos que a localização face à aldeia não é determinante absoluto de uma utilidade.

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1 Comentários:

At 13:06, Blogger J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Caro António Chaves Ferrão

O seu exercício gramatical é deveras interessante e já existem estudos gramaticais comparativos: a palavra homem é usada entre os selvagens para designar o seu grupo por oposição aos outros, os não-homens, antihomens ou simplesmente inimigos. Tudo depende em última análise do sistema de classificação. :)

 

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