terça-feira, abril 24, 2007

24 de Abril de 1974


É um dia muito parecido com todos os outros. O Instituto Superior Técnico está transformado numa praça forte. Polícias fora e dentro do recinto vigiam os movimentos dos estudantes e professores. Desde Novembro do ano passado que a entrada se faz mediante a apresentação de um documento de identificação; este cartão não foi concedido a cerca de setenta estudantes. Há poucos dias, a solução Técnico foi alargada a Económicas.
Desde há alguns meses que o espectro da incorporação e embarque para a guerra na Guiné paira sobre vários colegas. Passa-me pela cabeça a oportunidade da emigração: uma irmã já está em Bruxelas. O Partido Comunista Português encoraja os que desejam opor-se ao regime a permanecer em Portugal e aceitar a incorporação. Vou-me deixando ficar, mas acho estranho que não me tenham chamado ainda.
Para aguentar as despesas, dou aulas na Emídio Navarro e na Anselmo de Andrade em Almada e, às segundas-feiras, escrutino bilhetes dos apostadores do Totobola ali ao alto do elevador da Glória: estas são as minhas ocupações.
O nascimento do primeiro filho está previsto para Junho.
Há um mês que vejo sempre a mesma figura no outro lado da rua quando saio de manhã para Almada e quando chego a casa ao fim da tarde. Confesso que há visões mais agradáveis. O homem nem sequer disfarça ou muda de sítio.
Hoje, quando o autocarro de regresso a Lisboa passou sobre a ponte Salazar, pude ver um navio militar americano. Os jornais dão notícia da presença da esquadra da NATO em Lisboa. Algures nas docas de Alcântara, alguém pichou, não com piche, mas com spray: OTAN GO HOME. Achei curiosa a mensagem, pela mistura de línguas. Que dirão os militares americanos, para quem era impossível não ver o que lá estava escrito? Portugal é um país engraçado, alvitrei. Mas que fazem esses militares em Portugal? - interroguei-me.

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5 Comentários:

At 10:40, Anonymous Susana disse...

Oi tio!

Tu estavas em Portugal nessa altura? Nao sabia, pensava que tinhas estudado em Angola?! Viver em Portugal nesses dias devia ser horrivel... O horror da guerra, a pressao da policia e do governo, os questionamentos, as responsabilidades de tomar posiçoes... Que pena a gente nao poder conversar mais sobre as vossas experiencias dessa época... Sempre é bom lembrar-se, mais uma vez, do conforto em que vivemos hoje, relativamente a outros tempos...

 
At 14:02, Blogger António Chaves Ferrão disse...

Bem aparecida, Susana
O meu objectivo: que nunca saibas (saibam) como era Portugal antes de.
Este ano tive uma fraqueza. Estou tão dispensado como naquele tempo e deu-me para escrever sobre o que não devia.
Aguardamos a tua primeira intervenção na sala principal: faz lá esse favor. A Delphine Pessoa já avançou por duas vezes, e gostámos imenso.

 
At 21:31, Blogger Jorge Ferrão disse...

Conta mais...

 
At 20:44, Blogger José Ferrão disse...

OTAN GO HOME
A quase 40 anos de distância, consigo perceber finalmente a mistura de línguas. Não se trata decididamente de permeabilidade cultural, o assunto é muito mais simples do que isso. Experimentem escrever, na calada da noite, com um spray e uma parede ainda limpa, "OTAN VAI-TE EMBORA", mas entre cada duas letras olhando para todos os lados à procura da bófia...!
Isto aqui, meus amigos, cada letra constitui já uma vitória.
Já não me lembro quem é que estava comigo quando pichei "ABAIXO A GUERRA COLO", e na manhã seguinte o "Chico monhé" apareceu todo intrigado porque não conseguiram acabar a frase, e eu tive que fazer figura de parvo para não me rebentar a rir.

 
At 19:25, Blogger António Chaves Ferrão disse...

O Zé existe. Vai depressa ao post "25 de Abril", põe o som de maneira que se oiça no quarto andar, e começa a ouvir o Hino da 5ª Divisão.

 

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