segunda-feira, maio 21, 2007

Competências mínimas



O provérbio diz: "Ter um filho, plantar uma árvore, escrever um livro"...

O desenvolvimento das ciências coloca aos pedagogos o grande desafio de impedir que as diferentes áreas do conhecimento sejam compartimentadas.
No exercício da profissão, tendemos a aceitar terminologia técnica impermeável à compreensão de quem está fora. São introduzidos estrangeirismos de vária proveniência, até quando á possível formular os conceitos em bom português. Muitas vezes deixamo-nos cair nessa atitude apenas pela lei do menor esforço.
A vida prática não é, porém, uma coutada tão plana. Além de profissionais de qualquer especialidade, somos pais, vizinhos, clientes de vários serviços, turistas às vezes, cidadãos da República e por aí fora. Em cada uma destas relações somos forçados a enfrentar problemas que escapam à nossa especialidade. Uma reacção possível é a de nos concentrarmos no desempenho profissional e, através dele, adquirirmos poder de compra suficiente para não termos que nos aborrecer com as restantes áreas. Rapidamente iremos aperceber-nos que há uma multidão de concidadãos dispostos a facilitar-nos a vida, mas também que a nossa capacidade de comprar tantas facilidades é limitada.
Na minha área de especialidade, electrotecnia, penso que o mínimo dos mínimos que toda a gente deveria saber é: mudar uma ficha a um candeeiro em condições de segurança.
Uma pessoa amiga da aŕea de medicina afirma que o mínimo dos mínimos que toda a gente deveria conhecer é: baixar uma febre alta e repentina a uma criança, para evitar a danificação irreparável do tecido nervoso do cérebro.
Não sendo da minha área da especialidade, admito que o mínimo dos mínimos que toda a gente deveria conhecer na área do Direito é o princípio da não retroactividade das leis.
Mas não quero antecipar-me. Seria interessante apontar numa simples lista, aquela competência que cada um sente que tem relevância suficiente para ser desprendida do seu domínio estrito da especialidade para ser partilhada por todos.
Qual o conhecimento de Química que faz sentido todos os não químicos conhecerem?
Qual o conhecimento de História que faz sentido todos os não historiadores conhecerem?
Qual o conhecimento de Música que faz sentido todos os não músicos conhecerem?
Qual o conhecimento de Informática que faz sentido todos os não programadores conhecerem?
Qual o conhecimento de Agronomia que faz sentido todos os não agrónomos conhecerem?
E a pergunta repete-se para a Filosofia, a Psicologia, a Geografia, a Sivilcultura, a Literatura, a Mecãnica, a Biologia, a Culinária...
Outra questão associada é a de saber se estas competências transversais devam ser difundidas pelo sistema educativo ou por outras entidades e, nesta caso, quais?
A ciências gerais estão inscritas no ensino obrigatório. Não se trata, nestes casos, de evidenciar que facto histórico ou químico tem maior relevância que todos os outros. Trata-se antes de especificar que meta-conhecimento de história ou de química, que enforma todos os actos dos respectivos profissionais ou que estes usam como guia de princípio para desenvolverem autonomamente os seus raciocínios, seríam mais úteis serem partilhados pelo conjunto completo da sociedade.
Todos os contributos são benvindos.

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19 Comentários:

At 21:46, Blogger Moriae disse...

É este tipo de consciência que está totalmente mal-tratado e até esquecido ... a título de exemplo, remeto-vos para uma carta que o João Tilly enviou hoje para um jornal por comparar as reformas dos professores com as de um soldado raso, de um carteiro e até de um guarda florestal. O exemplo veio de cima ... o jornalista só citou os seus ministros ... E posto isto, parece-me que tanto o conhecimento essencial como aquele que define a excelência da humanidade i.e. cultura, artes, ciência etc são miragens de alguns defensores "mais ou menos lunáticos de metodologias ou ideias irrealizáveis" (David Rodrigues referindo-se à Educação Inclusiva).

 
At 21:47, Blogger Moriae disse...

Nota: leia-se "jornal, por um jornalista comparar".
Desculpem!
Abraço,
M.

 
At 22:37, Blogger António Chaves Ferrão disse...

Moriae
Esperava de um professor de música que elegesse, como competência mínima do seu domínio a generalizar por toda a população, algo como cantar o Hino Nacional ou saber os nomes das notas da escala temperada.
O registo de João Tilly é sobre um abuso de comparações. Curiosamente, nem vi referido que a profissão de professor é de desgaste superior à dos restantes funcionários públicos (tirando a dos polícias desde que não façam apenas serviço interno).

 
At 22:59, Blogger Jorge Ferrão disse...

Competência musical mínima para não músicos:
Segurar uma melodia durante pelo menos dez segundos, o que significa que será capaz de ouvir alguém conversar durante igual período de tempo, sem quebras na concentração.
Ficarias espantado se eu te dissesse que que 4 em cada 20 crianças com dez anos não têm esta capacidade? (perdoa-me a grosseria da estimativa caseira, mas real.)

 
At 23:30, Blogger Moriae disse...

Cantar o hino e de pé!!! ;)
António, levei o post em outro sentido ... Dado que realmente a qualidade do ensino é fraca mais pelas políticas do que sapiência dos professores das várias áreas.
Se quiser, posso realmente reflectir sobre o que consideraria uma formação mínima, salutar desejável.
Como diz o Jorge, a capacidade de concentração, atenção não é realmente a área forte das crianças e a música é mestre nesse tipo de desenvolvimento. Curiosamente, é mais fácil a entoação de uma melodia simples por 10 segundos do que a de um discurso (refiro-me a linguagem oral) ... É por isso que se aconselha a quem gagueja a quase entoar aquilo que diz. Ajuda pela respiração e facilita, embalando [aqui não fui nada científica mas também é apenas um exemplo ;)]

 
At 09:35, Blogger António Chaves Ferrão disse...

Os músicos são os mais activos por aqui.
Não se pretende demostrações científicas, apenas a opinião subjectiva de cada um.
Como homem das telecomunicações, aq1ui vai o meu parecer: código alfabético internacional.
Alfa
Bravo
Charlie
Delta
Eco
Foxtrot
Golf
Hotel
India
Juliet
Kilo
Mike
November
Oscar
Papa
Quebec
Romeu
Sierra
Tango
Uniform
Violet
Wiskey
X-ray
Yanki
Zulu
Muito usado entre os rádio-amadores, permite que um chinês que não sabe português passe uma mensagem, translite correctamente um nome de um lugar ou preste uma informação a um português.
A cada letra fez-se corresponder uma palavra de uso internacional muito alargado. Para conhecer este código, basta conhecer o alfabeto. É uma mais valia para todos, em que o pequeno esforço de aprendizagem é largamento compensado pela utilidade prática.
De um ponto de vista social, é também uma contribuição maior daqueles que se preocupam por alargar as possibilidades de comunicação para a sua máxima amplitude.

 
At 12:56, Blogger António Chaves Ferrão disse...

No comentário superior, onde está:
código alfabético internacional
deve ler-se:
Alfabeto fonético internacional.

 
At 15:27, Blogger José Ferrão disse...

Acho o tema interessantíssimo, e cá ficarei a pensar nas competências mínimas para as áreas que me são mais chegadas.
Para já, permito-me sugerir que a competência mínima na área jurídica é a capacidade de formular uma queixa por ofensas, dentro do prazo de seis meses, associada à incapacidade de as formular passado esse prazo; e que, para os menores (aqueles que se encontram na escolaridade obrigatória) esse prazo começa a contar no momento em que atingem a personalidade jurídica, que é os 16 anos, mesmo que os factos se reportem a datas anteriores a essa.
Se essa orientação estivesse contemplada nos conteúdos da escolaridade obrigatória, acho que haveria um respeito diferente para com essas idades.
Quanto às restantes competências, acho que seria boa ideia inclui-las no âmbito das áreas curriculares não-disciplinares, em vez encher essas áreas com banalidades que não são mais do que perda de tempo para as crianças.

 
At 19:09, Anonymous susana disse...

Ok, também gostei da ideia!

Aqui vai a minha contribuiçao em neurosciencias:

Os varios milhoes de neuronios que constituem o nosso cerebro funcionam como elementos de um gigantesco circuito electrico, ou melhor, como um fantastico microcircuito informatico. Eles produzem realmente electricidade e transmitem as informaçoes (electricas) uns aos outros.

Dai a dizer que é assim que nos pensamos, nao sei se da, mas é certamente assim que nos andamos!

Inté, gente!

 
At 19:54, Blogger Jorge Ferrão disse...

O que vai de encontro à minha tese.
"O pensamento move-se à velocidade da luz"
Susana: Que tal?

 
At 22:06, Anonymous susana disse...

Ya!

O problema é que nem sempre sabe onde ir... ou por onde sair...

Bom, so para completar, claro que nunca chega até à velocidade da luz, mas a propagaçao electrica num neuronio pode ser muito rapida... alias, ha varios estudos sobre as propriedades de cabo electrico de um neurito (do centro do neuronio saiem varios neuritos que vao ter com outros neuritos de outros neuronios...). O campeao na disiplina da melhor velocidade de propagaçao é o choco ; ) tem neuritos de um diametro enorme !! Do estudo do choco saiu um prémio Nobel!!!

Bom ja estou a ficar com fome...

 
At 23:13, Blogger António Chaves Ferrão disse...

Susana
Queria dizer-te que estou imensamente satisfeito por volares a aparecer. Mas não consigo, porque continuas a rejeitar a porta principal. O que é uma lástima, poois tens tantas coisa interessantes para partilhar. Fico triste. Mas a porta continua aberta.
Lúcio:
Seu grande preguiçoso. Diz lá, de todas as tuas aptidões naturais, qual aquela que se desenvolveu na escola e que achas que ficaria bem ser domínio comum de todos os cidadãos.
Como alternativa, ficas condenado a dar a este inquérito uma dimensão de interactividade superior à que é permitida a um simples post. Para que as respostas possam continuar a acumular-se ao longo do tempo. Para o campeão de audiências do ferrao.oeg (sudopocket), deve ser exercício bem fácil.
Todos os outros preguiçosos do ferrao.org ou fora: as contribuições são benvindas.

 
At 23:32, Blogger Moriae disse...

Ena! Ainda não é hoje que vou referir as que julgo essenciais nessa minha área (dia de aferições, 9 horas de escola, duas de viagem, 4h de curso nocturno! [foi um desabafo :)]
Mas ... terei que pensar bem porque realmente o desafio está excelente!
José Ferrão, passei a saber como formular uma queixa por ofensa há bem pouco tempo ... Este ano lectivo ... (não por ser agressora...).
Se tivesse tempo útil, uma das coisas que gostava era de investigar (e para isso formar-me devidamente) nas neurociências, área referida pela Susana!
Rádio amador terei que relembrar o meu Pai desse seu hobbie).
Boa noite a todos!

 
At 23:33, Blogger Magda Nieto Reprezas disse...

Olá, Susa
Podias falar francês para treinarmos e assim expressavas-te melhor. Que tal a ideia?

 
At 17:11, Blogger José Ferrão disse...

...Ou em alternativa, começar a colocar os acentos.
Os franceses já os deitaram fora?

(não leves a mal, Susana, era só para me meter na conversa...)

 
At 19:08, Anonymous susana disse...

Toneca:
Je me suis inscrite sur google mais je ne peux plus entrer dans mon "compte" car je ne trouve plus le mot de passe... que faire?
Magda:
Et voilà ; ) mas eu também tenho que treinar o português...
Zé:
Le clavier français n'est pas facilement utilisabe pour les accents portugais... mais d'un autre côté, je crois que mon orthographe portugaise n'est plus si bonne...

 
At 22:17, Blogger António Chaves Ferrão disse...

Suzana
Vamos lá tratar disso: começas por mandar para antonio@ferrao.org um mail qualquer (teste) a partir da tua caixa de correio. Isto é só para eu ficar com o teu enderço, porque ainda não tenho. Depois explicarei o resto.
Quanto a escreveres em francês ou português, acho que te sais sempre bem.

Moriae:
O convite continua de pé.

 
At 17:51, Blogger Moriae disse...

António, obrigada :)contudo, eu estou actualmente na Educação Especial, onde acredito poder ajudar mais e melhor alguém sem me prejudicar tanto, o que também importa para que cumpra as minhas funções docentes.
Sou realmente do quadro de Educação Musical mas de forma muito crítica e pessimista ! Da forma como a coisa está, acredito que só uma pequenina minoria das crianças é que desenvolve as competências que considero essenciais numa Educação Musical (as que têm em casa ou fora da escola um meio de o fazer).
Uma Educação Musical, que passe pelo desenvolvimento da sensibilidade e capacidade de fruição estética e afectiva, que ultrapasse a vivência hedónica ou associada a estímulos secundários, externos (por ex. o gosto que muitas crianças desenvolvem por músicas das telenovelas mais pelo contexto do que pela música - que geralmente pouca riqueza tem).
Saber ouvir, apreciar, enquadrar ... executar, cantando, tocando ... conhecer o património riquíssimo musical que temos e entender os elementos melodia, ritmo, timbre ... Sensibilidade! Era tão bom que as crianças e os adultos pudessem usufruir daquilo que a música tão bem transmite, ou seja, quase tudo!
Acho que me perdi um pouco mas creio que me entenderão.
voltando à música, as crianças têm música durante 2 anos, 90 minutos por semana. Os professores, alguns, 10 turmas, 200 alunos. Digam-me, será suficiente esta relação? Ensinar, aprender a metro, em pouco tempo, algo que está no nosso património desde o princípio da humanidade? Do nascimento? - Não me parece ... basta ver o tipo de música que se comercializa e que as pessoas preferem. Embrutecimento colectivo e castração ... Termos fortes, eu sei ...
Obrigada por me terem permitido este desabafo e reflexão.

 
At 23:30, Blogger Jorge Ferrão disse...

As pessoas não preferem.
As pessoas escolhem o que têm à disposição.
Entre um cd de Vivaldi mal tocado e um jovem cantor a raiar energia, é seguro que as crianças vão preferir o segundo.
Entre a montagem de uma obra clássica e a montagem de uma imitação de morangos com açúcar, as crianças comprovadamente preferem a primeira e de vez em quando divertirem-se um pouco com a segunda.
A questão é que o esforço do professor é bem diferente...e acaba por dar a ouvir rap do manual e montar as pombinhas da cat'rina, na melhor das hipóteses- para não entrar em descompensação- facto que se reverte contra si próprio a médio prazo.
As instituições esperam milagres ao preço da chuva pelo que é preciso explicar-lhes que não há omoletes sem ovos.
O meu mestre disse-me outrora que não ensinava acordes. Não tive portanto outro remédio senão deduzi-los, o que me abrandou na percepção das funções tonais, e enquadramento dos modos.
Não me preocupa que um aluno se queira divertir com canções da moda/ comerciais / embrutecedoras. Não é certamente um fenómeno recente e acho que é da maneira como ficam vacinadas precocemente.
A música é uma abstracção inventada pelo homem. Da teoria musical, nem falo (a religião dos músicos). A única utilidade que tem, é a vivência que proporciona.
E há ainda outra questão. É que nem tudo na música são flores. O que tem de bom pode transformar-se em mau num ápice- é a própria vida espelhada sem maquilhagem.
Quando oiço alguém a tocar, só me falta saber o que comeu de manhã, para tirar a fotografia...
Isto assusta as pessoas que nunca participaram num processo semelhante.
Em suma.
Os objectivos do 2ºciclo foram escritos por não músicos, pelo que acho que até nem estão nada maus.
Há alunos que tocam fluentemente por estudarem um instrumento desde os quatro anos, mas espante-se... Explicar as diferenças entre um membranofone e um cordofone, não é suficiente para que eles façam a distinção auditivamente. Os pedagogos vêem utilidade nesta capacidade de discernimento e se calhar têm razão, pois é concreta.

 

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