quarta-feira, maio 02, 2007

O ruído ensurdecedor do silêncio


A aluna A, em perliminares avançados, aperta no corredor o aluno B, ao mesmo tempo que vigia de soslaio a aproximação da professora C. Face ao olhar reprovador desta, dispara: “O que tu tens é inveja”.
C segue o seu caminho em silêncio simplesmente porque...

...depois de ter observado cidadãos honestos a serem vilipendiados, suprimidos ao convívio familiar, académico ou profissional de um dia para o outro, tratados na imprensa - sem direito a réplica - como seres merecedores dos piores castigos;
...depois de conhecer relatos da guerra pelos seus irmãos;
...depois de ter sido presa enquanto grávida,

convenceu-se em determinado momento de que o respeito que cultivássemos por nós próprios e pelos que nos rodeiam não mais seria objecto de perseguição;
...de que as autoridades políticas se comportariam desse momento em diante como dignas do respeito dos cidadãos.


Para seu espanto, foi-se dando conta de que os exemplos de não respeito das novas autoridades, de forma muito gradual mas persistente, foi recuperando o seu antigo fôlego;

...de que a irresponsabilidade dos actos dos governantes procurava refúgio em incitações à desobediência contra todas as autoridades representadas pelos servidores do Estado;

...de que, pelo crivo da chacota que os novos governantes fizeram questão em levantar, passaram primeiro os que haviam derrubado o antigo regime: os militares; depois os polícias; depois os juristas; depois os professores; outros se perfilam no horizonte.

A professora, incapaz de pensar liberdade que não contenha em si o respeito; desnorteada com incitamentos do governo à irresponsabilidade; segura da barragem legal que protege o comportamento observado; certa de que a libertinagem, quando caucionada pelo governo, é a pior ameaça para a liberdade; revoltada, indefesa, esgotada, com vontade de desaparecer daquele corredor...
segue silenciosamente o seu caminho.

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