sexta-feira, maio 04, 2007

O vórtice




O vórtice acelera. Farrapos de pensamentos adquirem vida independente, alinham-se num carrossel, sucedem-se sem pedir licença e repetem-se. O Sol do meio-dia parece uma Lua cheia. A vontade esmorece, os planos evaporam-se. Mais uma aula para preparar. Todos os gestos são maquinais. Mais uns candidatos para a infelicidade. Porque será que o desconhecido com quem me cruzei me desejou bom dia? Que percebe ele? Porque ri aquele grupo de estranhos? Porque se esforça o locutor em esclarecer alternativas? Se é tudo irrelevante. Por onde deixei passar tamanha confusão? Que fiz eu? Mais um gesto maquinal: ler uma história ao miúdo. Surpresa: o fim da história fez-me rir.


Maldito círculo vicioso de imagens que rodopiam e não me largam. Como concatenar dois pensamentos? Abro o livro de exercícios de lógica - sim, aquela mais básica - binária, da SCHAUM. Divirto-me a enumerar as operações como se fossem tabuadas. Parecem-me mesmo tabuadas. Mas se as operações se podem dispôr em ordem como simples números, o que as distingue dos elementos da classe sobre a qual operam? Serão apenas números de espécie diferente? Poderemos trocar os símbolos das operações pelos símbolos dos operandos. Afinal, tudo são apenas símbolos, meras convenções que algumas pessoas imaginaram que serviam para alguma coisa.

Terrível vício este círculo, como gostaria de me ver livre dele. Como quebrá-lo? Pelo ponto mais fraco? Qual será o ponto mais fraco? Um convite para organizar o Côro Universitário de Luanda. Vem mesmo a calhar. Estou farto de racionalizações, cada uma mais estéril que as anteriores. Os artistas podem ajudar. E é tudo maquinal. É preciso um maestro. Num país como Angola, pode faltar tudo, mesmo comida, mas músicos e maestros não faltarão nunca, isso eu sei. Jorge Macedo: ó Ferrão, já me chateaste uma vez, vai dar uma volta. Desta vez é a sério. É preciso cartazes. Vamos atacar o pré-universitártio, os jovens têm mais sangue na guelra. É preciso uma direcção. Faz-se a reunião, direcção eleita. É preciso um maximbombo. Há um parado junto ao pavilhão de Informática. É preciso um condutor: um camionista amigo, de São Tomé, oferece-se. É preciso salário para o condutor e para o maestro: chateia-se o reitor. Os ensaios começam. As obras ganham vida. As apresentações chegam depressa. "Ataquei uma bruta farra" arranca risos e aplausos de uma plateia habituada a outro tipo de novidades.

A questão de conhecer o ponto mais fraco talvez não faça sentido. Que tal: em qualquer ponto? Parece-me uma boa ideia. Criando imagens fora do círculo. O novo convívio surgiu a preceito. Todos os objectos e pessoas exteriores ao coro estavam contaminadas e só conseguiam dar vida aos fantasmas. Lentamente, estes foram perdendo vigôr. Já conseguia aproximar-me do espelho, de manhã, sem ser maquinal. Ri! - ordenava. Esbocei um esgar. Valeu pela tentativa.

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2 Comentários:

At 02:11, Blogger Jorge Ferrão disse...

Bem-vindos sejamos ao mundo cão. Na lógica progridem saudavelmente os projectos. O efeito que tem no autor? Contente-se em espalhar sorrisos.

 
At 12:57, Blogger António Chaves Ferrão disse...

Jorge: é isso mesmo. Nada no mundo é mais belo que reconhecer-nos no sorriso de quem olha para nós...

 

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