domingo, junho 10, 2007

Asfixia das estruturas intermédias

Quadrantes de Ken Blanchard

O Dia de Portugal presta-se a reflexões mais distantes dos acontecimentos diários. A maior parte das dificuldades que sentimos não tem tanto a ver com limitações do nível dos conhecimentos alcançados actualmente, mas com dificuldades impostas - de modo artificial na maior parte das vezes - à sua aplicação.

Os quadrantes de Blanchard - acima ilustrados - pretendem ser uma descrição do processo natural de desenvolvimento pessoal de cada elemento dentro de uma organização. De um ponto de entrada caracterizado pelo desconhecimento das formas de proceder, exigindo o máximo de esforço directivo até à situação em que a organização já não tem segredos, recolhendo por delegação a responsabilidade autónoma do cumprimento de uma parte dos objectivos gerais, cada um passa por um período em que as "normas gerais" e a "cultura da organização" já não constituem a questão mais importante, mas o desempenho está fortemente condicionado pelo acompanhamento próximo. Esse esforço de acompanhamento que a organização presta em ordem a melhorar todas as hipóteses de desenvolvimento individual, intenso nas fases de supervisão e orientação, não é tanto atribuição da estrutura superior da organização, mas das suas estruturas intermédias.

Se olharmos com atenção para a figura, facilmente identificaremos o papel das estruturas superiores nos quadrantes inferiores (controlo e delegação), repousando os restantes (supervisão e orientação) sobre os quadros intermédios. É nos níveis intermédios de gestão que se joga o essencial do êxito de um projecto. A confirmação mais eloquente da importância das estruturas intermédias é-nos dada em Portugal pelo próprio 25 de Abril, também conhecido como a "revolta dos capitães".

Os governos não têm primado pelo respeito devido aos quadros intermédios do Estado. As inflexões frequentes nas orientações políticas gerais e uma desconfiança exagerada do impacto político que cada organismo do Estado representa têm conduzido a uma delapidação progressiva da experiência acumulada pelos quadros do Estado, cerceando pela base a sua operacionalidade. Ora, sem estruturas intermédias diversificadas, dinâmicas e autónomas, os próprios objectivos de cada legislatura ficam igualmente comprometidos e a espiral da inacção vai-se realimentando. No limite, chegaremos ao Estado microcéfalo, caracterizado pela paralização geral da iniciativa dentro dos organismos, relegados ao papel de espectadores, enquanto na ribalta se moverá um único actor, o chefe do governo. Falar em prossecução dos objectivos, quaisquer que sejam - combate à corrupção, aumento da produtividade, salvaguarda de direitos constitucionais - não passará então de uma declaração de intenções.

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