domingo, junho 10, 2007

Évariste Galois (2)


Em Fevereiro de 1830, Galois submeteu um texto ao concurso "Grande Prémio em Matemáticas" promovido pela Academia das Ciências. O manuscrito foi confiado a Fourier para apreciação, que o teria levado para casa. Aconteceu que Fourier viria a morrer passados alguns dias e o manuscrito nunca mais foi visto. Galois interpretou os recorrentes desaparecimentos das suas teses como o efeito de uma sociadade capaz de negar a justiça em favor da mediocridade; atribuiu a responsabilidade ao regime opressivo de Bourbon.

Em Janeiro de 1931, tentou a sorte como explicador particular em Álgebra Avançada, com sucesso reduzido. Nesse mesmo mês, submeteu mais uma tese à Academia das Ciências, com o título: "Das condições de solubilidade das equações por meio de radicais". A avalição foi confiada a Poisson e Lacroix. Não tendo obtido resposta, escreveu uma carta ao Presidente da Academia dois meses mais tarde, igualmente sem sucesso.

Juntou-se então à Artilharia da Guarda Nacional, um organismo republicano. Pouco depois os comandantes desta organização foram presos como conspiradores, mas libertos pelo Juíz. A Artilharia foi dissolvida por ordem do Rei. Num jantar de protesto em Maio, com os ânimos exaltados pelas contínuas perseguições, Galois brindou à saúde do Rei com um canivete aberto na mão. Foi preso até ao julgamento, ilibado pelo juiz e libertado no mês seguinte.

Em Julho soube da apreciação da Academia das Ciências - assinada por Poisson - sobre a tese que apresentara: incompreensível.

Passados uns dias, enquanto dirigia uma manifestação, fardado como guarda republicano e com uma navalha e uma pistola foi preso e depois condenado. Enquanto cumpria a pena, prosseguiu a escrita das suas descobertas, mas acabou por ser contagiado pela epidemia de cólera de 1832. Transferido para o Hospital, foi libertado pouco depois.

Novamente em liberdade, apaixonou-se pela filha de um médico vizinho, chamada Stephanie. Não tendo sido correspondido, ficou bastante abalado. Nessa altura foi desafiado para um duelo por motivo dos sentimentos que acalentara para com a rapariga. A este respeito, Galois escreveria:

Peço aos meus amigos que não me condenem por morrer por outra causa que não seja a minha pátria. Morro vítima de uma infame coqueteria. É numa rixa miserável que a minha vida se extingue.
... Perdoai aqueles que me matam, eles agiram de boa fé.


Nessa mesma noite de 29 de Maio de 1832, véspera do duelo, escreveu ao seu amigo Auguste Chevalier um resumo das suas descobertas. Nelas esboçou a ligação entre os grupos e as equações algébricas, afirmando que as equações são solúveis por meio de radicais desde que o grupo seja solúvel. Mas referiu muitas outras ideias sobre funções elípticas e a integração de funções algébricas, além de questões demasiado crípticas para poderem ser deslindadas. Nas margens repetia-se o comentário: Je n'ai pas du temps!


Atingido no estômago, foi deixado à sua sorte no local do duelo. Um camponês recolheu-o e conduziu-o ao hospital, onde veio a morrer no dia seguinte, de peritonite. Tinha vinte anos de idade.

Excerto adaptado do original em inglês:
The Life of Galois
I. Stewart, Galois Theory, Chapman and Hall, 1992,
disponibilizado electronicamente por Algebra Research Group, Oxford

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1 Comentários:

At 09:22, Blogger José Ferrão disse...

Não foi só às mulheres que foi vedado o acesso à Academia francesa...

 

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