segunda-feira, novembro 05, 2007

Francis Fukuyama - Hegemonia auto-destrutiva da América

Francis FukuyamaFrancis Fukuyama aponta quatro erros na política internacional da actual administração dos EUA. (AF)


Em primeiro lugar, a doutrina da guerra preventiva, delineada na sequência dos ataques de 2001, foi impropriamente alargada para se estender ao Iraque e outros designados "estados-pária" que ameaçavam desenvolver armas de destruição maciça. A guerra preventiva só se justificaria se fosse aplicada contra terroristas desprovidos de qualquer estado e brandindo tais armas. Mas não pode ser colocada no centro da política geral de não-proliferação, obrigando os EUA a intervir militarmente em todo o lado para prevenir o desenvolvimento de armas nucleares.

O segundo erro de avaliação importante tem a ver com a reacção global expectável ao exercício de poder hegemónico. Muitas pessoas da administração Bush acreditaram que, mesmo sem a aprovação do Conselho de Segurança da ONU ou da OTAN, o poder americano seria legitimado pelos resultados alcançados. Este foi o pressuposto usado em anteriores iniciativas durante a Guerra Fria e nos Balcãs na década de 1990; na altura, foi visto como liderança em vez de unilateralismo.

Simplesmente, ao tempo da Guerra do Iraque, as condições haviam mudado: o poder dos EUA cresceu em tal medida face ao resto do mundo que a ausência de força antagonista tornou-se uma fonte de irritação, mesmo para os aliados mais próximos dos EUA. O anti-americanismo global, surgido da distribuição desigual do poder, já era patente muito antes da Gurrea do Iraque, na oposição à globalização liderada pelos EUA nos anos de Bill Clinton. Foi depois ampliado pelo desprezo ostensivo da administração Bush por todas as instituições de concertação internacional.

O terceiro erro de avaliação foi sobrestimar o efeito das acções militares convencionais face a estados enfraquecidos e a redes organizadas transnacionais, características da situação política internacional, pelo menos no quadro amplo do Médio Oriente. Vale a pena tentarmos perceber a razão porque o poder militar mais forte de toda a história da humanidade, gastando no esforço de guerra virtualmente tanto como o resto do mundo todo somado, foi incapaz de trazer segurança a um pequeno país de 24 milhões de habitantes depois de mais de três anos de ocupação. Pelo menos parte do problema reside no facto de que se mexeu com forças sociais complexas, não disciplinadas por hierarquias centralizadas capazes de impôr regras, logo ser dissuadidas, coagidas ou, de qualquer modo, condicionadas por meios puramente convencionais.

Israel cometeu um erro semelhante ao supor que conseguiria usar a sua enorme preponderância militar para destruir o Hezbolah no Verão passado no Líbano. Mas tanto Israel como os EUA são nostálgicos do mundo do século XX feito de estados-nação, o que se compreende, pois esse é o tipo de mundo para que o seu poder convencional está melhor preparado.

Finalmente, ao poder usado pela administração Bush faltou uma doutrina estratégica motivadora e mesmo a simples competência. Falando apenas do Iraque, a administração enganou-se quanto à ameaça das armas de destruição maciça, não planeou adequadamente a ocupação e mostrou-se incapaz de mudar rapidamente o rumo quando as coisas começaram a correr mal. Hoje, já abdicou de todas as questões defendidas para o Iraque, tais como promover esforços para fundar a democracia.

Excertos de: Francis Fukuyama
America’s Self-Defeating Hegemony
publicado por Project Syndicate em Outubro de 2007

Etiquetas: , , ,

0 Comentários:

Enviar um comentário

<< Home


hits: