sexta-feira, dezembro 21, 2007

António Avelãs - Atropelos do Ministério da Educação


Porque considero esta pequena prosa importante para mais um texto vir clarificar o que se está a passar na Educação em Portugal passo a transcrever: (MR)


"OS SALVADORES

Antes deles seria o caos, a desordem, a irracionalidade. Antes deles, os professores não davam aulas - faltavam. Antes deles, os alunos não estudavam brincavam. Antes deles, a escola não se preocupava com os seus alunos - apenas se limitava a criar condições para que eles se divertissem e namorassem. Antes deles, os professores não estavam nas escolas. Armada com a (terrífica) aura do justicialismo, como que ungida para salvar o ensino e a educação do inferno a que os "românticos rousseaunianos" a tinham condenado, Lurdes Rodrigues e "sus muchachos" resolveram estabelecer a ordem, a dedicação e o mérito. Venceriam a própria História, que já mais que uma vez sublinhou, os desastres a que conduz o messianismo doentio.

Falharam em toda a linha. Os professores mais dedicados, mais intervenientes, mais apaixonados pela profissão não aceitaram a desfaçatez de quem sobre eles construiu verborreicos discursos, fundados na ignorância do que é a vida quotidiana em cada escola e no esforço, quantas vezes gigantesco, necessário para que cada escola funcione de modo adequado; os que faltavam por motivos menos aceitáveis, continuam a faltar; os que raramente faltavam, continuam a não faltar, mas contam desesperadamente os anos que lhes faltam para a aposentação; perderam a alegria com que antes se lançavam nas aulas e nas actividades que as escolas organizavam e eles próprios "patrocinavam". Presos na escola com horários absurdamente pesados a que se acrescentam intermináveis reuniões, falta-lhes tempo (e disposição) para se dedicarem à preparação das sua aulas e à sua actualização permanente. Os alunos não brincam nem conversam. Não têm recreios, e, quando um professor falta, esperam, mais ou menos angustiados, que passem os 90 minutos, acorrentados numa qualquer sala com um professor que desconhecem. Mas não consta que aprendam mais ou desenvolvam melhor a sua formação moral e cívica. Em suma, a escola degradou-se. E ameaça degradar-se ainda mais quando começar a ser vivida "na pele" pelos professores mais novos o bloqueio quase definitivo imposto pela divisão da carreira - a possibilidade de chegar a "titular"(!) é uma aboluta miragem e deste modo se sentem não só prejudicados financeiramente mas também amputados no conteúdo da sua profissão - e quando os "titulares"(!) sentirem que lhes são pedidas tarefas para as quais não estão - nem tinham que estar - minimamente preparados.

A escola baterá no fundo se, como infelizmente tudo indica, for obrigada a envolver-se no processo inauditamente burocrático da "avaliação de desempenho" que espíritos abstrusos lhe cozinharam.

Tudo isto passa à margem do iluminado messianismo justicialista desta equipa, de 3ª ou 4ª escolha que ocupou o Ministério da Educação. A arrogância é filha predilecta da incompetência.

A greve de 30 de Novembro foi também um modo de dizer "não em meu nome" a este estado de coisas. Foi um modo de exigir que as mudanças que se impõem tenham como rumo a reabilitação da profissão docente e da sua carreira e a reconstrução de uma escola que ponha os interesses reais dos seus alunos no centro da sua actividade. Ou seja: uma inversão completa do rumo actual."



Fonte: António Avelãs,
Editorial do Escola Informação
edição de Novembro/Dezembro de 2007


Considero tudo o que foi escrito absolutamente verdade. Só quem está diariamente nas escolas pode sentir como tudo isto faz sentido, perceber como a escola se burocratizou em detrimento da formação dos seus alunos. Perceber o cansaço, a desmotivação dos docentes, a falta de alegria, a desconfiança que se espelha nas faces dos colegas que connosco se cruzam! (MR)

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1 Comentários:

At 19:15, Blogger José Luiz Sarmento disse...

Exactamente. Maria de Lurdes Rodrigues entrou pelas escolas como Bush pelo Iraque: com as mesmas mentiras e com os mesmos resultados, ou seja, a guerra civil.

 

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