segunda-feira, dezembro 17, 2007

Bjarne Stroustrup - Factores da inovação

Respostas do inventor da linguagem de programação C++ a duas perguntas de Roberto Zaciri para a Sys-Con Media. (AF)


Bjarne Stroustrup
Bjarne Stroustrup


Roberto Zaciri: Na sua carreira profissional, abandonou a sua Dinamarca para estudar no Reino Unido e emigrar mais tarde para os Estados Unidos da América (EUA) como investigador. Na sua opinião, qual é a influência do "lugar" (país/região) sobre o êxito de um inovador?

Deixei a Dinamarca para me juntar a pessoas que estavam a fazer um trabalho interessante dispondo de mais "brinquedos" (ie, computadores avançados e software) que os que dispunha perto de casa. Após algum tempo, reparei que já não era fácil regressar. O tipo de trabalho que estava a fazer não era feito na Dinamarca e, tanto a indústria como a academia pareciam fechadas a esta espécie de forasteiro em que me trensformei, ao trabalhar em Cambridge nos laboratórios Bell. Acredito que hoje a Dinamarca (e a Europa em geral) esteja, de longe, mais aberta às ideias da investigação prática, porém, ao tempo, poucos lugares estavam de acordo com o que eu procurava.

Para mim, como jovem investigador, a qualidade dos meus colegas prevaleceu nas minhas opções. A Dinamarca é um dos melhores sítios do mundo para se viver, mas lá não estão pessoas como Maurice Wilkes, David Wheeler e Roger Needham completando uma organização estabelecida que inclui estudantes brilhantes. Cambridge é uma cidade que - no aspecto social - não tem rival, mesmo se comparada com a minha Aarhus natal, de modo que não senti estranheza. Ne entanto, os subúrbios a norte de Nova Jerssey não se adaptam a qualquer um e, nessa altura, senti uma perda. Por outro lado, o Bell Labs Computer Science Research Center foi um ambiente singular no seu poder estimulante. As pessoas de lá, tais como Doug Melroy, Al Aho, Brian Kernighan, Bob Morris, Sandy Fraser, Denis Ritchie e muitas outras, simplesmente fizeram com que o laboratório fosse o melhor "terreno de jogo" para um jovem cientista de computadores. Aspecto importante, todos os que mencionei e muitos outros que não mencionei para não ser enfadonho são pessoas não só grandes tecnicamente, mas com uma grande variedade de interesses não-técnicos.

Voltarei ao assunto do "lugar" na sua próxima pergunta, mas, para mim, "pessoa" prevalece sobre "lugar".


Roberto Zaciri: O que recomendaria para tornar um lugar apelativo para a inovação?

Ao mencionar "lugar", penso imediatamente nas paisagens espantosas da Califórnia (lembre-se de PARC, Stanford, CalTech, etc), Provence (INRIA em Sofia Antipolis). Depois ocorrem-me outros, como Cambridge da Inglaterra ou Cambridge de Massachussets, onde estão grandes universidades que criaram os seus próprios ambientes com pouca contribuição do país envolvente. Uma grande universidade é essencial: é onde encontra o talento e a inspiração.

A família é crucial. Nenhum lugar permanece grande a menos que cumpra dois requisitos: atrair os jovens e oferecer-lhes a possibilidade de aí constituirem as suas famílias e criarem os seus filhos. Os recrutadores falam no "problema dos dois corpos" e normalmente esquecem-se que não basta atrair o talento; há que fazer crescer famílias inteiras em comunidade. De modo que todos os que procurem trabalho consigam facilmente encontrá-lo.

Todos os lugares fantásticos que visitei tinham - pelo menos nos primeiros anos - pessoas excepcionais. É necessário alguém completamente fora de série para um bom começo. Mais tarde, bastam pessoas competentes para manter a instituição até que apareça a próxima geração excepcional. As organizações que geram inovação parecem albergar pessoas que inspiram e, além disso, concedem tempo e espaço alargados aos jovens talentos para que imaginem e desenvolvam áreas inexploradas.

Construir um ambiente propício à inovação não se consegue de um dia para o outro - são precisas décadas. Deve envolver uma organização - universidade ou governo - que seja estável por décadas. As organizações comerciais têm - por boas razões - dificuldades em perspectivar-se a prazos tão alongados, porém, florescem melhor quando estão perto de uma grande universidade, bem como de uma panóplia de outras firmas comerciais (concorrentes ou parceiras). Daí os parques de investigação que aparecem por todo o lado.


in Roberto V. Zaciri
C++ Inventor On Factors That Make for Great Technology Innovation
publicado por Sys-Con Media em 14 de Dezembro de 2007

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1 Comentários:

At 13:03, Blogger José Ferrão disse...

O PS executa, no poder, aquilo que votou contra, quando era oposição; e depois, a "agenda" dos sindicatos é que não é da educação!

Agarra, que é ladrão!

 

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