segunda-feira, dezembro 17, 2007

Yves Smith - Liquidez e inflacção

Notas de banco

Andy Xie, que foi economista-chefe da Morgan Stanley até ao ano passado (aparentemente, tornou-se impopular por ser demasiado cândido para com Singapura), criticou sem rebuços a decisão tomada na semana passada pelos bancos centrais sobre uma nova infusão de liquidez, no artigo do Financial Times intitulado "É tempo de os bancos centrais pararem de salvar os nossos mercados".

A conclusão de Xie é a de que a crise foi provocada por uma intervenção especulativa: salvar os irresponsáveis apenas os encoraja a prosseguir as suas acções. Também se referiu ao medo das autoridades pela recessão, que teria o salutar efeito de apertar a multidão. Não sendo estes comentários uma novidade especial, à parte o reconhecimento de que a acção dos bancos centrais está a alimentar a crise inflaccionária, são eloquentes e sugestivos.

É de notar que alguns comentadores classificaram como menor a intervenção da Federal Reserve (FED - banco central dos Estados Unidos da América); a Brad DeLong observou a propósito que o último movimento foi precedido de um disparo dramático do ritmo de atribuição de fundos pelo FED.
(Yves Smith)



Do Financial Times:
A bolha do crédito global está a estoirar. Esta bolha é alimentada, em primeira instância, pela aplicação de fundos próprios em operações financeiras nominalmente de alto rendimento associado ao risco elevado. Os responsáveis pelo que aconteceu jogaram com o dinheiro de outrem, negociaram produtos financeiros arcanos por meio de falsas promessas de lucros chorudos, mas encheram os seus bolsos com bons prémios. Nem estes mestres do universo, nem os seus ávidos e ingénuos investidores merecem ser salvos. Merecem tudo o que lhes aconteceu.

Os banco centrais partilham igual responsabilidade na situação que se criou. Depois do 11 de Setembro de 2001, os bancos centrais reduziram drasticamente as taxas de juro, proporcionando dinheiro barato para fazer crescer a bolha. Não deveriam inundar novamente o mundo com liquidez para suster esta bolha e criar a próxima. Os bancos centrais deveriam concentrar-se na estabilidade dos preços e promover liquidez apenas suficiente para conter a escalada dos efeitos na economia devidos à explosão da bolha.

Tampouco deveriam os bancos tentar evitar a recessão a qualquer preço. Os ciclos de negócios não são maus. Aos tempos altos devem seguir-se os baixos. A última fase de crescimento durou demasiado devido ao efeito de estímulo da bolha. Após quatro anos de uma taxa de crescimento global de 5%, uma recessão moderada é um pequeno preço a pagar. Se, em resposta à crise actual, os bancos centrais estimularem a bolha a crescer novamente, os actos irreflectidos na economia global agravar-se-ão e tornar-se-ão mais penosas as medidas correctivas.

Nos últimos cinco anos, a bolsa de Nova York (Wall Street) mudou radicalmente e, porventura, não para melhor. O colapso das agências promotoras de negócios obrigou os bancos a apostar os seus activos para conseguir receitas, vendendo produtos combinados de "altas margens" aos seus clientes. A sua ânsia de vender produtos novos e mal compreendidos, tais como derivados de hipotecas sub-prime, é um factor preponderante na génese da crise actual. Com já aconteceu na crise dos anos de 1980, a Wall Street arrisca-se a ser processada legalmente nos próximos anos.

As agências de classificação do risco de crédito partilham a culpa. Forneceram indicadores de alta segurança aos derivados das hipotecas de casas baseados na longevidade das prestações cobradas. Infelizmente, o comportamento do conjunto dos devedores depende de condições macro-económicas. Logo que os preços das casas desceram significativamente, as prestações dos empréstimos tenderam a descer e a longevidade deixou de valer grande coisa. Como em crises anteriores, as avaliadoras do risco de crédito comportaram-se como negociantes de ocasião. As análises de risco são supostas servir de guia aos investimentos em maus tempos, não para serem aplicadas quando a situação se torna crispada.

O inchaço dos fundos industriais são igualmente culpados. Quando estes fundos se tornaram enormes, os gestores concentraram-se nos 2% dos seus salários em vez de participarem nos investimentos produtivos. Assim, trataram de arrecadar activos super-promissores.
Enquanto não chegar a hora da verdade, poderão reportar os lucros que entenderem. Quando isso acontecer, não conseguirão vender o que têm e ainda terão que recusar o resgate.

Se os bancos centrais tentarem salvar Wall Street, provocarão uma inflacção alta durante anos. O efeito inflaccionário de uma política despesista no passado foi compensada pelo efeito deflaccionário da globalização. Agora a China e outros países em vias de desenvolvimento já sofrem uma inflacção alta e em crecimento. Dinheiro mal gasto irá directamente para a inflacção. O círculo vicioso da espiral de salários e preços de 1970 não regressará enquanto o trabalho e o capital acreditarem no poder dos bancos centrais em conter a inflacção. Se isso for descurado para salvar a Wall Street, essa confiança pode ser desperdiçada. A espiral de salários e preços que se seguiria poderia arruinar a economia global por anos.

Esta é uma oportunidade de os bancos centrais restabelecerem a sua credibilidade. Os mercados tomaram mais riscos que deveriam, porque contaram que os bancos centrais os salvariam em tempos de crise, como agora. A declaração de Alan Greenspan, ex-presidente do FED, de inundar o mercado com liquidez em períodos de instabilidade financeira está na origem desta crença que "o banco central põe". Enquanto esta espectatitiva existir, as bolhas financeiras reaparecerão. Agora é tempo de agir. Deixemos os torpes ir para a bancarrota. Os bancos centrais deveriam enterrar de boa mente o "põe" de Greenspan.


in Andy Xie Criticizes Central Bank Liquidity Infusion
publicado por naked capitalism em 14 de Agosto de 2007

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