terça-feira, fevereiro 19, 2008

Le Club des Cent (2)

O Senhor Bébéar

Ecole Polytechnique"Em França a Administração não despede o Chief Executive Officer (CEO) com a mesma facilidade que nos EUA", disse o Sr Bébéar. "Pensamos que o CEO é responsável, porém despedi-lo de repente não é a melhor maneira de melhorar as coisas."

O Sr Bébéar, que adquiriu larga experiência nos EUA com a compra que a AXA fez de conhecidas firmas americanas tais como a Equitable Life Insurance e a Mutual of New York, disse também que "por vezes, sinto que o CEO é o bode espiatório no vosso país".

Para se chegar ao escritório do Sr Bébéar, os visitantes atravessam um átrio de vidro ultramoderno numa das artérias mais encantadoras de Paris, a Avenida Matignon, e entram numa mansão privada construida em 1767. O frémito high-tech do átrio rapidamente desaparece quando entramos no grande salão, onde sobressai um candelabro de cristal de Luis XVI, espelhos debraodos a ouro e cadeiras e sofás vermelhas e verdes.

O escritório do Sr Bébéar é igualmente faustoso e, como convém, este senta-se numa cadeira talhada da era de Luis XV, o Rei Sol. O celebrado estatuto régio atribuido a executivos dos EUA tais como John F. Welch Jr, ex-presidente da General Electric, empalidece face ao esplendor dos titãs da finança e indústria francesa.

"O CEO de uma companhia francesa é mais monarca que nos EUA", disse o Sr Bébéar. Desenvolvendo o tema, comparou os chefes executivos da França ao rei iluminado de Voltaire, ou "le monarque eclairé". No interior da França, o Sr Bébéar, agora com 72 anos, é tão da realeza como um rei.

"A imprensa trata-o como o padrinho do capitalismo francês. Ele é emblemático," diz Philippe Favre, presidente da Invest em França, uma agência governamental que encoraja companhias estrangeiras a fazer negócios em França.

Embora o Sr Bébéar construisse a AXA nos anos de 1980 e 1990 por meio de aquisições ousadas, o poder que agora disfruta vem-lhe de ligações com administrações empresariais onde trabalha e de amizades estreitas conseguidas em organizações como o Clube des Cent - além de anfitrião de festas sociais na sua propriedade próxima de Orleães. Como outros membros do situacionismo, tem muitos conhecidos seus comprometidos no affair Société Générale, de uma forma ou de outra.

Por exemplo, Jean-Martin Folz, o membro da administração da Société Générale que dirige a investigação interna sobre os prejuizos, também é membro da administração da AXA. O Sr Bébéar, entretanto, participa na administração do BNP Paribas, o maior banco francês sobre o qual há rumores de preparar uma oferta pública de aquisição à Société Générale. O presidente do BNP Paribas Michel Pébereau, por sua vez, é também membro da administração da AXA. Todos os três frequentaram a mesma escola, a École Polytechnique.

"É um universo reduzido", reconhece Jean René Fourtou, o presidente da Vivendi, o colosso francês do entretenimento, um conhecido próximo do Sr Bébéar e membro da administração da AXA.

O Sr Fourtou, igualmente graduado pela École Polytechnique e membro do Club des Cent, relembra o papel de Bébéar na sua decisão de tomar posse como presidente da Vivendi em 2002, no período em que a empresa havia caído num depressão financeira profunda associada à espiral de aquisições das dot-com.

"Inicialmente, recusei o trabalho", esclarece o Sr Fourtou. Mas num jantar no Hotel George V, o Sr Bébéar e o Sr Giscard d'Éstaing (outro aluno da École Polytechnique) tê-lo-ão persuadido a dirigir a Vivendi. Rapidamente se concentrou na empresa, tornando-a num dos negócios mais bem sucedidos nos últimos anos.

"Disseram-me que tinha que ir", recorda, tendo-se sentido pressionado para ir para a Vivendi. "Senti-me obrigado".

Quanto á crise que a Société Générale vive actualmente, o Sr Fourtou diz que é melhor que o Sr Bouton não parta já. Mas esclarece que não afirma isto por consideração para com o Sr Bouton, por convivência no Club des Cents ou por quaisquer laços.

"Se mudares o presidente imdiatamente, espalhas confusão a um problema que está localizado", afirma. Também afirma que o apoio da Société Générale ao Sr Bouton faz sentido: "A administração tomou a decisão certa, e não por causa da solidariedade".

Ainda que jantar e discursar num jantar em um dos restaurantes com estrelas Michelin possa parecer um epítome de um modo de vida aristocrático - em cada refeição, um dos membros do Club des Cent, investido como "Brigadier", faz a apresentação da selecção de pratos e de vinhos; um outro faz as apreciações críticas - muitos membros provêm de origens relativamente modestas.


NELSON D. SCHWARTZ and KATRIN BENNHOLD in
In France, the Heads No Longer Roll
publicado pelo The New York Times em 17 de Fevereiro de 2008

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