quarta-feira, fevereiro 20, 2008

Le Club des Cent (3)

Uma elite de adventícios

Elite francesaO Sr Fourtou, por exemplo, cresceu na região basca de Espanha junto do seu avô, que não frequentou a escola, e durante um curto período dirigiu um jornal e quiosque de livros para ajudar a família da sua mulher, após a sua formação na École Polytechnique.

"Cresci nem pobre nem rico," afirma o Sr Fourtou. "O meu pai foi um professor de matemática." Também os pais do Sr Bébéar foram professores na região da Dordonha, a Sudoeste da França.

Em vez de um sistema rígido de classes, foi a admissão do Sr Fourtou e do Sr Bébéar na École Polytechnique que garantiram os seus lugares dentro da elite. Isto é, por outro lado, uma das grandes ironias do situacionismo francês: ao mesmo tempo de gozam de privilégios análogos aos da elite dos Estados Unidos, a entrada na elite francesa é, no mínimo, de teor meritocrático muito mais acentuado, baseada em exames e selecções cada vez mais afunilados desde uma fase muito precoce.

O acesso à Universidade de Harvard, restringido a 9% dos candidatos, é uma suave aragem quando comparado à entrada na École Polytechnique.

Em França, dos 130 mil alunos que optam pelas áreas de ciências nas escolas secundárias, só cerca de 15 porcento conseguem nota nos exames suficiente para se candidatarem aos cursos de dois ou três anos de preparação para as universidades de elite. Dos que conseguem, 5 mil candidatam-se à École Polytechnique, referida simplesmente por "o X", e destes apenas 400 provenientes da França conseguem entrada.

A admissão é estritamente baseada nos exames dos cursos preparatórios; não há sequer um teste ou entrevista. E também não há admissões por desempenhos escolares extemporâneos, desportivos ou de outra ordem, para curto-circuitar as dificuldades de entrada "no X", tão usuais aqui nos Estados Unidos.

"Podes ser mesmo sobrinho do presidente, para entrares isso em nada te ajudará", diz Bernard Oppetit, um graduado do X de 1978 que trabalhou mais tarde no BNP Parisbas, antes de fundar a "Capital Centaurus", um fundo de investimentos londrino que gere uma carteira de 4 mil milhões de dólares.

A École Polytechnique foi fundada em 1794, durante a Revolução Francesa, para treinar os engenheiros militares franceses, e oficialmente permanece debaixo da tutela do ministro francês da Defesa. Não só esta escola é gratuita, como os seus estudantes recebem uma bolsa do governo para suportarem as suas despesas.

"Chamamos-lhe elitismo democrático," diz Pier Tapie, decano da Essec, uma escola de topo em gestão. "Estes são lugares em que podes encontrar-te com gente extraordinária, que estão lá porque se esforçaram muito e, entre eles, estão os elementos mais brilhantes de uma geração."

Ainda que a escola ministre temas dos mais avançados, tais como física, engenharia e ciências de computação, o seu propósito mais lato é o de criar quadros dirigentes que partilhem uma visão ordeira, hierarquizada do mundo, afirma Xavier Nichel, o presidente da École Polytechnique e general francês no activo dentro das forças armadas.

Em França, isto é conhecido como o sistema cartesiano, em homenagem ao filósofo René Descartes, e o Sr Michel encoraja os seus estudantes a "modelar" o mundo. Quando eventualmente se tornam directores executivos, assevera, "eles compreendem as capacidades das suas empresas. Sabem o que podem e o que não podem fazer."

Até ao momento, claro, em que o modelo começou a descarrilar - como acontece muitas vezes no mundo dos negócios e da finanças, qualquer que seja o país onde se exerçam.

O prejuizo de sete mil milhões de dólares provocado pelo Sr Kerviel não podia ter sido previsto por qualquer modelo, nem que fosse elaborado pelo próprio Descartes. Esta é uma razão pela qual a história da Société Générale representou um choque tão grande no situacionismo francês, que se orgulha da sua capacidade de previsão e respeito pela ordem que o Sr Michel instila nos seus estudantes.

Entre o povo francês indiferenciado, por outro lado, os destinos tão diversos do Sr Kerviel e do Sr Bouton reforçam o cepticismo nos valores do mercado livre cada vez mais apregoados pelos dirigentes dos negócios e também pelo nómada de circunstância, política e economicamente mais relevante, o Presidente Sarkozy.

NELSON D. SCHWARTZ and KATRIN BENNHOLD in
In France, the Heads No Longer Roll
publicado pelo The New York Times em 17 de Fevereiro de 2008

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