terça-feira, fevereiro 26, 2008

Maria de Lurdes Rodrigues no Prós e Contras

Já lá vai o tempo em que a Ministra da Educação impunha como condição para participar no Prós e Contras a não comparência da Fenprof. A expulsão de Correia de Campos por incapacidade de gerir a imagem pública do governo a isso obrigam. Neste ponto estamos. O ambiente não está favorável a soluções de demasiado conforto governativo. Assim, para Maria de Lurdes Rodrigues, excluir a Fenprof com os professores todas as semanas na rua was not an option.
Os tempos também estão diferentes noutro aspecto. A torrente legislativa foi planeada para apresentar resultados na próxima campanha eleitoral do Partido Socialista e, nesse aspecto, está completa. Agora trata-se de gerir os estragos entre os professores com a confiança de quem tem a bota em cima, altura em que um sorriso seráfico nos lábios fica sempre muito bem.
Este foi o contexto em que decorreu o debate de ontem na RTP1.
Afinal, a missão até não foi assim tão difícil de levar a cabo. Valeu a experiência da equipa de realização para ocasiões como esta.
Não houve propriamente debate: para isso, além de argumentos passíveis de serem rebatidos, teria que haver também a oportunidade de réplicas. Ora, à excepção da ministra, que teve todas as oportunidades de se referir a cada um dos pontos específicos na altura que achou melhor, nenhum dos demais participantes teve idêntico direito. Estes últimos limitaram-se a procurar sintetizar na medida do possível um conjunto complexo de questões dentro dos poucos minutos que lhe estavam destinados e depois disso assistir calados o resto do tempo.
A fase em que o debate chegou também não foi inocente. Não se tratava de procurar agora centrar o discurso na incongruência do sistema de quotas para promover o mérito entre os professores. Nem de trazer ao de cima os subtis mecanismos de adulteração dos resultados escolares que explicam que as repetências (ou chumbos, em português mais corrente) apareçam em grande número nos anos seguintes ao do ensino obrigatório. Nem de apreciar as falácias da entrada dos elementos externos na gestão, inclusivamente pedagógica, das escolas. Nem de evidenciar as mazelas que programas desarticulados provocam ao trabalho dos professores. Nem mostrar o desprezo que os responsáveis do Ministério da Educação nutrem pelas condições de êxito do trabalho na aula, forçando a sua duração aos noventa minutos. Nem de explicar ao público geral a demagogia do discurso meritocrático, quando as peças legislativas definem corredores VIP para os lugares de maior poder sobre a escola. A catadupa de medidas foi de tal modo arrasadora, que tudo teria que ser feito ao mesmo tempo, por professores que vieram de todos os pontos do país, sem tempo para concertarem entre si os tópicos que cada um deveria expôr.
Os professores foram apresentados à opinião pública como os responsáveis pela situação do ensino. Esta acusação procura retirar, uma vez mais, a responsabilidade das estruturas ministeriais presentes e passadas: não cabia aos professores a regulamentação da lei velha de quinze anos definindo os mecanismos precisos da avaliação; não foram os professores que desarticularam os programas; não foram os professores que permitiram que livros escolares sem qualidade fossem postos no mercado; não foram os professores que retiraram os exames do ensino obrigatório. O sarilho está demasiado embaraçado para que agora tudo possa ser escalrecido de uma assentada. Ficar comodamente sentado a registar a exaltação que estas condições gravosas provocam a qualquer profissional que respeite e estime o seu trabalho, deixando-se seduzir pela calma cínica da ministra, é a melhor maneira de continuar a iludir os problemas e a prolongar desnecessariamente a actual situação.

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10 Comentários:

At 17:46, Blogger espumante disse...

Vais desculpar-me mas este post mostra um António Ferrão naquilo que eu chamaria nas suas sete quintas, com uma torrente de questões... encavalitadas e à bolina de uma maré contestatária, como gostas. Assim sendo, vou apenas repicar (termo agronómico...) alguns pontos:

1) - Já lá vai o tempo em que a Ministra da Educação impunha como condição para participar no Prós e Contras a não comparência da Fenprof - Quantos sindicatos têm os professores? Quais os critérios que regem ou deveriam reger a concordância de um Ministério em negociar com o sindicato A ou sindicato B? E poquê a Fenprof? Tem tratamento especial em relação aos outros sindicatos?

2) - Ora, à excepção da ministra, que teve todas as oportunidades de se referir a cada um dos pontos específicos na altura que achou melhor, nenhum dos demais participantes teve idêntico direito. - Não entendi bem... mas a ministra não deveria ter todas as oportunidades para se referir a cada um dos pontos específicos na altura em que achou melhor? Deveria haver pontos que a ministra não deveria comentar? Quanto á afirmação de que os demais participantes não tiveram idêntico direito é, simplesmento, mentira. Todos os inscritos falaram. Alguns falaram até demais, ocuparam tempo com vulgaridades da treta (vide o mocinho do Norte de que gostaste muito e que achaste que "os tinha no sítio") e a mocinha nervosa da Ericeira a quem foi necessário desligar o microforne ainda ela ia na liberdade, fraternidade e blá blá blá vulgaridade qualquer para a qual já não há paciência para além da manifesta falta de educação da senhora. Uma senhora que é suposta educar.

3) - Não houve propriamente debate: Então o que é que houve?

4) - Nem de apreciar as falácias da entrada dos elementos externos na gestão, inclusivamente pedagógica, das escolas - Falácias? Mas um não professor que dirija ums escola é um elemento externo? Ou caimos na, essa sim, falácia, de achar que um director escolar ou um gestor de uma escola tem necessariamente que ser um professor?

5) - A fase em que o debate chegou ... - mas afinal houve debate ou não houve debate (ver alínea 3)????

6) - Nem de explicar ao público geral a demagogia do discurso meritocrático... : demagogia do discurso meritocrático???.... o á vontade e a superioridde displicente com que a esquerda se entrega à criação vocabular são uma coisa extraordinária. É assim com o economicista, com o tremendismo e o catastrofismo... esta do meritocrático, confesso que ainda não tinha reparado. Mas reconheço-lhe a estética retórica. Mas convenhamos. Afinal o mérito serve para quê? Se as carreiras devem ser julgadas por... por... por quê? Nem sei bem... antiguidade, como na tropa? Contexto doutrinário?

7) - Os professores foram apresentados à opinião pública como os responsáveis pela situação do ensino - Não dei por isso... mas está bem, ficamos assim!

8) - não foram os professores que permitiram que livros escolares sem qualidade fossem postos no mercado: Não?

9) - O sarilho está demasiado embaraçado para que agora tudo possa ser esclarecido de uma assentada - está sim senhor. E há responsáveis. Basta recordar duas ou três décadas atrás. E atentar nas barbaridades que se cometeram fazendo do aluno e da escola cobaias para as mais destemperadas experiências políticas e pedagógicas (???), umas vezes. Outras, apenas por grosseira incipiência política e ideologias idiotas. O resultado está aí à vista de todos. Muitos não querem ver, outros, mais jovens, estão demasiados excitados com o protagonismo advindo do tal sarilho e sonham com o clímax que está aí ao dobrar da equina.

Foram apenas alguns pontos. Que não could help
Um abraço

 
At 22:31, Blogger António Chaves Ferrão disse...

Ilustre visita por este canto. Muito obrigado.
Um abraço

 
At 19:56, Blogger António Chaves Ferrão disse...

Espumante, cool down
1) A Fenprof é apenas o maior sindicato de professores. Negociar não é escolher o interlocotor (penso eu).
2) Houve pontos que a ministra não comentou e outros que comentou fora da agenda. Simplesmente escolheu, não apenas o que quis comentar, como a oportunidade para o fazer. Tudo o resto: uma intervenção simples sem direito a réplica (quer a ministra entendesse tocar no assunto, quer não). Quem disse "que os tinha no sítio" não fui eu.
3) Houve formalmente um debate, mas de nível zero no capítulo de encontro/confronto de ideias. O formato não permitiu mais.
4) Que tal um director desportivo à frente de uma brigada do exército em campanha? Afinal, tem experiência de gestão. Ou talvez um passageiro a dirigir a torre de controlo do aeroporto.
Mais a sério: Já vi médico a dirigir o Instituto Geográfico e Cadastral; engenheiro a dirigir a saúde e muito mais. Bem gostaria que a gestão da coisa não fosse desprendido do conhecimento da coisa. Mas isto sou eu, um pouco quadrado. A actual situação configura, aos meus olhos, uma visão de Portugal como amontoado desordenado de coutadas para distribuir galhardamente pelos ávidos boys, na expressão feliz um ex-secretário geral do PS.
6) Distinguir o mérito tem bem pouco a ver com a legislação que foi promulgada. É, nomeadamente, incompatível com:
anunciar os resultados de antemão (questão das cotas)
estabelecer critérios não mensuráveis, mais propícios a alargar o grau de discricionaridade e subjectividade do avaliador
burocratizar o processo de avaliação de tal forma que, para ser cumprido, exija a paralização da escola (é o próprio professor Marcelo Rebelo de Sousa que o afirma)
8) Um autor de um livro pode ser professor, mas nesse caso á ambas as coisas e cada uma no seu lugar. Pode ser avaliada a sua actividade enquanto professor, mas também enquanto autor. Se escreveu um manual didactico que foi adoptado contendo erros, trata-se de erros de autor se se propagarem para além das suas aulas. É a categoria colectiva de autor que fica manchada em primeira instância. Claro que a responsabilidade da propagação ficará dividida por outros agentes, que podem ser professores. Mas sabes que, pelo menos para os professores mais jovens, sem grandes recursos bibliográficos, as defesas contra erros formais dos manuais são reduzidas.
9)destemperadas experiências políticas e pedagógicas
Responsabilidade dos ministros e das restantes equipas ministeriais. Mais uma razão para começarem a colocar pessoas que sabem do ofício à frente dos organismos (fugindo ao Portugal das coutadas). Agora, assacar aos executores das políticas a responsabilidade da sua definição, deixando na sombra aqueles que as definiram é que não vale.

Volta sempre

 
At 21:28, Blogger José Ferrão disse...

Sem querer lançar achas para a fogueira, posso acrescentar que os professores para avaliar alunos, foi-lhes exigida formação específica;
o mesmo ministério que fez essa exigência, pretende agora obrigar os mesmos professores a avaliar professores, sem terem formação para tal;
e o próprio ministério ao deixar escapar os prazos para constituir os níveis intermédios de avaliação, e publicar os instrumentos legais que foram previstos, está a lançar a mensagem de não ter, ele próprio, preparação para realizar essa avaliação;
finalmente, a cereja no topo do bolo é lançar como de costume, a ideia de que a culpa é dos professores, que se recusam a ser avaliados.

 
At 22:11, Blogger José Ferrão disse...

Este é o António Ferrão que eu conheço.

 
At 22:50, Blogger TsiWari disse...

Parece-me que, aos olhos de quem não é professor, a coisa ainda passa... como sendo profissional e bem intencionada.

A quem é professor, e algo isento, já há muito que lhe vimos o objectivo. - €€€€€€€€€€€€€€€€€€


Gostei da análise. ;)

 
At 08:14, Blogger António Chaves Ferrão disse...

TsiWari:
coisa passa como sendo bem intencionada.

So far. Mas cada vez menos :)

 
At 16:53, Blogger espumante disse...

Este comentário foi removido pelo autor.

 
At 17:02, Blogger espumante disse...

1) - Negociar não é escolher o interlocutor. Mas, havendo tantos, nada me obriga, sendo ministro, a privilegiar qualquer que ele seja, sobretudo quando se trata, como é o caso, de um sindicato umbilicalmente ligado à CGTP, logo, PC. Não havendo, como presumo, uma maioria de professores comunistas, pergunto-me das razões da abulia dos professores em geral em não reagirem ao facto de se manterem ligados e serem representados por uma federação que actua na mais perfeita ortodoxia partidária e, factor não despiciendo, mantendo quadros dirigentes há dezenas de anos, à custa dos contribuintes. A menos que haja uma maioria comunista na classe e, aí, terei de aceitar o facto, ainda que, naturalmente, chorando a sorte das criancinhas que deveriam ser poupadas a essa provação.

2) Convenhamos que uma barragem de perguntas requer alguma organização e método na resposta.
Realmente não foste tu que disseste que o professor do norte os tinha no sítio. Peço desculpa. Só disseste que ...Só 4/10 para o representante dos Professores Revoltados? É muito castigador para um jovem com garra, que ademais foi dos poucos que concretizou situações... no comentário nr. 3 do post "Balanço do Debate" no "A educação do meu umbigo", de 26/2.

3) Até sou capaz de concordar contigo. Resta saber é se o nível zero se deveu ao perfil da ministra ou ao perfil dos opositores. Pelo menos de alguns dos opositores. De resto, apercebi-me de que a ministra não se furtou a perguntas e teve uma surpreendente calma e elevação a responder sem perder as estribeiras. São maneiras de analisar a coisa...

4) Não percebo o teu espanto. Um médico não é necessariamente um bom gestor. Daí que um gestor seja provavelmente uma melhor aposta que o médico na gestão de um hospital. E este princípio é aplicável a qualquer actividade, acho eu.

5) - Sem assunto. Saltaste para o 6.

6) - Normalmente Marcelo é um beato católico apostólico romano, consevador bafiento e tiozoco vaidoso. Quando diz algo que sai bem aos interesses de cada um é logo citado... Quanto à forma de avaliação do mérito, não vou por aí, não conheço o sistema, já disse mil vezes que não estou por dentro do conflito. O que verifico é que também ninguém me explica...

7) - Também sem assunto. Saltaste para o oito.

8) - Por acaso eu não me estava a referir a esse aspecto que focas, estava a referir-me mais à venalidade e promiscuidade que se sabe sempre existiu entre professores (alguns, claro) e editoras, no sentido de se mudarem os manuais todos os anos. Há quem receba até, ou recebesse, royalties pelas vendas. Mas isso, os professores sabem melhor que eu. Daí que acho desonesto que a pergunta que fizeste sirva para bombardear a ministra.

9) - Concordo plenamente contigo. A questão põe-se, repito, no facto de ainda ninguém me ter explicado verdadeiramente quais são as malfeitorias da senhora.

Um abraço para ti e desculpo-te a trabalheira que me deste em andar de post para lá e para cá

 
At 19:25, Blogger António Chaves Ferrão disse...

Espumante
1)Registo facto de estares de acordo com o nível dialogante da Ministra.
2)O formato do programa tornou impossível qualquer réplica por outro elemento que não fosse a ministra.
O que disse do jovem, mantenho.
3)Não vi muita gente a perder as estribeiras. De qualquer modo, quando um calo está a ser pisado por uma bota pesada, é mais fácil manter a calma se o pé de cima fôr o nosso, não achas? Foram levantadas questões que a ministra não respondeu: o concurso para professores não foi de molde a promover os mais aptos, a formação para professores avaliadores é necessária, o regime que o ministério está a impôr às escolas não está pensado para diferenciar positivamente os melhores alunos, antes para impôr o facilitismo que se traduza em sucesso estatístico sem correspondencia nos conhecimentos e por aí fora.
4) Que tal um médico a gerir o Instituto Geográfico e Cadastral: isto não é ficção, é apenas o jobs for the boys à descarada (por acaso, no tempo em que Cavaco foi Primeiro Ministro).
5) Já disse que formalmente houve debate, mas funcionalmente não.
6) Se pensas que Marcelo Rebelo de Sousa exagerou ao afirmar que o processo de avaliação paralisa o funcionamento das escolas, deves, pelo menos, fundamentar a tua resposta, demonstrando que ele está enganado. Chamar nomes ao homem nada adianta à conversa.
7)Andas algo distraido.
8) Por lapso disseste novamente professores quando te referias a autores. Caramba, é pedir demais, ser algo criterioso nas expressões?
9) Malfeitorias da senhora, na boca de um não não suspeito de ser comunista, antes próximo das tuas simpatias políticas:
A Reforma pela Reforma.

Um abraço

 

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