domingo, março 23, 2008

Maria Lisboa versus David Justino

Conhecer a realidade é difícil; descrevê-la ainda mais. Neste mini-debate de blogs é nítido o contraste entre uma posição presa ao quadro gurwitchiano da tecno-burocracia - o presente como reinstância cíclica do passado - com outra que procura realçar vivamente os traços da situação actual, para que um dia seja possível ultrapassar colectivamente e conscientemente as dificuldades do presente. (AF)


A educação e os discursos com barbas

Não imaginam o quanto se torna penoso ouvir alguns discursos sobre o "actual" estado da educação em Portugal. Alguns deles chegam a raiar a ignorância compulsiva e uma incrível falta de imaginação, até para melhor disfarçar essa ignorância. O império do senso comum, a falta de leitura, de estudo, de trabalho rigoroso e de opiniões fundamentadas sobre os problemas da educação transformaram as últimas semanas numa insuportável "bancada central" onde todos têm o direito a emitir opinião, todos se sentem capacitados para "achar" sem que se note qualquer laivo de sensatez, conhecimento e de rigor sobre aquilo que se "acha".
Nessas alturas refugio-me nas leituras, no conforto do tempo distante, naqueles cuja inteligência e capacidade de pensar os problemas não nos deixam dormir sossegados sustentando esta inquietude incorrigível de que não me consigo libertar.
Fui à estante buscar o Oliveira Martins e abri nos escritos sobre o "estado da educação" publicados em O Repórter, no ano de 1888. Deixo-vos apenas alguns excertos deliciosos:

22 de Junho de 1888
Resta saber que espécie de homens se estão formando nas famosas escolas leigas, e com o ensino estapafúrdio dos nossos liceus. (...)
Este estado de espírito é o dos que, apesar de livres pensadores, acham preferível confiar a educação dos filhos aos jesuítas.

24 de Agosto de 1888
O grande defeito do ensino oficial português está em que os compêndios são maus, os professores piores, e os programas, trasladados das escolas europeias, seriam excelentes por vezes, se não fossem puras hipóteses burocráticas. (...)
... os próprios progressos do ensino são uma nova causa de cretinização. (...)
Um facto universalmente conhecido é a progressiva ignorância das gerações que o ensino oficial vai preparando. (...)
A Indústria dos compêndios escolares viça à custa dos cérebros das crianças e das algibeiras dos pais.

Tudo é tão recorrente. Andamos há muito mais de um século a dizer o mesmo e o que é mais grave é que acreditamos naquilo que dizemos.
Chega por hoje.

David Justino in A educação e os discursos com barbas,
publicado por 4R - Quarta República em 14 de Março de 2008




Resposta aos "discursos com barbas" de David Justino

E se começássemos por achar que a escola para todos não é apenas um direito para quem dela usufrui, mas também o cumprimento de um dever face à sociedade que a disponibiliza?

Como ninguém parte deste princípio, alunos e famílias sentem-se no direito de exigir, mas não no dever de dar nada em troca.

Quando for, socialmente, possível exigir atenção, comportamentos adequados, interesse e participação na aula, estudo e trabalho de casa, ida aos apoios disponibilizados nas escolas (a que os alunos faltam constantemente) peçam satisfações aos professores.

Quando a escola for socialmente valorizada como local de aprendizagens e não como local onde se colocam as crianças, sem que se lhes possa exigir trabalho (porque os "meninos" se cansam muito) peça-se satisfações aos professores.

Pode-se castigar os professores introduzindo mil e um diplomas:
  • em que se preveja avaliação exaustiva do cumprimento dos seus conteúdos funcionais;
  • em que se sobrecarregue o professor com montes de aulas de apoio, de substituição, de projectos de escola, de elaboração de relatórios para desmotivar as retenções, de reuniões de trabalho;
  • em que se institua a figura de director para funcionar com um papão;
  • em que se pretenda criar conselhos de escola que passarão a gerir toda a actividade escolar incluindo a pedagógica subordinando-a à administrativa;
que os resultados reais, respeitantes ao insucesso, não se modificarão, mesmo que as estatísticas se alterem.

Enquanto:
  • não for decidido socialmente que cidadão se quer que a escola forme;
  • não forem revistos os conteúdos necessários à formação desse cidadão;
  • não for implementada uma diversificação para aquisição desses conteúdos, dando possibilidade aos alunos/famílias de escolha de vias diferenciadas para a sua formação (a maioria não quer ser “doutor” e o ensino está todo vocacionado para essa via);
  • a sociedade não deixar de desculpar o aluno, considerando-o como uma vítima, e não como um agente activo no seu processo de aprendizagem;
  • se tentarem implementar reformas em cima de reformas sem que qualquer delas seja aferida e avaliada (ainda não acabámos de implementar uma, já outra está a surgir – não há escola que aguente);
  • não houver um “pacto de regime no âmbito da educação” que permita uma continuidade do trabalho, independentemente do governo/ministro que de momento governa o país;
  • não se parar de fazer reformas enrolando sempre o sistema sem se tratar do núcleo principal;
  • … enquanto não se parar para pensar qual é mesmo o problema;
não haverá resultados palpáveis em educação. Não haverá professor que os consiga, a não ser que trabalhe em escolas com determinadas elites sociais.

Quando se compara com outros sistemas, convém analisá-los para perceber quais as diferenças e não importar fatias para implementar num sistema que nada tem a ver com os outros. Um sistema é um sistema porque constitui um todo… não pode ser remendado!

Desculpem-me "achar" tanta coisa, mas estando no terreno (ainda por cima num "terreno acidentado") e não nos gabinetes "acho isto tudo"!


Maria Lisboa, em Resposta aos "discursos com barbas" de David Justino,
publicado por Professores Sem Quadro em 17 de Março de 2007

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4 Comentários:

At 03:23, Blogger Maria Lisboa disse...

:)

 
At 13:16, Blogger J Francisco Saraiva de Sousa disse...

António Serrão

De facto, lendo Oliveira Martins ou Joel serrão ou tantos outros ficamos com a impressão que tudo é recorrente: o eterno retorno do mesmo, não só no ensino, mas também noutras matérias. Podemos interpretar isso como uma incapacidade nacional de mudar de rumo! Portugal deseja ser "grande" mas não consegue... Porém, apesar da tirania da opinião voluntarista, é bom o ensino estar na agenda da discussão nacional: o discurso dos números deve ceder legar ao discurso das ideias e da qualidade.

 
At 13:18, Blogger J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Peço desculpa pelo lapso: António Ferrão. Deve-se ao J. Serrão! :) E onde esta "legar" é "lugar".
Abraço

 
At 21:55, Blogger António Chaves Ferrão disse...

Caro J Francisco Saraiva de Sousa
Quando afirma:
"...o discurso dos números deve ceder legar ao discurso das ideias e da qualidade."
Não podia estar mais de acordo consigo.

 

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