sexta-feira, junho 27, 2008

S Wang & S Aamodt - O teu cérebro mente-te

Hipocampo

Convições falsas há por todo o lado. Uma sondagem mostrou que dezoito porcento dos americanos pensam que o Sol gira à volta da Terra. Um pouco menos egrégia, outra sondagem mostrou que 10 porcento dos nós estão convencidos que Barack Obama, um cristão, é muçulmano. A campanha de Obama criou um sítio na internet para remover as falsas informações. Porém, este esforço poderá ser maior do que parece, dadas as subtilezas com que o nosso cérebro armazena as informações - e nos induz em erro a cada passo.

O cérebro não se limita a captar e empilhar a informação, como faz o disco duro de um computador. Os factos são inicialmente memorizados no hipocampo, uma estrutura bem imersa no interior do cérebro, com a forma e dimensão aproximada de um dedo mindinho encolhido. Mas a informação não permanece aí. De cada vez que a relembramos, o nosso cérebro volta a reescrevê-la e durante o rearmazenamento ela é também processada. No devido tempo, o facto é gradualmente transferido para o cortex cerebral e desprendido do contexto inicial com que foi percebido. Por exemplo, podemos lembrar-nos que a capital da Califórnia é Sacramento, mas talvez não nos lembremos de onde aprendemos isso.

Este fenómeno, conhecido como amnésia da fonte, pode também levar a que alguém se esqueça se uma afirmação é verdadeira. Mesmo quando uma mentira é acompanhada de um desmentido, acontece muitas vezes ser recordada mais tarde como uma verdade.

Com o passar do tempo, estes lapsos só pioram. Uma afirmação falsa produzida por uma fonte não-credível, que não é aceite inicialmente, pode ganhar credibilidade nos meses que decorrem de reprocessamento da memória desde a breve memorização no hipocampo até ao armazenamento a longo prazo no cortex cerebral. À medida que a fonte é esquecida, a mensagem e as suas implicações ganham novo vigor. Assim se pode compreender como, por exemplo, demorou algumas semanas até que a campanha movida pelo Swift Boat Veterans for Truth contra o senador John Kerry começasse a ter efeitos nos resultados das sondagens.

Mesmo que não compreendam os mecanismos da neurociência subjacentes à amnésia da fonte, os estrategas da campanha podem explorá-la para difundir desinformações. Sabem que, se as suas mensagens forem inicialmente chocantes, a impressão que provocam persistirá muito tempo depois de terem sido desmontadas. Ao repetir uma falsidade, sempre se poderá reforçá-la, introduzindo-a com uma expressão do tipo "Penso ter ouvido alguém dizer que..." ou mesmo mencionando uma fonte determinada.

Num dos estudos, um grupo de estudantes de Stanford foi exposto repetidamente a uma alegação sem fundamento de que a Coca-Cola era um forte dissolvente de tinta, desencadeado por um sítio Web. Os estudantes que leram esta afirmação cinco vezes excederam em um terço aqueles que leram apenas duas vezes na atribuição dessa alegação ao Relatório do Consumidor (em vez da auto-intitulada National Enquire do sítio Web), emprestando com isso um esboço de credibilidade ao boato.

Reforçando a nossa tendência inata para fundir a informações que relembramos está o modo como o nosso cérebro ajusta factos em estruturas mentais previamente estabelecidas. Tendemos a lembrar-nos de notícias que concordam com a nossa forma de ver o mundo e desvalorizar afirmações que contradizem essa mundivisão.

Noutro estudo de Stanford, a um grupo de 48 estudantes, dos quais metade se havia declarado a favor da pena capital e outra metade contra, foram apresentadas duas peças de prova, uma das quais sustentando que a pena capital dissuade o crime, a outra contradizendo. Ambos os meios-grupos reforçaram as suas convicções iniciais com tais provas.

Os psicólogos sugerem que as lendas se propagam por percursão de uma corda emocional. Do mesmo modo, as ideias podem difundir-se por selecção emocional, em vez de por méritos factuais, encorajando a persistência das falsidades sobre a Coca - ou sobre o candidato presidencial.

Os jornalistas e os activistas das campanhas poderão pensar que agem contra os boatos ao salientar que não são verdadeiros. Mas, ao repetir um rumor falso, inadvertidamente estão a reforçá-lo. No seu afã de "parar a nódoa", a campanha de Obama deve ter este facto presente. Por exemplo, em vez de realçar que Obama não é muçulmano, poderá ser mais eficaz acentuar que converteu-se ao critianismo ainda jovem.

Os consumidores de notícias, por seu lado, estão mais aptos a aceitar selectivamente e relembrar afirmações que reforcem as suas convicções anteriores. Numa réplica do estudo do impacto exercido nos estudantes pela apresentação das provas de que a pena capital é/não é dissuadora do crime, os investigadores descobriram que até quando são fornecidas indicações precisas de apreciação objectiva, cada um é propenso a rejeitar mais facilmente as provas que contradizem as suas convicções.

Também no mesmo estudo se verificou que os sujeitos, ao serem questionados sobre a reacção que teriam na hipótese de serem acusados com as provas contrárias às suas convicções, tornam-se mais abertos na ponderação da informação. Aparentemente, vale a pena investir algum tempo na consideração de que a interpretação oposta pode estar certa, quando um jornalista se dirige a ouvintes/tele-espectadores/leitores apreciadores de controversias.

Em 1919, o Juiz do Supremo Tribunal Oliver Wendell Holmes escreveu que "o melhor teste para a verdade é a força do pensamento ser aceite em debate competitivo". Holmes assumiu erradamente que as ideias honestas difundem-se mais facilmente. Os nossos cérebros não obedecem a este ditame ideal, mas ao conhecermos melhor os mecanismos da nossa memória talvez nos possamos aproximar do ponto de vista de Holmes.




Sam Wang, professor de Biologia Molecular e Neurociência em Princetown e Sandra Aamodt, ex-chefe de redacção da revista Nature Neuroscience, são autores de "Welcome to Your Barin: Why You Lose Your Car Keys but Never Forget How to Drive and Other Puzzles of Everyday Life."




Sam Wang e Sandra Aamodt in Your Brain Lies to You
publicado pelo The New York Times em 27 de Junho de 2008

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2 Comentários:

At 08:13, Blogger antónio m p disse...

Excelente trabalho este - o original e a sua divulgação.

Se uma cabeça "vale" milhões quando marca golos, ela não tem preço quando oferece esta riqueza de conhecimentos com incidências intermináveis na nossa vida individual e colectiva.

 
At 01:42, Blogger samuel disse...

Belo post!
Quando citar alguma coisa deste texto espero bem lembrar-me onde o li... :)))

Abraço

 

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