sexta-feira, julho 25, 2008

Limpeza étnica

É preciso dizer a verdade, ouvi-la e reproduzi-la. Mário Crespo fala objectivamente do problema colocado por um grupo de pessoas de etnia cigana.
Basta de paternalismo e vejamos, com olhos de ver, quem se auto-exclui. (M.R.)
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Limpeza étnica
2008-07-21
MÁRIO CRESPO, jornalista, in Jornal de Notícias

O homem, jovem, movimentava-se num desespero agitado entre um grupo de mulheres vestidas de negro que ululavam lamentos. "Perdi tudo!" "O que é que perdeu?" perguntou-lhe um repórter.
"Entraram-me em casa, espatifaram tudo. Levaram o plasma, o DVD a aparelhagem..." Esta foi uma das esclarecedoras declarações dos autodesalojados da Quinta da Fonte. A imagem do absurdo em que a assistência social se tornou em Portugal fica clara quando é complementada com as informações do presidente da Câmara de Loures: uma elevadíssima percentagem da população do bairro recebe rendimento de inserção social e paga "quatro ou cinco euros de renda mensal" pelas habitações camarárias. Dias depois, noutra reportagem outro jovem adulto mostrava a sua casa vandalizada, apontando a sala de onde tinham levado a TV e os DVD. A seguir, transtornadíssimo, ia ao que tinha sido o quarto dos filhos dizendo que "até a TV e a playstation das crianças" lhe tinham roubado. Neste país, tão cheio de dificuldades para quem tem rendimentos declarados, dinheiro público não pode continuar a ser desviado para sustentar predadores profissionais dos fundos constituídos em boa fé para atender a situações excepcionais de carência. A culpa não é só de quem usufrui desses dinheiros. A principal responsabilidade destes desvios cai sobre os oportunismos políticos que à custa destas bizarras benesses, compraram votos de Norte a Sul. É inexplicável num país de economias domésticas esfrangalhadas por uma Euribor com freio nos dentes que há famílias que pagam "quatro ou cinco Euros de renda" à câmara de Loures e no fim do mês recebem o rendimento social de inserção que, se habilmente requerido por um grupo familiar de cinco ou seis pessoas, atinge quantias muito acima do ordenado mínimo. É inaceitável que estes beneficiários de tudo e mais alguma coisa ainda querem que os seus T2 e T3 a "quatro ou cinco euros mensais" lhes sejam dados em zonas "onde não haja pretos". Não é o sistema em Portugal que marginaliza comunidades. O sistema é que se tem vindo a alhear da realidade e da decência e agora é confrontado por elas em plena rua com manifestações de índole intoleravelmente racista e saraivadas de balas de grande calibre disparadas com impunidade. O país inteiro viu uma dezena de homens armados a fazer fogo na via pública. Não foram detidos embora sejam facilmente identificáveis. Pelo contrário. Do silêncio cúmplice do grupo de marginais sai eloquente uma mensagem de ameaça de contorno criminoso - "ou nos dão uma zona etnicamente limpa ou matamos." A resposta do Estado veio numa patética distribuição de flores a cabecilhas de gangs de traficantes e autodenominados representantes comunitários, entre os sorrisos da resignação embaraçada dos responsáveis autárquicos e do governo civil. Cá fora, no terreno, o único elemento que ainda nos separa da barbárie e da anarquia mantém na Quinta da Fonte uma guarda de 24 horas por dia com metralhadoras e coletes à prova de bala. Provavelmente, enquanto arriscam a vida neste parque temático de incongruências socio-políticas, os defensores do que nos resta de ordem pensam que ganham menos que um desses agregados familiares de profissionais da extorsão e que o ordenado da PSP deste mês de Julho se vai ressentir outra vez da subida da Euribor.

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4 Comentários:

At 07:54, Blogger Alexandre disse...

Não percebo... Quem é que quer uma zona etnicamente limpa? Grupos neo-nazis? ciganos?

E qual é o elo entre esses grupos violentos e aqueles que recebem prestações sociais citados no princípio do artigo?

 
At 09:24, Blogger Magda Nieto Reprezas disse...

Alexandre, tu não deves ter seguido o que se passou aqui. Quem disse que quer uma zona etnicamente limpa foi um dos ciganos que saiu do bairro onde vivia, bairro esse que tem muitas pessoas africanas. Depois de uma briga entre ciganos em que havia droga envolvida, segundo os media, houve tiroteio em pleno bairro e acertaram em africanos (sem mortes). Estes responderam e aconteceram cenas tipo "far west", filmadas e tudo. Depois disto um grupo de cerca de 200 ciganos abandonou o local e pôs-se à frente da Câmara de Loures exigindo outras casas ( quando as que eles tinham já lhe tinham sido distribuídas anteriormente).Na ausência de algumas famílias, foram algumas casas vandalizadas, por quem não disseram! Sucede que os que saíram do bairro são famílias que pagam muito pouco de renda, sendo que alguns até a devem.Junta-se a isto que a grande maioria tem subsídio de reinserção, para sobreviverem. Sucede que muitos conseguem ter bons carros, DVDs, TV,etc. de modo que tudo isto está uma embrulhada. Entretanto eles foram expulsos da Câmara mas poisaram noutro local. Entretanto, a TV deixou de falar neles mas sei que alguns desse grupo já regressou às suas casas. O chefe da mafia anda a monte, fugiu, e o bairro está agora patrulhado com polícias com colete à prova de bala e metralhadoras... Ísto passa-se na quinta da fonte onde existe muita gente desempregada, de várias etnias mas quem começõu a briga já sabes quem foi e estes estão sempre protegidos. Entretanto, não deixam os filhos frequentarem a escola para além da primária, o que não sucede com os africanos, por exemplo, que se vão integrando e não exigem que tudo lhes seja dado de bandeja sem fazerem nada como os ciganos.
Beijo

 
At 12:34, Blogger Alexandre disse...

Ok, obrigado pelas explicações, agora já compreendo bastante melhor!

O mesmo tipo de incidentes aconteceu em França, implicando desta vez ciganos e árabes. Depois de um incidente que degenerou em rixa houve tiroteio que resultou na morte de alguns árabes, o que obrigou à intervenção das forças especiais da polícia francesa.

É complicado, porque esses ciganos estão instalados na cidade desde à cem anos, enquanto que os árabes chegaram há quatro décadas. Mas pelos vistos a convivência não é fácil, e até tende a piorar com o tempo.

Pelos vistos ainda não se conseguiu encontrar a formula para que os ciganos convivam pacificamente com os seus vizinhos. No entanto há regiões onde parece não haver problemas? (na Andaluzia parece-me que há muitos ciganos sem que isso leve a grandes incidentes?)

 
At 18:03, Blogger Magda Nieto Reprezas disse...

Alexandre, se calhar, na Andaluzia é tudo ciganos...

 

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