terça-feira, julho 29, 2008

A cobardia de Maria de Lurdes Rodrigues

Maria de Lurdes RodriguesApodada de corajosa por muitos comentadores encartados, Maria de Lurdes Rodrigues não hesitou a ameaçar cortar o sustento a um jovem professor de matemática, politicamente inexperiente, quando este a acusou em primeira mão, frontalmente e em público de facilitista.
A acusação de facilitismo foi depois retomada por um outro professor, desta vez universitário e presidente da Sociedade Portuguesa de Matemática. Porque é uma pessoa educada, Nuno Crato não chamou criminosa à ministra. Só não o fez, porém,
a la lettre, pois a definição do crime está lá, completa.
Aguardei uma reacção corajosa da ministra: um processo por difamação para repor o seu bom nome, qualquer coisa. Em vão. A tão apregoada coragem da ministra só se manifesta quando a relação de superioridade na cadeia hierárquica é esmagadora e lhe está de feição. Mas que belo exemplo.
(AF)

[O Ministério] Na Educação pode ter um papel positivo se fizer aquele pouquinho que é traçar objectivos exigentes, fazer os programas mínimos exigentes - claros, precisos, curtos mas exigentes - e promover a existência de sistemas de controlo da avaliação dos conhecimentos dos alunos também exigentes. Mas nada disto está a ser feito, estamos a perder uma oportunidade imensa. O caso recente dos exames fáceis de Matemática enquadra-se nisto. Daqui a dez anos, somos capazes de olhar para o que se passou nos exames este ano e pensar que foi das coisas mais negativas que aconteceram na Educação nas últimas décadas.
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Porque o que foi dito aos jovens este ano foi que não vale a pena estudar mais que os mínimos. Foi dito aos melhores que não vale a pena trabalharem muito porque não vão destacar-se. À partida, a melhoria dos melhores permite a melhoria de toda a gente. O que se vai passar agora no nosso País, se se mantiver este tipo de avaliação, é que os estudantes vão reagir contra os professores que são mais exigentes dizendo que "não vale a pena, pois eu já percebi que, para passar de ano bastam-me os mínimos". Isso pode ser extremamente perigoso para o nosso País. Se isso se mantém assim é altamente preocupante, por tudo o que vem a seguir.
...
O que vem a seguir a estes exames é que as pessoas vão partir do princípio que é sempre assim e portanto os do Ensino Básico vão entrar no Secundário convencidos que é sempre assim; os do Secundário vão entrar na Universidade convencidos que é sempre assim; e o País vai ficar com a ideia de que afinal isto é tudo muito fácil, que a Matemática, as Ciências, afinal é tudo muito fácil, não é preciso estudar muito. Até depois o País não produzir. O que acontece depois é que não temos técnicos para produzir, para dirigir empresas, para criar software, etc. O que se passou foi gravíssimo e espero que o Governo arrepie caminho. Mas é difícil. O Governo enfiou-se nisto, defendeu estes resultados, se agora for fazer exames mais exigentes os resultados vão baixar e nenhum Governo quer baixar resultados em ano de eleições.


Nuno Crato, entrevistado pelo Jornal de Negócios
publicado a 25 de Julho de 2005

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