sábado, julho 12, 2008

Paulo Guinote - Opções insanas na política da Educação

Há duas maneiras de ultrapassar a ansiedade dos factos adversos às nossas aspirações: prepararmo-nos cuidadosamente para vencer uma a uma cada dificuldade ou baixarmos as nossas expectativas. Quando assumidas, qualquer uma destas opções é válida, embora naturalmente com resultados diferentes. Mas há quem ceda à tentação de enveredar pela segunda e se convença que está a seguir a primeira. Aparentemente, há um tipo de esquizofrenia induzida pela tentativa do exercício de funções acima do nível de competência. (AF)




É recorrente em Portugal dizer-se que a Educação está mal. De tanto o dizermos tornou-se uma espécie de ruído de fundo familiar, uma das nossas fatalidades, à qual já nos habituámos e sem a qual dificilmente viveríamos. Se desaparecesse, estranharíamos. É o escape para todos os nossos falhanços:
  • A economia não se desenvolve? É a falta de qualificações!
  • A vida política é uma lástima? Falta de educação cívica!
  • A corrupção e o cunhismo são um modo de vida? Precisamos de uma mudança de mentalidade que deve começar na Escola.
Verdade se diga que com mais 150 anos de declínio, a anunciar-se repetidamente que a Educação está bater no fundo, só é possível que esse mesmo fundo esteja seja em movimento descendente.

Mas, neste particular, o actual Governo inovou com alguma ousadia e não pouco arreganho, pois decidiu que apesar de estarmos mal, a partir de agora vamos ter números para demonstrar à saciedade que estamos bem.
  • Há falta de qualificações? Damos Novas Oportunidades ao desbarato para o pessoal se certificar e diplomar.
  • Há (ou voltam a haver) sinais do abandono escolar não descer? Retira-se gravidade à falta de assiduidade dos alunos.
  • Há maus resultados nos exames? Manda-se «melhorar a qualidade» dos exames.
O actual Governo, pelas mãos diligentes da equipa do Ministério da Educação decidiu apresentar «reformas», traduziu-as em milhentas iniciativas legislativas e declarou que a partir de agora tudo entraria nos eixos, a começar pelos professores, esses dispendiosos malandros, que são responsáveis, desde sempre, pelas políticas educativas, pelos decretos, leis, portarias e despachos, pela sua própria formação e pelas condições de ingresso na carreira, pelo currículo, pelos programas e pelo sistema de avaliação, mais o desequilíbrio orçamental.

As coisas não parecem dar mais resultado do que libertar verbas para equipar as escolas, porque os alunos em pouco parecem ter melhorado o seu desempenho? Fabrica-se sucesso a rodos, a começar pela Matemática, essa velha bête noire do sistema educativo. Os alunos não sabem a tabuada aos 10 anos? Coloca-se a dita no formulário do exame. Aos 12 não sabem calcular a área de um quadrado ou círculo, coloca-se a fórmula no enunciado. Aos 15 ainda não sabem o que devioam saber aos 12? Então elaboram-se questões para um aluno de 10 anos.

E assim se constrói toda uma nova realidade ridente, de muitos numerozinhos feita.

Deve ser um novo paradigma.

Paulo Guinote in O estado da Educação
publicado em A Educação do meu umbigo em 11 de Julho de 2008

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