sábado, agosto 30, 2008

A Inteligência na Cidade

A Cidade
Mas o que a Cidade mais deteriora no homem é a Inteligência, porque ou lha arregimenta dentro da banalidade ou lha empurra para a extravagância. Nesta densa e pairante camada de Ideias e Fórmulas que constitui a atmosfera mental das Cidades, o homem que a respira, nela envolto, só pensa todos os pensamentos já pensados, só exprime todas as expressões já exprimidas: - ou então, para se destacar da pardacenta e chata Rotina e trepar ao frágil andaime da gloríola, inventa num gemente esforço, inchando o crânio, uma novidade disforme que espante e que detenha a multidão como um mostrengo numa feira. Todos, intelectualmente, são carneiros, trilhando o mesmo trilho, balando o mesmo balido, com o focinho pendido para a poeira onde pisam, em fila, as pegadas pisadas; - e alguns são macacos, saltando no topo de mastros vistosos, com esgares e cabriolas. Assim, meu Jacinto, na Cidade, nesta criação tão antinatural onde o solo é de pau e feltro e alcatrão, e o carvão tapa o céu, e a gente vive acamada nos prédios como o paninho nas lojas, e a claridade vem pelos canos, e as mentiras se murmuram através de arames - o homem aparece como uma criatura anti-humana, sem beleza, sem força, sem liberdade, sem riso, sem sentimento, e trazendo em si um espírito que é passivo como um escravo ou impudente como um histrião... E aqui tem o belo Jacinto o que é a bela Cidade.

Eça de Queirós, A Cidade e as Serras, 1901

Etiquetas: , , ,

3 Comentários:

At 12:03, Blogger Elisabete Ferrão disse...

Eça um Artesão de palavras!
Tão verdade o que escreve, e tão descritivo do que sinto e nem saberia exprimir.
Cá estou eu com a cabeça tombada atrás das pegadas de outros...Pois que sejam de Eça!

Um beijinho.

 
At 13:54, Blogger António Chaves Ferrão disse...

Elizabete
Podemos tomar este excerto como uma advertência. No mínimo, evitarmos ser excessivamente banais ou excessivamente histriónicos. Se, porém, em alguma ocasião sentirmos que algo que podia ser dito não está a ser dito, devemos expor o que sentimos, o nosso ponto de vista, com toda a clareza.
Um beijo

 
At 14:52, Blogger Alexandre disse...

Parece-me que antes pelo contrário as cidades são focos de inteligência. Em termos de artes, ciências e literatura, a cidade sempre foi o palco central de desenvolvimento, porque proporciona o encontro e acumulação de uma massa crítica de pessoas e ideais que se podem influenciar mutuamente.

Desde tempos imemoriais milhões de pessoas fugiram do campo em busca das luzes das cidades. Não só as cidades oferecem mais oportunidades de desenvolvimento pessoal, mas também dão uma maior liberdade ao indivíduo. Um bom exemplo disso são por exemplo a convergência de homossexuais para os grandes centros urbanos (como por exemplo Lisboa) onde podiam viver de maneira mais livre.

A cidade tem os seus defeitos, entre os quais a poluição e o stress de ter de conviver com a multidão. Mas mesmo quando artistas ou intelectuais se refugiam no campo, eles guardam uma ligação forte com a cidade, um cordão umbilical que irriga a sua vida intelectual. Para nem falar de questões de formação, que sempre foi uma vantagem da cidade.

A única maneira de re-equilibrar as vantagens da cidade em relação ao campo é o desenvolvimento de tecnologias de informação que compensam a distância e permitem a criação de massas críticas "virtuais", ou em todo caso menos dependentes da localização geográfica.

Em todo o caso para mim a solução para os problemas descritos por Eça não passa por uma fuga ao campo (que é ele próprio destruído e transformado em infindáveis subúrbios onde rege o pior da mediocridade urbana sem as vantagens de centros urbanos saudáveis), mas pela renovação das próprias cidades com politicas urbanistas centralizadas no interesse dos citadinos (espaços verdes e naturais dentro da cidade, serviços sociais, transportes públicos como verdadeira alternativa ao carro, centros pedestres, etc).

 

Enviar um comentário

<< Home


hits: