terça-feira, setembro 30, 2008

Jochen Scholz - Projecto Europeu para o Novo Século (5)

(Início)

Símbolo da Liberdade?

E, no entanto, ainda resta o poderoso símbolo da Estátua da Liberdade, descontando que após o 11 de Setembro de 2001 a sua mensagem está cada vez mais extinta, mesmo no interior dos EUA, e que, quanto ao exterior, não desempenhou qualquer papel desde a presidência de John Quincy Adams. No seu discurso à Nação no dia 4 de Julho de 1821, Adams declarou que a guerra estava justificada logo que os direitos ou a segurança no interior do país estivessem directamente afectados, prosseguindo:
"Onde quer que a bandeira da liberdade ou da Independência flutue ou venha a flutuar, ela estará nos nossos corações, na nossa benção e nas nossas preces. Porém, ela não partirá do nosso território em perseguição de mosntros para os destruir. Servirá para todos como o testemunho da nossa liberdade e independência. Permanecerá como campeã e justiceira de si própria. Ela sabe bem que, uma vez engajada em causas que não a sua própria, ainda que se trate da independência de outro país, ver-se-ía envolvida com poderes de extorsão, com guerras de interesse e de intriga, de cupidez individual, inveja e ambição que estão sempre preparadas para usurpar as cores da bandeira da liberdade."
O mundo inteiro poderia dar-se por satisfeito se os sucessores de Adams aplicassem a mesma máxima.

Domínio dos EUA por intermédio da OTAN e da OSCE

Mas o que se passa é que a «a ameaça para a segurança nacional» é apenas o pretexto que mascara os interesses imperialistas. O que se passou com o Iraque em 2003 mistura interesses, métodos e retórica de legitimação dignos de um ensaio de laboratório. As 200 mil pessoas que se comprimiram à volta da Basílica de Berlim no passado dia 24 de Julho, ansiando por uma vitória do candidato presidencial Barck Obama, claramente ignoravam os princípios básicos, sempre confirmados, da política externa dos EUA; assim como as orientações geo-estratégicas desde os começos do Século XX, que são partilhadas pelos democratas e pelos republicanos. Os EUA conduziram duas guerras mundiais para se tornarem uma potência euro-asiática que irá dar o tom a este continente. O principal obstáculo ao acesso aos mercados e às reservas energéticas da Ásia Central desapareceu com o afundamento da União Soviética, em 1991. Esta chance histórica sem precedentes, os EUA usaram logo depois contra os seus próprios aliados com uma agressividade cada vez maior, enquanto a Europa expectante sonhava com os «divi­dendos da paz». Sobre o plano institucional, os EUA exercem o seu domínio através da OTAN e da OSCE. O perigo, ameaçador - segundo os EUA - de ver a Europa perturbar o cerco com a «Politica Europeia de Segurança e Defesa» (PESD), está provisoriamente afastado pelo acordo «Berlin Plus».

A Europa é corresponsável

Pese embora o facto de os EUA terem conseguido explorar habilmente os interesses divergentes na Europa e ressentimentos fronteiriços históricos, uma constatação se impõe: tal jogo não dispensou uma parceria. A Europa começou a aliar-se através da sua participação na guerra dos Balcãs, seguindo-se o alargamento para Leste da OTAN, a aceitação do novo conceito de intervenção da OTAN de 1999, contrário à Carta das Nações Unidas, o abandono de certas iniciativas controversas, culminando com a invasão, contrária ao Direito Internacional, do Iraque e do Afganistão. Resumindo: a Europa é corresponsável. Que tenha sido Clinton, um presidente democrata, a lançar esta política, só prova que as demarcações partidárias são irrelevantes para a defesa dos interesses em jogo.

Os interesses americanos transcendem as divergências partidárias

Um sobrevôo - necessariamente rápido - ao quadro em que se exerce a «nova ordem mundial», aos mecanismos e ferramentas de que dispõe, assim como a resposta à questão «cui bono?» (beneficiando a quem?) mostram, sem margem para dúvidas:
  • Após o rompimento do equilíbrio geo-estratégico, impôs-se o primado do direito do mais forte nas relações internacionais. Os EUA - outrora proclamados defensores da ordem jurídica internacional - consideram agora as Organização das Nações Unidas (ONU) como um obstáculo.
  • A supremacia da escola monetarista e do «consenso de Washington» na economia. Nenhum deles aparecu do nada. Estão firmemente enraizados no modelo de sociedade anglo-americana, diametralmente oposto ao modelo europeu continental. No entanto, os seus dogmas são aplicados principalmente no exterior, mostrando-se as finanças e a economia dos EUA firmemente pragmáticas.
  • Mão forte sobre as instituições internacionais «decisórias» como o Banco Mundial, o FMI, o G7/8 e o OMC e ainda a OTAN, sob a palavra de ordem «America first».
  • Preservação da situação sem precedentes do dólar como divisa padrão internacional: os bancos centrais precisam dele para combater as crises monetárias, os estados para as suas exportações e para importar petróleo e bens manufacturados, os países emergentes ou em desenvolvimento para reembolsarem as suas dívidas para com o FMI e os clubes «de Paris» e «de Londres». Todas as mercadorias importantes são facturadas em dólares no mercado mundial.
  • Após o abandono da paridade-ouro e o crescimento exponencial (acima dos 100%) da procura do dólar na sequência do aumento brutal dos preços do petróleo nos anos 70, os investidores perderam quase toda a influência sobre a máquina rotativa de impressão de notas nos EUA.
  • Desde há mais de vinte anos os EUA praticam quase sem interrupção uma política consciente de déficit orçamental e comercial. Apesar da inflacção que atinge o dólar, continua a aceitar-se este como meio de pagamento no mercado mundial de capitais. Razões mais importantes: o medo do afundamento, a falta de coragem para promover alternativas e a mensagem, até aqui aceite, que os EUA são o único país em condições de proteger face a qualquer ameaça. Onde esta crença é desafiada, promove-se a instabilidade, afim de reconduzir os tresmalhados ao bom caminho.
  • O sistema actual restringe as opções à prática de uma economia orientada para as exportações, logo, de bom ou mau grado, a observar as condições impostas via OMC, FMI e Banco Mundial. As principais vítimas do sistema são os países em desenvolvimento e os emergentes, pendurados na torneira do FMI. O qual impõe condições que canalizam os ganhos das exportações para pagamento do serviço da dívida em deterimento do desenvolvimento económico interior. As economias exportadoras de produtividade elevada, como a Alemanha por exemplo, ficam sujeitas à pressão da concorrência mundializada, cujos padrões são fixados além-atlântico. Esta pressão reprecute-se, por sua vez, no interior. Resultado? Declínio da Agenda 2010, que o Chanceler Schröder havia conseguido aprovar.
  • Os EUA podem dar-se ao luxo de um défice comercial exorbitante de 500 milhões de dólares, um défice orçamental equivalente a um endividamento bruto de 3700 biliões de dólares para com o resto do mundo. É este resto do mundo que financia o défice, enquanto os bancos centrais continuarem a investir os seus lucros na exportação dos títulos da dívida pública dos EUA, supostamente seguros. Os estados da ASEAN+3 reinvestiram neles 80% dos seus excedentes comerciais e detêm 90% das reservas de dólares mundiais. As reservas de divisas chinesas, que se elevam a esta hora a 1,8 biliões de dólares, são constituidas principalmente por títulos do Tesouro dos EUA. Simplifiquemos: Se for contraposto o deficit dos EUA ao seu orçamento militar de 400 milhões de dólares, verifica-se que os rivais dos EUA financiam os sonhos de potência ambicionados por Wolfowitz no seu texto, acresentando-lhe ainda um belo brinde. O que levou Helmut Schmidt, ex-Chanceler alemão e membro actual da comissão redactorial do semanário «Die Zeit» a colocar a seguinte questão ao candidato à presidência:
    «Será que a vossa política orçamental se destina a equilibrar a enorme dívida externa? Irão os EUA deixar de consumir uma grande parte das poupanças e da acumulação de capitais das restantes nações? Bater-se-ão os EUA a favor de uma ordem consensual e pela supervisão dos mercados financeiros mundializados altamente especulativos?»
  • Os principais beneficiários deste sistema são os Big Oil [as grandes companhias petrolíferas] e o conglomerado financeiro a elas associado, assim como o complexo militar-industrial. Entre os perdedores estão, não apenas partes importantes do resto do mundo, assim como vastas camadas da indústria dos EUA, que deixaram de ser concorrenciais no mercado mundial. A economia dos EUA tornou-se largamente importadora e consumidora, financiando-se pelo endividamento. O presidente cessante foi posto ao corrente desta situação no decorrer da campanha eleitoral, no Middle West, quando os operários furiosos o declararam taxativamente. Os auto-proclamados campeões do mundo da exportação continuam a deixar-se embalar por balelas.

(continua)

Tradução a partir da versão francesa:
Jochen Scholz, PNEC – Project for the New European Century, Horizons et débats, 15 de Seyembro de 2008

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