quinta-feira, setembro 04, 2008

Joseph Stiglitz - A queda da economia

Sem indústrias. Sem novas ideias. Em que se baseia a nossa economia?


Joseph StiglitzHá mais de 75 anos, a confiança na economia do mercado sofreu um rude golpe, quando o mundo mergulhou na Grande Depressão. Adam Smith disse que o mercado dirigia a economia e, qual mão invisível, garantia a eficiência económica e o bem estar social. Era difícil acreditar em Adam Smith, quando um em cada quatro americanos estava no desemprego. Alguns economistas mantiveram a sua fé na capacidade auto-reguladora dos mercados. Disseram então: sejamos pacientes, a longo prazo as forças restauradoras do mercado actuarão e nós recuperaremos. À época, prevaleceu a réplica de Keynes: a longo prazo, estaremos todos mortos. Não podemos esperar. Hoje, até os conservadores admitem que o governo deve intervir para manter a economia no pleno emprego, ou próximo dele.

Aqueles que acreditam no mercado livre receberam agora outro rude golpe: ainda não mergulhámos na recessão oficial, mas já vai para meio ano desde que os últimos novos empregos foram criados e, no entretanto, a nossa população em idade activa não deixou de crescer. Se a Grande Depressão minou a nossa confiança na macroeconomia (a capacidade de manter o pleno emprego, a estabilidade dos preços e o crescimento sustentado), agora é a nossa confiança na microeconomia (a capacidade dos mercados e das empresas utilizarem o trabalho e o capital eficientemente) que está a ser destruida. Os recursos foram tão mal alocados e os riscos tão mal avaliados que o sector privado teve que correr atrás do governo a pedir socorro para contrariar o desabamento de todo o sistema.
Mesmo considerando a intervenção estatal, é possível estimar o valor acumulado da diferença entre aquilo que poderíamos ter produzido - caso tivéssemos investido em negócios a sério em vez de, digamos, contratos de hipoteca com pessoas com receitas domésticas insuficientes - e aquilo que iremos produzir no período de abrandamento. Esse valor, que eu estimei, excede 1,5 biliões de dólares.

A culpa recaiu com inteira justiça em cima dos mercados financeiros e a sua responsabilidade em afectar capitais e avaliar riscos. A incapacidade que demonstrou trouxe novamente à tona antigos receios da esquerda política (e económica). Alguns, que observavam a economia dos EUA a desviar-se cada vez mais da indústria e a depender cada vez mais do sector dos serviços (incluindo os serviços financeiros), há muito que previram que tudo não passava de um castelo de cartas. No fim de contas, não serão os bens tangíveis - a comida que comemos, as casas em que vivemos, os carros e os aviões com que nos deslocamos de um sítio para outro, o gás e o petróleo com que nos aquecemos e obtemos energia - o núcleo da nossa economia? E se assim é, não deveriam representar a parte dominante da nossa produção nacional?

A resposta simples é não. Vivemos na idade do conhecimento, na economia da informação, na economia da inovação. As nossas ideias garantem-nos toda a comida que comemos - e mais a que deveríamos comer - à custa de apenas 2 porcento da força de trabalho empregue na agricultura. Com apenas 9 porcento dos trabalhadores na indústria, continuamos a ser o maior produtor de bens industriais. É melhor trabalhar com inteligência que trabalhar com esforço e os nossos investimentos na educação e na tecnologia permitiram-nos alcançar os mais altos níveis de vida - e as vidas mais longas - que alguma vez havíamos conseguido. O domínio da América em múltiplos aspectos da alta-tecnologia é a prova do retorno real destas despesas nos serviços. E claro, ainda poderíamos argumentar que poderíamos chegar mais longe se tivéssemos mais recursos nestes sectores.

O receio de que todo o nosso sucesso recente está assente num castelo de cartas tem, no entanto, mais do que um grão de razão. Nos últimos anos, os mercados financeiros criaram um casino monstruoso para ricos, no qual jogadores bem pagos podem fazer apostas de biliões de dólares. Estou entre os que reconhecem às pessoas adultas o direito de usar de grande margem de liberdade para fazer o que fizeram - desde que não prejudiquem terceiros. Mas é aí que está o busilis. Os jogadores da roleta não arriscaram apenas o seu dinheiro. Apostaram com o dinheiro de outras pesssoas. Colocaram em perigo o sistema financeiro na sua totalidade - e por arraste, também o sistema económico. Agora estamos todos a pagar o preço.

Joseph Stiglitz, Falling down
a ser publicado em The New Republic a 10 de Setembro de 2008

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