segunda-feira, setembro 01, 2008

Joseph Stiglitz - Virar à esquerda para crescer

O recente crescimento económico dos EUA nem foi sustentado nem abrangente. Muitos americanos estão mais pobres hoje do que há sete anos.

Por: Joseph E. Stiglitz
Fonte: Diário Económico

Joseph StiglitzNova Iorque – Tanto a Esquerda como a Direita dizem que são a favor do crescimento económico. Sendo assim, os eleitores que tentam decidir entre ambas deverão considerar a questão como uma mera escolha entre equipas de gestão?

Se ao menos as coisas fossem assim tão simples! Parte do problema tem que ver com sorte. A economia dos EUA foi abençoada, nos anos 90, com preços de energia baixos, um grande ritmo de inovação e uma China que fornecia produtos de qualidade cada vez melhor a preços cada vez mais baixos, um conjunto de circunstâncias que deu origem a baixos níveis de inflação e a um crescimento rápido.

O Presidente Clinton e o então presidente da Reserva Federal dos EUA, Alan Greenspan, merecem poucos louros por esse estado de coisas – embora, é certo, a adopção de más políticas pudesse ter estragado tudo. Em contrapartida, os problemas com que nos confrontamos hoje – os preços altos da energia e dos bens alimentares e um sistema financeiro em desagregação – são, em grande medida, resultado de más políticas.

É bem verdade que entre estratégias de crescimento há grandes diferenças que tornam muito provável grandes diferenças nos resultados. A primeira diz respeito à forma como é concebido o próprio crescimento. Este não é só uma questão de crescimento do PIB. Precisa de ser sustentado. O crescimento também deve promover a inclusão; a maioria dos cidadãos, no mínimo, deve beneficiar com ele. Uma economia a conta-gotas não funciona: um aumento do PIB pode, de facto, deixar muitas pessoas mais pobres. O recente crescimento económico dos EUA nem foi sustentado nem abrangente. Muitos norte-americanos estão mais pobres hoje do que há sete anos.

Mas a desigualdade e o crescimento não são necessariamente polos opostos de uma alternativa. Os governos podem aumentar o crescimento e aumentar a inclusão. O recurso mais valioso de um país são os seus habitantes. A não promoção de solidariedade social pode ter outros custos, entre os quais não são despiciendos os gastos sociais e privados necessários para protecção da propriedade e detenção de criminosos. Calcula-se que dentro de poucos anos os EUA terão mais pessoas a trabalhar no sector da segurança do que na educação.

Outra diferença entre a Esquerda e a Direita diz respeito ao papel do Estado na promoção do desenvolvimento. A Esquerda entende que é vital o papel do governo no fornecimento de infra-estruturas e educação, no desenvolvimento de tecnologia e, até, no de empresário. O Governo lançou as fundações para a Internet e para a moderna revolução ocorrida na biotecnologia. No século XIX, a investigação nas universidades financiadas pelo governo dos EUA proporcionou as bases para a revolução agrícola. Em seguida, o Governo levou esses avanços até milhões de agricultures norte-americanos. O crédito às pequenas empresas tem sido primordial para a criação não só de novos negócios como de novas indústrias.

A última diferença pode parecer estranha: a Esquerda, agora, compreende os mercados e o papel que podem e devem desempenhar na economia. Dá-se o contrário com a Direita, sobretudo nos EUA. A Nova Direita, tipificada na administração Bush-Cheney, é de facto o velho corporativismo com nova cara.

Não se trata de libertários. Eles acreditam num Estado forte, com poderes executivos robustos, mas dirigido para a defesa de interesses estabelecidos e pouco interessado nas leis do mercado.

Em contrapartida, a nova Esquerda está a tentar pôr os mercados a funcionar. Os mercados sem restrições não funcionam bem sozinhos – uma conclusão que foi reforçada pelo colapso financeiro actual. Os defensores dos mercados reconhecem, por vezes, que eles falham, até desastrosamente, mas afiançam que se “auto-regulam”. Durante a Grande Depressão, ouviram-se argumentos semelhantes: o governo não precisava de fazer nada, porque os mercados iriam restaurar a economia e levar ao pleno emprego a longo prazo. No entanto, nas palavras já famosas de John Maynard Keynes, a longo prazo estaremos todos mortos.

Os mercados não se auto-regulam em tempo útil. Nenhum governo pode pôr-se à margem, impávido, enquanto o país entra em recessão ou depressão económica, mesmo quando estas são provocadas pela avidez excessiva dos banqueiros ou a má avaliação dos riscos por parte dos mercados de títulos ou das agências de classificação de risco. Uma vez que são os governos a pagar as contas de hospital da economia, têm de agir de forma a tornar menos provável a necessidade de hospitalização. O mantra de desregulação da Direita estava simplesmente errado e, agora, estamos a pagar o respectivo preço. E esse – em termos de perdas – vai ser alto, talvez superior a 1,5 biliões de dólares (cerca de um bilião de euros), só nos EUA.

A Direita reclama frequentemente que tem em Adam Smith a origem intelectual da sua linhagem. Mas Smith, que reconhecia o poder dos mercados, reconhecia-lhes também os limites. Mesmo no tempo de Smith, as empresas descobriram que lhes era mais fácil conspirarem para aumentar os preços do que serem mais eficientes a lançar produtos inovadores. Verifica-se uma grande necessidade de legislação antimonopolista.

Fazer a festa é fácil. Por enquanto, toda a gente se pode sentir bem. Já promover um crescimento sustentável é mais difícil. Hoje em dia, e ao contrário da Direita, a Esquerda tem um programa coerente, que oferece não só maior crescimento, mas também justiça social. Para os eleitores, a escolha deveria ser fácil.

Fonte: Diário Económico, em 11.Ago.2008

Tradução portuguesa do artigo encontrada no Portal da Ordem dos Economistas

Artigo original em Project Syndicate

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