domingo, setembro 21, 2008

Passadeira vermelha

Sandra Moutinho, agência Lusa

Nos últimos anos, milhares de médicos têm saído dos serviços públicos. Mas ninguém sabe ao certo quantos. Nem a Ordem, nem o Ministério. Sabe-se que são muitos e que vão sobretudo para um sector privado em expansão e que oferecerá melhores condições de investigação e médicas.

«Praticamente todos os hospitais do SNS perderam médicos para as instituições privadas nos últimos tempos», afirma o bastonário da Ordem dos Médicos, Pedro Nunes. Saber quantos e em que moldes é que é uma tarefa aparentemente impossível, pois «o médico não tem obrigação de informar a Ordem quando sai, ou para onde vai».

«O médico sai do público para o privado, ou para a reforma, ou para se constituir como empresa prestadora de serviços, ou simplesmente muda de vínculo», explica Pedro Nunes. O próprio número rigoroso de médicos em actividade em Portugal é desconhecido.

Conforme reconheceu o bastonário, há médicos que morrem, mas que os familiares não informam o organismo e outros que já não exercem, mas continuam a pagar quotas como se o fizessem. Dos 38 mil médicos que a Ordem contabiliza, existirão «mil ou dois mil» que não estarão em actividade, segundo as contas de Pedro Nunes.

A Lusa tentou apurar junto do Ministério da Saúde quantos médicos deixaram o SNS nos últimos tempos, mas essa contabilidade ainda não está feita. Segundo as contas de António Correia de Campos, ex-ministro da Saúde e antecessor da actual ministra, Ana Jorge, só no ano passado foram mais de mil os clínicos que deixaram o serviço público, metade dos quais directamente para o sector privado.

Em 2007, o Ministério da Saúde tinha avançado à Lusa que, entre o início de 2006 e Abril de 2007, 943 médicos tinham deixado o SNS, entre reformas e rescisões. Sobre as medidas que a tutela conta levar a cabo para resolver a carência de médicos nos serviços públicos de saúde, fonte do gabinete de Ana Jorge remeteu o anúncio das mesmas para quando for «oportuno».

João, obstetra do Hospital S. Francisco Xavier, onde ajudou a nascer mais de mil crianças, já não acredita. Está desiludido. E decidiu que a sua vida «tem de mudar» e pediu a rescisão do Contrato de Provimento Administrativo que vem renovando há nove anos.

Este vínculo precário, que lhe tem fechado as portas a uma carreira médica, vem funcionando como garantia da presença de muitos médicos nos serviços, sem que efectivamente pertençam ao Estado ou às instituições que servem, acusa.

Sem hipóteses de progressão na carreira, a ganhar cerca de 2000 euros mensais por 47 horas semanais, João tem assistido à saída massiva dos clínicos do seu serviço neste hospital, que inclusive encerrou as portas no final do mês passado por falta de profissionais.

Faltam médicos, os que restam estão desiludidos e reina a desarticulação entre as equipas, principalmente desde que as administrações compram serviços a médicos que ganham por hora muito mais que os profissionais dos hospitais.

Uma das consequências desta situação reflecte-se na formação dos futuros clínicos, já que a falta de médicos e de tempo dos que trabalham não permite o acompanhamento ideal dos internos que estão a especializar-se.

Para isso mesmo alertou o presidente do Conselho Nacional do Médico Interno (CNMI), Rui Guimarães, que sabe de casos de alguns internos que já se queixaram de se sentir «desacompanhados» na sua formação, o que preocupa este organismo.

O aumento dos tempos de espera dos pacientes - como acontece na Maternidade Alfredo da Costa, onde a falta de médicos tem vindo a agravar-se - é outra das consequências desta situação e objecto do crescimento de queixas das utentes, como disse à Lusa a directora do serviço de urgência desta instituição, Clara Soares.

A culpa? Para João, nem os directores de serviço nem os próprios administradores são os grandes responsáveis pela situação, mas sim as tutelas que, sucessivamente, têm como grande objectivo «a diminuição dos gastos com a Função Pública».

E este nem é, para o médico, um mau propósito, mas desde que assumido com transparência e não «à custa de engenharias financeiras». Na prática, os hospitais apresentam menos despesas com pessoal, mas depois gastam mais «ao contratarem outros (ou os mesmos) a preços mais elevados», desde que pagos através de outras rubricas.

«Todos sabem o que se passa», disse, mas «ninguém faz nada», até porque, «bem ou mal, as coisas vão-se fazendo e os números até demonstram que se fazem mais consultas, mais partos, etc.», explicou.

Sobre o «assédio» das empresas de médicos e dos hospitais privados, este clínico alerta: «Com a falta de médicos, não é difícil estes encaixarem-se em qualquer lado» e a ganharem mais. O mais triste, disse, é que «as portas estão permanentemente abertas para os médicos saírem». Alguns aceitam o convite. João sai no fim do mês.

Lusa/SOL

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