quarta-feira, outubro 01, 2008

Cheque mate ao liberalismo

Nestes dias o mundo tem os olhos postos na sorte que o Congresso dos EUA irá reservar à Wall Street, enquanto símbolo do primado da iniciativa privada para o desenvolvimento económico. Os primeiros derrotados foram a Reserva Federal e a administração Bush, que já só vêm no saque directo ao dinheiro dos contribuintes a solução para que uma elite anti-social continue a acumular capitais. No Congresso, porém, este pragmatismo não colhe. Há ainda quem queira interpretar os acontecimentos recentes como resultado da cupidez de alguns financeiros ou seus intermediários, como uma questão pontual de falta de honradez na administração dos dinheiros dos pequenos accionistas. Olhando para indivíduos, os congressistas teimam em ignorar que os grandes meios financeiros, cristalizando o trabalho de milhões de pessoas, têm um caracter irremediavelmente social. Têm de ser removidos da margem de manobra da propriedade privada. É notável que tenham sido maioritariamente os republicanos, mais enfeudados à ideologia liberal, a opor-se ao plano de salvamento de Bush. Tal também revela que os aspectos ideológicos têm mais força entre os republicanos que entre os democratas.
O jogo de forças ainda não terminou. Mas a pureza da ideologia liberal está irremediavelmente afectada. Se o plano não for aprovado pelo Congresso, o risco de recessão passa a ser imediato, segundo os próprios economistas do regime: demonstração pública do fiasco de tão ampla liberdade da Wall Street na gestão privada de recursos. No caso contrário, fica publicamente reconhecido que a sociedade - representada pelo estado - tem a obrigação de cercear liberdades excessivas dos cidadãos individuais em matérias de mercado. A regulação dos mercados sai da esfera privada e entra, por direito próprio, na esfera estritamente social. Esse é um pesadelo ainda maior para os apologistas do liberalismo económico. Vale, no entanto, a pena recordar que, enquanto ideologia, o liberalismo económico já estava ultrapassado pela realidade no final do século XIX. Nessa altura, as ilusões de que qualquer indivíduo poderia desempenhar um papel de igual para igual no crescimento da economia, já tinha suficientes desmentidos nos fenómenos de concentração monopolista, nas cartelizações, nas condições de sobrevivência cada vez mais difíceis das pequenas e médias empresas, dadas as condições de acesso ao crédito financeiro e no empobrecimento de sectores amplos da população e nas primeiras crises. De costas voltadas para a realidade, os ideólogos sobreviventes do liberalismo têm vivido os seus dias de piores pesadelos. Como aceitar condições regulatórias impondo limites aos fluxos de capitais na Wall Street? Como pode sobreviver a iniciativa criativa dos investidores, sujeitos a supervisões, a regulamentos, e a penalizações definidas pelo estado, essa entidade inerte e economicamente incapaz? Decididamente, o fim do mundo deve estar próximo: o mundo dos desmandos, do caos e da falta de transparência dos actos com severas repercursões na sociedade em geral. Tudo indica que, doravante, a lei passe a ser outra: a iniciativa privada é socialmente benéfica? Sim, talvez, mas não por definição dogmática. É preciso analisar caso a caso. Principalmente, é preciso impor-lhe limites de intervenção: tudo quanto ultrapasse esse limite, passa a ser assunto do estado: My dear friend liberal, you must stay out. That's just not of your business. I'm so sorry.

O debate ideológico não esgota, além disso, o problema. Ao serem definidas condições em Wall Street, fica aberta a porta para a fuga da alta finança para praças mais conformes às suas expectativas e às leis com que se sente confortável. Isso significa que a Wall Street perderá este importante atractivo, que até agora têm sabido defender, e que tem permitido a Washington controlar o mercado mundial. Esta questão prática é ainda mais aterradora ao olhos dos que têm procurado manter os EUA como potência hegemónica na economia. Como agir daqui para a frente? Fazer valer apenas a supremacia militar, desprovida de mecanismos de persuasão económica que tão bem têm funcionado nas relações diplomáticas? Decididamente, as coisas não vão bem para o lado republicano.

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2 Comentários:

At 15:59, Blogger CRN disse...

Em Portugal o impacto económico mais importante atingirá 50% do fundo de reserva das pensões, considerando o "investimento" da Manuela Ferreira Leite - com o nosso dinheiro - na bolsa norte americana, a questão é que esta será, uma vez mais, um erro diluido no tempo.

A revolução é hoje!

 
At 17:33, Blogger Susanita disse...

Aqui na Belgica, a imprensa tem dado muito (semasiado) éco à crise economica americana e também aos problemas de desvalorizaçao de titulos dos dois principais bancos belgas (a Fortis e a Dexia). O projeto de injeçao de capitais do estado nos bancos, que tanto foi discutido nos EUA (para finalmente ser rejeitado), ficou decidido num fim-de-semana pelo governo belga, sem mais debate... é de ficar com inveja da democracia americana. Agora o estado é accionario a 49% da Fortis, "mas so por pouco tempo" dizem os politicos... Sim realmente, so até à proxima espéculaçao... e desvalorizaçao seguinte, que acabe por asfixiar o banco...

 

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