segunda-feira, outubro 27, 2008

A falsa avaliação dos professores - o segundo tempo

Esta não parece ser a história da vara e da cenoura. Mais se parece com o holofote que obscurece a borda da ribanceira.


O momento presente caracteriza-se pelo preenchimento das fichas de avaliação e a fixação dos objectivos. Está escrito: os objectivos para o ano corrente (a média das notas de cada turma) não poderão ser inferiores ao do ano anterior. O professor está assim, perante o dilema: se sente que a turma poderá não alcançar tal média, segundo o seu próprio discernimento, estabelece uma meta mais modesta e aceita uma avaliação negativa do Minsitério, com consequências para a progressão na carreira; ou então, cede à tentação de relaxar o seu sentido de rigor, na esperança de conseguir passar pelo crivo legal. Tudo isto é o que eu designaria por primeiro tempo.


Resta o segundo tempo, ao qual poucos professores se têm referido. Afastemo-nos do buliço das vozes, tentemos perspectivar o desenvolviemnto desta situação num prazo de um ou dois anos. Com toda a probabilidade - está na lógica do mecanismo implementado, caso não lhe seja posto um travão - haverá um número significativo de professores que terão optado pela adesão involuntária ao facilitismo do modelo. Para defenderem o seu ganha-pão, é verdade, porque a isso foram pressionados até por superiores hierárquicos que se "esqueceram" de registar em acta as suas palavras. Que sorte poderão esperar estes professores? Estarão menos vulneráveis que aqueles que tenham optado pela firmeza deontológica na sua prática lectiva? Como será fácil, nessa altura, demonstrar a falsidade dos resultados dos alunos constantes nas pautas: e começar a pedir selectivamente justificações para as classificações atribuidas e assinadas. A assinatura de um trabalhador intelectual é o que ele tem de mais precioso. Para que perca valor, basta ser mal usada uma vez.


Atroz dilema, que mais vale ser ponderado na plenitude das consequências de cada alternativa, antes de moldar de forma irremediável todo o futuro profissional. Este tem que ser defendido em todos os momentos, não se compadece com relaxamentos.

O mais perverso do actual modelo de "avaliação" dos docentes é que tende a transformar todos os professores em cúmplices de um monumental simulacro de sucesso escolar sem qualquer correspondência na real difusão dos conhecimentos, apenas pela via da alteração do significado das notas dos alunos.

Maria de Lurdes Rodrigues já tinha mostrado ao que vinha quando enviou rapidamente um inspector para sacar uma retratação de Manuel Cardoso, na sequência da acusação feita por este de facilitismo ao Ministério. Usou a ministra um motivo instrumental - o eclipse de uma acta de reunião na noite anterior - para esconder a sua responsabilidade política. Note-se que a acusação foi feita nessa altura e pela primeira vez em público, precisamente por esse jovem. Qual o significado da retratação, considerando devidamente as circunstâncias em que foi feita? O seguinte: condição necessária para que a filha de Manuel Cardoso continuasse a beneficiar da profissão do pai para o seu sustento. É tão inglório tentar descobrir as conclusões a que Manuel Cardoso chegou da sua experiência enquanto professor pelo texto da retratação publicada pelo Ministério, como descobrir os avanços que Galileu imprimiu à Física moderna lendo a retratação apresentada à Inquisição.

Com a avaliação de cada docente a depender das notas atribuidas aos alunos, estas deixam de representar a fracção das respostas certas dadas por estes nos testes elaborados pelos professores, significam adicionalmente a condição necessária para que os professores continuem a exercer a sua profissão. Vemos assim que, na arte de instrumentalização dos trabalhadores, o episódio de Manuel Cardoso foi apenas um balão de ensaio. E todas as notas dos alunos daqui para a frente, caso o modelo vingue, não terão correspondência com as notas dos anos passados, no tempo em que os professores não eram forçados a fundir a sua própria classificação com a classificação dos seus alunos.

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