sexta-feira, outubro 03, 2008

Jochen Scholz - Projecto Europeu para o Novo Século (7)

(Início)

Terrorismo: um meio de esconder os objectivos imperialistas

A nova ordem mundial, sob o lema «America first», baseia-se na supremacia militar, no dólar como moeda-padrão, no controlo dos fluxos de combustíveis, na mão firme sobre as instituições que dominam a economia mundial e no direito do mais forte. O «terrorismo internacional» só serve para justificar, aos olhos da população dos EUA, a manutenção de um aparelho de defesa gigantesco após o desaparecimento de todas as ameaças sérias. Paralelamente, o novo inimigo permite manter na trela os países emergentes e industrializados e forçar os países credores a aceitar uma moeda desgarrada da economia real.
Face à ordem do mundo, em que um dos actores beneficia de forma desproporcionada face aos meios de que dispõe, os restantes actores são forçados a colocar-se algumas questões às quais é possível encontrar dois tipos de respostas:

Adaptar-se - submeter-se - acompanhar contrariado - acomodar-se - reagir?

Os maiores riscos associados à primeira fórmula são: a dependência crescente indo até à vassalagem, a perda das margens de manobras próprias e do poder de iniciativa política autónoma, a insegurança jurídica, o comprometimento em guerras desestabilizadoras, a morte dos seus soldados, a delapidação dos seus recursos materiais e intelectuais, a emergência de contra-poderes agressivos, o descrédito da Europa e o perigo do afundamento do sistema democrático. A esperança de se encontrar no futuro entre os vencedores é bem pequena, na maior parte dos casos. A Europa e os países asiáticos alinhados com os EUA enganar-se-ão, caso procurem em anos vindouros os retornos económicos que caracterizaram os anos de 1945-1990. Estes deveram-se exclusivamente à Guerra Fria.

A Europa tem de encontrar aliados para reconduzirem os EUA à razão

De facto, o «bom mestre» de Joseph Joffe já não serve. O seu propósito de continuar a partilhar, como no passado, um bolo cada vez mais pequeno já não é viável. A concorrência está demasiado forte e ele está submerso até ao pescoço. A segunda via também comporta riscos. Mas oferece mais oportunidades que riscos, pois se trata de uma alternativa necessariamente oposta, leia-se «civil», e a dinâmica a que está associada oferece muitas possibilidades. A iniciativa, a dinamização e o suporte desta alternativa cabe somente à Europa, porque a sua economia é bastante forte, o seu processo de unificação está relativamente avançado e a sua postura de respeito por interesses díspares, pelo Estado de Direito, pela concertação diplomática dos conflitos é universalmente reconhecida. Não é, no entanto, suficientemente forte para avançar sozinha. Dificilmente os EUA aceitarão um projecto multilateral enquanto prevalecer uma situação em que consigam retirar todas as cantanhas do lume, sobrestimar a sua posição dominante e deixar que o resto do mundo pague as despesas. Além disso, não é possível concertar, sem a participação dos EUA, os problemas que se irão levantar. Portanto, a Europa tem de encontrar aliados que consigam reconduzir a os EUA à razão. Para contrariar a estratágia dos EUA, não são os meios que faltam Europa, o que tem faltado é uma visão lúcida dos diversos interesses em jogo, a coragem para distinguir os factos das arengas e a vontade de actuar em vez de reagir.
Mas, em vez de analisar com cuidado os seus próprios interesses e os alheios, a Europa, com a Alemanha à cabeça, tem-se desconsolado pela fé na «comunidade de interesses transatlântica» há muito perdida, de mistura com sentimentos de reconhecimento, respeito e reverência. A realidade é, portanto, a seguinte:
Em meados de Janeiro de 2004, Alan Greenspan, no seu discurso em Berlim, voltou a ludibriar sem vergonha a Europa, acusando-a de ser a responsável pela fragilidade do dólar e deixando a seguinte recomendação: para impedir o afundamento financeiro dos EUA, devem transformar os activos das pensões de reforma em fundos privados que seriam investidos nos EUA logo a seguir.

Libertar-se ou destruir as bases da sua própria economia

Em Davos, reunem-se todos os anos os altos responsáveis do mundo político e financeiro. Em 2004, Dick Cheney, vice-Presidente dos EUA, permitiu-se deslumbrar a sua audiência com o anúncio do crescimento de 8% da economia dos EUA no 3º trimestre de 2003, crescimento esse pago, graças aos benefícios fiscais, em grande medida pelos investidores estrangeiros. Ninguém retorquiu, nem em Berlim, nem em Davos. Desta forma, torna-se impossível quebrar o círculo vicioso dependência - obrigação de exportar - investir em dólares - acentuar o défice dos EUA - voltar a exportar.
Quem aceita os pressupostos dos EUA para fazer funcionar a economia mundial, acabará por destruir as bases da sua própria economia. De cada vez que o Presidente da Reserva Federal faz menção de tocar nas taxas de juro, as Bolsas começam uma dança de ping-pong por todo o mundo. Por quanto mais tempo as empresas e as economias nacionais inteiras irão aceitar esta dependência em prejuizo da população. Não existe outro devedor que dite as suas próprias condições aos seus credores .

Projecto para o Novo Século Americano (PNAC)

Tal é a formulação, voluntariamente agressiva e visionária, que transformou há oito anos o resto do mundo em excluídos. Mas rapidamente esta visão tomou contornos bem reais, porque foi aplicada no plano político: no Iraque, no Afganistão, no enfrentamento com a Rússia, nas divisões criadas na Europa, no Irão, no Paquistão. Logo bancos e empresas europeias se apressaram, antecipando-se às ordens, a romper os seus laços comerciais com o Irão, a tal ponto temiam a cólera dos auto-proclamados deuses do Olimpo EUA, em detrimento das economias nacionais. É urgente agir. Se a Europa e outros não desejam tornar-se vítimas e vassalos das imposições que lhes são feitas, devem demonstrar que são capazes de elaborar e pôr em prática a sua própria visão política. Não se limitarem a grunhir no seu canto.

(continua)


Tradução a partir da versão francesa:
Jochen Scholz, PNEC – Project for the New European Century, Horizons et débats, 15 de Seyembro de 2008

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7 Comentários:

At 23:24, Blogger CRN disse...

Isso se a Europa existisse, se não fosse um tentáculo dos americanos, sustentado pelos corruptos durões que proclamam divergências demagógicas para ilusão geral.

A revolução é hoje!

 
At 23:52, Blogger António Chaves Ferrão disse...

CRN
Álvaro Cunhal muitas vezes chamou a atenção para o afrontamento dos sentimentos nacionais decorrentes da situação actual, que identificou antes de muitos outros.
Hoje, durão Barroso, ao falar, já não replicava cegamente os pontos de vista da administração Bush, nem sequer os de Sarkozy. Estava mais perto da visão traçada neste texto, de um coronel alemão que esteve largos anos na NATO. É preciso estar com atenção às mínimas divergências, para se poder entender até que ponto os interesses nacionais são espizinhados ou observados. Haverá, certamente, aliados dos comunistas na afirmação dos interesses nacionais no futuro, tal como já aconteceu no passado.
Um abraço

 
At 17:16, Blogger Madalena disse...

Bom dia do Professor! Abraço!

 
At 23:15, Blogger CRN disse...

Ferrão,
Para se poder entender, a defesa efusiva ou demagógicamente exacerbada dos interesses nacionais, é necessário assumir a realidade!

A revolução é hoje!

 
At 10:25, Blogger António Chaves Ferrão disse...

CRN
A realidade também se manifesta nos escritos de oficiais alemães. Se é demagogicamente exacerbada? Penso que não, que está mais escrita com dôr. Para ti, mais um texto:
aqui.
Um abraço

 
At 15:11, Blogger CRN disse...

Ferrão,
Falo do durão!

A revolução é hoje!

 
At 15:29, Blogger António Chaves Ferrão disse...

CRN
Esquece essa figurinha ridícula, que viveu à sombra de Bush e com ele será arrastado para o caixote do lixo.
Um abraço

 

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