segunda-feira, outubro 06, 2008

Jochen Scholz - Projecto Europeu para o Novo Século (9)

(Início)

O papel da China

Os EUA estão compelidos a manter a actual ordem mundial. Só os EUA conseguem reunir recursos económicos necessários para a manutenção do aparelho militar gigantesco, tão indispensável para o estatuto de superpotência, como para segurar a circulação do dólar. De momento, a China é um comprador bem-vindo, porque insubstituível, dos títulos do Tesouro dos EUA. Mas a China não se irá cingir a este papel indefinidamente. A presença militar dos EUA, cercando a China, torna a questão da energia um verdadeiro paiol. Muitos dos que investem em dólares começam também a interrogar-se: Por quanto tempo deverão os credores tolerar que o devedor os force a aceitar, para pagamento dos excedentes comerciais e financeiros, uma moeda desvalorizada acompanhada de uma ameaça contra si dirigida?
Se a Europa não ousar mudar o rumo da sua política mundial, ver-se-á um dia na circunstância de ter de acertar o passo com a potência imperial em novas guerras globais sob a bandeira da «luta contra o terrorismo». No entanto, como já ficou patenteado desde Israel à Irlanda do Norte, do Afganistão à Indonésia, passando pelas Filipinas, não é possível combater o terrorismo por meios militares. Está na natureza da «guerra desigual». Todas as capturas de chefes terroristas foram fruto de um trabalho paciente e meticuloso de polícias e serviços de espionagem, levados a cabo por cooperação internacional. Os que encarregam disso os militares, comprarão uma nova «Guerra dos Cem Anos» - como evocou o ex-director da CIA, James Woosley - para tentar vergar à disciplina dos valores ocidentais a nova comunidade dos seus vassalos.

Um barril de pólvora para o dólar

Em vez de continuar a subvencionar o motor desgastado da economia mundial com os seus próprios excedentes, a economia europeia deveria utilizar a sua produtividade elevada para se tornar, ela própria, um motor. A ameaça dos EUA, de estrangular as exportações por via do poder sobre o dólar, revelar-se-á vã, caso os bancos centrais asiáticos comecem a aceitar euros. Porque sem os investimentos externos - da Europa e da Ásia - é impossível financiar o défice dos EUA. A China já iniciou a diversificação das suas reservas em divisas, provocando o recuo do dólar sem fim à vista. O grupo ASEAN+3 procura fixar em moeda regional as obrigações do estado. Eis um barril de pólvora para o dólar. Mas esta evolução requer um gestão conceptual e institucional. Deixada a si própria, arrisca-se-ia a espalhar efectivamente o caos de que Greenspan e consortes agitam com virtuosismo o espantalho para manterem em ordem as suas fileiras.

Uma ordem económica mundial mais justa e equitativa é possível

A Europa, em cooperação com a Ásia e a Rússia, é suficientemente forte para assumir a responsabilidade. Mas deve ser suficientemente sagaz para não repetir os erros do imperialismo do dólar das últimas décadas. Os EUA não poderão excluir-se à dinâmica de um tal processo. Afinal de contas, ele irá beneficiar a sua própria economia.
Os atlantistas de ambos os lados irão logo brandir a ameaça do isolacionismo dos EUA. Também isto é um bluff, pois os EUA não poderão furtar-se por razões geo-estratégicas. O isolacionismo significaria a morte dos EUA como grande potência mundial, pois o lado europeu, fortemente interligado e em princípio dialogante de boa fé, é-lhe indispensável. As elites dos EUA têm disso perfeita consciência. Portanto, também aqui não há razões para cobardia da Europa. Razões há sim, para que alguém seja arrastado para um canto do ring com uma infeliz jogada de póker.


(continua)


Tradução a partir da versão francesa:
Jochen Scholz, PNEC – Project for the New European Century, Horizons et débats, 15 de Seyembro de 2008

Etiquetas: , , , , , ,

0 Comentários:

Enviar um comentário

<< Home


hits: