quarta-feira, outubro 08, 2008

Jochen Scholz - Projecto Europeu para o Novo Século (10)

(Início)

Perspectivas

A Europa não pode, pelo seu peso global, furtar-se a desempenhar um papel mundial. É escutada fora do «Ocidente» e nos níveis mais altos da ONU. Não, concerteza, por reproduzir ou se deixar envolver na actual ordem hegemónica. Uma ordem mundial conforme ao espírito europeu deveria antes apontar para que «a Europa e os USA se entendam, ainda que as suas posições não sejam no futuro tão dominantes como hoje.» Se substituirmos nesta afirmação «os USA e a Europa» por «A Inglaterra e a França», revelar-se-á a chave do sucesso desta proposta dentro da União Europeia. Helmut Khol, assim como os seus antecessores, estão conscientes disso, mas os sucessores, não havendo passado pela experiência da guerra, reclamam para a Alemanha uma normalidade que a sua História no Século XX não permite. Enviarão para os órgãos do governo, onde se encontram os escalões intermédios de gestão, um sinal errado. Os escalões intermédios estão já nas mãos de uma geração que nem havia atingido a idade da reflexão no tempo da Guerra Fria.
Só um empenhamento activo em prol de uma mudança nas condições da política internacional terá hipóteses de criar novas oportunidades. Cada euro que a Europa gaste para reparar os Estados despedaçados pelos golpes cirúrgicos dos EUA é retirado aos investimentos nacionais. O recurso às empresas sub-contratadas que lucram com isso, como no Iraque neste momento, não compensam as perdas para a economias domésticas. Cada yuan dispendido em dólares é retitado ao desenvolvimento interno da China. As tentativas europeias de inflectir a política não passaram, até à data, do estado embrionário, apesar dos sinais de apoio muito claros, vindos, por exemplo, da China. Os «encontros euro-asiáticos anuais e as visitas das chancelarias alemãs a Pequim nada alteraram. Logo, considerando as previsões de especialistas reputados do petróleo e a extrema fragilidade do sistema financeiro mundial, o tempo urge. Os recentes acontecimentos no Cáucaso anunciam, além disso, uma mudança de paradigma: a Rússia regressa à cena internacional. Os EUA encaixaram aqui o seu primeiro «contra-golpe», que Chalmer Johnson anteviu há oito anos:
«Os USA facilmente se arvoram em vitoriosos da Guerra Fria. Com toda a verossimilhança, quem espreitar retrospectivamente para este século, não o irá lá descobrir como vencedor, principalmente se os EUA se obstinarem na sua actual política imperial.»

A reacção de um jogador de boxe é conhecida. A História oferece-nos muitos exemplos de Estados que jogaram tudo na mesma carta, logo que se convenceram que estavam encostados à parede. O ex-diplomata Kishore Mahbubani anunciou, no seu livro aparecido em 2008 «O Novo Hemisfério Asiático. O Deslize Irresistível do Poder Global para Leste» o «crepúsculo dos deuses» do ocidente. Da imagem dada pelos media ocidentais durante a breve guerra na Geórgia, escreveu, a 20 de Agosto de 2008:
É, portanto, crucial para o Ocidente que tire lições dos acontecimentos na Geórgia. Deve ter em conta que o seu pensamento estratégico restringe as opções à sua disposição. Após o afundamento da União Soviética, os analistas ocidentais acreditaram que, para o Ocidente, seriam dispensáveis novos compromissos geopolíticos. Pederiam impôr os seus ditames. Agora, devem reconhecer a realidade. A população conjunta da América do Norte, União Europeia e Australásia é de 700 milhões, cerca de 10% da população mundial. Os restantes 90% lutam por deixarem de ser objecto da História, para se tornarem sujeitos da História. O ‹Financial Times› de 18 de Agosto de 2008 proclamava ‹Frente ocidental unida na Geórgia›. Melhor fora que escrevesse ‹resto do mundo ri-se do Ocidente por causa da Geórgia›
Estas análises, contudo, ainda não foram suficientes para convencer o conselheiro-chefe do candidato democrata à presidência dos EUA, Zbigniew Brzezinski, como mostram os comentários que fez à crise no Cáucaso. Eis como exprime o seu furor sagrado:
«Actualmente a Europa - apesar do seu crescimento económico e integração financeira, assim como da duração das suas relações transatânticas - é um protectorado militar de facto dos Estados Unidos da América. Esta situação gera necessariamente tensões e ressentimentos, especialmente desde que a ameaça directa que pendia sobre a Europa e que justificava essa dependência dos EUA se desvaneceu. É um facto que a aliança entre os EUA e a Europa é desiquilibrada, mas mais do que isso, é verdade que o desiquilíbrio existente entre os dois irá ampliar-se a favor dos EUA.»
Junte-se a lastimável estratégia de divisão empreendida pela entrada da Polónia e da República Checa no «Sistema Nacional de Defesa» [a instalação do escudo antimissil]. Tudo isto exige da Europa uma resposta adequada. Até para bem dos próprios EUA.

(Traduzido por Michèle Mialane, revisto por Fausto Giudice/Tlaxcala)

Tradução a partir da versão francesa:
Jochen Scholz, PNEC – Project for the New European Century, Horizons et débats, 15 de Seyembro de 2008

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