quarta-feira, outubro 22, 2008

José Eduardo Agualusa - A Conjura

José Eduardo Agualusa"Contra os bretões marchar, marchar...", este o grito do povo, os versos que o povo deu de cantar na capital do reino e que desceram depois por aí abaixo até às ruas de Luanda. Em Lisboa a notícia do Ultimatum trouxe à cena multidões furiosas mas sem direcção, como um enxame de abelhas a que se lança uma pedra. Escusadamente tremeu o rei pela sua cabeça; escusadamente empalideceram os nobres fidalgos, a próspera colónia inglesa de Sintra e de Cascais: ninguém se lembrou de os guilhotinar! Povo de ódios mansos, de brandas vinganças, os alfacinhas limitaram-se a estilhaçar as vidraças da redacção do jornal progressista Novidades e, defronte do edifício de O Século, à Rua Formosa, a aclamar longamente os eufóricos arautos da república. Em vão se barricou D. Carlos no seu palácio de Belém, toda a noite incomodado por fortes diarreias; toda a noite de espada na mão, a bradar que venham, venderemos cara a vida. (Que isto de ser rei exige exemplar heroísmo e compostura!)

A Conjura @ 2008, José Eduardo Agualusa

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2 Comentários:

At 23:49, Blogger Ludo Rex disse...

Boa passagem... Um verdadeiro povo de ódios mansos, viu-se o que se passou com os arautos do fascismo depois do 25 de Abril... Está tudo dito.
Abraço

 
At 00:00, Blogger António Chaves Ferrão disse...

Tudo dito, de facto.
Um abraço

 

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