domingo, março 30, 2008

Boris Vian - Le Déserteur

Durante a Guerra da Indochina (Vietname, ainda sob domínio colonial francês), três meses antes da queda de Diem Biem Phu, Boris Vian escreveu "O Desertor". Quando foi publicada, a canção provocou um escândalo e, pior que isso, em Novembro de 1954, quando se desencadeou a sublevação na Argélia, foi proibida de ser reproduzida na rádio por anti-patriotismo.



Monsieur le Président
Je vous fais une lettre
Que vous lirez peut-être
Si vous avez le temps
Je viens de recevoir
Mes papiers militaires
Pour partir à la guerre
Avant mercredi soir
Monsieur le Président
Je ne veux pas la faire
Je ne suis pas sur terre
Pour tuer des pauvres gens
C'est pas pour vous fâcher
Il faut que je vous dise
Ma décision est prise
Je m'en vais déserter

Depuis que je suis né
J'ai vu mourir mon père
J'ai vu partir mes frères
Et pleurer mes enfants
Ma mère a tant souffert
Elle est dedans sa tombe
Et se moque des bombes
Et se moque des vers
Quand j'étais prisonnier
On m'a volé ma femme
On m'a volé mon âme
Et tout mon cher passé
Demain de bon matin
Je fermerai ma porte
Au nez des années mortes
J'irai sur les chemins

Je mendierai ma vie
Sur les routes de France
De Bretagne en Provence
Et je dirai aux gens:
Refusez d'obéir
Refusez de la faire
N'allez pas à la guerre
Refusez de partir
S'il faut donner son sang
Allez donner le vôtre
Vous êtes bon apôtre
Monsieur le Président
Si vous me poursuivez
Prévenez vos gendarmes
Que je n'aurai pas d'armes
Et qu'ils pourront tirer



Na versão original, os dois últimos versos eram:
"que je tiendrai une arme ,
et que je sais tirer ..."
Boris Vian aceitou a alteração sugerida pelo seu amigo Mouloudji para conservar o teor pacifista da canção.



Fonte: Paroles.net

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Arnold e Rogness - A transformação bilinear e a esfera de Riemann

Tal como o afixo da raiz quadrada de menos um escapa à recta real e obrigou os matemáticos a considerar uma nova dimensão independente, generalizando o conceito de número, também o significado dos parâmetros da transformação bilinear só fica totalmente evidente se juntarmos uma nova dimensão ao plano de Argand. Neste vídeo, a transformação bilinear ou fraccionária é designada por transformação de Moebius. (AF)


This is amazing work by Douglas Arnold and Jonathan Rogness of the University of Minnesota.
— Edward Tufte




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domingo, março 23, 2008

Maria Lisboa versus David Justino

Conhecer a realidade é difícil; descrevê-la ainda mais. Neste mini-debate de blogs é nítido o contraste entre uma posição presa ao quadro gurwitchiano da tecno-burocracia - o presente como reinstância cíclica do passado - com outra que procura realçar vivamente os traços da situação actual, para que um dia seja possível ultrapassar colectivamente e conscientemente as dificuldades do presente. (AF)


A educação e os discursos com barbas

Não imaginam o quanto se torna penoso ouvir alguns discursos sobre o "actual" estado da educação em Portugal. Alguns deles chegam a raiar a ignorância compulsiva e uma incrível falta de imaginação, até para melhor disfarçar essa ignorância. O império do senso comum, a falta de leitura, de estudo, de trabalho rigoroso e de opiniões fundamentadas sobre os problemas da educação transformaram as últimas semanas numa insuportável "bancada central" onde todos têm o direito a emitir opinião, todos se sentem capacitados para "achar" sem que se note qualquer laivo de sensatez, conhecimento e de rigor sobre aquilo que se "acha".
Nessas alturas refugio-me nas leituras, no conforto do tempo distante, naqueles cuja inteligência e capacidade de pensar os problemas não nos deixam dormir sossegados sustentando esta inquietude incorrigível de que não me consigo libertar.
Fui à estante buscar o Oliveira Martins e abri nos escritos sobre o "estado da educação" publicados em O Repórter, no ano de 1888. Deixo-vos apenas alguns excertos deliciosos:

22 de Junho de 1888
Resta saber que espécie de homens se estão formando nas famosas escolas leigas, e com o ensino estapafúrdio dos nossos liceus. (...)
Este estado de espírito é o dos que, apesar de livres pensadores, acham preferível confiar a educação dos filhos aos jesuítas.

24 de Agosto de 1888
O grande defeito do ensino oficial português está em que os compêndios são maus, os professores piores, e os programas, trasladados das escolas europeias, seriam excelentes por vezes, se não fossem puras hipóteses burocráticas. (...)
... os próprios progressos do ensino são uma nova causa de cretinização. (...)
Um facto universalmente conhecido é a progressiva ignorância das gerações que o ensino oficial vai preparando. (...)
A Indústria dos compêndios escolares viça à custa dos cérebros das crianças e das algibeiras dos pais.

Tudo é tão recorrente. Andamos há muito mais de um século a dizer o mesmo e o que é mais grave é que acreditamos naquilo que dizemos.
Chega por hoje.

David Justino in A educação e os discursos com barbas,
publicado por 4R - Quarta República em 14 de Março de 2008




Resposta aos "discursos com barbas" de David Justino

E se começássemos por achar que a escola para todos não é apenas um direito para quem dela usufrui, mas também o cumprimento de um dever face à sociedade que a disponibiliza?

Como ninguém parte deste princípio, alunos e famílias sentem-se no direito de exigir, mas não no dever de dar nada em troca.

Quando for, socialmente, possível exigir atenção, comportamentos adequados, interesse e participação na aula, estudo e trabalho de casa, ida aos apoios disponibilizados nas escolas (a que os alunos faltam constantemente) peçam satisfações aos professores.

Quando a escola for socialmente valorizada como local de aprendizagens e não como local onde se colocam as crianças, sem que se lhes possa exigir trabalho (porque os "meninos" se cansam muito) peça-se satisfações aos professores.

Pode-se castigar os professores introduzindo mil e um diplomas:
  • em que se preveja avaliação exaustiva do cumprimento dos seus conteúdos funcionais;
  • em que se sobrecarregue o professor com montes de aulas de apoio, de substituição, de projectos de escola, de elaboração de relatórios para desmotivar as retenções, de reuniões de trabalho;
  • em que se institua a figura de director para funcionar com um papão;
  • em que se pretenda criar conselhos de escola que passarão a gerir toda a actividade escolar incluindo a pedagógica subordinando-a à administrativa;
que os resultados reais, respeitantes ao insucesso, não se modificarão, mesmo que as estatísticas se alterem.

Enquanto:
  • não for decidido socialmente que cidadão se quer que a escola forme;
  • não forem revistos os conteúdos necessários à formação desse cidadão;
  • não for implementada uma diversificação para aquisição desses conteúdos, dando possibilidade aos alunos/famílias de escolha de vias diferenciadas para a sua formação (a maioria não quer ser “doutor” e o ensino está todo vocacionado para essa via);
  • a sociedade não deixar de desculpar o aluno, considerando-o como uma vítima, e não como um agente activo no seu processo de aprendizagem;
  • se tentarem implementar reformas em cima de reformas sem que qualquer delas seja aferida e avaliada (ainda não acabámos de implementar uma, já outra está a surgir – não há escola que aguente);
  • não houver um “pacto de regime no âmbito da educação” que permita uma continuidade do trabalho, independentemente do governo/ministro que de momento governa o país;
  • não se parar de fazer reformas enrolando sempre o sistema sem se tratar do núcleo principal;
  • … enquanto não se parar para pensar qual é mesmo o problema;
não haverá resultados palpáveis em educação. Não haverá professor que os consiga, a não ser que trabalhe em escolas com determinadas elites sociais.

Quando se compara com outros sistemas, convém analisá-los para perceber quais as diferenças e não importar fatias para implementar num sistema que nada tem a ver com os outros. Um sistema é um sistema porque constitui um todo… não pode ser remendado!

Desculpem-me "achar" tanta coisa, mas estando no terreno (ainda por cima num "terreno acidentado") e não nos gabinetes "acho isto tudo"!


Maria Lisboa, em Resposta aos "discursos com barbas" de David Justino,
publicado por Professores Sem Quadro em 17 de Março de 2007

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Paul O'Niel - Iraque antes do 11 de Setembro

Bush decidiu a invasão do Iraque antes do 11/9

Desde a primeira reunião do Conselho Nacional de Segurança, o governo de Bush elaborou planos para derrubar o governo de Saddam e preparou a ocupação do Iraque. "Encontrem um meio de o fazer", ordenava Bush aos seus conselheiros. Um documento CBS e transcrição VF.

Paul O'Niel, Secretário do Tesouro no primeiro governo de Bush, foi entrevistado em 2004 por uma jornalista da CBS, por altura da publicação de uma obra descrevendo as antecâmaras do poder em Washington.

Ron Suskind, o autor de "O Preço da Lealdade", recolheu testemunhos de muitos funcionários e membros do governo, entre os quais o de Paul O'Niel, que aceitou ser citado pelo seu nome. Na altura, Donald Rumsfeld telefonou a Suskind para tentar dissuadi-lo da publicação.


Com início aos 1:50 o vídeo foi legendado na parte que se refere aos preparativos da invasão do Iraque antes do 11 de Setembro. (AF)




Fonte: Bush avait décidé l’invasion de l’Irak avant le 11 septembre 2001,
publicado por Contre Info a 19 de Março da 2008

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quinta-feira, março 20, 2008

Bönisch e Wiegrefe - Quem cometeu o Holocausto? (2)

Holocausto


Crimes por convicção, crimes por excesso

Como satanás no Antigo Testamento, o mal tem muitas faces. Houve quem cometesse os crimes por convicção: os nazis comprometidos nas forças policiais - membros das SS e militares - que, tal como Hitler, estavam convencidos de que os judeus eram a fonte de todos os males. Alguns cometeram os seus primeiros assassínios nas décadas de 1920 e de 1930. Houve também quem cometesse os crimes por excesso, tirando partido da falta de direitos dos judeus na Europa de Leste, aproveitou para raptar e roubar. Na Galícia (região fronteiriça entre a Polónia e a Ucrânia), por exemplo, os membros das forças de ocupação dedicavam os tempos livres a disparar contra os judeus nos guetos ou a chantagiá-los na mira dos seus bens de joalharia.

Houve quem cumprisse ordens superiores, como o major Trapp do Batalhão de Reserva Policial 101. Segundo testemunhas oculares, o Major Trapp estava em lágrimas quando recebeu a ordem para disparar sobre 1500 mulheres, crianças e velhos judeus próximo de Varsóvia, ao mesmo tempo que pronunciava: "Ordens são ordens!" Em Julho de 1942, os seus homens fizeram sair as vítimas das suas casas, obrigaram-nas a entrar nos camiões e transportaram-nas para uma zona descampada para serem executadas. Dispararam sobre elas na cabeça ou na nuca e, ao anoitecer, os soldados tinham as fardas cobertas de fragmentos de ossos, material cerebral e manchas de sangue.

Do mesmo modo que normalmente há mais do que um perpetrador, também há várias razões para tornar um homem perfeitamente normal num assassino: anos de doutrinação, confiança acrítica nos dirigentes, sentido de dever e de obediência, pressão dos seus próximos, depreciação da violência por vivências de guerra, sem falar na cobiça pelas propriedades dos judeus.

Um homem que, ao que parece, não teve problemas em trocar o seu trabalho numa secretária por massacres no Leste foi Walter Blume, natural de Dortmund, nascido em 1906, filho de uma professora e de um advogado, que completou o equivalente alemão do bar examination com a pobre classificação de "adequado". Não obstante, em 1932 Blume foi colocado como assistente de Juiz na circunscrição da sua terra natal.

A carreira de Blume no regime de Hitler começou no dia 1º de Março de 1933, logo a seguir à subida ao poder dos nazis. A sua primeira posição foi a de chefe da divisão política do quartel-general da polícia em Dortmund. Depois de se inscrever no Partido Nazi e se alistar nas SA (Tropas de Tempestade), tornou-se chefe da polícia secreta, ou Gestapo, na cidade oriental de Halle, depois em Hannover e, mais tarde, na capital Berlim. A razão principal da rápida rotação dos oficiais superiores, típica da Gestapo, era facilitar oportunidades para adquirir experiência de repressão.

Com início em 1º de Março de 1941, Blume dirigiu o Departamento de Pessoal da 1ª Divisão do designado Reichssicherheitshauptamt (gabinete principal de segurança do Reich, RSHA). A sua primeira tarefa foi preparar pessoal adequado para um dos comandos de morte do Einsatzgruppen (grupo de acção especial), uma força composta por aproximadamente 3000 homens, conhecidos por a "Gestapo sobre rodas". Este grupo seguia o exército de Hitler à medida que este progredia para leste e encarregava-se da liquidação imediata dos "judeus bolcheviques" e da "excisão dos elementos radicais".

O próprio Blume dirigiu uma unidade conhecida como o "Comando Especial 7a", parte integrante da Einsatzgruppe B. Segundo as anotações de Blume, o seu grupo matou aproximadamente 24000 pessoas na Bielorrússia e Rússia entre Junho e Setembro de 1941. Pouco tempo depois, Blume regressou à RSHA, onde foi promovido à posição de chefe de divisão e líder exemplar das SS. Em Agosto de 1943 deslocou-se a Atenas, onde ele e dois subordinados de Adolf Eichmann organizaram a deportação de judeus gregos para o campo de extremínio de Auchwitz.

Blume foi levado ao Tribunal de Nuremberga em Setembro de 1947, em conjunto com outros 22 homens, cuja ocupação regular os qualificava como funcionários superiores da sociedade civil. Incluíam um dentista, um professor universitário, uma cantora de ópera, um pastor protestante, um professor e alguns jornalistas. Catorze foram condenados à morte, porém só quatro sentenças foram executadas. O Alto Comissário dos Estados Unidos da América, John McCloy, perdoou os restantes, incluindo Blume, e gradualmente ao longo dos anos foram sendo libertados. Blume tornou-se um homem de negócios.

Muitos dos perpetradores nunca foram castigados. Houve até hoje 6500 condenações, das quais apenas 1200 por homicídio voluntário ou involuntário.

Georg Bönisch and Klaus Wiegrefe in Nazi Atrocities, Committed by Ordinary People,
tradução inglesa do artigo original em alemão, publicado por Der Spiegel Online em 18 de Março de 2008.
Versão inglesa de Christopher Sultan

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Plataforma sindical de professores - Abaixo-assinado

(Recebido por email de A sinistra ministra)

Abaixo-assinado de professores

Para assinar carregue aqui.

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De vez em quando também me divirto!

quarta-feira, março 19, 2008

Feliz dia do pai!


Assinado: Óscar

O preço do barril de petróleo

Paradoxos do mundo moderno: o preço do barril de petróleo subiu ou desceu desde 2000?


Preço do petróleo
(recebido por email)

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Bönisch e Wiegrefe - Quem cometeu o Holocausto?

SS

Banalização do assassínio

Desde doutores a cantores de ópera, professores escrupulosos a alunos relapsos, eis quem podemos encontrar entre os 200 mil alemães normais e seus auxiliares que estiveram envolvidos no extremínio dos judeus europeus. Após anos de pesquisas - ainda não concluidas - descobriu-se como pessoas sãs de uma sociedade moderna acabaram por cometer assassínios por um regime sanguinário.

Walter Mattner, um funcionário administrativo da polícia de Viena, encontrava-se em Mogilev na Bielorrússia em Outubro de 1941, no dia em que 2273 judeus foram baleados até à morte. Mais tarde escreveu à sua mulher: "As minhas mãos tremeram um pouco à chegada do primeiro carro. Mas ao décimo carro já apontava com calma e disparava com confiança contra as muitas mulheres, crianças e bébés. Atendendo a que tenho duas crianças em casa, sabia que elas sofreriam exactamente o mesmo tratamento, senão dez vezes pior, às mãos destas hordas." Após a Segunda Guerra Mundial, muitos observadores aceitaram como óbvio o facto de estes actos poderem ser cometidos apenas por sádicos e psicopatas, sob as ordens de uma meia dúzia de dirigentes militares que rodeavam Adolf Hitler. Era uma maneira conveniente de olhar para o fenómeno, pois excluía as pessoas normais de entre os perpetradores desses actos.

Porém, os resultados surpreendentes de um inquérito conduzido por americanos na sua zona de ocupação em Outubro de 1945 deveriam ter levantado algumas suspeitas sobre a versão que fez incidir todas as culpas sobre meia dúzia de criminosos patológicos. Vinte porcento das pessoas que responderam "concordavam com o tratamento dado aos judeus por Hitler". Outros 19 porcento afirmaram que, mesmo sendo as políticas relativas aos judeus exageradas, elas estavam fundamentalmente correctas.

Foi necessário esperar-se até à década de 1990 para que os historiadores e outros estudiosos empreendessem uma investigação em larga escala sobre os que, homens ou mulheres, levaram a cabo o Holocausto. Os estudos não estão ainda completos e, no entanto, os resulados já são chocantes.

Os investigadores descobriram que entre os perpetradores se encontravam nazis assumidos e pessoas que nada tinham a ver com os nazis. Os assassinos e seus ajudantes incluíram católicos e protestantes, velhos e jovens, pessoas com dois doutouramentos e pessoas das classes trabalhadoras fracamente escolarizadas. Entre todos, a percentagem de psicopatas não excedia em média a que caracteriza a população no seu conjunto.

O número de perpetradores estima-se hoje em perto de duzentos mil alemães (e austríacos). Eram agentes da polícia, como Walter Matter, empregados dos campos de concentração, membros das SS ou gestores. Acrescem outros 200.000 estónios, ucranianos, lituanos ou de outra nacionalidade não alemã que ajudaram a matar judeus, uns porque foram forçados a isso, outros de forma voluntária.

Georg Bönisch e Klaus Wiegrefe in Nazi Atrocities, Committed by Ordinary People,
publicado por Der Spiegel Online a 18 de Março de 2008

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Madalena Santos - Uma escola sem recreio?

Alunos na escola

Madalena Santos propõe hoje um tema para debate que tem passado quase despercebido e que nenhum responsável político deveria tergiversar, sob pena de ficar registado na História da Educação em Portugal como social e politicamente criminoso. (AF).


Ou "Era só o que mais faltava", foi a expressão utilizada pela Ministra da Educação no Parlamento, esta tarde, para rebater o argumento de que as notas dos alunos não devem contar para a avaliação dos professores.
Afinal, de que é que falamos, quando falamos de aprender e ensinar?
Há tanta coisa para falar, antes de falar das notas.
Reportando-me à minha realidade, o que me preocupa neste momento é a disciplina.
Outra das minhas preocupações, repito que me reporto à minha realidade, é o recreio. E até me atrevo a dizer que anda tudo ligado.
As palavras que mais se ouvem nos recreios são palavras obscenas, que vão além do calão mais frequente. É a violência verbal, que seria considerada apenas gratuita, se não fossem meninos e meninas que largaram as fraldas há menos de uma dúzia de anos a dizê-las, a gritá-las.
As nossas crianças estão a desaprender a brincadeira saudável da liberdade do recreio. Sei que é um lirismo, mas os recreios deviam significar a liberdade e não significam. O "recreio" é um stress: para comprar a senha do almoço, a cartolina para o trabalho de AP, para telefonar e mandar mensagens do telemóvel, para chegar à máquina das gulodices, com umas águas para disfarçar. Tudo isto entremeado de palavrão sim, palavrão sim.
A violência do recreio é um indicador a não subestimar de uma juventude que não sabe o que é que o futuro lhe reserva. Então, pelo sim pelo não, esmaga já a semente de liberdade, artilha-a de espinhos e aprende a atirar para o ar, sem querer saber quem vai apanhar com a bala e, muito menos, onde.
Estas palavras entram pelos ouvidos, atravessam a cabeça, mas é normalmente no coração que deixam marca. Mas a marca, em alguns, faz calo. E já nem dói. E isso é que está mal. É a estima individual a morrer aos poucos, vitima destas guerras que não têm educação nenhuma.
Muito menos nota.
Eu posso dar aos meus alunos os cincos todos, Senhora Ministra. Não custa nada. Mas uma grande parte do ser humano constrói-se a partir da auto-estima, que não se esgota numa nota. E, a julgar pelos recreios, a auto-estima está em crise na educação das nossas crianças. A auto-estima imprime-se na humanidade e na sensibilidade de um aluno, determinando-lhe um futuro.
Se não os educarmos para a liberdade e para o respeito, nada feito!


Madalena Santos in Era só o que faltava,
publicado por Chora que logo bebes em 19 de Março de 2008

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segunda-feira, março 17, 2008

Carta Aberta aos Encarregados de Educação

Recebido por e-mail:

"Os professores e educadores da Escola Pública portuguesa e os responsáveis pela condução política do Ministério da Educação, na sequência de um atribulado processo conflitual que teve visível expressão pública, encontram-se agora em posições muito difíceis de conciliar.

Seriamente preocupados com toda essa situação e com a forma distorcida como ela tem vindo a ser apresentada aos portugueses, quer pelo Governo, quer por diversos órgão de comunicação social; sobretudo, muito apreensivos relativamente ao futuro da nossa Escola Pública -- ou seja, da escola de todos nós --, um grupo de cidadãos (professores, educadores e encarregados de educação), no quadro de uma reunião promovida pela Comissão de Defesa da Escola Pública, decidiu elaborar o documento que aqui se anexa e que visa contribuir para um melhor esclarecimento da opinião pública.

Trata-se de uma carta aberta a ser distribuída aos encarregados de educação, no início do 3º período, por altura das suas reuniões com os directores de turma.

Em defesa da Escola Pública,
subscrevem-se aqui

Manuel Baptista
Isabel Guerreiro
Luis Mateus
Paula Montez
Joaquim Pagarete
Carmelinda Pereira

(da comissão de redacção do documento)

PS -
Foi criada a lista de discussão «Escola Pública» (escola-publica@googlegroups.com), um espaço de debate onde todos os cidadãos -- e os professores, em particular -- interessados em analisar e discutir o presente e o futuro da nossa Escola Pública o podem fazer.
Pode inscrever-se enviando uma mensagem para escola.publica.portuguesa@gmail.com

[por favor, faça circular esta mensagem pelos seus contactos]"

............................................

Carta aberta aos encarregados de educação

Os professores e educadores estão em luta pela defesa da Escola Pública !

Neste momento delicado do ano escolar, quando a actividade lectiva está em pleno, quando decorre um processo de avaliação dos alunos em que a máxima serenidade deveria pontuar, os professores e educadores estão profundamente inquietos com o futuro da Escola Pública.

O Governo e os meios de Comunicação Social querem fazer crer à opinião pública que as recentes manifestações de professores e educadores visam reivindicações laborais egoístas e, muito concretamente, que os professores se recusam a ser avaliados. TAL NÃO CORRESPONDE À VERDADE !

Efectivamente, os professores sempre têm sido avaliados: avaliados pelas provas prestadas, pelo trabalho diariamente desenvolvido e pelos resultados obtidos ; avaliados pelas acções de formação permanente que frequentam e as provas a que aí se sujeitam ; avaliados pelos colegas, pelos funcionários, pelas direcções das escolas e pelos serviços de inspecção do Ministério da Educação ; avaliados, ainda, pelos encarregados de educação que, em permanência, podem acompanhar a actividade desenvolvida pela escola junto dos seus educandos.

Para compreendermos a actual situação é necessário perceber que, mais do que um direito à educação e à instrução, a Escola Pública é um dever que envolve o Estado e os cidadãos. O Estado tem, por esse motivo, a pesada obrigação de promover e manter uma Escola Pública com o máximo de ambição e qualidade. Por sua vez, os cidadãos – obrigados que são a frequentar a escola – têm todo o direito de exigir do Estado uma Escola onde as novas gerações possam beneficiar de uma vasta e segura formação que as capacite para o exercício pleno de uma vida adulta em sociedade.
Como profissionais do ensino – além de encarregados de educação e de cidadãos atentos que também são – os professores apercebem-se, em primeira linha, dos principais problemas que afectam a Escola e, desde sempre, têm vindo a alertar o Ministério para o tipo de mudanças que julgam ser as mais
necessárias. O Ministério da Educação, para além de não ouvir os professores, tem vindo a pôr em prática, desde há muito, reformas que, apesar de terem alterado substancialmente a vida das escolas, nunca foram devidamente avaliadas.

Além disso, de há três anos para cá, o Ministério da Educação, confrontado com os fracos resultados obtidos pelos alunos, em comparação com os de outros países – e numa lógica baseada no cumprimento da agenda de Lisboa e dos prazos impostos pela União Europeia (2013) – achou por bem atribuir aos professores a responsabilidade pelo grave estado da educação em Portugal. É nesta linha que se insere uma avaliação do desempenho burocrática, penalizadora e hipócrita que apenas impede a progressão na carreira. O seu
objectivo não é o verdadeiro sucesso escolar dos alunos, mas apenas produzir boas estatísticas em termos internacionais.

Estas medidas integram-se ainda num plano de contenção de despesas (encerramento de escolas, transferências de responsabilidades de gestão para os Municípios, medidas contra o ensino especial, etc.) de que só pode resultar a degradação da Escola Pública. As leis aprovadas (o Estatuto da Carreira Docente, o novo Estatuto do Aluno, as alterações ao regime do Ensino Especial, a alteração do modelo de gestão das escolas,
o recurso a empresas para o fornecimento, em regime de trabalho precário, de monitores das Actividades de Enriquecimento Curricular no 1º Ciclo, a Escola a Tempo Inteiro, o programa Novas Oportunidades) apontam para a preparação de indivíduos para o mercado de trabalho precário, submissos e conformados a uma sociedade não democrática.

Os professores estão hoje unidos em defesa da Escola Pública, a única escola que, efectivamente, pode formar cidadãos emancipados e à qual todos, ricos ou pobres, têm garantido o acesso.

Apelamos assim aos encarregados de educação que juntem a sua voz à nossa para que, conjuntamente, saibamos definir os caminhos que levem à concretização de uma melhor escola para todos.

Esta carta aberta foi elaborada numa reunião de professores, educadores e encarregados de educação, realizada por iniciativa da Comissão de Defesa da Escola Pública, no passado dia 15 de Março, em Algés.

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domingo, março 16, 2008

IST, 16 de Março de 1972

Instituto Superior Técnico


Alguns elementos da Direcção da Associação de Estudantes do Instituto Superior Técnico (AEIST), vigente no ano anterior, haviam sido presos pela Direcção Geral de Segurança (DGS). Tal motivou um comunicado aos estudantes, istando o Director do Instituto Superior Técnico (IST), o Eng Químico Dr Fraústo da Silva, a obter informações sobre o acontecimento. Cerca das dez da manhã, aparentemente porque essa iniciativa que dava visibilidade às prisões não agradava à DGS, uma força policial significativa concentrou-se em frente ao portão principal do IST. O Dr Fraústo da Silva ficou alarmado com a situação e advertiu a polícia de que, enquanto ele fosse Director do Instituto, a polícia não tinha autorização de entrada nas instalações. Como seria de esperar, reinava grande efervescência entre os estudantes, surpreendidos por estes factos numa normal manhã de aulas que nada fazia prever que viesse a ser diferente das outras. As aulas foram interrompidas e concentraram-se todos na grande calçada em frente ao Pavilhão Central. Alguns estudantes tomaram espontaneamente a palavra, entre eles João Sarmento e Acácio Barreiros. Apelavam à calma para que se evitasse qualquer provocação. Quando eram cerca da dez e meia, deu-se a entrada intempestiva da Polícia pelo portão principal, voltado para a Alameda Afonso Henriques. À frente vinham agentes com cães polícia à trela. Foi a confusão geral. Nem todos os estudantes se aperceberam ao mesmo tempo. Seguiu-se uma correria desordenada em direcção aos dois portões laterais. Quando a frente de ataque da polícia ficou descoberta, tomei também o meu caminho, em direcção à Avenida Rovisco Pais. A meio da descida para o portão estava um monte de corpos engalfinhados, de onde sobressaiam as pernas das estudantes que levavam saias, assim como sapatos e pastas, canetas e réguas de cálculo espalhados pelo chão - uma presa demasiado fácil para os agentes que se aproximavam. Por mim, como uma flecha, vejo passar o Fred - mais tarde seria uma membro do Comité Central da UDP - gritando bem alto "Filhos da Puta". Isto deu-se perto do Instituto Nacional de Estatística.
A invasão do Técnico (abreviatura de IST) pela polícia nesse dia viria a tornar-se o elemento de detonação de acontecimenhtos marcantes na fase final do marcelismo, que ainda durou mais cerca de dois anos:
  1. Do ponto de vista de hábitos estudantis, as saias das estudantes passaram a dar lugar às calças, geralmente as jeans; os sapatos altos foram substituídos rapidamente por ténis.
  2. Nesse mesmo dia, o Director do IST, o Dr Fraústo da Silva, demitiu-se.
  3. Nesse mesmo dia, a AEIST foi encerrada.
  4. Pela reabertura da Associação foi feita a greve aos exames mais participada de toda a Academia em Portugal: dos cerca de cinco mil estudantes, apresentaram-se a exame cerca de cinquenta estudantes, ou seja, perto de um por cento. Para conseguirem realizar os exames entraram no Técnico em veículo de transporte policial. Mesmo assim, houve que aderisse à greve mesmo já estando na sala de exames, em parte por não compreender porque razão tão pouca gente lá estava, em parte porque era audível o burburinho que entrava pelas janelas, vindo do exterior; finalmente, porque era muito desagradável suportar o cheiro das bombinhas de mau cheiro do Carnaval enquanto tentavam concentrar-se nos assuntos das perguntas.
  5. Depois de um longo período de negociações, a época de exames foi anulada e repetida após a férias grandes; a AEIST foi reaberta na mesma altura.

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sexta-feira, março 14, 2008

Georges Gurvitch - Os tecnoburocratas

Chegámos agora às sociedades tecno-burocráticas e ao sistema cognitivo que lhe corresponde. As primeiras experiências deste tipo de sociedade e de estruturas foram feitas ainda antes da Segunda Guerra Mundial em Itália, na Alemanha e, mais tarde, na Argentina. Nem a vitória militar dos aliados, nem a queda tardia de Péron na Argentina cortaram a tendência que desemboca nestas estruturas.
O fascismo tecno-burocrático pode tomar formas muito diferentes, como se pode observar comparando os regimes de Franco, em Espanha, com o de Salazar, em Portugal com aqule que sonharam - e continuam a sonhar - os partidários da OAS em França. Depois da Guerra, a política dos aliados não esconjurou estes perigos.
...

Eis, resumidamente, os seus traços essencias:
  1. Subordinação de todas as classes sociais e grupos particulares que sobrevivam ao Estado, ele próprio dominado por cliques, sejam de tecno-burocratas, sejam de militares, sejam de "libertadores nacionais" que, desta forma, tanto podem ocultar a sua submissão como a suas desinteligências com os representantes do capital nacional ou internacional.
  2. Manutenção de grandes sectores sociais em permanente estado de ódio ou êxtase, muitas vezes provocados artificialmente. São apresentados como obstáculos às aspirações da grande maioria da população, politicamente neutralizadas e economicamente depauperadas.
  3. Os aparelhos estatais são colocados às mãos do chefe, do partido único e da polícia política todo-poderosa. As técnicas, embrenhadas em mitos, slogans e catastrofismos podem dar lugar ao aparecimento de mecanismos de extreminio em massa. A base morfológica e ecológica, essencialmente politizada, está trespassada de fanatismo e de referências mitológicas. A acumulação das riquezas acompanha a confiscação dos bens dos adversários e dos grupos étnicos perseguidos ou extreminados.
  4. O Direito e a Moral descem ao último lugar da hierarquia de regras sociais; a educação reduz-se às aparências, excepção feita às formas islâmicas de fascismo, que colocam como prioridade o ensino religioso tradicional...

...

Deve notar-se que este tipo de estruturas está bem mais distanciado do fenómeno social subjacente que o capitalismo dirigista organizado. De facto, todos os esforços do fascismo tecnocrático para integrar e dominar a sociedade inteira não foram suficientes para esbater as diferenças, que se mantiveram num nível considerável, entre a estrutura e a sociedade em geral. Para se completar o quadro social, há que considerar as resistências, os perseguidos, mas também os partidos proibidos; mais ainda, a grande massa da população que, escapando à empreitada alucinatória delirante dos chefes fascistas, prossegue com a normalidade possível a sua vida familiar e laboral no dia-a-dia. É neste nível que se concentram, como iremos ver, tudo o que subsiste de outras formas de conhecimento e que conseguiram subverter a estrutura do fascismo tecno-burocrático.

Vamos agora ensaiar uma nálise do sistema cognitivo correspondente a esta estrutura.
  1. Aquilo que constitui o seu traço mais saliente é a fusão completa entre conhecimento político, conhecimento técnico e conhecimento científico. Mas esta fusão realiza-se em condições tais que a palavra conhecimento não se aplica a nenhum destes três géneros. O conhecimento científico é certamente aquele que aparece mais deformado, mais transfigurado. Perde todo o vestígio da saber independente. Quanto ao conhecimento técnico propriamente dito, está profundamente afectado e não sobrevive senão na medida em que possa subordinar-se à política governamental, podendo, se for necessário, ser usado para fins de extremínio ou guerra.Igualmente, não se poderá falar de um conhecimento político digno desse nome, estando virtualmente excluída a possibilidade de conhecimento verdadeiro. Subsiste certamente uma forma de conhecimento espontâneo: manifesta-se na excitação artificial da população ...
  2. Outra forma de conhecimento político espontâneo pode distinguir-se nas intrigas que se alimentam em torno do chefe no seio do seu partido. Porém, reduzido o conhecimento político à arte da manipulação mais ou menos consciente da mentira, não pode desempenhar outro papel além da exaltação da doutrina política baseada na selecção de palavras de ordem, slogans, mitos grosseiramente falsos e aberrantes, numa palavra, do fanatismo. Desde que se aceite como forma válida de conhecimento, esta á a que predomina na fusão total com o "conhecimento técnico" e um "conhecimento científico" degenerado.
    Como me fizeram ver colegas alemães e italianos, não era preciso ser judeu ou resistente para se ser erradicado das universidades sob o nazismo ou o fascismo. Bastava pretender continuar com a transmitir conhecimentos técnicos ou conhecimentos científicos, ainda que tecnicizados, sem ter em consideração os slogans, mitos e alucinações aberrantes da clique dominante.
  3. Nestas condições, não é surpresa que o cnhecimento perceptivo do mundo que ocupa aqui o segundo lugar, seja - ele mesmo - penetrado (na medida em que corresponda à estrutura), pelos elementos estranhos ao saber e se encontre extremamente politizado. Não só as extensões em que o mundo exterior é colocado se dispõem em círculos concentricos e difusos (concêntricas no país de que se trate, difusas para os restantes), fazendo com que os acontecimentos tenham aparência de cíclicos ou inexplicavelmente precipitados, podendo mesmo dizer-se que este conhecimento, no seu todo, esté ferido por uma espécie de cegueira que o impede de discernir, em grande medida, sobre o que se passa no mundo exterior.
  4. O conhecimento filosófico, simultâneamente tecnicizado e politizado, vem em terceiro lugar neste sistema cognitivo. De resto, apenas é tolerado na medida em que sirva para justificar o regime apesar de todas a flutuações da sua política.Assim, a filosofia de Heidegger, sob o regime nazi, tornou-se ela própria, apesar do existencialismo aparente, numa glorificação do homem guiado, nas trevas da ignorância, por luzes delirantes projectadas pelo Fürer e pela sua entourage. Contudo, o nazismo preferiu justificações mais simples e planas, baseadas directamente no positivismo racista...
  5. O conhecimento de bom senso, o último do sistema correspondente a esta estrutura, joga contudo um papel considerável no fenómeno social subjacente. Porque todos os elementos da sociedade não integrados no regime, ainda que não estejam directamente ameaçados, recorrem a este género de conhecimento para preservar todos os outros do esquecimento a que o regime os arrasta, de tal forma que aqui se refugiam conhecimentos tecnicos, conhecimentos científicos, conhecimentos políticos, conhecimentos da percepção do mundo exterior, conhecimento do Outro e de Nós propriamente dito, que não existe no sistema cognitivo oficial...


Tradução (excerto) da versão francesa
G. Gurvitch, Les Cadres Sociaux de la Conaissance
1966

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Ramiro Marques - Os tecnoburocratas

Ramiro MarquesApós três décadas de democracia, estamos a assistir a uma reconfiguração do poder político. Essa reconfiguração assenta em dois pilares: o actual PS e a ala cavaquista do PSD. Incapazes de segurarem este arremedo de estado social, essas duas facções do poder tecnoburocrático uniram-se para procederem à maior transferência de riqueza de que há memória nas últimas três décadas. Essa transferência de riqueza é absolutamente crucial para a manutenção dos privilégios dos oligarcas. Os professores, por serem 140000 e por estarem sistematicamente divididos enquanto grupo profissional, foram os escolhidos para a a realização desse processo de transferência de riqueza. Dentro de meia dúzia de anos, dois terços dos professores não passarão do meio da carreira e estarão condenados a trabalharem até aos 65 anos (ou mais) com um salário inferior ao de um sargento. Para que essa transferência de riqueza se realize sem sobressaltos para os oligarcas, é necessário que o poder político limite ou anule a liberdade de expressão nos espaços e organismos públicos. A escola pública tem sido um espaço de eleição para o exercício das liberdades. Com ameaças de processos disciplinares, exacerbação dos conflitos entre professores titulares e não titulares e uma política oficiosa de guardar segredo sobre tudo o que se passa nas escolas, o poder político foi criando as condições ideológicas e repressivas para que essa transferência de riqueza se continue a fazer de forma doce. O objectivo é fazer parecer essa transferência como natural, de modo a que as próprias vítimas do processo de pauperização e proletarização a aceitem como inevitável.
Se lerem A Política de Aristóteles, está lá tudo o que é preciso saber sobre o processo de perversão da democracia e a sua tranformação em oligarquia. Em Portugal, esse processo está em marcha.
Para ler o meu e-book sobre a Política de Aristóteles, clique no link:
http://www.ramiromarques.pt.vu/
Vá ao menu, clique em "Ética e Pedagogia" e depois "Os meus E-Books", em "Ensaios Críticos sobre a Política de Aristóteles"

Ramiro Marques in Para compreender o que nos está a acontecer,
publicado em Ramiromarques a 13 de Março de 2008

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quinta-feira, março 13, 2008

A festa

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Emídio Rangel, o vendedor de presidentes

É tão fácil vender um presidente como vender um sabonete. Nesta forma lapidar, com este cinismo, resume Emídio Rangel a sua maneira de estar na vida. Gosta de sentir o respeito e mesmo o medo de uma classe política impreparada e demagógica, carente dos seus serviços. Faz-se pagar regiamente e tem no sector público os seus principais clientes. Pelo êxito que tem tido, tenderia a concordar, pelo menos em parte, com ele. Só que alguns acontecimentos recentes vieram perturbar, certamente contra sua a vontade, o desempenho das suas artes de feitiçaria.
Na véspera da marcha da indignação, eis que Emídio Rangel perde as estribeiras. Olá! Pensei para comigo. Quando alguém se zanga, já deixou ficar a razão algures pelo caminho. Bastou um pouco de efervescência social, a subida de uns poucos graus da temperatura, um pequeno ajuste de contas de um sector profissional para com a tutela, para que Emídio Rangel reconhecesse que nesse ambiente, nada feito: nem sabonetes, nem presidentes. Sobra um Emídio Rangel desfeito, sem glória, incapaz de raciocinar, presa dos seus próprios fantasmas, exibindo um verdadeiro terror de existir. Como tudo era diferente quando parecia que todos dançavam ao mavioso som do seu canto de sereia. Pessoas que pareciam ajustadas ao seu figurino de embrutecimento, em lamento contínuo, incapazes de distinguir a fonte dos seus próprios males, necessitadas urgentemente de evasão ou, pelo menos, da ilusão da evasão.
Caro Emídio Rangel: o seu acto irreflectido fê-lo baixar uns pontos a cotação na bolsa. Com essa precipitação, permitiu que entrasse na cabeça dos seus hipotéticos clientes uma dúvida terrível sobre a sua capacidade e eficiência profissional, sobre a sua mensagem de confiança domesticadora. Não é legítimo pedir aos Rasputines deste mundo que salvem governantes incapazes, mas escusava de mostrar os seus medos de forma tão prematura quanto desastrada.

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As estatísticas do Ministério da Educação

O ME não anda a trabalhar pelos alunos. Estes, não são mais do que carne para canhão ao serviço da sua estatística.
Vejamos o que se anda a passar na Matemática, do 3º ciclo do ensino básico.
Para melhorar a estatística do sucesso no exame nacional, o ME anda a transformar a prova numa operação de teatro em três actos.
A prova própriamente dita, não é mais do que o terceiro acto dessa peça de teatro, que se encontra escalada para 20 de Junho.
Antes disso, já ocorreu o primeiro acto, a 31 de Janeiro, e está calendarizado o segundo acto para dia 7 de Maio.
Só o último acto é que é público, porque os dois primeiros actos decorrem à revelia dos pais, dos alunos e do país.
Ao atropelo da escola, que é obrigada a transformar a aula regular que está prevista para aquela hora, em horário da peça de teatro, que como é a nível nacional tem que decorrer em todas as escolas à mesma hora.
Ao atropelo dos pais, que nem sequer são informados da existência da prova, e muito menos das suas eventuais implicações na avaliação do aluno, ficando até na confusão se a prova se realiza em todas as escolas, ou apenas em algumas.
E principalmente em prejuízo dos alunos, aos quais não é oferecido um período de preparação que é sempre contemplado em provas de âmbito nacional, decorrendo as provas em completa acumulação com todas as restantes responsabilidades na preparação das aulas e na prestação das provas nas restantes disciplinas.
Tudo isso, apenas para que a ministra possa vir a "tirar proveito" duma eventual melhoria da classificação em Matemática, ao mesmo tempo que os pais culpam os filhos de terem piorado os resultados nas restantes disciplinas.

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Procuradoria Geral da República em coma profundo

Nos últimos dias a atenção dos órgãos de informação tem estado virada para o sector do ensino. Há, no entanto, outro sector do Estado que se encontra num estado bem mais grave: a Procuradoria Geral da República (PGR). O manifesto dos magistrados veio dar conta disso, porém, mais alto fala o silêncio dos familiares das vítimas do desastre da ponte Índice Ribeiro de Entre-os-Rios. Para que não restassem dúvidas sobre o nível de confiança que depositam no funcionamento desta organismo essencial do estado democrático, vincaram bem que agradeciam que a PGR desse por encerrados todos os processos e não encetasse qualquer outro. Ou seja, passou-lhe um atestado de coma. Mostra que nãp está disponível para continuar a servir de joguete nesta farsa de justiça. O futuro dirá se não se segue outro ainda pior. Para o grande público, outros processos já haviam dado sinais de alerta: o processo Casa Pia e o processo Maddie. Quanto à ponte de Entre-os-Rios, após sete anos de investigações, a PGR não foi capaz de colocar na barra do tribunal qualquer responsável com peso decisório suficiente. Limitou-se a procurar imputar uma responsabilidade maior a agentes menores: uma atitude que já tinha um antecedente na prisão do jardineiro do Campo Grande em Lisboa após um acidente mortal num equipamento camarário. É demasiado fácil compreender o que se passa. Por cada vitória eleitoral perfilam-se um número infindável de candidatos a postos de rsponsabilidade estatal (ou autártiquico) para substituir os derrotados. É gente sem qualidade, sem historial de experiência nos sectores, sempre pronta a amedrontar os funcionários que lá trabalham e incapaz de assumir uma responsabilidade normal. São os ocupantes dos cargos de confiança política, que não se ficam pelos Secretários de Estado, mas descem aos directores nacionais, regionais e municipais, transformando a função pública numa reserva de coutadas. Quantos mais cidadãos serão sacrificados aos pés da irresponsabilidade política até que a PGR retome a sua função?

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quarta-feira, março 12, 2008

A Séptima Maior

C7M
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F7M
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G9+
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Am7
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Dm7
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terça-feira, março 11, 2008

Mário Nogueira - Luz no fundo do túnel

FENPROF apresentou ao ME exigências imediatas da Marcha da Indignação

O ME revelou, em reunião com a FENPROF (11/03/2008), alguma disponibilidade para, em conjunto com as organizações sindicais, encontrar respostas concretas para alguns dos problemas que, conjunturalmente, afectam a Educação e têm levado a uma grande contestação por parte dos professores e educadores.

Na reunião, a FENPROF reafirmou serem condições mínimas para o desbloqueamento da actual situação de crise:
  1. a suspensão, este ano, do processo de avaliação do desempenho, sem que daí decorra prejuízo para os docentes;
  2. a não aplicação, este ano, de qualquer procedimento decorrente do novo diploma de gestão escolar;
  3. a negociação de regras para a organização pedagógica do próximo ano lectivo, designadamente sobre horários de trabalho, que contribuam para a melhoria das condições de trabalho dos professores;
  4. o respeito pelas decisões dos tribunais, designadamente as já transitadas em julgado, incluindo a extensão dos seus efeitos nos termos legalmente consagrados.
Estas condições foram aprovadas pelos professores no final da Marcha da Indignação que, no passado sábado, dia 8 de Março, mobilizou para Lisboa 100.000 professores e educadores.

O Ministério da Educação manifestou disponibilidade para abordar estas matérias num quadro de flexibilização de posições sem, no entanto, ter já dado garantias concretas quanto à resolução, no imediato, destes problemas, razão por que ficou agendada nova reunião para sexta-feira, dia 14, pelas 15.00 horas, em que se aguardam novos desenvolvimentos desta posição de aparente abertura.

A FENPROF pretende, no imediato, garantir a criação de condições para que os professores, neste final de ano, não sejam vítimas de uma ainda maior instabilidade e de focos de perturbação acrescida que coloquem em causa a qualidade do seu desempenho profissional num momento em que se exige o máximo envolvimento no trabalho com os seus alunos, a FENPROF tudo fará para que o ME passe dos sinais revelados às medidas concretas. Nesse sentido, a FENPROF:
  1. reunirá extraordinariamente o seu Secretariado Nacional, amanhã, 12 de Março, a partir das 11.00 horas;
  2. apresentará ao ME, na reunião prevista para 6ª feira, um conjunto de propostas que permitam avançar no desbloqueamento da actual situação;
  3. exigirá do ME a assunção de compromissos claros sobre estas matérias que viabilizem soluções necessárias à resolução dos problemas mais prementes.


A FENPROF reafirma que uma eventual resposta positiva às condições colocadas não resolve os graves problemas da Educação. Tal deverá passar pela renegociação do ECD, pela reabertura do processo de aprovação de um novo modelo de gestão, pela tomada de medidas que permitam resolver o grave problema de precariedade e desemprego que afecta um tão elevado número de docentes, bem como por um conjunto de outras medidas, designadamente no âmbito da Educação Especial, da concretização do conceito de escola a tempo inteiro, entre muitas outras questões.

A FENPROF considera que quaisquer soluções que sejam encontradas neste momento constituirão importantes contributos para o desbloqueamento dos problemas mais imediatos, mas estarão muito longe de poderem considerar-se soluções definitivas, as quais apenas poderão ser encontradas com a continuação e o aprofundamento da luta dos professores, pois só dessa forma será possível levar o Governo a alterar as suas políticas educativas que tanto lesam o interesse da Escola Pública e desvalorizam o exercício da profissão e os profissionais docentes.

Por fim, a FENPROF reafirma a necessidade de manter em curso o calendário de acções aprovado na Marcha da Indignação, pelo que a Semana de Luto e a aprovação de "tomadas de posição" das escolas prosseguirá, mantendo-se, também, os protestos aprovados para as segundas-feiras do 3º período lectivo, bem como as restantes acções previstas.

O Secretariado Nacional da FENPROF
11/03/2008


Fonte: FENPROF apresentou ao ME exigências imediatas da Marcha da Indignação,
publicado pela Federação Nacional dos Sindicatos dos Professores em 11 de Março de 2008

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Pedido de desculpa



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domingo, março 09, 2008

Marcha da indignação - Braga

Com quem Sócrates se foi meter. Encontrará depois sítio onde se esconder? AF




Marcha da indignação, Lisboa 8 de Março de 2008
(imagem: Fliscorno)

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Uma proposta realista e concreta

Enquanto os sindicatos forem tratados como palhaços, no ministério da educação, e enquanto não houver um acordo que seja aceite por ambas as partes, como é normal em democracia, venho propor o seguinte:

--> a avaliação dos professores, será feita da mesma maneira como a ministra faz a avaliação das suas negociações com os sindicatos, isto é: se a ministra diz que teve 100 reuniões com os sindicatos, então a avaliação do desempenho docente será feita com a simples indicação do número de aulas dadas, acrescido do número de horas passadas em reuniões.

--> os efeitos produzidos pela avaliação aos docentes, serão os mesmos que os efeitos produzidos pela contestação dos professores ao ministério da educação, isto é: ZERO.

--> a surpresa dos professores pelos resultados da política educativa, será a mesma surpresa que a ministra sente pela contestação dos professores, isto é: não se pode afirmar que são exigidos "mais sacrifícios" aos professores, sem acrescentar o que é que se cedeu em troca dos mesmos.

Porque aquilo que distingue uma democracia duma ditadura, é precisamente que a democracia é para todos, ao passo que aquilo que é apenas para alguns, chama-se ditadura.

--> mais proponho, que em todas as manifestações dos professores, nunca deixem de ser lembrados aqueles que faleceram no activo por doença, depois de verem recusados os pedidos de aposentação por incapacidade física, porque esses são os heróis que responderam com a dignidade democrática ao totalitarismo dos ditadores.

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sábado, março 08, 2008

Rui Mateus - Contos Proibidos

Para descarregar a obra (50 megabytes, aprox), basta clicar com o rato sobre a hiper-referência que menciona o título. AF


Rui Mateus - Contos Proibidos

Ler "Contos Proibidos: Memórias de um PS desconhecido", de Rui Mateus, – fundador e ex-responsável pelas relações internacionais do PS, até 1986 – faz-nos perceber como é diferente a justiça em Portugal e noutros países da Europa.
Escrito em 1996, este livro é um retrato da personalidade de Mário Soares, antes e depois do 25 de Abril. Com laivos de ajuste de contas entre o autor e demais protagonistas socialistas, são abordados, entre outros assuntos, as dinâmicas de apoio internacional ao Partido Socialista e, em particular, a Soares, vindos de países como os EUA, Suécia, Itália, Grã-Bretanha, França, Alemanha, Líbia, Noruega, Áustria ou Espanha.
Soares é descrito como alguém que «tinha uma poderosa rede de influências sobre o aparelho de Estado através da colocação de amigos fiéis em postos-chaves, escolhidos não tanto pela competência mas porque podem permitir a Soares controlar aquilo que ele, efectivamente, nunca descentralizará – o poder» (pp.151-152); «para ele, o Partido Socialista não era um instrumento de transformação do País baseado num ideal generoso, mas sim uma máquina de promoção pessoal» (p.229); e como detendo «duas faces: a do Mário Soares afável, solidário e generoso e a outra, a do arrogante, egocêntrico e autoritário» (p.237).
A teia montada em torno de Soares, com um cunhado como tesoureiro do partido, e as lutas internas fratricidas entre novos/velhos militantes (Zenha, Sampaio, Guterres, Cravinho, Arons de Carvalho, etc), que constantemente ameaçavam a primazia e o protagonismo a Soares, são descritos com minúcia em /Contos Proibidos/.
Grande parte dos líderes da rede socialista internacional – uma poderosa rede de “entreajuda” europeia que, em boa verdade, só começou a render ao PS depois dos EUA, sobretudo com Carlucci, terem dado o passo decisivo de auxílio a Portugal – foi mais tarde levada à barra dos tribunais e muitos deles condenados, como Bettino Craxi de Itália, envolvidos em escândalos, como Willy Brandt, da Alemanha, ou assassinados como o sueco Olaf Palme.
Seria interessante todos lermos este livro. Relê-lo já será difícil, a não ser que alguém possua esta raridade.
O livro foi rapidamente retirado de mercado após a curta celeuma que causou (há quem diga que “alguém” comprou toda a edição) e de Rui Mateus pouco ou nada se sabe.


Fonte: Comentário assinado 100.000.

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sexta-feira, março 07, 2008

Joaquim Farias - Organização

Joaquim Farias: Organização

Coisas que acontecem! Ao deambular pelos blogs tropecei neste desenho do meu querido amigo, colega e último chefe, o Eng Joaquim Farias. A palavra "Avaliação" e a côr foram acrescentadas. O desenho ilustrava um dos aspectos das organizações. Não há dúvida que um desenho pode dizer mais que mil palavras. Um dia, Farias confidenciou-me que esta foi a apresentação mais política que alguma vez tinha feito. E, acrescentaria eu, foi a que me deu mais gosto passar para powerpoint.

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The Carpenters - There's a kind of hush


There's a kind of hush
All over the world tonight
All over the world
You can hear the sound of lovers in love
You know what I mean

Just the two of us
And nobody else in sight
There's nobody else and I'm feelin good
Just holding you tight

So listen very carefully
Get closer now and you will see what I mean
It isn't a dream
The only sound that you will hear
Is when I whisper in your ear I love you
For ever and ever

There's a kind of hush
All over the world tonight
All over the world
People just like us are fallin' love


The Carpenters

FontePoemaUpper cut
Videoprezlitrotyi

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Fanhais - Porque


Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.
Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.

Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.

Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.


Sophia de Mello Breyner Andresen

FontePoemaAs tormentas
VideoPortugal ... somos nós!

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José Luis Sarmento - A intifada

José Luis SarmentoJá há muitos meses li um artigo de Miguel de Sousa Tavares em que ele atacava simultaneamente os professores, os médicos e os juízes. O artigo deixou-me, devo confessá-lo, duas impressões contraditórias. Por um lado verifiquei que o autor teve a perspicácia - caso único entre os nossos fazedores de opinião - de entender que há entre essas três profissões um elemento comum que atrai sobre elas a fúria da classe política pós-moderna, bem como da tecno-burocracia que a rodeia e sustenta. Por outro, verifiquei que essa perspicácia não chegava ao ponto de entender qual é e como se caracteriza esse ponto comum.

Para ler Miguel de Sousa Tavares e entender o que o faz correr, convém estar a par de um elemento central da sua idiossincrasia: por razões de educação ou de opção filosófica, ou por circunstâncias da vida impossíveis de destrinçar, o homem é um viciado em pogroms. Convoque-se um qualquer tumulto contra um qualquer grupo a que se possam apontar privilégios - e lá está o nosso Miguel, armado de um chuço, no meio da multidão e confundido com ela, pronto a espancar, a incendiar, a esventrar.

É a sua natureza: nada a fazer.

Mas o que há de comum, então, entre juízes, médicos e professores? Em primeiro lugar, é claro, os privilégios de que gozam ou de que têm fama de gozar. Não se trata de um elemento despiciendo: o discurso dos privilégios é hoje central, como é central há milénios, na retórica dos convocadores de pogroms. Serão reais, estes privilégios? Claro que sim. Como todas as profissões, também estas têm vantagens e desvantagens para quem as pratica. Varramos as desvantagens para debaixo de tapete, e presto: cá temos as vantagens transformadas em privilégios para fins de propaganda e arruaça política.

O segundo elemento comum é o facto de se tratar de corporações no sentido medieval e europeu do termo. Para quem deseja ver o mundo transformado numa imensa América, estas remanescências da História são intoleráveis. Na América tudo é simples. Cada um, ou é um homem de negócios, ou é um trabalhador. Como muitos trabalhadores aspiram a tornar-se homens de negócios, votam Republicano contra os seus próprios interesses.

A um europeu, nada o impede de ser um homem de negócios, ou um trabalhador, ou as duas coisas, tal qual como um americano; o que lhe complica e enriquece o estatuto é que é muitas outras coisas além disso. O europeu é membro da sua família, do seu clã, da sua rede de solidariedades, da sua hierarquia profissional ou académica, da sua corporação milenar. Tudo isto parcialmente à margem - e aqui está o que é intolerável para os políticos pós-modernos e para os tecno-burocratas - da estrita racionalidade económica pela qual gostariam que o mundo se ordenasse.

O terceiro elemento comum é o facto de serem profissões cuja identidade e função se construíram na História. Quando a praga dos gestores se abateu sobre a Europa depois de ter reorganizado a América, encontrou resistências com que não contava. Quis organizar os juízes para a mais eficaz defesa dos mercados - e encontrou-os teimosamente agarrados à ancestral convicção de que a sua função é fazer justiça. Quis mobilizar os médicos para que se encarregassem da manutenção duma mão-de-obra rentável, e encontrou-os convencidos de que a sua função é tratar das pessoas. Quis converter os professores às maravilhas da indústria transformadora - num extremo da linha de montagem entram pessoas, do outro saem recursos humanos - e encontrou-os obstinadamente agarrados ao preconceito medieval de que as pessoas são a razão última do seu trabalho, e não a sua matéria-prima.

Tudo isto deve ser horrivelmente frustrante para os políticos pós-modernos, para os tecno-burocratas, para os gestores ainda frescos de Boston. Esta Europa parece-lhes velha e sem emenda. Onde esperavam encontrar colaboradores entusiásticos, encontram a cada passo empecilhos, atavismos, cepticismos obstinados - intelectuais, para dizer tudo; e palavra nenhuma exprime, no vocabulário dos nossos tecno-burocratas, um extremo mais fundo de abjecção. Os tecno-burocratas traziam nas pastas de executivo um mundo novo, pronto para ser apresentado em Power-Point aos labregos embasbacados da Velha Europa - e ninguém quis saber dele. Veio-lhes ao de cima um ódio, uma vontade de justiça ou de vingança - e encontraram a estratégia que lhes é própria, que lhes está na massa do sangue, o seu Choque e Pavor: adoptaram, como instrumento de acção e ética de trabalho, a tortura.

Aos juízes, sobrecarregaram-nos de trabalho ao mesmo tempo que os impediam de fazer justiça. Aos médicos dos serviços públicos, reduzem-nos à exaustão física, emocional e psicológica - mas não os deixam tratar doentes. Aos professores, carregam-nos de tarefas inúteis, quando não nocivas, e despojam-nos de cada minuto que possam ter de tempo livre - mas não lhes permitem, em caso algum, que ensinem.

É a tortura de Sísifo. É por aqui que esperam vergar-nos. Mas não conhecem a natureza humana. Não sabem que os juízes, os médicos e os professores são seres humanos - e que a sua tendência, como a de qualquer animal, é odiar quem os trata mal. E que vão acabar por se unir contra o inimigo comum.

Mas os burocratas sentem, confusamente, que alguma coisa não está bem. Sabiam que iam ter a oposição de muitos - mas não contavam com a insurreição de quase todos. Os governantes e os seus séquitos evitam cada vez mais visitar os tribunais, os centros de saúde e as escolas. Quando não podem evitar lá ir, vêem algo de inquietante nos olhos dos magistrados, dos médicos, dos professores, dos funcionários, dos utilizadores, dos alunos. Alguns de entre eles, mais sensíveis aos ambientes, apercebem-se de que estão a ser figurativamente apedrejados. Num ou noutro caso, sê-lo-ão literalmente - e não precisarão de especial sensibilidade para entenderem o que lhes está a acontecer.

Os políticos portugueses e europeus entraram pelas instituições da sociedade civil como Bush pelo Iraque, esperando ser recebidos com flores. Agora perguntam: porque é que nos atiram pedras?!

Permitam que lhes responda: atiramos-lhes pedras porque não temos Kalatchnikovs.



José Luis Sarmento in As minhas leituras, 8 de Janeiro de 2008

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quinta-feira, março 06, 2008

Vital Moreira versus Augusto Santos Silva

A cegueira do pequeno grupo de indefectíveis de José Sócrates já não convence sequer o ideólogo do regime. AF




O PS não anda a reboque de outros, tem a sua própria agenda de modernização e das reformas necessárias ao paísAugusto Santos Silva
Augusto Santos Silva, Ministro dos Assuntos Parlamentares do governo in "Professores dividem partidos e levam PS a organizar comício de apoio ao Governo" (Público 6 de Março de 2008)


Vital MoreiraMas não vejo que vantagem pode ter visto o PS na realização de um comício nesta altura, que só poder ser visto, mesmo que não tivesse sido desejado, como resposta à constestação do Governo na rua.
Vital Moreira, ideólogo in "Contracomícios" (Causa nossa 5 de Março de 2008)

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Escola Secundária D. Maria II, Braga - Avaliação dos professores

Escola Secundária Done Maria II
(imagem Clube de Artes da Escola Secundária D. Maria II)

Tomada de posição dos professores

  • Atendendo a que, sem fundamento válido, se fracturou a carreira docente em duas: professores titulares e não titulares;
  • Atendendo a que essa fractura se operou com base num processo arbitrário, gerando injustiças inqualificáveis;
  • Atendendo a que os parâmetros desse concurso se circunscreveram, aleatória e arbitrariamente, aos últimos sete anos, deitando insanemente para o caixote do lixo carreiras e dedicações de vidas inteiras entregues à profissão;
  • Atendendo a que, por via de tão injusto concurso, não se pode admitir, sem ofensa para todos, que seguiram em frente só os melhores, e que ficaram para trás os que eram piores;
  • Atendendo a que esse concurso terá repercussões na aplicação do assim chamado modelo de avaliação, já que, em princípio, quem por essa via acedeu a titular será passível de ser nomeado coordenador e, logo, avaliador;
  • Atendendo a que, por essa via, pode muito bem acontecer que o avaliador seja menos qualificado que o avaliado;
  • Atendendo a que o modelo de avaliação é tecnicamente medíocre;
  • Atendendo a que o modelo de avaliação é leviano nos prazos que impõe;
  • Atendendo a que o modelo de avaliação contém critérios subjectivos;
  • Atendendo a que há divergências jurídicas sérias relativas à legitimidade deste modelo;
  • Atendendo a que o Conselho Executivo e os Coordenadores de Departamento foram democraticamente eleitos com base nas funções então definidas para esses órgãos;
  • Atendendo a que este processo, a continuar, terá que ser desenvolvido pelos anunciados futuros Conselhos de Escola, Director escolhido por esse Conselho, e pelos Coordenadores nomeados;
  • Nós, professores do Departamento de Línguas, da Escola Secundária D. Maria II, não reconhecemos legitimidade democrática a nenhum dos órgãos da escola para darem continuidade a um processo que extravasa as funções para as quais foram eleitos;
  • Mais consideram que:
    • Por uma questão de dignidade e de solidariedade profissional, devem, esses órgãos, suspender, de imediato, toda e qualquer iniciativa relacionada com a avaliação;
    • Caso desejem e insistam na aplicação de tão arbitrário modelo, devem assumir a quebra do vínculo democrático e de confiança entre eles próprios e quem os elegeu, tirando daí as consequências moralmente exigidas.

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Maria de Lurdes Rodrigues - A escalada do facilitismo

Maria de Lurdes Rodrigues sempre enjeitou a acusação de estar a promover o facilitismo. Vejamos então como é possível mentir com uma cara de verdade. (AF)



  1. Fim das provas globais do 9º ano

  2. Alteração casuística dos exames nacionais

  3. Apelo às passagens administrativas

  4. Viciar os critérios da avaliação

  5. Torpedear as responsabilidades

  6. Escamotear o abandono escolar

  7. Ignorar as advertências

  8. Forjar equivalências

  9. Pactuar com a indisciplina

  10. Moldar a realidade aos objectivos estatísticos



Com mais alguma paciência ainda conseguiríamos testemunhos da desentivação da assistência às aulas, transformação da escola num local lúdico, neutralização da actividade docente por meio de avalanchas burocráticas...

(estou cansado)

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José Pedro Gomes - A avaliação dos professores

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Idalina Jorge - Quando a rua é o último recurso

Artigo publicado hoje no Público (Cartas ao Director, pág 46), também disponível no blog da autora. AF


Exerço a docência desde Outubro de 1974 e nunca me vi obrigada a ir manifestar-me à rua por questões de natureza profissional.


Sinceramente, sempre pensei que nunca seria necessário.

As agendas sindicais nunca conferiram com as minhas agendas profissionais ou vice-versa.

Saí à rua, ainda adolescente, para me manifestar contra a guerra colonial, onde ia perdendo um irmão, saí à rua, já jovem adulta, pelo regresso dos militares das colónias, saí há rua, há oito anos, por Timor.

Ao fim de 34 anos, já passaram pelo Ministério da Educação mais de 20 ministros, uns melhores que outros, uns mais controversos que outros, gostei mais de Roberto Carneiro que de Diamantino Durão, geri escolas, exerci todos os cargos possíveis, formei professores em início de carreira e já integrados nela, ensinei funcionários a fazer requisições, balancetes e ofícios, recebi, divertida, altos funcionários que se deslocavam a Escolas da periferia de Lisboa, calçados de botas altas, como se fossem à apanha da batata ou à vindima, acompanhei à terra um ex-aluno ainda jovem adulto, que soçobrou à dependência de drogas, trabalhei muito, estudei o que se sabe e mais do que isso, e nunca tive de ir manifestar-me à rua.

Em toda a minha vida profissional participei em duas ou três greves que me causaram enxaquecas monumentais, mazela a que não sou dada, em virtude do conflito ético em que me colocava ao fazê-las.

Aos cinquenta e seis anos vou à rua pela primeira vez por motivos profissioniais.

Sou contra as aulas de substituição? Não sou. Já o manifestei publicamente e por diversas formas.

Sou contra uma direcção escolar unipessoal? Não sou, nem penso que a gestão colectiva seja necessariamente melhor ou mais democrática que uma gestão unipessoal.

Sou contra a avaliação de desempenho? Não sou. Aliás, porque haveria de ser? O que não se consegue avaliar é ingerível.

Então porque é que, no próximo Sábado, vou à rua?


Eu acredito e entendo que os governos têm de ter uma agenda política, um programa e que os devem levar à prática com firmeza e determinação: o que não está certo é que queiram fazê-lo à custa das pessoas, contra as pessoas, apesar das pessoas, atropelando, espezinhando e humilhando as pessoas, pondo em causa princípios de rigor, de justiça, de bom-senso, desprezando as sucessivas chamadas de atenção dos profissionais, sobretudo daqueles que sabem o que dizem, e o dizem fundamentadamente.

Quando TODAS as vozes dos melhores profissionais a chamarem à atenção para o caminho sem regresso foram ignoradas, quando TODOS os sinais de retorno foram de desprezo e de arrogância, como se pode esperar agora que os profissionais retribuam com tranquilidade e confiança?

Este caminho está fechado.

Posted by Paideia at 5:36 PM

Labels: carreira, crenças, professores




Bugio

Idalina Jorge
Oeiras, Portugal


Professora de Inglês do Ensino Básico.
Pós-graduada em Necessidades Educativas Especiais.
Mestre em Orientação da Aprendizagem.
Doutorada em Ciências da Educação. (Desenvolvimento Curricular e Avaliação em Educação)




Fonte: Paideia: reflectir sobre a educação

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Maria Teresa Soares - O ensino na Alemanha e na Suiça

Maria Teresa Duarte Soares – teresa. duartesoares@t-online.de
Alemanha

Data: 26.02.08

Caríssimas colegas
Caríssimos colegas

Antes de mais, os meus mais sinceros parabéns pela organizacão do vosso movimento. Já há bastante tempo que temia ver os professores em Portugal e os professores portugueses no estrangeiro perto de cair num marasmo inoperacional relativamente às prepotências, injustiças,ilegalidades, indecências, etc,etc,etc, do nosso Ministério da Educação. Estou satisfeitíssima por ver que tal não é verdade, pelo menos no que respeita aos docentes em Portugal.
Os professores portugueses no estrangeiro encontram-se, a meu ver, ainda num estado de inacção que me custa compreender, apesar de desde 1998 terem sidpenalizados de todos os modos possíveis pelo ME, a título de uma falaciosa e irreal “poupança.l

Sou, desde 1982, professora de Língua e Cultura Portuguesas no Estrangeiro, e pertenço ao QND da Escola B 2,3 Mestre Domingos Saraiva no Algueirão.
Tenho sido sempre activa sindicalmente,encontrando-me no momento na Direcção do SPCL (Sindicato dos Professores nas Comunidades Lusíadas).

Conheço bem os sistemas de ensino da Alemanha e da Suíça, os dois países em que trabalhei longos anos.

Por isso, envio-vos aqui várias informações sobre os docentes e o ensino nos dois países, informações estas que poderão usar do modo que vos for mais útil, e onde poderão ver que os professores mais explorados da Europa, são, sem sombra de dúvida, os docentes portugueses.

(João Serra via A educação do meu umbigo)


German flag

Alemanha


Avaliação dos docentes


Têm, de 6 em 6 anos, uma aula ( 45 minutos) assistida pelo chefe da Direcção escolar. Essa assistência tem como objectivo a subida de escalão.
Depois de atingido o topo da carreira, acabaram-se as assistências e não existe mais nenhuma avaliação.
Não existe nada semelhante ao nosso professor titular. Sempre gostava de saber onde foi o ME buscar tal ideia. Existem, claro, quadros de escola.
Não existe diferença entre horas lectivas e não lectivas. Os horários completos variam entre 25 e 28 horas semanais.
As reuniões para efeito de avaliação dos alunos têm lugar durante o tempo de funcionamento escolar normal,nunca durante o período de férias. Sempre achei um pouco preverso os meninos irem de férias e os professores ficarem a fazer reuniões…
Tanto na Alemanha como na Suíça, França e Luxemburgo, durante os períodos de férias as escolas encontram-se encerradas! Encerradas para todos, alunos, pais, professores e pessoal de Secretaria! Os alunos e os professores têm exactamente o mesmo tempo de férias. Não existe essa dicotomia idiota entre interrupções lectivas, férias, etc.
As escolas não são centros de recreio nem servem para “guardar” os alunos enquanto os pais estão a trabalhar.
Nas escolas de Ensino Primário as aulas vão das 8.00 às 13 ou 14 horas.
Nos outros níveis começam às 8 .00 ou 8.30 e terminam às 16.00 ou, a partir do 10° ano,às 17.00.
Total de dias de férias por ano lectivo : cerca de 80 ( pode haver ligeiras diferenças de estado para estado)

Alunos


Claro que existem problemas de disciplina. Mas é inaudito os alunos , ou os pais dos mesmos, agredirem os professores. A agressão física de um professor por um aluno pode levar à expulsão do último.
Os trabalhos de casa existem e são para serem feitos. Absolutamente inconcebível que um encarregado de educação declare que o seu filho/filha não tem nada que fazer trabalhos de casa, como acontece, ao que sei, em Portugal.
É terminantemente proibido os alunos terem os telemóveis ligados e utilizarem-nos durante as aulas. As penas para tal são primeiro aviso aos pais, depois confiscação do telemóvel e por fim multa.


German flag

Suíça


Tal como na Alemanha, os professores só são assistidos durante o período de formação e para subida de escalão.
Durante os períodos de férias as escolas encontram-se, como na Alemanha, encerradas.
Os horários escolares são semelhantes aos da Alemanha. Até ao 4° ano de escolaridade, inclusive, não há aulas de tarde às quartas-feiras, terminam cerca das 11.30.
No início das aulas os alunos cumprimentam o professor apertando-lhe a mão e despedem-se do mesmo modo. Claro que não há 28 ou 30 alunos numa classe, mas no máximo 22.
O telemóvel tem de estar desligado durante as aulas.É dada grande importância aos trabalhos de casa. A não apresentação dos mesmos implica descida de nota final.
Total de dias de férias : cerca de 72 ( pode haver diferenças de cantão para cantão) .
Vencimentos
Só uma pequena comparação … na Suíça um professor do pré- primário no topo da carreira recebe 5.200 francos mensais líquidos ( cerca de 3.400 euros),mais ou menos o dobro do que vence um professor em Portugal no topo da carreira…..

Caras / Caros colegas:

Espero não ter abusado da vossa paciência com a minha exposição. Porém, acho que ficou claro que, se o ensino em Portugal se encontra em péssimo

estado, a culpa não é dos professores, mas sim de um ME vendido aos empresários, que tem como objective actual a quase extinção da escola pública, para que a mesma produza analfabetos funcionais, que trabalharão sem caixa médica e sem subsídio de férias , porque nem sabem o que isso é, e se souberem, não poderão reclamar porque não saberão escrever uma carta em termos…. Isto para não mencionar as massas que se entregarão à criminalidade, prostituição, etc.

Um grande abraço para todas /todos da colega

Teresa Soares

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A nova Inquisição - Epílogo

Parece chegar a um consenso o episódio do "arrependimento" do professor Manuel Cardoso da Escola EB 2,3 de Ribeirão no "Prós & Contras" .

O problema é que a acta que foi referida não apareceu na altura própria, e o jovem viu-se a braços com o ónus da prova num processo legal que não estava preparado para enfrentar, ainda por cima num ambiente de guerrilha permanente entre o ministério e os sindicatos, à volta dos recursos e contra-recursos judiciais que tem sido apanágio deste ministério.

Tudo isto porque a figura do "Livro de actas" deixou de fazer parte do quotidiano académico, deixando a acção de descontentamento dos docentes a descoberto no seu direito de defesa na altura em que essa acção possa assumir contornos jurídicos.

Em vez do Livro de actas, vulgarizou-se a elaboração de actas em folhas soltas, tornando o sistema muito mais permeável a actos de branqueamento decorrentes do interesse das partes.

"Os colegas na escola, andam receosos. O espírito é este."

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quarta-feira, março 05, 2008

Miguel Castro Coelho - Avaliação dos professores

Grato ao Professor descontente por esta referência em A educação do meu umbigo AF



Avaliação chumba


Miguel Castro CoelhoEm vez de tentar ensinar as escolas a avaliar professores, o Ministério da Educação devia esforçar-se por aprender a avaliar as escolas.

O novo regime de avaliação de professores não passa nos mais elementares testes de aptidão. Não tenho a mais pequena dúvida quanto à benevolência das intenções dos autores da iniciativa. E aplaudo com entusiasmo a vontade política para gerar mudança.

No entanto, nos termos em que foi desenhado, este regime de avaliação apenas exprime uma tentativa de micro-gestão a partir do Terreiro do Paço talhada a falhar. Na prática, limita-se a acrescentar uma nova camada de requisitos burocráticos na gestão das escolas. Pelo caminho, comprou uma guerra desnecessária com os professores.

Sejamos claros quanto à importância do tema em questão. Dizem os estudos da economia da Educação que a “produção” de alunos de qualidade depende, em primeiro lugar, do nível socio-económico do aluno, e em segundo lugar, da qualidade dos professores. Um estudo recente da Universidade de Bristol sugere que a qualidade dos professores conta cerca de um terço da qualidade do aluno (incluídos os tais factores socio-económicos) para a “produção” de alunos de qualidade – uma estimativa que está, de resto, em linha com os resultados de outros estudos internacionais. Se se tiver em conta, contudo, que a qualidade de cada professor afecta vinte ou trinta alunos por cada turma, fica-se com uma ideia da importância desta variável para a qualidade global do sistema de ensino.

Perante isto, é conhecido o modelo do Ministério da Educação para estimular docência de qualidade: forçar sobre cada escola um regime de avaliação de professores uniforme, desenhado ao pormenor a partir do centro. Por outras palavras, um exercício de micro-gestão ao pior estilo ex-URSS; o exemplo acabado de centralização descontextualizada; e a prova de que está vivo o tradicional espírito legalista português, segundo o qual no mundo tudo se transforma por lei ou decreto-lei (pena é que, tal como na física, também por esta via nada se perca e nada se crie…).

O que, de facto, devia ter sido feito: (I) intervir a montante no recrutamento de professores (reservar o acesso a cursos específicos de formação de professores a candidatos com curriculum universitário de topo, capacidade de relacionamento interpessoal, comunicação, vontade de aprender e ensinar, excepcionais); (II) descentralizar a gestão do corpo docente para o nível da escola, e avaliar a ‘performance’ das escolas (e não dos professores) a partir do centro (i.e. do Ministério da Educação).

Por outras palavras, transferir a capacidade de gerir a qualidade do corpo docente para gestores escolares profissionais (professores ou não), recrutados e responsabilizados pelos resultados do processo de avaliação das escolas a partir do centro.

Para conseguir fazer uma avaliação objectiva do desempenho de cada escola por comparação com escolas congéneres, o Ministério da Educação tem que se tornar num ‘hub’ de informação sobre todo o sistema. A má notícia é que está muito longe de o ser. Num projecto-piloto que abrangeu 100 escolas (Avaliação Externa das Escolas – Relatório Nacional 2006-2007, publicado a 27/02/2008) a Inspecção-Geral da Educação (um dos braços do Ministério da Educação) não conseguiu sequer reunir informação fiável sobre o contexto socio-económico das escolas… tão só e somente aquele que é, indiscutivelmente, o factor mais importante a ter em conta na avaliação do desempenho das escolas. Pior do que isto, só mesmo o caminho analítico que o relatório adopta: o da prosa oca, com ares pseudo-técnicos, muito similar ao da consultoria privada desinformada.

Em vez de tentar ensinar as escolas a avaliar professores, o Ministério da Educação devia esforçar-se por aprender a avaliar as escolas. A esse respeito, o trabalho até agora feito é de nível profundamente medíocre. Sei que há no país especialistas na matéria com créditos firmados ao nível internacional. Trabalho no meio e já perdi a conta ao número de excelentes artigos académicos publicados por portugueses em jornais internacionais de referência. Mais surpreendente é que algumas dessas pessoas trabalham para o próprio Estado (mais concretamente, estão no Banco de Portugal). A peça que falta no ‘puzzle’ é vontade de fazer uso dos melhores recursos do país.

Miguel Castro Coelho in Avaliação chumba
publicado no Diário Económico em 5 de Março de 2008

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Manuel Cardoso - E pur si muove

Lurdes Rodrigues
(Imagem: We have kaos in the garden)




Exma Srª Drª
Maria de Lurdes Rodrigues
Ministra da Educação

Permita-me sugerir a Sua Exª que mande retirar imediatamente a página obscena que foi colocada no sítio da Internet do Ministério que dirige. Julgo que a ousadia da minha sugestão ficará clara ao longo da exposição.

O jovem professor de matemática Manuel Cardoso, de uma escola de Ribeirão, aparenta ter uma idade em que poderia ser meu filho. Na noite de 25 de Fevereiro exprimiu-se com uma coragem e clareza que não podem deixar de lhe ser reconhecidas. Foi quase o único interveniente que tocou num aspecto muito sensível da Educação que, pela sua gravidade, diria que suplanta todos os outros problemas que naquele programa foram levantados. O assunto interessa sobremaneira à parte da administração pública que dirige, mas principalmente a todos nós, simples cidadãos: o facilitismo instaurado no ensino. É sintomático que o documento de retratação que teve o despudor de exibir não mencione este aspecto e isso é o que me preocupa na máxima medida. Nem quero admitir a possibilidade de Sª Exª desconhecer o assunto, tão óbvio é ele aos olhos de toda a gente. Já me custa saber que, neste capítulo, desperdiçou todo o tempo para procurar uma solução satisfatória nos já muitos meses de governação que cumpriu e para os quais se sentiu merecedora do salário que aufere.

Como quer que os cidadãos acreditem na ausência de facilitismo, quando o abandono e insucesso crescem incompreensivelmente a partir do nono ano? O que falta fazer no ensino básico para que tal não continue a verificar-se? Porque falham redondamente a capacidade de expressão oral ou escrita e as competências rudimentares do cálculo no fim do básico, tão necessárias para o desenvolvimento das disciplinas de história, geografia, física e química do secundário? Como foi possível chegar a este estado de coisas? Em que falharam os ministros que a antecederam? Como construir o sucesso nos estudos superiores ou numa futura profissão nesta base? Que tem a dizer aos pais dos alunos para os deixar descansados? O facilitismo é a fonte de todo o desconforto no sistema de ensino. Quando muito se fala em competição, algo não conjuga com o que se observa no seu ministério. Nunca a vi preocupada com a desarticulação dos programas; com o absurdo das aulas de noventa minutos; a desiquilibrada distribuição dos períodos de actividade e descanso; a dispersão e superficialidade das matérias. Já nem quero referir a equiparação das faltas injustificadas dos alunos a faltas justificadas.

Qualquer pessoa um pouco mais experiente que o jovem do Movimento dos Professores Revoltados ter-se-ía munido da fotocópia da acta onde a recomendação atribuída ao inspector estaria explicitamente registada. E tê-lo-ía feito antes de se deslocar a Lisboa. A isso eu chamo: experiência política. Aquela que leva na medida justa em consideração o princípio da desconfiança entre as pessoas. Como bem sabe, não foi isso que Manuel Cardoso fez.

Sua Exª, accionando uma deslocação com caracter de urgência do corpo de inspecção à escola de Ribeirão, revelou uma grande preocupação com a hipótese de as afirmações do professor Cardoso corresponderem a uma realidade. Mas não precisava, para confirmar a existência do facilitismo bastar-lhe-ia perguntar a qualquer cidadão com que se cruzasse na rua. A não ser que os factos que a colocam em sobressalto sejam a muito improvável circunstância de uma afirmação daquele teor, feita por um inspector, ficar registada em acta com assinatura de todos os presentes e de não haver extravio de qualquer acta passados dois ou mais anos. É isso que a preocupa, Srª Ministra? Se é isso, então pode dormir descansada. Não honra o seu estatuto de ministra para quem os assuntos devem ser políticos e não pessoais, como afirma. Muito menos honra o nome do ministério onde se encontra. Diria que a especificidade das competências que demonstra seriam mais úteis noutro tipo de ministério, melhor ainda noutro tipo de regime. Como cidadão preocupado com as consequências desastrosas do seu e dos anteriores magistérios da pasta da Educação em Portugal, informo Sª Exª que a rapidez com que pretendeu resolver o facilitismo não contribuiu para me deixar descansado.

Ao ler o conteúdo da página que acima referi, não reconheço de modo algum o jovem Manuel Cardoso que vi no programa Prós & Contras. São necessariamente duas pessoas diferentes. Falta qualquer coisa de genuino, de irreverente que só existe naquela idade. Como se, em dois dias, o jovem passasse para o dobro da idade. Quando um jovem se auto-esmaga, aí começam a tocar todos os meus sinais de alarme. Desejaria que tais insólitos estivessem relegados para os confins da história, fora da realidade em que vivemos. O que começou como um debate de idéias em ambiente de tolerância democrática acabou como um embate brutal, com receios pela filha à mistura. A coragem que muitos querem reconhecer em Sª Exª encontrou no jovem e indefeso professor o pior alvo para ser demonstrada.

Enquanto a página da vergonha estiver publicada poderá Sª Exª vangloriar-se de coisas bem destestáveis: surpreender um jovem na sua inexperiência política; conter pelo menos um jovem revoltado e corajoso, cuja opinião foi directamente ao encontro do interesse público e da imagem que ele havia construido para a sua carreira profissional; escamotear uma questão pertinente com episódios menos relevantes; no limite, arrasar uma vocação. Não vou felicitá-la pelo seu feito. Perdeu uma oportunidade genuína de contar com a colaboração da juventude, irreverente que seja, para prosseguir os objectivos que se propõe.

Atenciosamente
António Ferrão





Afinal até actas há. Não são é públicas. Mas já começam a notar-se:


* Os resultados das Provas de Aferição deste ano (quase meio milhão) são difíceis de comparar com os anos anteriores, dado que, anteriormente, essas provas eram aplicadas por amostra. Todas as escolas devem interpretar esses resultados, definindo estratégias de melhoria;
* Os Conselhos Executivos têm de ter particular cuidado na nomeação dos correctores de exames. Segundo a responsável da Direcção Regional da Educação,
“Os alunos têm direito a ter sucesso. Talvez fosse útil excluir de correctores aqueles professores que têm repetidamente classificações muito distantes da média. O que honra o trabalho do professor é o sucesso dos alunos;”


(Obrigado Maria Lisboa)


E pur si muove

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