sexta-feira, novembro 28, 2008

Fátima Inácio Gomes - Carta ao Presidente da República

Exmo Senhor Presidente da RepúblicaFátima Inácio Gomes

Mais uma vez me vejo impelida a escrever a Vossa Excelência para dar conta, com a objectividade e comprometimento de quem está directamente envolvido na matéria, da gravidade da situação que compromete o Ensino Português, sendo que o modelo de avaliação de desempenho de professores é prova cabal.

Procurarei ser muito precisa e concisa. Hoje, dia 27 de Novembro, participei numa reunião convocada pela Direcção Regional da Educação do Norte, para a qual foram convocados os Presidentes dos Executivos e Coordenadores de Departamentos. Participei enquanto Coordenadora do Departamento de Línguas da Escola Secundária de Barcelos. Esta reunião, como nos foi explicado pelo Dr. João Sérgio Rodrigues, coordenador da equipa de apoio às escolas, não tinha carácter “negocial”, visando apenas apresentar e explicar o projecto do novo Decreto Regulamentar da Avaliação de Desempenho Docente. Por ser por demais escandalosa, carecendo de intervenção imediata das mais altas instâncias, passo a destacar alguns dos pontos que mais indignação e contestação devem merecer de todos os cidadãos portugueses e do seu representante máximo:
  1. Para este período de avaliação, será retirado um dos “pontos de discórdia” identificados pelo Ministério: dispensam-se os critérios da melhoria dos resultados escolares dos alunos e da redução do abandono escolar para aferir a qualidade do professor. Muito curiosa e sintomática foi a explicação dada: de facto, esta é uma matéria sobre a qual todos os países europeus se debruçam, mas sobre a qual ainda não há resultados conclusivos, daí que se tenha decidido cancelar até que haja garantias de fiabilidade.

    Não considera V. Excia por demais preocupante que o Ministério da Educação Português tenha introduzido um critério que ainda está a ser estudado, do qual não há “garantias de fiabilidade”, que o tenha defendido até às raias da teimosia, para só o deixar cair, temporariamente (a Sra Ministra garantiu que o introduziria já no próximo ano lectivo), depois de manifestações de rua massivas?
  2. Para “simplificar” o processo e “responder” a alguns dos problemas levantados foram ainda apresentadas outras medidas, das quais destaco:
    1. os avaliadores (sejam coordenadores, sejam avaliadores por delegação de competências) partilham a mesma quota para atribuição das menções de Muito Bom e Excelente. Não serão avaliados pela componente científico-pedagógica (como previsto no Descreto-Lei 2/2008, de 10 de Janeiro), apenas pelo seu desempenho como avaliadores, pelo Executivo da Escola. Tal não inviabilizará que cheguem àquelas menções de topo;
    2. os restantes professores, apenas no caso de pretenderem concorrer para as menções de Muito Bom ou Excelente, é que serão avaliados na componente científico –pedagógica e só aí terão aulas observadas;
    3. um professor que queira ser avaliado por um avaliador da sua área científica deve requerê-lo por escrito – se não houver um titular da sua área, poderá o coordenador do departamento, com o conselho executivo, identificar um professor não titular com “perfil” adequado à função. Poderá, ainda recorrer a titulares de outras escolas.


Poderia, ainda, apontar outras medidas, mas estas bastam para evidenciar a execranda solução encontrada pela equipa ministerial e que deixa a nu a demagogia e falsidade do discurso que tem sido debitado a toda a sociedade civil. Bastará recordar as mais próximas, do senhor Secretário de Estado Adjunto da Educação, Jorge Pedreira, no programa Prós & Contras, do passado dia 24 de Novembro, que mantinha como imperativo da manutenção deste modelo de avaliação o facto de se exigir uma avaliação “rigorosa, credível e que permita a diferenciação entre professores…”, acrescentando ainda que “não podemos continuar a adiar uma solução que pode ser dolorosa, mas que exige a ruptura com uma cultura de escola que existia e que não deu bons resultados (…) com os resultados que tínhamos no sistema educativo, com os níveis de insucesso e de abandono escolar que tínhamos…”.

Como não reconhecer, de imediato, as reais intenções deste modelo? Ou seja, o fabrico de um sucesso artificial, estatístico, empobrecedor do futuro da nação, completamente indiferente a critérios pedagógicos e, mais ainda, incapaz de valorizar uma das peças fundamentais na construção de uma escola de qualidade: os professores. Se dúvidas havia, eis as provas cabais:
  • como entender que a um avaliador, como eu sou, seja retirada a componente científico-pedagógica, a única verdadeiramente importante, a única que relevará realmente para o sucesso dos alunos? Que professor, digno do seu nome e do respeito dos seus alunos, aceitará uma situação desprestigiante como esta?
  • como entender a arbitrariedade de uma lógica que diz privilegiar o desempenho docente, mas que admite como “voluntária” a sujeição de um professor a uma avaliação com critérios científico-pedagógico?
  • como entender que este carácter “voluntário” tenha por justificação a “simplificação” do processo? Será porque o Ministério considera que a maior parte do corpo docente é medíocre, pouco formado e com baixas expectativas, e por isso poucos se “candidatarão” às menções mais elevadas?
  • como entender a manutenção de uma diferenciação que se diz baseada no mérito quando, depois de um concurso de titular verdadeiramente injusto e discriminatório, acresce ainda esta fantástica contradição de “promover” um professor não titular (que, de acordo com o discurso do Ministério, é menos qualificado, tem menos mérito) a avaliador dos restantes colegas? Onde está o reconhecimento do mérito?
  • onde está, realmente, a valorização da autêntica dimensão do professor, a única que verdadeiramente contribuirá para o sucesso dos alunos, a sua dimensão científico-pedagógica?
Enquanto professora sinto-me insultada. Não quero ser avaliada com um modelo que mais não fará que destruir o sistema público de ensino.

Enquanto portuguesa, sinto-me duplamente insultada. A equipa ministerial não só está a destruir o sistema educacional português, como quer fazer crer que o faz para benefício deste mesmo sistema.

A arrogância, prepotência do Ministério da Educação crescem a olhos vistos, basta atender ao modo como tratou o Conselho de Escolas, aquele que mais deveria ser ouvido, pois é o que está mais próximo da realidade das escolas.

Urge travar esta política educativa, que a cada momento se revela mais inconsequente, mais incoerente e potencialmente mais perigosa. É urgente fazer algo, Senhor Presidente da República, pois a matéria é de suma importância para o futuro do país. Fiquemos na história por termos agido. Os professores já deram o primeiro passo.

Atentamente,

Fátima Inácio Gomes

Professora da Escola Secundária de Barcelos

Coordenadora do Departamento de Línguas


in A Educação do meu Umbigo, 28 de Novembro de 2008

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quarta-feira, novembro 26, 2008

Cimeira do Golfo da Guiné

Cimeira do Golfo da Guiné discute formas de cooperação
O Presidente da República de Angola, José Eduardo dos Santos, poderá indicar hoje o sentido da cooperação entre os oito países membros da Comissão do Golfo da Guiné, quando discursar na cerimónia de abertura da II Cimeira ordinária daquela organização continental regional.O Chefe de Estado angolano assume hoje o cargo de Presidente em exercício da Comissão do Golfo da Guiné para os próximos dois anos, pelo facto de Angola exercer a partir de hoje a presidência rotativa anual da organização, dirigida pelo Gabão desde a sua fundação a 26 de Agosto de 2006, em Libreville.José Eduardo dos Santos substitui no cargo o Presidente do Gabão, Omar Bongo, que cessa a partir desta cimeira o seu mandato de dois anos.O conclave abre hoje por volta das 10 horas no Centro de Convenções de Talatona, zona Sul de Luanda. O Chefe de Estado angolano vai discursar na abertura em gesto de boas-vindas aos convidados e no final dos trabalhos da cimeira.Na mesa, os estadistas terão os seguintes dossiers: Regras de Procedimentos do Secretariado Executivo, Organigrama, Regulamento Financeiro da Comissão do Golfo da Guiné, Plano de Acção, Relatório de Auditoria Financeira às Contas, Orçamento para o ano de 2009, Contribuições dos Estados Membros, Insígnia e Bandeira da organização. Estes documentos foram submetidos ao Conselho de Ministros da organização, que os analisou durante dois dias.Ao pódio da sala de trabalhos sobem, além do Presidente angolano, o secretário executivo da Comissão do Golfo da Guiné, e o presidente da Comissão da União Africana. O presidente cessante da organização, Omar Bongo, discursa igualmente na cerimónia.Depois da sessão solene de abertura oficial, os trabalhos decorrem à porta fechada. Os resultados serão, ao longo da tarde, divulgados em comunicado final.À saída do centro de Convenções, o Chefe de Estado angolano vai apresentar cumprimentos de despedida, em separado, aos Chefes de Estado e de Governo da organização. Os estadistas deixam Luanda ao fim da tarde de hoje, de regresso aos seus países.Ontem à noite, no Centro de Convenções de Talatona, o Presidente da República ofereceu um jantar oficial aos Chefes de Estado e de Governo dos países membros da organização e membros das delegações. Antes da gala de boas-vindas, o Presidente da República recebeu, em separado, os Chefes de Estado e de Governo da organização, numa das salas protocolares do Centro de Convenções de Talatona.O Golfo da Guiné é uma grande reentrância na Costa Ocidental de África, no oceano Atlântico. A região é muito rica em petróleo, sendo considerada a segunda maior reserva, depois do Médio Oriente. A Comissão do Golfo da Guiné integra oito países membros. A organização surgiu da necessidade de se prevenirem conflitos e se encontrarem mecanismos de segurança entre os países membros, atendendo que a região é “extremamente rica” em recursos petrolíferos.Além de Angola, fazem parte da Comissão do Golfo da Guiné a República Democrática do Congo, Congo-Brazzaville, Nigéria, São Tomé e Príncipe, Gabão, Camarões e Guiné-Equatorial.

Uíge - Novas Salas de aula

Uíje
Mais de mil salas de aula construídas na província!
169 escolas, com 1946 novas salas de aula, foram construídas este ano na província do Uíje, no quadro da política do Governo de melhoramento das condições de ensino e aprendizagem ao nível da região, através do programa de investimentos públicos. O director provincial da Educação, Cultura, Ciência e Tecnologia no Uíje, António Mukanza Kangudi, disse, na vila do Bungo, a 70 quilómetros a nordeste da cidade do Uíje, durante o acto que marcou as celebrações do Dia do Educador, que estes dados são apenas de 10 dos 16 municípios que compõem a província.Algumas escolas serviram para absorver alunos que estudavam em condições impróprias e as outras vão albergar novos alunos, no próximo ano lectivo.António Mukanza precisou que 608 novas salas foram já inauguradas, enquanto outras mil 338 estão na fase de conclusão. Adiantou que três institutos técnico-profissionais vão funcionar em 2009, na província do Uíje, com cerca de cinco cursos cada, nomeadamente de Gestão de Kituma, Politécnico do Uíje, e o Politécnico do Negage.O responsável manifestou a sua satisfação por este feito, adiantando que durante ano lectivo 2008, que se caracterizou por uma grande estabilidade, o número de alunos e de professores aumentou significativamente, em função da quantidade satisfatória de salas de aula.O governador provincial do Uíje em exercício, Miguel Cutoca, que presidiu ao acto, enalteceu os esforços do Governo, sublinhando que o novo estatuto do professor em curso no país constitui uma prova evidente da atenção do Governo para com a classe docente. Reconhecendo o papel dos docentes, encorajou-os a assiduidade na sua nobre missão, abdicando-se de práticas que não dignificam o bom nome do professor. Participaram ao acto, em que foram intercaladas por manifestações culturais e mensagens da Associação de Professores, representantes dos partidos políticos, entidades religiosas, autoridades tradicionais, entre outros.

domingo, novembro 23, 2008

Não me passa pela cabeça

"Que a lei acerca da avaliação do desempenho não seja para cumprir".

A decisão dos tribunais, de pagar as horas de substituição aos professores, essas passa-me sim pela cabeça que venham um dia a ser pagas pelo titular da pasta que se segue.

A lei acerca do estatuto do aluno, que foi feita pelo parlamento, essa sim passa-me pela cabeça que não seja para cumprir, por via de um despacho do governo, que é uma instituição muito mais democrática do que o parlamento.

A decisão dos tribunais, de chamar ACTIVIDADES DE SUBSTITUIÇÃO às aulas de substituição, essa sim senhora passa-me pela cabeça que não seja para cumprir, de maneira a poder convencer o zé pacóvio que tal como no passado, as minhas decisões revelam-se de início desacertadas, mas passado um tempo já são aceites.

Primeiro estranh-se, mas depois entranha-se.

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quinta-feira, novembro 20, 2008

Sobre a avaliação dos docentes em Portugal

Esta é uma reacção a quente sobre as últimas evoluções da situação. Em primeiro lugar, acho extraordinário que um problema administrativo tenha assumido proporções tais que se tenha transformado num problema político, ao extremo de exigir um Conselho de Ministros Extraordinário. Quando os problemas pequenos não são resolvidos, acabam por se transformar em grandes. A função primordial da liderança reside precisamente nisso: dirigir de modo a que tal não aconteça. Maria de Lurdes Rodrigues falhou, porque não o conseguiu evitar. José Sócrates falhou também, enquanto dirigente, porque não tirou a conclusão acertada.
Tanto um como o outro começaram repentinamente a reclamar a necessidade de diálogo. Mas passaram-se já três anos e, na hipótese de ter havido algum nível de diálogo, nunca teria sido possível mobilizar a quase totalidade de uma classe profissional de um país contra uma política. Note-se a dimensão dos acontecimentos, tão invulgar que, mesmo à escala planetária, não deve ter precedente histórico. Apostar na mesma pessoa que conseguiu esse feito histórico para conduzir um processo de diálogo é, no mínimo, uma má aposta. Maria de Lurdes Rodrigues tem limitações, como qualquer pessoa. Mas nem todos temos a mesma inconsciência para desempenhar papeis para os quais sabemos, de antemão, que não estamos suficientemenete preparados.
Não houve falta de oportunidades para alimentar o diálogo em permanência. Houve, em vez disso, uma aposta declarada no possível efeito da intimidação levada a cabo por uns tantos aspirantes a caciques espalhados pelas escolas.
A cultura do medo não é primordialmente alimentada por pequenos caciques locais. A condição necessária para que o medo alcance efeitos duradoiros reside, antes de mais nada, na intervenção intempestiva de forças de repressão especializadas, sempre disponíveis e ao alcance dos humores desses pequenos tiranetes. Ora aqui reside o último engano de José Sócrates. Para governar com base no medo, chegou tarde demais a Portugal.

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terça-feira, novembro 18, 2008

Pedro Teixeira Santos - Desde que resisto, que sou MAIS FELIZ!

Colegas,

Suponho que todos se sintam sensibilizados por sentirem que, no passado Sábado, fizeram parte de “algo maior”, que fizeram parte da história…

Pois na história, por maior e mais significativa que tenha sido a manifestação, é onde todos e cada um dos 120 000 irá ficar se, chegados às escolas, nada fizerem para mudar as coisas.

Sei que muitos se sentiram desiludidos com as consequências práticas da primeira manifestação e que muitos temem a repetição do mesmo com esta segunda manifestação. Alguns sentem-se desiludidos, ou mesmo ultrajados, com as declarações da Sr.ª ministra da Educação na televisão…Seremos assim tão ingénuos que estávamos à espera que ela viesse às televisões pedir desculpa, dizer que se tinha enganado e que se iria empenhar, connosco, no combate aos verdadeiros males do nosso ensino?! Não me façam rir!

Porque não há-de a ministra se sentir segura, se ela sabe que 90% dos professores que aos Sábados vêm gritar para as ruas chegam às escolas, na segunda-feira seguinte, e continuam a colaborar na política das aparências…

Ela conta com o nosso medo, conta com a nossa inércia, conta com o nosso “seguidismo”…Não lhe interessa resolver nada do que está mal, interessa-lhe apenas a nossa colaboração. E ela sabe que a está a ter em centenas de escolas, as mesmas de onde vieram muitos dos 120 000. A esse medo chama-se CONIVÊNCIA!

Sejamos honestos! Em causa não está a avaliação, mas TUDO o resto. Toda a política da aparência que está a conduzir o sistema de ensino público português para o mesmo caminho que o nosso famigerado sistema nacional de saúde.

Quem, de entre nós, tendo um pouco de dinheiro, não prefere recorrer a uma clínica privada do que perder horas num centro de saúde ou num hospital público?! Pois o mesmo irá acontecer ao sistema de ensino público português, caso não nos revoltemos contra esta política que, perante as dificuldades, cede.

No futuro, e o futuro é daqui a dois ou três anos, no sistema de ensino público ficarão apenas os que forem incapazes de fugir para o privado: professores e alunos.

Os meninos estão a ter maus resultados a Matemática? Não faz mal, baixa-se o nível de exigência dos exames. Os meninos ficam retidos no final do ano? Não faz mal, inventam-se dezenas de “planos” e de “justificações” e o pessoal, só para não ter que preencher a papelada, continua a “engolir sapos” e a passar os meninos todos no final de cada ano.

É necessário passar a imagem, para a opinião pública, que o governo está muito preocupado com os problemas do ensino? Inventa-se uma “avaliação burocrática de docentes” e a malta colabora, com medo, e vamos para casa todos contentes com o “Bom”…

O sistema público de ensino está a ruir a cada ano e em vez de enfrentarmos os problemas de frente e assumir o que está mal, incluindo o que está errado dentro da classe docente, continuamos a colaborar com o “sistema”…Ou seja, o “Titanic” afunda-se, mas nós continuamos a dançar ao som da orquestra…
Pois bem, se houver alguém que acredite que este sistema de avaliação vai melhorar o nosso sistema de ensino, que entregue os objectivos pessoais.

Se houver alguém que acredita que os professores que se esforçam, que sempre se esforçaram, vão ser “premiados”, que entregue os objectivos pessoais.

Se alguém acredita que os nossos colegas que sempre fizeram do ensino a sua “segunda profissão” e se gabam de usar indiscriminadamente os 102 irão ser penalizados, que entregue os objectivos pessoais.

Se alguém acredita que este processo nos irá ajudar a melhorar os nossos métodos de ensino e a ser melhores professores, que entregue os objectivos pessoais.

Se alguém acredita que este processo irá permitir detectar os nossos erros e corrigi-los, beneficiando indirectamente os nossos alunos, que entregue os objectivos pessoais.
Mas NÃO ENTREGUEM OS OBJECTIVOS POR MEDO! Não cedam à chantagem do medo e às ameaças da ministra. Todos temos muito a perder, mas há coisas que não têm preço…Uma delas é a nossa dignidade profissional.

Nós somos professores e, na nossa profissão, todos os dias somos confrontados com ameaças directas à nossa autoridade. Quando não temos mais argumentos para convencer os nossos alunos pela razão, o que é que fazemos?! Ameaçamos! É a última arma que resta, quando faltam mais argumentos…Sabemos bem como é!

Pois bem, temos uma ministra que, há muito, desistiu de nos convencer pela razão, pois nós bem sabemos da hipocrisia desta pseudo-avaliação. Que lhe resta? A ameaça…Como não pode mandar os professores para a “rua” com uma falta disciplinar, ameaça-nos com a não progressão na carreira. E nós? Nós, pelos vistos, cedemos com um sorriso nos lábios…
Seremos assim tão ingénuos que pensamos que, se alinharmos no “esquema” e entregarmos os objectivos, nada nos irá acontecer?!

Seremos tão ingénuos ao ponto de pensar que, se alinharmos com o “sistema”, o nosso emprego estará assegurado para sempre?

Será que as pessoas não compreenderam que os tempos mudaram e que já não há certezas no que toca a um emprego para toda a vida, nem mesmo para quem trabalha para o Estado?

ACORDEM e olhem à vossa volta…Estamos a entrar numa das piores crises financeiras que o mundo ocidental já conheceu… Alguém acredita que o seu emprego estará seguro indefinidamente só por não contrariar o “chefe”?! Os tempos mudaram e não voltam atrás, nem mesmo para quem é funcionário público.


A escola de Silves está cheia de pessoas normais, não de super-heróis. As pessoas que estão a boicotar a avaliação na minha escola são pessoas honestas e cumpridoras da lei. Pagam impostos e não têm cadastro criminal. Não são loucas, nem irresponsáveis e, por isso, também têm medo.

Estão habituadas a ensinar aos seus alunos e filhos a cumprir as leis. Mas sabem que antes de qualquer lei, está a lealdade e a rectidão perante as nossas mais profundas convicções.

Os professores de Silves também têm medo das repercussões que este acto de resistência pode ter nas suas carreiras, sobretudo os corajosos avaliadores que arriscam, talvez, um processo disciplinar. De onde lhes vem a coragem? De saber que pior que ter medo de não cumprir esta avaliação, é o medo de olharmos para o espelho e termos vergonha de não termos defendido a nossa dignidade profissional e os nossos alunos.

É disso que se trata, de defender a dignidade do nosso sistema de ensino. É daí que nos vem a força, das nossas convicções…Como poderíamos olhar de frente, olhos nos olhos, os nossos alunos se cedêssemos na luta pelos nossos ideais?

A ministra ameaça-nos como “meninos mal comportados” e nós claudicamos? Em Silves, não!
Não sigam o exemplo dos professores do Agrupamento Vertical de Escolas Dr. Garcia Domingues de Silves, sigam a vossa consciência. E se, perante ela, se sentirem bem em entregar os objectivos pessoais, entreguem-nos!

Nós, perante o medo, continuamos a RESISTIR! E desde que o começámos a fazer que dormimos melhor e que temos um outro sorriso…Estamos bem com a nossa consciência e isso não tem preço.

Desde que resisto, que sou MAIS FELIZ! Os meus alunos agradecem…

Pedro Nuno Teixeira Santos, BI 10081573, professor QZP do grupo 230 no Agrupamento Vertical de Escolas Dr. Garcia Domingues (Silves)

(NOTA: se alguém me quiser instaurar um processo disciplinar na sequência deste texto, agradeço o envio de um e-mail e eu envio na resposta, e com agrado, o resto dos meus dados pessoais)


espaço web de paulo carvalho… EDUCAÇÃO, 12 de Novembro de 2008

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Mia Couto - E se Obama fosse africano?

Os africanos rejubilaram com a vitória de Obama. Eu fui um deles. Depois de uma noite em claro, na irrealidade da penumbra da madrugada, as lágrimas corriam-me quando ele pronunciou o discurso de vencedor. Nesse momento, eu era também um vencedor. A mesma felicidade me atravessara quando Nelson Mandela foi libertado e o novo estadista sul-africano consolidava um caminho de dignificação de África.
Na noite de 5 de Novembro, o novo presidente norte-americano não era apenas um homem que falava. Era a sufocada voz da esperança que se reerguia, liberta, dentro de nós. Meu coração tinha votado, mesmo sem permissão: habituado a pedir pouco, eu festejava uma vitória sem dimensões. Ao sair à rua, a minha cidade se havia deslocado para Chicago, negros e brancos respirando comungando de uma mesma surpresa feliz. Porque a vitória de Obama não foi a de uma raça sobre outra: sem a participação massiva dos americanos de todas as raças (incluindo a da maioria branca) os Estados Unidos da América não nos entregariam motivo para festejarmos.
Nos dias seguintes, fui colhendo as reacções eufóricas dos mais diversos recantos do nosso continente. Pessoas anónimas, cidadãos comuns querem testemunhar a sua felicidade. Ao mesmo tempo fui tomando nota, com algumas reservas, das mensagens solidárias de dirigentes africanos. Quase todos chamavam Obama de "nosso irmão". E pensei: estarão todos esses dirigentes sendo sinceros? Será Barack Obama familiar de tanta gente politicamente tão diversa? Tenho dúvidas. Na pressa de ver preconceitos somente nos outros, não somos capazes de ver os nossos próprios racismos e xenofobias. Na pressa de condenar o Ocidente, esquecemo-nos de aceitar as lições que nos chegam desse outro lado do mundo.
Foi então que me chegou às mãos um texto de um escritor camaronês, Patrice Nganang, intitulado: "E se Obama fosse camaronês?". As questões que o meu colega dos Camarões levantava sugeriram-me perguntas diversas, formuladas agora em redor da seguinte hipótese: e se Obama fosse africano e concorresse à presidência num país africano? São estas perguntas que gostaria de explorar neste texto.
E se Obama fosse africano e candidato a uma presidência africana?
  1. Se Obama fosse africano, um seu concorrente (um qualquer George Bush das Áfricas) inventaria mudanças na Constituição para prolongar o seu mandato para além do previsto. E o nosso Obama teria que esperar mais uns anos para voltar a candidatar-se. A espera poderia ser longa, se tomarmos em conta a permanência de um mesmo presidente no poder em África. Uns 41 anos no Gabão, 39 na Líbia, 28 no Zimbabwe, 28 na Guiné Equatorial, 28 em Angola, 27 no Egipto, 26 nos Camarões. E por aí fora, perfazendo uma quinzena de presidentes que governam há mais de 20 anos consecutivos no continente. Mugabe terá 90 anos quando terminar o mandato para o qual se impôs acima do veredicto popular.
  2. Se Obama fosse africano, o mais provável era que, sendo um candidato do partido da oposição, não teria espaço para fazer campanha. Far-Ihe-iam como, por exemplo, no Zimbabwe ou nos Camarões: seria agredido fisicamente, seria preso consecutivamente, ser-Ihe-ia retirado o passaporte. Os Bushs de África não toleram opositores, não toleram a democracia.
  3. Se Obama fosse africano, não seria sequer elegível em grande parte dos países porque as elites no poder inventaram leis restritivas que fecham as portas da presidência a filhos de estrangeiros e a descendentes de imigrantes. O nacionalista zambiano Kenneth Kaunda está sendo questionado, no seu próprio país, como filho de malawianos. Convenientemente "descobriram" que o homem que conduziu a Zâmbia à independência e governou por mais de 25 anos era, afinal, filho de malawianos e durante todo esse tempo tinha governado 'ilegalmente". Preso por alegadas intenções golpistas, o nosso Kenneth Kaunda (que dá nome a uma das mais nobres avenidas de Maputo) será interdito de fazer política e assim, o regime vigente, se verá livre de um opositor.
  4. Sejamos claros: Obama é negro nos Estados Unidos. Em África ele é mulato. Se Obama fosse africano, veria a sua raça atirada contra o seu próprio rosto. Não que a cor da pele fosse importante para os povos que esperam ver nos seus líderes competência e trabalho sério. Mas as elites predadoras fariam campanha contra alguém que designariam por um "não autêntico africano". O mesmo irmão negro que hoje é saudado como novo Presidente americano seria vilipendiado em casa como sendo representante dos "outros", dos de outra raça, de outra bandeira (ou de nenhuma bandeira?).
  5. Se fosse africano, o nosso "irmão" teria que dar muita explicação aos moralistas de serviço quando pensasse em incluir no discurso de agradecimento o apoio que recebeu dos homossexuais. Pecado mortal para os advogados da chamada "pureza africana". Para estes moralistas – tantas vezes no poder, tantas vezes com poder - a homossexualidade é um inaceitável vício mortal que é exterior a África e aos africanos.
  6. Se ganhasse as eleições, Obama teria provavelmente que sentar-se à mesa de negociações e partilhar o poder com o derrotado, num processo negocial degradante que mostra que, em certos países africanos, o perdedor pode negociar aquilo que parece sagrado - a vontade do povo expressa nos votos. Nesta altura, estaria Barack Obama sentado numa mesa com um qualquer Bush em infinitas rondas negociais com mediadores africanos que nos ensinam que nos devemos contentar com as migalhas dos processos eleitorais que não correm a favor dos ditadores.

Inconclusivas conclusões
Fique claro: existem excepções neste quadro generalista. Sabemos todos de que excepções estamos falando e nós mesmos moçambicanos, fomos capazes de construir uma dessas condições à parte.
Fique igualmente claro: todos estes entraves a um Obama africano não seriam impostos pelo povo, mas pelos donos do poder, por elites que fazem da governação fonte de enriquecimento sem escrúpulos.
A verdade é que Obama não é africano. A verdade é que os africanos - as pessoas simples e os trabalhadores anónimos - festejaram com toda a alma a vitória americana de Obama. Mas não creio que os ditadores e corruptos de África tenham o direito de se fazerem convidados para esta festa.
Porque a alegria que milhões de africanos experimentaram no dia 5 de Novembro nascia de eles investirem em Obama exactamente o oposto daquilo que conheciam da sua experiência com os seus próprios dirigentes. Por muito que nos custe admitir, apenas uma minoria de estados africanos conhecem ou conheceram dirigentes preocupados com o bem público.
No mesmo dia em que Obama confirmava a condição de vencedor, os noticiários internacionais abarrotavam de notícias terríveis sobre África. No mesmo dia da vitória da maioria norte-americana, África continuava sendo derrotada por guerras, má gestão, ambição desmesurada de políticos gananciosos. Depois de terem morto a democracia, esses políticos estão matando a própria política. Resta a guerra, em alguns casos. Outros, a desistência e o cinismo.
Só há um modo verdadeiro de celebrar Obama nos países africanos: é lutar para que mais bandeiras de esperança possam nascer aqui, no nosso continente. É lutar para que Obamas africanos possam também vencer. E nós, africanos de todas as etnias e raças, vencermos com esses Obamas e celebrarmos em nossa casa aquilo que agora festejamos em casa alheia.


Mia Couto, Jornal Savana, 14 de Novembro de 2008

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domingo, novembro 16, 2008

O implacável

No passado dia 14 de Novembro, o Presidente da República mostrou-se indignado pelo lançamento de ovos por alguns estudantes por ocasião, primeiro de uma visita da Ministra da Educação, e depois pelos seus dois secretários de estado, a duas escolas públicas.

Apraz-nos o sentido cívico demonstrado pelo mais alto magistrado da nação a propósito de atitudes assumidas por menores, mas gostaríamos de observar a mesma indignação presidencial perante figuras bem mais relevantes, que ocupam os mais elevados cargos na chefia do estado e que têm vergonha do seu próprio registo biográfico.

Pessoalmente, preferia vir um dia a suportar a vergonha por um filho meu ser apanhado a atirar ovos podres, do que passar a vida envergonhado por ser governado por governantes que têm nojo do seu próprio currículo.

Quem sabe, se a política educativa da ministra da educação e dos seus secretários de estado, não será mais culpada pela atitude daqueles menores, do que os pais e os professores desses mesmos menores?

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sexta-feira, novembro 14, 2008

O mapa da grande contestação dos professores

Está aqui uma versão para impressão.
Usar os meios disponíveis na Internet para localizar (georeferenciar) dezenas de pontos é um desafio interessante. Conjugando o motor de busca da google, o googleEarth e um utilitário que determina a posição em função dos sete dígitos do código postal, consegue-se avançar bastante rápido.
A versão publicada hoje é mais uma segunda edição da do dia 9, onde todas as localizações foram corrigidas, havendo poucos acrescentos.
Ocasionalmente, a localização foi obtida por comparação dos telhados da imagem satélite (googlemaps) com fotografias dos edifícios encontradas no repositório de imagens da internet.

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terça-feira, novembro 11, 2008

Quero progredir na carreira, mas não de qualquer maneira

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domingo, novembro 09, 2008

Sou contribuinte, não voto P$

 

Os valentes professores que ontem invadiram a baixa de Lisboa, gritaram em uníssono "sou professor, não voto PS".
Tinham eles toda a razão, na medida em que parece claro que, para aquele partido poder renovar a sua maioria absoluta, não deverá contar com a classe dos docentes.
Mas foi um slogan redutor, porque o partido do governo se identifica cada vez mais com um Robin dos Bosques à portuguesa, mas no sentido mais pejorativo do termo.
Tirar aos pobres para dar aos ricos, é o lema que melhor se adequa às políticas do governo.
Aqueles que ainda se conseguem manter no activo, são rotulados de privilegiados e esfolados até ao tutano, através da redução de efectivos até ao limite considerado suportável para poder transmitir a ilusão de que tudo está bem, e alguma coisa que não esteja só pode ser resultado de uma deficiente avaliação do desempenho individual.
E aqueles que se vêem atirados para o desemprego não têem ao seu alcance senão subsídios de sobrevivência que são incapazes de se converter em iniciativas geradoras de impostos.
Os contribuintes que auferem rendimentos do seu trabalho, sentem que são chamados a pagar tudo aquilo que deveria ser custeado pelo estado, e que serve de fundamento para a cobrança dos impostos. Descontam para a reforma, e vêem-se obrigados a custear uma reforma particular; descontam para a educação, e vêem-se obrigados a colocar os filhos em colégios; descontam para a segurança, mas necessitam de segurança privada. A saúde, justiça e tudo o mais idem, idem.
Os contribuintes que dependem da atribuição de subsídios, esses sentem que têem mais a ganhar se engendrarem esquemas destinados a subverter a lógica que determina a atribuição dos subsídios, do que se capitalizarem o recurso aos benefícios sociais em favor da procura de actividades de valorização económica.

Manifestação de professores em Lisboa, 8 de Novembro





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sexta-feira, novembro 07, 2008

Enya - Onorico Flow

É preciso sonhar...


let me sail, let me sail, let the orinoco flow,
let me reach, let me beach on the shores of Tripoli.
let me sail, let me sail, let me crash upon your shore,
let me reach, let me beach far beyond the Yellow Sea.
da da, da da, da da, da da, da da

sail away, sail away, sail away
sail away, sail away, sail away
sail away, sail away, sail away
sail away, sail away, sail away

from Bissau to Palau - in the shade of Avalon,
from Fiji to Tiree and the Isles of Ebony,
from Peru to Cebu hear the power of Babylon,
from Bali to Cali - far beneath the Coral Sea.

da da, da da, da da, da da, da da

turn it up, turn it up, turn it up, up, up adieu
turn it up, turn it up, turn it up, up, up adieu
turn it up, turn it up, turn it up, up, up adieu

sail away...

from the North to the South, Ebudæ into Khartoum,
from the deep sea of Clouds to the island of the moon,
carry me on the waves to the lands I've never been,
carry me on the waves to the lands I've never seen.

we can sail, we can sail, with the orinoco flow,
we can sail, we can sail,
sail away, sail away, sail away
we can steer, we can near with Rob Dickins at the wheel,
we can sigh, say goodbye Ross and his dependencies
we can sail, we can sail,
sail away, sail away, sail away

we can reach, we can beach on the shores of Tripoli
we can sail, we can sail,
sail away, sail away, sail away

from Bali to Cali - far beneath the Coral Sea
we can sail, we can sail,
sail away, sail away, sail away

from Bissau to Palau - in the shade of Avalon
we can sail, we can sail,
sail away, sail away, sail away

we can reach, we can beach far beyond the Yellow Sea.
we can sail, we can sail,
sail away, sail away, sail away

from Peru to Cebu hear the power of Babylon,
we can sail, we can sail,
sail away, sail away, sail away
we can sail, we can sail,
sail away, sail away, sail away...


Lírica; Lyrics.time

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quinta-feira, novembro 06, 2008

A constestação dos professores no googlemaps

Contestação ao modelo de avaliação docente em Portugal

Está disponível a partir de hoje o mapa da constestação das escolas ao modelo de avalição docente do Ministério da Educação. Os dados têm sido extraídos da barra lateral do Movimento Escola Pública, podendo no futuro complementar-se com outras fontes de centralização da informação. Os endereços das escolas estão, em geral, disponíveis nos respectivos sítios da internet. Por vezes, a localização não é fácil, e optou-se por uma aproximação. Pode, no entanto, haver erros. Caso o leitor observe algum, agradeço que me dê conhecimento (antonio@ferrao.org). Para aceder ao googlemaps com este mapa, basta clicar sobre a figura no canto superior direito desta página. As informações serão actualizadas, pelo menos, uma vez cada dois dias.

O que é que o googlemaps permite que uma página estática de Hipertext Mark-Up Language (HTML) não permite?
- Arrastar para qualquer direcção e ampliar ou reduzir a escala.

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quarta-feira, novembro 05, 2008

Escola José Falcão - Contestação do modelo de avaliação docente

Escola Secundária José Falcão, Coimbra
O facto de os professores serem avaliados tendo em conta a melhoria dos resultados escolares dos alunos. Este parâmetro é considerado inaceitável pelos professores, porque a melhoria dos resultados escolares dos alunos não é directamente proporcional aos esforços envidados pelos docentes, antes dependendo de uma miríade de variáveis por eles não controláveis (Em consonância com este aspecto, cfr. o ponto 4 (págs. 10-12) dos Princípios Orientadores sobre a Organização do Processo de Avaliação do Desempenho Docente, Recomendações n.º 2/CCAP/2008, do Conselho Científico para a Avaliação de Professores).

Trata-se de uma disposição que constitui uma inversão de valores e de responsabilidades, algo que põe em sério risco a escola pública. Os alunos não são objectos; são agentes da sua própria aprendizagem e têm uma grande responsabilidade nela, assim como os pais e os encarregados de educação.

11 motivos para rejeitar este parâmetro de avaliação


Em primeiro lugar, vamos considerar cinco motivos directamente decorrentes do estipulado no Despacho n.º 16872/2008, de 23 de Junho, anexo IV, parâmetro 7, depois, seis gerais, ainda de maior importância.
  1. É exigido aos professores que os seus alunos tenham melhores resultados do que os que obtiveram no ano lectivo anterior. Tal contende essencialmente com os quatro factores que se apresentam de seguida:
    1. Na maior parte das vezes, o professor tem alunos que não foram seus no ano anterior, ou porque o professor mudou de escola, ou porque os alunos estão a começar um ciclo (5.º ano, 7.º ano, 10.º ano), ou porque vieram de outras escolas, ou porque mudaram de turma, ou porque o Conselho Pedagógico da escola estipulou (segundo, por exemplo, orientações da tutela para a distribuição de serviço) que determinados anos ou disciplinas fossem atribuídos a professores com determinadas condições (professores do quadro da escola ou com determinadas habilitações). Ora, por este parâmetro, o professor de anos mais adiantados é responsabilizado pela melhoria da classificação obtida pelo aluno no ano anterior, classificação essa pela qual ele não foi minimamente responsável.

    2. Por outro lado, o grau de exigência da disciplina aumenta, naturalmente, com o ano de escolaridade, não só no que diz respeito à complexidade de conceitos ou de conteúdos como ao trabalho exigido ao aluno, o que faz com que seja natural alguma descida de resultados.

    3. Há ainda a considerar a idade dos alunos e o sexo: diversos estudos mostram que há idades mais críticas, com factores que interferem no grau de atenção e de interesse pelo estudo e pela escola.

    4. E há essencialmente a considerar o próprio aluno, que, por diversos factores, pessoais, familiares ou sociais, a que o professor é totalmente alheio, age como sujeito próprio, com maior ou menor qualidade nos seus próprios resultados.

    Estes factores não são controláveis pelo professor, pelo que este não pode ser responsabilizado por resultados em que intervêm factores que ele não controla.


  2. O normativo prevê que os professores sejam avaliados tendo em conta a evolução dos resultados dos seus alunos relativamente à evolução média dos resultados dos alunos daquele ano de escolaridade, ou seja, por exemplo, numa turma de 7.º ano, os resultados têm de ser iguais ou melhores do que a média dos resultados do conjunto das turmas de 7.º ano daquela escola. Esta exigência é profundamente injusta. As turmas são heterogéneas: não são constituídas laboratorialmente de modo a que haja o mesmo número de alunos bons, médios e fracos em cada turma. Ora, se, por acaso, é atribuída ao professor uma turma com alunos mais fracos, ele será penalizado; se lhe for atribuída uma turma com alunos melhores, ele será beneficiado: duplamente penalizado, porque teve de desenvolver um maior esforço e não teve tão bons resultados; duplamente beneficiado, porque viu o seu trabalho facilitado pela natureza dos alunos e os seus resultados serem melhores…

  3. O normativo prevê que os professores sejam avaliados tendo em conta a evolução dos resultados dos seus alunos relativamente à evolução média dos resultados dos alunos daquela disciplina, ou seja, por exemplo, numa turma de 10.º ano, os resultados na disciplina de Português têm de ser iguais ou melhores do que a média dos resultados da disciplina de Português no conjunto de todas as turmas da escola (do 7.º ao 12.º ano); se se tratar de um agrupamento com vinte escolas, exige-se, por exemplo, que os resultados de uma turma do 4.º ano em Língua Portuguesa tenham em conta os das outras turmas da própria escola (do 1.º ao 4.º ano) e de todas as escolas do agrupamento (do 1.º ao 9.º ano). Esta exigência, além de injusta, pelo motivo imediatamente acima referido, não tem em conta que se está a tentar comparar o que é diferente (os objectivos e conteúdos da disciplina não são os mesmos de ano para ano) e que os contextos escolares variam de escola para escola.

  4. O normativo prevê que os professores sejam avaliados tendo em conta a evolução dos resultados escolares dos seus alunos relativamente à evolução média dos resultados dos mesmos alunos no conjunto das outras disciplinas da turma, ou seja, por exemplo, numa turma de 10.º ano, os resultados na disciplina de Português têm de ter uma evolução igual ou melhor do que a da média do conjunto das outras disciplinas da turma (por exemplo, Inglês, Filosofia, Matemática, Educação Física, Desenho), não tendo sequer essa disciplina contribuído para essa média (nem que tivesse contribuído, quanto mais não contribuindo...). Esta é uma exigência que não tem em conta:
    • os motivos referidos anteriormente;

    • nem a natural diversidade das disciplinas que compõem o currículo dos alunos, não só no que respeita a objectivos e conteúdos como ao número de tempos lectivos semanais (há disciplinas que só têm dois blocos por semana e outras que têm três ou quatro);

    • nem os interesses e as capacidades dos alunos: pelos mais diversos factores, há disciplinas que os alunos preferem e outras em que têm mais dificuldade, nomeadamente nos cursos tecnológicos e profissionais, em que os alunos têm disciplinas em que obtêm muito bons resultados (as específicas desses cursos) e outras, impostas pelo currículo, com programa idêntico ao dos restantes cursos não profissionais (por exemplo, Português), em que os alunos têm mais dificuldade.


    De salientar ainda, no respeitante a estes aspectos 2 a 4, que, para existir uma média, seja ela qual for (mesmo positiva), tem de haver números acima e abaixo da média, havendo, portanto, sempre professores penalizados.

  5. No normativo prevê-se, ainda, que os professores sejam avaliados tendo em conta as classificações nas provas de avaliação externa e respectiva diferença relativamente às classificações internas, ou seja, por exemplo, se no 12.º ano o professor atribuir ao aluno uma determinada classificação e o resultado no exame for diferente, o professor será penalizado por tal.Mais um aspecto de que os professores discordam, pelos seguintes motivos:

    • ao longo do ano, o aluno é avaliado segundo diversos critérios, alguns dos quais – por exemplo, a oralidade e a participação – não existem no exame;

    • o exame é uma situação especial em que, por vezes, o aluno sente pressões que o levam a uma realização inferior à habitual;

    • as provas de exame, por vezes, contêm formulações de resposta inesperadas ou com incorrecções ou dão um maior peso a aspectos que assim não foram considerados ao longo do ano (dado o grau de abertura dos programas), sendo difícil que correspondam exactamente ao nível de exigência seguido ao longo do ano lectivo.


Seguem-se, agora, os seis motivos gerais que fazem com que os professores discordem deste parâmetro de avaliação que tem em conta a melhoria dos resultados escolares dos alunos.
  1. Se os professores forem avaliados em função dos resultados dos alunos, tal significa a desresponsabilização do aluno (o que é gravíssimo). O aluno deve envidar todos os esforços para aprender. Ao saber que o professor é avaliado pelos resultados dos alunos, tal traduz-se numa inversão total da responsabilidade que cabe a cada um: ao professor a de ensinar; ao aluno a de aprender, para o que se exige interesse, empenho, esforço.

  2. Tal parâmetro também tem como consequência a desresponsabilização dos pais (o que é grave). Os pais, sobretudo os menos preparados ou os que menos tempo têm para acompanhar o estudo dos filhos, podem desresponsabilizar-se de vez, pensando que, se o filho não transitar de ano, o professor é que sofre as consequências, portanto, o filho passará com certeza, não sendo preciso preocupar-se com isso.

  3. Por outro lado, parece-nos que este parâmetro configura um conflito de interesses e uma situação de incompatibilidade não permitida pela lei. Efectivamente, o professor passa a ter um interesse directo nos resultados obtidos pelos seus alunos, já que eles o podem prejudicar ao longo da sua carreira. Pergunta-se se este interesse não pode ser suficiente para se considerar que, ao abrigo do artigo 44.º do Código do Procedimento Administrativo, o professor passe a estar, pelo conflito de interesses evidente, numa situação de impedimento, chocantemente criada pelo legislador.

  4. Este parâmetro tem, pois, como consequência a pressão sobre os professores para atribuírem notas mais elevadas sem os alunos terem desenvolvido as competências correspondentes, o que a curto prazo se traduz na destruição da escola, que deixa de ser um local onde se aprende, para se tornar um local onde essencialmente se passam certidões de aprovação.

  5. Em nenhum sistema de ensino conhecido existe este parâmetro de avaliar professores e os fazer progredir numa carreira em função dos resultados dos seus alunos.

  6. Poderia contrapor-se que o peso deste parâmetro na avaliação dos professores é limitado, que apenas é um parâmetro entre outros, mas tal argumento não colhe, pois, por um lado, é precisamente este o argumento invocado no DR n.º 2/2008 para justificar este modelo de avaliação dos professores (artigo 3.º, ponto 2: “a avaliação do desempenho do pessoal docente visa a melhoria dos resultados escolares dos alunos...”), é ele que surge como primeiro aspecto do ponto 2 do artigo 9.º deste diploma, e, por outro, cada professor tem o direito a um processo de avaliação justo. E é, sobretudo, o principal parâmetro no que diz respeito à pressão indevida que pode ser exercida sobre as escolas. O dano está feito: se os resultados dos alunos contarem para a avaliação do professor (não importa com que peso), está destruída a imagem do professor, a possibilidade de respeito que o aluno e o pai deverão ter para com o professor, e criadas as condições para a pressão indevida e a facilidade de obtenção de resultados que não correspondem às reais competências. Não se questiona que aos professores se peça responsabilidade no desenvolvimento de toda uma actividade tendente a que os seus alunos tenham sucesso, tendente a que haja «melhoria dos resultados escolares». E não se questiona que esse processo seja avaliado. Por exemplo, poderá ser observado (e objecto de avaliação) como é que o professor ensina, o que é que o professor fez perante uma turma com determinados problemas de aprendizagem ou determinado insucesso. Mas deverá ser o processo a ser avaliado, e nunca o resultado que o aluno obtém, pois na construção desse resultado intervêm muitos factores, nomeadamente o próprio aluno (com determinadas capacidades cognitivas, interesse, capacidade de trabalho, situação pessoal, familiar e social, etc.). A pressão que tem sido feita nas escolas para que indiquem como objectivo, no Projecto Educativo, que os seus alunos melhorem uma determinada percentagem em relação a resultados anteriores ou obtenham determinados resultados quantificados (segundo o disposto na alínea b) do ponto 1 do artigo 8.º do referido DR 2/2008), sendo depois avaliadas se esse objectivo foi ou não atingido, é perfeitamente incompatível com o que é minimamente justo: ser-se avaliado por aquilo que se fez, e não pelo que os outros fizeram. O professor deve ser avaliado pela forma como ensinou e educou; os alunos, pelos resultados que obtiveram.




Os professores do 10.º Escalão (3.º escalão de Professor Titular) da Escola Secundária José Falcão, de Coimbra, Porque é que os professores contestam este modelo de Avaliação do Desempenho Docente?, 28 de Outubro de 2008

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George Bush - o fim

Fim da era Bush

Der Spiegel, 31 de Outubro de 2008

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terça-feira, novembro 04, 2008

António Vilarigues - Conhecer o capitalismo

É curioso notar como ainda existem intelectuais que pretendem desconhecer as leis do capitalismo. (AF)



António Vilarigues
  1. No artigo de 3 de Outubro A teoria de Pavlov aplicada à política recordei a Resolução Política aprovada, em Novembro de 2004, no XVII Congresso do PCP: No mercado imobiliário, cujos preços têm vindo a subir a níveis demasiado elevados, subsistem riscos de um ajustamento abrupto com consequências de expressão mundial. E acrescentei que como se costuma dizer O PCP previu e preveniu

    A propósito desta citação um leitor escreveu-me insinuando que a mesma era falsa. E, ironizando, questionava se os comunistas eram bruxos. Continuando no mesmo tom diria que não sei se os comunistas são bruxos ou não, mas lá que parece, parece.

    Que dizer desta referência na Resolução Política do XV Congresso, em Dezembro de 1996: Pelo seu volume desmedido, pela tendência a empolar-se cada vez mais, pelo risco aleatório do seu movimento, esse capital fictício financeiro-especulativo faz pairar sobre a economia dos países e do mundo a instabilidade monetária e o perigo de colapsos bolsistas devastadores. E assistimos à crise asiática de 1997/98.

    De novo em Dezembro de 2000, no XVI Congresso, o PCP afirmava: Os constantes fluxos de capital-dinheiro, especialmente de curto prazo e de alto risco, provocam uma acrescida instabilidade no funcionamento do sistema financeiro e monetário internacional (…). Mercados bolsistas e imobiliários irracionalmente inflacionados são alimentados por uma insustentável expansão do crédito que potencia o perigo e a dimensão de desastres. (…). E veio a crise económica de 2001/03.

    Mas a bruxaria já vem de há 160 anos, quando dois feiticeiros alemães, de seu nome Karl Marx e Friedrich Engels, escreveram um livrinho intitulado O Manifesto do Partido Comunista. Aí se fala de mercado mundial, desenvolvimento da burguesia, multiplicação dos seus capitais, necessidade da destruição de forças produtivas excedentárias como condição de sobrevivência do sistema, crise económica como realidade inerente ao capitalismo, o socialismo como sociedade alternativa, etc., etc., etc. É esta validade das análises e das propostas propiciadas pelo marxismo-leninismo que dói aos críticos.


  2. Confesso, caros leitores, que por estes dias ando com o ego em alta. Há pouco mais de um ano referi nesta coluna que não tinha aderido à revolução semântica dos conservadores e neo-conservadores. Nos anos oitenta do século XX eles revolucionaram, com sucesso, a terminologia política e económica. O capitalismo passou a ser designado como economia de mercado. Mais recentemente trocaram o imperialismo por globalização. É sempre gratificante verificar como os conceitos por nós identificados e apreendidos voltam a ganhar significado. E como por estes dias todos escrevem e falam sobre a palavra pretensamente deitada para o caixote do lixo da história: capitalismo.

    Capitalismo esse responsável, só nas últimas semanas, pela supressão de mais de 200 mil postos de trabalho em Wall Street e outros centros financeiros. São sempre os mesmos a pagar a factura…


  3. Em 21 Junho de 2005 escrevi neste espaço (mais um exercício de memórias …) que: O Vasco Valente Correia Guedes, depois do seu artigo Crescer com o Álvaro [14 de Junho], (que me recuso a comentar por o considerar inqualificável do ponto de vista ético e moral) deveria, em coerência, deixar de assinar Vasco Pulido Valente. A memória de resistente antifascista e intelectual de vulto do seu avô assim o exige..

    Mais de três anos passados não alteraram a minha opinião. O artigo de 19 de Outubro sobre José Saramago é mais uma confirmação. Aí se repetem quase ipsis verbis os chavões e as falsidades de 2005. Já agora: no ano de 1940 não se publicou nenhum número do jornal Avante! como se pode confirmar no sítio do PCP na Internet…


António Vilarigues, Os bruxos estão bem e recomendam-se, O castendo, 3 de Novembro de 2008

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Maria Lisboa - Dar mais força aos sindicatos

Comentário de um anónimo que subscrevo desde já:
Parabéns por este seu texto e pela lucidez do seu raciocínio. Aliás, vem na linha daquilo que vou lendo, aqui e ali, escrito por si. Ponderação que vai faltando a muita gente por aí. É pena!
É tão simples manifestar opiniões sem necessidade de "gritar" nem ofender, mas infelizmente nem todos pensam assim. Quando o que está em causa é tão grave, ouvir e ler certas pessoas só prova que o "individual" está à frente do colectivo.... só pode.
Continue e divulgue as suas opiniões. Precisamos delas.
Pela minha parte, obrigada. (AF)



Temos problemas de classe para resolver, ou não?

Porque não nos questionamos todos sobre as culpas que temos no cartório?!

Os sindicatos assinaram o memorando? Assinaram! Não concordei com parte desse acordo? Não concordei! Mas compreendo a posição dos sindicatos.

Há muita gente desiludida com a actividade sindical? Há!

Mas onde estão as pessoas quando os sindicatos precisam de uma rectaguarda de apoio? Onde estão as pessoas quando eles precisam que as suas posições tenham a força dada pela nossa força?
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Elegemos os órgãos sindicais ou tornamo-nos sócios dos sindicatos, como o fazemos em relação às Associações Profissionais, e depois esperamos que nos resolvam os problemas todos sem nos lembrarmos de lhes dar apoio, de participar por dentro com a nossa opinião e a nossa força. A maioria nem sequer participa nas reuniões sindicais na sua escola, nem emite qualquer opinião até se sentir prejudicado... e, nesta altura, apenas parte para a crítica "externa", do "não nos ligam nenhuma", do não fazem nada". Normalmente, só se manifesta quando o problema é pessoal. Todos os problemas relativos aos diversos sectores da classe são sistematicamente esquecidos por quem os já tem resolvidos. Não há uma consciência de classe. Não há um apoio a lutas que não digam respeito ao próprio.
O problema é que, tal como em altura de tempestades, só nos lembramos de Santa Bárbara quando há trovões. Só nos lembramos dos sindicatos em momentos de crise. Durante o resto do tempo abandonamo-los à sua sorte, não lhes damos apoio, deixamo-los decidir sozinhos. Isso aconteceu nos últimos anos. Houve um ligeiro tempo de bonança em que não fomos grandemente atacados, grandemente prejudicados… acomodámo-nos e deixámos os sindicatos sozinhos… também um pouco acomodados pela falta de grandes lutas, diga-se em abono da verdade…. Quando, de repente, chegou a crise, iniciada com o concurso de 2004, aqui d`el rei, “os sindicatos não fizeram, os sindicatos não aconteceram…
Os sindicatos somos nós … mas nunca dizemos “nós não fizemos, nós não acontecemos”. Depois queixamo-nos deles porque se sentiram sozinhos e agiram quase sozinhos, porque tentaram mobilizar-nos mas nós estávamos amuados e fizemos beicinho e dissemos “agora não brincamos”. Pois é … talvez nos falte a todos uma consciência política, uma consciência de classe, uma consciência de direitos, uma consciência dos deveres que temos para connosco enquanto profissionais. Sim, porque ser profissional não é, apenas, exercer a profissão no nosso localzinho de trabalho. Ser profissional é ser crítico, é ser membro de uma classe, é lutar pela dignificação dessa classe nos seus diferentes status: social, científico, pedagógico, laboral. E essa luta não pode ser individual, já que numa luta desse tipo não se marcam muitos pontos. Os itens, que referi, constituem os pilares de uma profissão. Faltando a autenticidade de um deles que seja o estatuto do profissional fica ferido e a profissão de todos e de cada um é afectada.
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Participámos em força no 8 de Março e nas manifestações que se seguiram! Sim participámos! Mas depois?
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Cumpridos que foram o 8 de Março e as suas sequelas locais:
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- alguém se perguntou quantos professores se empenhariam numa luta que tivesse sido convocada no pós 8 de Março?
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- alguém se questionou sobre que formas de luta estariam os professores prontos para aguentar?
...
- alguém contabilizou "munições in loco" para saber até onde cada colega estaria disposto a ir?
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A minha percepção é que a maioria considerou que, com a ida à manifestação, tinha completado a sua contribuição e que para a frente o caminho seriam rosas. Quando falei, a muitos, logo a seguir ao 8 de Março, em tomadas de posição, em novas formas de luta, em possíveis novas saídas para a rua, ou mesmo em greves a reacção foi a de que já tinham feito a sua obra.
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Que força de apoio teriam os sindicatos para continuar uma luta?
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Paralelamente, surgiram os movimentos. Esses movimentos são importantes? São, se souberem construir a consciência de classe, se souberem aproveitar o espaço de debate para unir, se souberem que a luta de uma classe não vive de protagonismos, nem de lutas intestinas pelo poder, se souberem compreender que, apesar da sua importância, quem negoceia, com o governo, são os sindicatos e que é necessário que a força da classe, adquirida pelos movimentos, seja capaz de falar com os sindicatos, apoiando-os e/ou mostrando-lhes no caso de estarem errados, que o que a classe quer não é o mesmo que eles querem. Não serve de nada, a ninguém, nem aos sindicatos, nem aos movimentos, nem aos professores as posições, que publicamente foram veiculadas, de atrito…, de diz que disse…, de eu sou melhor porque… Os movimentos surgiram como pontos de discussão, como pontos para dinamização de alertas, como núcleos locais para apresentação de propostas de acção/contestação, e todos os que vêem os sindicatos como o bicho papão aproveitaram para os considerar os seus defensores, nomeadamente quando aconteceu a assinatura do memorando. E gritou-se traição.
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Mais uma vez pergunto se os sindicatos tivessem “partido” para formas de luta mais “fortes” se teriam tido o apoio dos movimentos, se teriam tido o apoio dos 100.000 mil?
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Agora, surgem queixas de que os sindicatos só estão a "apanhar a onda" para não perderem a face!
No entanto, quantos os teriam apoiado se a "onda" tivesse sido provocada por eles?
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Que nos interessa de onde veio o movimento que nos vai levar à rua em defesa dos nossos direitos?
Temos problemas para resolver ou não?
Precisamos de estar todos juntos, ou não?
Não será já tempo de nos unirmos sem querermos protagonismos, sem queremos pôrmo-nos em bicos dos pés para ficar melhor na fotografia do que o vizinho?
Não será já tempo de nos deixarmos de arrastar a classe por um divisionismo que só nos trará amargos de boca?


Maria Lisboa, Temos problemas de classe para resolver, ou não?, Professores Sem Quadro, 1º de Novembro de 2008

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Degradação facilitista do ensino? - Barcelos diz: Não!

Moção


Os professores da Escola Secundária de Barcelos, reunidos em plenário no dia 3 de Novembro, reiteram o seu total desacordo com os princípios que norteiam a Avaliação do Desempenho Docente proposto pelo Ministério da Educação. Discutiram e votaram a moção que se segue:

Decidiram,
  1. Não apresentar os objectivos individuais, previstos no Decreto-Lei 2/2008,
  2. Rejeitar a sujeição à avaliação do desempenho docente nos moldes em que está estruturada,
  3. Exigir a renegociação do Decreto Regulamentar 2/2008, bem como o Decreto-Lei 15-2007 que lhe dá suporte legal,
  4. Propor aos Departamentos que reúnam para assumirem uma posição consentânea em relação à avaliação do desempenho docente.


Nos termos e com os fundamentos seguintes:
  1. a excessiva carga burocrática, que o processo de avaliação acarreta, está a prejudicar gravemente o normal funcionamento da actividade lectiva, com a agravante de se estar ainda numa fase inicial;
  2. a flagrante desmotivação que todo este processo tem provocado nos professores, desde a desvalorização socioprofissional até uma avaliação de desempenho injusta, parcial, burocrática, inexequível e que não contribui em nada para a melhoria da aprendizagem dos alunos, tem tornado o trabalho na escola insuportável;
  3. todo este processo põe em causa, inclusive, os deveres gerais da profissão previstos no artigo 10º do respectivo Estatuto, nomeadamente, os deveres do rigor, da isenção, da justiça e da equidade, nomeadamente, os deveres de exercício da sua função por critérios de qualidade, nomeadamente, o dever de cooperação;
  4. a avaliação do desempenho está orientada para a melhoria estatística dos resultados dos alunos, promovendo eventuais resultados artificiais porque inflacionados, promovendo o facilitismo, despromovendo o rigor e a exigência;
  5. este modelo de avaliação promove e incentiva a competição desmedida entre colegas de profissão, inviabilizando o trabalho cooperativo, absolutamente necessário para um exercício de funções com qualidade;
  6. a promoção, com os prejuízos supracitados, da divisão entre avaliados e avaliadores, titulares e não titulares, sem qualquer critério de exigência aceitável, apenas pelo exercício de cargos administrativos;
  7. o próprio Ministério não dá resposta adequada às recomendações do Conselho Científico para Avaliação dos Professores, mantendo em vigor fichas de avaliação absolutamente desadequadas;
  8. o Ministério não dá resposta à questão ética e legal de nesta escola, bem como em muitas outras, não ser possível cumprir o disposto no Decreto Regulamentar nº2/2008 de 10 de Janeiro, que determina que a avaliação pondere “o envolvimento e a qualidade científico-pedagógica do docente.”



Assim, os signatários renovam a proposta de suspensão de todas as iniciativas e actividades relacionadas com o processo de avaliação em curso, certos de que, desta forma, contribuem para a melhoria do trabalho dos docentes, das aprendizagens dos alunos e da qualidade do serviço público de educação.


São subscritores deste documento,


Publicado por Paulo Guinote em 3 de Novembro de 2008

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segunda-feira, novembro 03, 2008

Luís Alves de Fraga - O aviso do general

Luis FragaCausou um certo rebuliço o artigo publicado no jornal Público de há dias pelo general Loureiro dos Santos. Ele é uma figura pública com nome firmado nos órgãos de comunicação social nacionais. Se dá uma opinião qualquer supõe-se que esteja devidamente fundamentada. E estará, certamente, graças aos círculos sociais por si frequentados e às conversas por ele mantidas. Como diria Eça de Queirós, o general Loureiro dos Santos «bebe do fino».

Eu sou um quase anónimo coronel que se refugia no seu gabinete de trabalho onde leio os jornais, os livros clássicos, a História e me deleito a pensar sobre os assuntos. Não bebo do fino, mas julgo pensar com finura. Essa a razão pela qual há já vários meses eu vinha prevendo e escrevendo neste blog aquilo que o general Loureiro dos Santos acabou por dar a conhecer aos Portugueses nas páginas do Público.

A insatisfação ganhou contornos diferentes ...

(Leia o resto do artigo aqui)


Luís Alves de Fraga, O aviso do general, Fio de Prumo, 3 de Novembro de 2008

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Movimento pela suspensão do modelo da avaliação docente (2)

Correspondendo a um desafio de Paulo Guinote, e usando as informações compiladas pelo Movimento Escola Pública, fizemos o mapa da contestação. Os agrupamentos de escolas são respresentados por estrelas, escolas, colégios ou grupos de professores por um círculo. Actualizado cerca das 16 horas do dia 3 de Novembro.


Norte
Contestação ào modelo de avaliação dos professores em Portugal

Sul
Contestação ào modelo de avaliação dos professores em Portugal

Porto
Contestação ào modelo de avaliação dos professores em Portugal
Lisboa
Contestação ào modelo de avaliação dos professores em Portugal
(Clique sobre as figuras para aumentar)

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Kimbo de Angola Feiticeira


Veja mais fotos como esta em Kimbo de Angola Feiticeira

Bonga:

Mu Nhango

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domingo, novembro 02, 2008

Simon Duke - Prémios para gestores da Goldman Sachs

Para quem não saiba, a Goldman Sachs é a instituição financeira de onde saiu o actual Secretério de Estado do Tesouro (ministro das finanças) dos EUA. Eis o sentido definitivo da alegada superioridade da gestão privada: saque directo dos impostos dos contribuintes. (AF)

A Goldman Sachs prepara-se para pagar aos administradores de topo prémios multimilionários, apesar de ter pedido ao governo um fundo de salvação de emergência.

Ontem soube-se que reservou 7 mil milhões de dólares para prémios e salários, respeitantes ao ano de 2008.

Cada um dos 443 parceiros da empresa está em vias de embolsar uma média de 3 milhões em prémios de Natal.

Simon Duke, Goldman Sachs ready to hand out £7bn salary and bonus package... after its £6bn bail-out, Daily Mail, 30 de Outubro de 2008

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