terça-feira, fevereiro 03, 2009

Henry Siegman - Mentiras de Israel

Henry SiegmanOs governos ocidentais e a maior parte dos meios de comunicação dos respectivos países aceitaram determinadas declarações israelitas, justificativas do assalto militar a Gaza: que o Hamas violou repetidamente a trégua de seis meses e recusou a sua renovação, tendo Israel respeitado as tréguas; que o Hamas é uma organização terrorista, fazendo parte da jihad global; que Israel actuou, não apenas em defesa própria, mas também como parte integrante da guerra que as democracias ocidentais movem contra os terroristas.

Não descobri um só jornal norte-americano de grande difusão, uma só estação de rádio ou um único canal de televisão, que tivesse questionado esta versão dos acontecimentos em toda a cobertura feita ao assalto a Gaza. O criticismo dos actos de Israel (totalmente omisso da administração Bush) resumiu-se a indagar sobre a necessidade (proporcionalidade) da carnificina perpetrada pelo exército de Israel face às ameaças invocadas, ou então sobre as cautelas tomadas para evitar baixas civis.

Os negociadores do Médio Oriente sumiram-se em eufemismos incompreensíveis, pelo que me vejo forçado a dizer sem subterfúgios que todas as justificações dadas por Israel são mentiras. Foi Israel, não o Hamas, quem violou as tréguas: o Hamas comprometeu-se a parar o lançamento de foguetes contra Israel; como contrapartida, Israel afrouxaria o bloqueio a Gaza. Na realidade, durante o cessar-fogo, o bloqueio foi ainda mais apertado. Isto foi confirmado não apenas por muitos observadores internacionais neutros e organizações não-governamentais que estão activas no terreno, mas também pelo Brigadeiro Shmuel Zakai, ex-comandante da Israel Defense Force (IDF) em Gaza. Numa entrevista ao jornal Ha'aretz em 22 de Dezembro, Zakai acusou o governo de Israel de cometer um erro capital durante o tadiyeh - o período de seis meses das tréguas - 'ao não aproveitar a acalmia para melhorar, em vez de degradar acentuadamente, a situação económica difícil dos palestinianos na Faixa de Gaza... Quando se criam tréguas e se mantem a pressão económica na Faixa', declarou o General Zakai, 'é claro que o Hamas procuraria alcançar um trégua mais favorável, sendo o disparo dos foguetes o meio para alcançar essa meta... Não parece razoável que, após fomentar a desgraça e a ruína económica em que os palestinianos vivem na Faixa de Gaza, se esperasse que o Hamas viesse sentar-se calmamente à mesa de negociações sem que movesse um dedo.'

A trégua começou em Junho do ano passado e estava prevista a sua renovação em Dezembro, com a condição de ambas as partes, reciprocamente, se absterem de acções violentas. O Hamas comprometeu-se a cessar o lançamento de foguetes e demover outros grupos, como o Jihad Islâmica, de o fazer (até os serviços secretos de Israel reconheceram que esse compromisso foi respeitado com uma eficácia surpreendente). Israel, por seu turno, poria termo aos assassinatos de dirigentes e às incursões militares. Este pacto foi gravemente violado no dia 4 de Novembro, quando o IDF entrou em Gaza e matou seis membros do Hamas. O Hamas retorquiu, lançando foguetes Qassam e mísseis Grad. Depois disso, manifestou-se ainda disponível para prolongar as tréguas, com a única condição de Israel levantar o bloqueio. Israel recusou-se. Poderia ter cumprido a sua obrigação de proteger os israelitas, assinando o fim do bloqueio, porém, nem sequer esboçou um movimento nesse sentido. Não é possível afirmar-se que Israel tenha desencadeado o assalto a Gaza para procurar proteger os seus cidadãos. Agiu assim para vincar a sua capacidade em esmagar a população de Gaza.

Toda a gente perece ter-se esquecido de que o Hamas declarou o fim dos bombistas suicidas e dos disparos de foguetes na altura em que decidiu juntar-se ao processo político palestiniano, tendo cumprido em grande medida durante um ano. Bush elogiou publicamente essa decisão, citando-a como um exemplo de sucesso da sua campanha em prol da democracia no Médio Oriente. Quando o Hamas ganhou as eleições, contrariando as expectativas ocidentais, Israel e os EUA procuraram imediatamente retirar legitimidade ao resultado e começaram a apoiar Mahmoud Abbas, líder da Fatá, que até então havia sido tratado pelos israelitas como a 'galinha depenada'. Armaram então e treinaram as forças de segurança da Fatá para que derrubassem o Hamas; e quando o Hamas - de forma brutal, para se impor - se defendeu desta violenta tentativa de inverter o resultado da primeira eleição democrática honesta no Médio Oriente, Israel e a administração Bush impuseram o bloqueio.

Israel tenta escamotear estes factos indesmentíveis, contrapondo que, através da retirada dos colonatos de Gaza em 2005, Ariel Sharon teria oferecido ao Hamas a oportunidade para se orientar no caminho da responsabilidade estatal; oportunidade essa que o Hamas teria desperdiçado, tendo, em vez disso, transformado Gaza num rampa de lançamento de mísseis contra a população civil de Israel. Esta acusação é uma dupla mentira. Em primeiro lugar, apesar de todos os erros, o Hamas conduziu Gaza a um nível de acatamento da lei e da ordem sem precedentes nos anos recentes. Fê-lo sem as avultadas contribuições monetárias com que os dadores encharcaram a Autoridade Palestiniana enquanto foi dirigida pela Fatá. Acabou com os gangs violentos e com os senhores da guerra que haviam atemorizado as populações de Gaza durante o governo da Fatá. Muçulmanos não praticantes, cristãos e outras minorias gozam de maior liberdade religiosa com o governo do Hamas que gozariam se vivessem na Arábia Saudita, por exemplo, ou em muitos outros regimes árabes.

A mentira maior é que a retirada de Gaza tenha constituido o pronúncio de outras retiradas e uma manifestação de boa vontade a favor da Paz. Eis a forma como o conselheiro sénior de Sharon, Dov Weiglass, chefe da delegação que negociou com a administração norte-americana, caracterizou a retirada de Gaza, em entrevista ao Ha'aretz de Agosto de 2004:
O que acordámos de facto com os americanos foi que uma parte dos colonatos [i.e. o maior colonato do West Bank] seria tratado até ao fim, estando o resto fora das negociações até que os palestinianos se convertam em finlandeses... O significado [do acordo com os EUA] é o de congelar o processo político. Quando congelas o processo político, impedes o estabelecimento de um Estado palestiniano e evitas as discussões sobre refugiados, fronteiras e Jerusalém. De facto, toda esta embrulhada chamada Estado Palestino, com todas as suas consequências, foram retiradas da agenda por tempo indeterminado. Tudo isto contando com os auspícios e a benção do Presidente Bush... e também com a ractificação de ambas as câmaras do Congresso.

Cuidarão Israel e os EUA que os palestinianos não lêem jornais israelitas, ou que não descobrem por si mesmos o que Sharon pretende quando vêem o que se passa no West Bank?
Israel gostaria que o mundo acreditasse que o Hamas começou a lançar foguetes porque é isso que fazem os terroristas e o Hamas é apenas mais um grupo terrorista. De facto, o Hamas não é uma 'organização terrorista' (o termo preferido por Israel) em medida maior que o movimento sionista foi uma organização terrorista por altura dos confrontos que marcaram a criação do seu país. Nas décadas de 1930 e 1940, os partidos que constituiam o movimento sionista dedicaram-se a actividades terroristas por razões estratégicas. Segundo Benny Morris, foi o Irgun o primeiro a disparar sobre civis. Escreveu no Righteous Victims que o surgimento do terrorismo árabe em 1937 'desencadeou um onda de bombardeamentos sobre multidões árabes e sobre autocarros, introduzindo uma nova dimensão ao conflito'. Também relatou atrocidades cometidas durante a guerra de 1948-49, pela IDF. Numa entrevista publicada no Ha'aretz em 2004, reconheceu que os documentos recém-libertados para consulta pública pelo Ministério da Defesa de Israel revelavam 'muitos mais actos de massacre que aqueles que supunha... Nos meses de Abril-Maio de 1948, unidades do Haganah receberam instruções operacionais que, de forma explícita, ordenavam que levassem a cabo o desenraizamento dos aldeões, expulsando-os das suas casas e destruindo as aldeias'. Em determinadas vilas e cidades palestinas, o IDF executou civis. Questionado pelo Ha'aretz se condenava tais práticas de limpeza étnica, Morris respondeu que não:
Não teria sido possível estabelecer um estado judaico sem desenraizar 700 mil palestinos. Assim, foi necessário desenraizá-los. Não havia alternativa à expulsão da população. Era necessário limpar o interior do território, limpar as suas fronterias e as vias de acesso principais. Era necessário limpar as povoações donde saiam os disparos contra as nossa colunas de transporte e os nossos colonatos.

Por outras palavras, quando o judeus disparam sobre civis inocentes e os matam para progredirem na sua luta nacional, são patriotas. Quando os seus adversários fazem exactamente o mesmo, são terroristas.

É tão fácil descrever o Hamas simplesmente como uma 'organização terrorista'. Trata-se de um movimento religioso e nacionalista, nascido do terrorismo, tal como o movimento sionista foi durante a luta pelo estabelecimento do estado, na convicção errada de que esta era a única via para pôr termo à ocupação opressiva e retomar o estado palestino. Mesmo que, conforme à ideologia do Hamas, se apele a que a construção do estado palestino se faça sobre as ruinas do estado de Israel, tal não caracteriza as políticas actuais do Hamas mais do que as declarações no mesmo sentido constantes da Carta da Organização da Libertação da Palestina (OLP) caracterizam hoje a política da Fatá.

As declarações a seguir citadas não foram feitas por um apologista do Hamas, mas antes por um ex-chefe da polícia secreta de Israel, a Mossad, e ex-conselheiro de Sharon para a segurança nacional, Ephraim Halevy. A liderança do Hamas sofreu uma transformação 'bem à frente dos nossos narizes', escreveu recentemente Halevy no Yedioth Ahronoth, ao reconhecer que 'a sua meta ideológica não se podia alcançar nos tempos próximos nem num futuro previsível'. Hoje está preparada para aceitar temporariamente o estabelecimento de um estado palestino com as fronteiras de 1967. Halevy notou que o Hamas não esclareceu quanto 'temporariamente' estas fronteiras se deveriam manter, 'eles sabem que, a partir do momento em que o estado palestiniano se tenha esbelecido, serão forçados a mudar as regras do jogo: ver-se-ão forçados a prosseguir uma via que os conduzirá para bem longe do seu fim ideológico inicial'. Num artigo anterior, Halevy também chamou a atenção para o absurdo de associar Hamas a al-Quaida.
Perante al-Quaida, os membros do Hamas são vistos como heréticos, uma vez que manifestaram o desejo de participar em acordos ou entendimentos com Israel ao longo do processo.[O chefe do bureau político do Hamas, Khaled] Mashl's fez declarações que contradizem frontalmente a abordagem de al-Quaida, oferecendo a Israel uma oportunidade, quiçá única na História, de alcançar a sua legitimação.

Porque estão os dirigentes de Israel tão determinados em destruir o Hamas? Porque acreditam que os dirigentes do Hamas, ao contrário da Fatá, não estão intimidados ao ponto de aceitar um acordo de paz que reduza o futuro 'estado' da Palestina a um conjunto desconexo de porções territoriais sobre os quais Israel pode manter permanentemente o seu controlo. O controlo do West Bank tem prosseguido sem interrupção pelos militares, serviços secretos e dirigentes políticos desde a Guerra dos Seis Dias. Acreditam que o Hamas não permitirá tal cantonização da Palestina, qualquer que seja o prolongamento da ocupação do território. Talvez Israel se engane àcerca de Abbas e a sua corte super-bem-remunerada, mas quanto ao Hamas está absolutamente certa.

Os observadores internacionais do Médio Oriente interrogam-se sobre as hipóteses de o assalto de Israel ao Hamas conduzir ao desmantelamento desta organização ou expulsá-la de Gaza. É uma questão irrelevante. Se Israel planeia manter no futuro o controlo sobre qualquer entidade palestiniana, não encontrará um interlocutor palestiniano. Se consiguisse agora destruir o Hamas, em tempo este movimento seria substituido por uma oposição palestiniana muitíssimo mais radical.

Se Barack Obama desaproveitar este momento, enviando para o Médio Oriente uma delegação de circunstância, convencida de que terceiras partes não têm que apresentar propostas próprias e orientadas para uma paz durável, um delegação incapaz de pressionar as partes em contenda e que se limite a assitir à exposição das suas divergências, estará então a contribuir para o surgimento de uma resistência palestina muito mais extremista que o Hamas - plausivelmente, aliada a al Quaeda. Para os EUA, a Europa e a maior parte do resto do mundo, esse seria o pior resultado. Talvez Israel, incluindo os chefes de alguns colonatos, acreditem que tal serviria os seus propósitos, pois ofereceria ao governo um convidativo pretexto para sujeitar pela força toda a Palestina. Esta é, porém, uma ilusão capaz de conduzir Israel ao seu fim como estado democrático judaico.

Anthony Cordesaman, um dos analistas militares mais sérios do Médio Oriente, que além disso é amigo de Israel, em relatório dirigido ao Centro de Estudos Estratégicos Internacionais no dia 9 de Janeiro, referiu que os ganhos tácticos alcançados pela continuação das operações em Gaza seriam suplantados pelos prejuízos estratégicos - sendo provável que ficassem aquém dos resultados anteriorememte alcançados por meio de ataques selectivos a instalações do Hamas.
Ter-se-á equivocado Israel, enveredando por um aprofundamento sistemático da guerra, desprovida de um objectivo estratégico claro ou, pelo menos, plausível de alcançar? Acabará Israel por contribuir para o fortalecimento político do seu inimigo, mesmo sendo este derrotado tacticamente? Irão as iniciativas de Israel comprometer seriamente a posição dos EUA na região? Irão comprometer as esperanças de paz e, subsequentemente, os regimes árabes moderados e as suas vozes? Tudo indica que a resposta a qualquer destas perguntas seja: Sim! Um dirigente pode sempre reclamar, engrossando a voz, que os ganhos tácticos são vitórias. Se for mesmo isso o que Olmert, Livni e Barak têm para responder, então ter-se-ão desgraçados a si próprios assim como terão desgraçado o seu país e os seus amigos.
Concluiu Cordesaman.

Henry Siegman, Israel’s Lies,
London Review of Books, 15 de Janeiro de 2009

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