quarta-feira, abril 01, 2009

Desencontro com Jorge Macedo

Jorge MacedoLisboa, Aeroporto, Março de 2009. É ele, é Jorge Macedo na paragem. Vou sair aqui. Há tempos que o procuro sem conseguir encontrá-lo. Já lá vão quase trinta anos que não falamos. O autocarro parou, as portas abriram-se. Espera aí, parece que ele vai entrar. Jorge Macedo hesitou. Acompanhei-lhe os movimentos. Nessa altura, fechou-se a porta de saída. Pode ser que ele entre. Mas não, não aconteceu. A porta de entrada fechou-se também. Ao início da marcha do autocarro, tentei chamar a sua atenção através do vidro. Alguma ideia o absorvia, e cruzámo-nos a uns escassos dois metros.
  1. Luanda, 1983. Há um ano que abandonei o Coro Universitário de Luanda. Sem esperar, recebo a visita da São. Ferrão, recebemos um convite para ir a Itália. Aparece lá amanhã, vamos fazer uma reunião da Direcção. Assim fiz. Antes da reunião, assisti ao ensaio. Jorge Macedo estava mais solto. Mais de metade do reportório já era da sua autoria. Artista completo, não era maestro. Só poderia dar-lhe esse nome caso não houvesse ultrapassado três patamares que alteram a natureza das pessoas: já publicara prosa, já publicara poesia, agora divertia-se com as suas próprias composições. O brilho que um criador dá aos que beneficiam do seu contacto transcende a mera reprodução de técnicas, mesmo artísticas. Estão em níveis diferentes. Qual é o problema com Itália? Não temos dinheiro. Só isso? Então é fácil. Vamos dividir-nos em brigadas. Boavida, escolhe a tua escolta. Vais atacar as empresas multinacionais, precisamos de dólares para gastar. Irei às empresas industriais, as únicas onde ainda se cria riqueza e que já conheço porque que trabalhei nesse ministério com o saudoso e fuzilado Edgar Vales. Precisamos de kwanzas para a coreografia. Jorge Macedo conhecia pessoalmente Violante Ferrão, uma prima minha por afinidade e que, embora divorciada, eu gostava de continuar a tratar como prima. Jorge Macedo convenceu-a a conceber de graça os trajes a serem confeccionados. Cumplicidade de artistas, pensei. Nos dias seguintes foi uma azáfama. Fugando ao serviço com desculpas de ir à bicha do peixe, lá fui a umas dezenas de fábricas, quase todas na Zona Industrial do Cazenga, mas também na do Cacuaco. Aproximava-nos cautelosamente, isto tem que dar certo. À minha esquerda a doce São, pretinha estudante de Medicina, pouco acima dos vinte. À minha direita uma mulatinha dos cursos pré-universitários, muito afamada como Minjita, como gostava de acentuar. Nenhuma delas acreditava que conseguíssemos o kumbu. Enquanto nos aproximávamos da primeira fábrica, parecíamos um galheteiro. Abracei as duas. Tu, São, és o azeite e tu, Minjita, o vinagre. Precisamos dos dois. As moças sabiam preparar-se para a ocasião. Uma vez no gabinete da Direcção, expunha o nosso projecto. Angolano não é de muita dieléctica, se gosta apoia a idéia. O Coro havia-se estreado um ano antes e entrou numa fase muito aguda da história de Angola, tendo funcionado como elemento de distensão social poderoso, tal como algumas intervenções (poucas) de alguns escritores. Ideia original de Pepetela, então Ministro da Educação. O Director chamou o Chefe da Contabilidade, mandou preparar o cheque. Este resmungou, problemas de tesouraria, em vão. São e Minjita não queriam crer: cem mil kwanzas era um número que nunca tinham ouvido falar. Abeiraram de cada lado da cadeira do Director para ver o aspecto do "bicho". Uma vez assinado, cada uma descarregou um shmak sentido na bochecha mais próxima, o que plantou o Director nas nuvens. E vendo isso, pensava eu com os meus botões como a vida podia ser simples e alegre. Cheque no bolso, regressávamos ao fusca. Nesta altura, mudávamos de funções. A atrevida Minjita, a doce São e o reanimado António eram de seguida promovidos a o motor de arranque, que isto de em Angola contar com as baterias não é para todos os dias. Só aconteceu uma vez, mas também encontrámos um director-cromo, um biaco só mesmo podia ser, mais dado ao transcendental. Ensaiou uma prosápia estranha. Angola está em condições difíceis, começou. Ora, meu Amigo a quem o dizes. Vai vender o teu peixe aos ingleses, pode ser que o comprem. Dadas as circunstâncias, insistiu, parece-me inoportuno atribuir-se prioridade a gastos desajustadas às necessidades mais elementares, pois nem essas conseguimos satisfazer. Estes biacos aprenderão a viver no momento da primeira cavadela da sua sepultura. Passei-me. Cortei recto. Não estou aqui para preparar condições para que os meus netos partam um dia para Itália. Eu quero estar em Itália daqui a quinze dias. Esbugalhou os olhos. Quase de certeza, não acreditou. Que posso fazer? Quatro milhões em kwanzas, metade em divisas. Chega.
  2. Roma, 1983. Os moços e moças dos muceques, do Marçal, do Sambizanga, do Cazenga, das Ingombotas, os sambilas, uns calus outros malanjinos, alguns do planalto, outros de Benguela e até do Moxico, nenhum deles tendo anteriormente saído do país, da primeira vez que o fizeram aterraram em Roma. Esta cidade é linda. De facto, não é uma cidade. É a rainha de todas as cidades. Ela própria é uma pilha de cidades sobrepostas, onde convivem prédios modernos com arquitectura arrojada com bairros quase da idade média, aconchegadores nos suas praças pequenas com esplanadas e rodeadas de casas de primeiro andar com varanda onde ainda se pode ver raparigas a entornar os seus encantos aos praças e magalas da rua. As romanas também são únicas. Olham de frente, não pousam os olhos no chão. Falam como quem desafia, sem darem por isso. A cozinha italiana pode parecer estranha. Quase todos se queixaram que a massa estava crua. Felizmente, tínhamos enviado um pisteiro à frente, para reconhecer o terreno. Advertiu-nos. Não se atrevam a queixar-se da massa. O ponto de cozedura é onde o cozinheiro deposita toda a sua mestria. Aprendam esta expressão italiana: al dente. O café parece desaparecer no fundo da chávena. Quase não é preciso bebê-lo, o odor solta-se desde longe e ultrapassa o sabor. Os italianos ficam lamechas quando se lhes oferece umas notas de música. Aconteceu no restaurante, quando lá caímos pela primeira vez e o dono ofereceu, com óbvias intenções, uma aguardente por conta da casa. Com as goelas aquecidas, os membros do coro começaram a cantar. O rebuliço das conversas deu o sumiço. Não só enquanto durou a canção, mas depois das palmas de agradecimento. Queriam mais. Pois então.
  3. Gorítzia, 1983. Cidade do Nordeste de Itália, cortada a meio pela fronteira com a Jugoslávia. O Coro de Luanda veio participar extra-concurso no Festival Internacional de Coros da cidade. Estavam lá coros de toda a Europa, Tanto do Ocidente como de Leste, o nosso era o único vindo de fora. Era também a sua primeira actuação internacional. Eu estava como convidado dos convidados. Angolano não esquece, nem manda recados. Porém, eu sentía-me mais à vontade que todos os restantes. Não só os do coro convidado, mas de todo o festival. Assistia às actuações dos participantes ao prémio do concurso. Olhava para os membros do júri. As vozes pareciam-me tecnicamente perfeitas, as composições elaboradas. Será que era necessário tanta sofisticação apenas para pôr emoções cá fora? Ao fim de dois dias anunciaram para aquela noite a entrada do Coro Universitário de Luanda. Jorge Macedo abeirou-se de mim no passeio pelo jardim após o almoço. Ó Ferrão, começamos pela canção italiana ou pelo Gaudeamos? Estremeci. Como era possível Jorge Macedo pôr-se com reverências perante obras alienígenas? Nada disso, retorqui. Confesso que nunca irei entender os artistas. O único representante ali presente da música da grande África, feita de dores sem medida, de mortes próximas e afastadas, de mínguas várias e muita, muita alegria para compensar tudo o resto, estava a vacilar? Se em África até o pranto dos funerais se confunde com o riso? Se em África as cordas vocais nunca ditaram regras ás exigências do coração? Se África nunca tentou sufocar o ritmo em exacerbações da melodia, tampouco sentiu necessidade de inverter esse pecado em esgares de sintetizadores ou potência de amplificadores. Ora bolas. Naquele momento decidi armar-me em director, logo eu, que odeio tudo quanto se relaciona com tais artes, só aprecio pessoas na medida em que tenha a certeza de que se movem livres à minha volta. Jorge, vamos atacar com a última canção introduzida no reportório, é o tema que me parece mais forte. Depois escolhemos, por esta ordem, o fecho da segunda parte, a abertura da segunda e o fecho da primeira. Ao fim de alguns minutos e sem polémicas, tínhamos a armação do concerto. Distribuimos as restantes peças. Jorge Macedo parecia mais animado. Faltam o tema italiano e o Gaudeamus, lembrou. Jorge Macedo, que tal deixar esses de fora do programa a apresentar ao público? Poderão ser colocados em qualquer momento do espectáculo. Aquiesceu. À noite, quando o Côro subiu ao palco, era impossível não reparar na sua singularidade. Os trajes em cores ostensivamente garridas, as figuras esbeltas das moças (pudera) sobreelevadas pelos turbantes de Cabinda, os sorrisos abertos em todas as caras, que isto de comer bem durante vários dias seguidos altera a disposição de qualquer um. O tema de entrada correu conforme tinha previsto. Um tema de autor, explorando o poderoso naipe dos baixos vindos de uma igreja protestante de Luanda, com variações rítmicas evidentes ma transposição das frases, notas bem recortadas e carregadas de emoção, lembrava o vôo indolente mas caprichoso de uma ave de arribação em puro gozo de contemplação da paisagem. Aposta ganha, conforme o testemunharam os aplausos de pé da assistência. Metade desta era composta pelos elementos dos coros participantes, outra metade pelo público italiano. A meio da segunda parte, Jorge Macedo voltou a falhar ao tema anunciado pela apresentadora. Já na primeira parte introduzira uma canção da resistência italiana. Agora dava voz à primeira frase do Gaudeamos Igitur. Para quem eventualmente não saiba, este é uma espécie de hino escolar cantado em todo o mundo. Sendo de pronto reconhecido ao fundo da sala, levantou-se espontaneamente um numeroso naipe suplementar de contraltos que, além de reforçarem as vozes do coro actuante, alargaram a dimensão espacial da fonte dos sons. Em poucos segundos, todos os elementos de todos os coros se levantaram e fizeraqm questão de libertar a sua vontade de participar. Jorge Macedo virou-se então de costas para o coro que regia e continuou a reger a plateia transformada num côro monumental com centenas de vozes alegres e honradas por este cumprimento africano à música europeia. Tornou-se assim, de forma inesperada e e involuntária, no único maestro de todo Festival a dirigir uma peça com todos os coros participamntes. O resto pode imaginar-se. Fotógrafos a perseguir os elementos femininos do Côro, que graciosamente cederam a sua imagem a capas de revistas, maestros a trocar partituras com Jorge Macedo, apesar de nenhum deles perceber kimbundu ou português.
Lisboa, Amoreiras, Março de 2009. Por onde andará toda esta gente? Quantos terão morrido na guerra? Quantos acabaram o curso, quantos puderam seguir o curso que gostavam, quanto exercem em Angola? Ó Amigo, fim-da-linha. Ou sai ou compra novo bilhete. O quê, onde estamos? Nas Amoreiras, não vê? Diacho, queria ir para o Campo Pequeno. Agora já não consigo chegar a tempo. Preste atenção às paragens na próxima vez.

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3 Comentários:

At 22:42, Blogger José Ferrão disse...

Este é o António Ferrão que eu conheço.

 
At 16:07, Blogger Alexandre Santos disse...

Gostei muito deste texto...

Quero mais!

 
At 15:22, Blogger Ângelo disse...

Interessante este texto. Tive o previlégio de ter o Jorge Macedo como maestro do coro do Seminário de Luanda, nos idos anos antes da revolução (portuguesa) de 1974. Sempre acompanhei a sua carreira artística como escritor tanto no Lubango como na Lunda. Agora já mais distante, em Lisboa, por vezes chegam-me ecos da sua actividade discreta, mas não menos marcante na sociedade por onde passa ou passou, através de familiares ou amigos. Um Homem angolano e universalista que deixará marcas positivas na sociedade angolana e não só! Ângelo

 

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