terça-feira, junho 16, 2009

Eu quero progredir na carreira, mas não de qualquer maneira

Dizem-me que eu tenho que ser avaliado, porque se não for avaliado também não terei legitimidade para poder avaliar os meus alunos.

Pois bem, aqueles que falam assim são os mesmos que colocaram as licenciaturas de cinco anos a valer a mesma coisa que as modernas licenciaturas de três anos.

São os mesmos que igualaram as carreiras dos educadores de infância, que não tinham qualquer formação superior, às carreiras dos professores que tinham adquirido uma licenciatura seguida de um estágio profissional: enquanto uns andavam a queimar pestanas, os outros andavam a fazer anos de serviço. Chegando ao cúmulo de considerar a carreira de educadores de infância mais desgastante do que a de professor do ensino básico, para efeitos de antecipar a idade da reforma, introduzindo uma diferença de mais dez anos entre os profissionais do ensino.

Sou daqueles que nunca progrediu na carreira por antiguidade: sempre que pretendi progredir na carreira, ou fui à procura de outro patrão, ou de outro país, ou de outro curso, ou simplesmente de outro contrato.

Aquilo que pretendem fazer agora, transcende todos os horrores que já fizeram até hoje, em termos desvalorizar o esforço, o mérito, a iniciativa e o desgaste ao longo da vida laboral.

Se para eu poder avaliar os alunos tive que fazer uma formação profissional específica, o que pretendem fazer agora é colocar docentes que nunca tiveram formação para isso, a avaliar outros colegas que têm as mesmas ou até mais habilitações do que eles.

Querem colocar professores que progrediram na carreira por antiguidade, a avaliar professores que nunca progrediram na carreira por antiguidade.

Querem colocar professores que, a partir dos dez anos de serviço, tiveram reduções na carga horária lectiva, a avaliar colegas a quem esse direito só será atribuído a partir dos quinze anos de serviço.

E pretendem fazer tudo isto em nome do rigor, dos critérios científicos, utilizando uma terminologia que não tem outro objectivo senão desprestigiar a profissão, o ensino, a escola, na mais completa inversão de valores que apenas se tornou possível a coberto do exercício de uma maioria absoluta por quem não possui capacidades nem conhecimentos para tal, com governantes que nunca trabalharam fora da mesma função pública que pretendem apontar como a responsável pela degradação da situação do país.

Por tudo isto venho aqui juntar àquela já tomada por outros, a minha posição pública de recusar o preenchimento da ficha de auto-avaliação do desempenho docente promovida pelo ministério da educação.

ES c/ 3º ciclo D. Dinis, Lisboa

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3 Comentários:

At 00:48, Blogger H. Sousa disse...

Apoiado!

 
At 09:16, Blogger José Ferrão disse...

Obrigado pelo apoio, amigo Henrique.
O próprio primeiro-ministro, ainda em funções, justificou a sua reforma dizendo que não aceita que os professores estejam há mais de trinta anos sem serem avaliados.
Só não disse foi que esses mesmos professores, que subiram na carreira sem avaliação, é que irão avaliar os que ingressam agora na carreira.
Mas para lembrar isso mesmo, cá estaremos nós.

 
At 23:00, Blogger José Ferrão disse...

Entrego este documento para dar cumprimento a uma disposição legal, e faço acompanhar o mesmo de uma Declaração de protesto.
O avaliado ______________________________________, em __16__/__7__/__2009___

Foi a única coisa que escrevi na minha ficha de auto-avaliação, que decidi entregar nesta data com todos os campos em branco.

 

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