domingo, outubro 25, 2009

Operação pandemia




O vídeo explica que a gripe aviaria e a gripe porcina provocaram uma forte mobilização dos governos, da OMS e dos média, para no final se soldar por um número mínimo de vítimas.

O documentário propõe que os motivos por detrás dos fortes investimentos públicos em vacinas não verdadeiramente motivados pelo interesse público, mas resultam de um caso de delito de iniciados já que Bush, o então presidente dos EUA, e Donald Rumsfeld têm interesses nas companhias que produzem vacinas contra a gripe, companhias avantajadas por este tipo de investimentos.

Para além disso o documentário sugere que a vacina é na realidade tão ou mais perigosa do que o vírus, por causa dos seus efeitos secundários.

Por fim, o documentário também questiona o interesse dos média por estas epidemias, já que elas causam bastante menos mortos do que doenças ignoradas por eles (malária, diarreia/cólera?).

Na minha opinião, o documentário tem razão em certos pontos, mas é fundamentalmente desonesto no seu tratamento do assunto e nas suas conclusões.

O problema mais grave do documentário é que ele ignora a verdadeira razão pela qual as epidemias de novas estirpes da gripe são notícia: o potencial mortífero que elas acarretam. A gripe de 1918 foi a epidemia mais rápida e mortal de que há memória, com um número de vítimas estimado entre 50 e 100 milhões de mortos [1](segundo as estimativas mais modernas que tomam em conta não só os países desenvolvidos da época, mas o mundo inteiro). Cerca de 500 milhões de pessoas foram infectadas (um terço da humanidade na altura). Com este género de números, a gripe de 1918 até foi mais mortífera do que a Peste Negra da idade média (com um número de mortos estimado a 34 milhões, ao longo de décadas). Estima-se que em 25 semanas a gripe de 1918 matou tanta gente como a SIDA em 25 anos. Para além da gripe de 1918, também houve outras pandemias desde então que causaram milhões de mortos, apesar de não terem sido tão mortíferas quanto a de 1918.

Ignorar este ponto fundamental invalida por completo o documentário. Não foi o Bush ou o Rumsfeld que inventaram a gripe de 1918, e o medo que o vírus da gripe provoca está bem para além das capacidades de propaganda dos dois.

Também não é porque o Donald Rumsfeld tem interesses no Tamiflu que a maior parte dos governos do planeta têm planos de emergência quanto às epidemias de gripe, mas sim porque este vírus altamente mutável e infeccioso demonstrou de maneira repetida ser extremamente perigoso.

O documentário também é desonesto quando questiona o relevo dado pelos média à questão: não se fala da malária ou da cólera porque são problemas conhecidos, compreendidos e controlados (no sentido que só estão em perigo populações marginalizadas e destituídas). A própria gripe clássica não é novidade, não por não ser perigosa (meio milhão de mortos por ano no mundo [2]), mas porque os riscos causados por ela foram compreendidos e integrados pela sociedade. Uma nova estirpe de gripe pelo contrário é um perigo potencial para toda a gente sem distinção de clima ou de posição social. Se isto não é um motivo de notícia, então nada será. Por outro lado, quando a nova estirpe demonstra ter uma fraca mortalidade, então desaparece das notícias, como aconteceu com a H5N1 (e o que mostra que não são o Bush e o Rumsfeld que condicionam a cobertura dos média, mas simplesmente o risco potencial desses vírus).

Argumentando pelo absurdo, porque é que este documentário não critica os média por não falarem da morte? Apesar de tudo, a morte é 100% mortal, e nós vamos todos morrer. Porque é que as notícias não têm a palavra morte em primeira página de todas as suas edições? Para ser notícia, o perigo tem de ser desconhecido, novidade, descontrolado. Sem esses elementos, não aparecerá nas notícias. Se nem a morte o consegue, quanto mais a malária (aliás, a malária volta a ser notícia quando se manifesta em novas áreas, por causa das mudanças climáticas).

Por outro lado, o documentário utiliza as figuras impopulares de Bush e Rumsfeld para sugerir que os meios despendidos contra a epidemia são uma burla. Este tipo de argumentos está errado por várias razões:
  • Bush e Rumsfeld são figuras públicas, e pela natureza das suas actividades compreendem as vantagens potenciais em investir em companhias farmacêuticas como aquelas que produzem to Tamiflu. Se o Bush investir em equipamento de segurança automóvel será que cada campanha de prevenção rodoviária vai ser suspeita de ser uma manipulação de Bush?
  • Nem o Bush nem o Rumsfeld inventaram o H1N1, ou o H5N1.
  • Como já disse, montes de países onde B&R não têm a mínima influência também investiram em programas de prevenção.
etc...

O documentário também adopta outra linha de raciocínio que está completamente errada: dá a entender que no fim de contas as gripes aviária e porcina não representaram um perigo significativo e que portanto os custos e alarido gerados foram desnecessários e deveriam ter sido evitados.

O elemento evidente que este argumento ignora é a falta de conhecimento existente no momento em que as decisões têm de ser feitas, ou comentadas pelos média. Um governo TEM de preparar campanhas de vacinação antes de saber se a pandemia vai ser mortífera ou não. Se esperar que os mortos se amontoem, a sua acção será muito mais tardia, e os custos em perdas humanas serão várias ordens de magnitude mais elevados. Um governo que agisse dessa forma seria correctamente alvo de indignação por parte da população. As pessoas que fizeram o documentário sabem perfeitamente isto, mas pelos vistos escolheram ignorar esse facto essencial, mais um caso de desonestidade.

A crítica do documentário seria equivalente a dizer que não deveria construir a minha casa segundo as normas sísmicas vigentes, porque depois de viver dez anos nela, para depois ter de mudar de casa, ainda não ter sofrido nenhum abalo. É evidente que eu não podia saber que não haveria nenhum tremor de terra enquanto que eu habitasse a casa, e concluir que respeitar as normas sísmicas foi um mau investimento é estúpido, porque uma política de investimento responsável tem em conta os riscos potenciais, e não se contenta em esperar que tudo correrá bem.

Senão chegaríamos a conclusões ridículas: peguemos na Turquia como exemplo: é uma região muito activa tectonicamente. Durante as últimas décadas houve vários tremores de terra que causaram a morte de dezenas de milhares de pessoas. Segundo os argumentos do documentário, as pessoas que não construíram segundo as normas de segurança sísmica e morreram são idiotas. Os que construíram respeitando as normas de segurança sísmica fizeram um bom investimento, mas aqueles que melhor investiram foram os que não respeitaram as normas de segurança, mas cuja casa não lhes caiu em cima!

Há um ponto sobre o qual eu estou de acordo com o documentário:

existe o risco de as pessoas entrarem em pânico e começar a comportar-se de maneira irracional. Hoje em dia sabemos que a mortalidade da gripe porcina é fraca, e que a taxa de mortalidade é comparável à gripe clássica. Tendo isto em conta, é questionável proceder a uma vacinação extensiva da população, porque os efeitos secundários da vacina, mesmo se pouco frequentes, acabam por ter custos que ultrapassam os benefícios quando o número de pessoas vacinadas é muito maior do que aquelas de que realmente precisam da vacina.

Mas isso é o que sabemos agora, e esta conclusão pode mudar se aparecer uma nova mutação que aumente significativamente a mortalidade da doença. Ora os governos têm de tomar decisões em circunstâncias em que a informação é mais escassa, e é normal que pequem por cautela do que o contrário.

No que me diz respeito, eu vacinei-me contra a gripe clássica (como o faço cada ano), mas não prevejo vacinar-me a mim ou o meu filho (de 17 meses) contra a gripe porcina. Se ele estivesse fragilizado fisicamente, a questão seria diferente, mas nestas condições acho que não vale a pena fazer essa vacinação, que foi desenvolvida para um contexto de pandemia e que portanto activa mais o sistema imunitário e é menos testada do que a vacina clássica.

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10 Comentários:

At 20:38, Blogger Magda Nieto Reprezas disse...

Olá, Alexandre.
Achei o teu post bastante esclarecedor. Embora eu trabalhe com muitas pessoas também não penso vacinar-me contra a gripe A pelas mesmas razões que apresentaste. Além disso sou mais velha do que tu, eheh, e segundo dizem os que andam pelo mundo das gripes, estarei mais ou menos imunizada...
Dou-te os parabéns pelo português correcto que manténs apesar de seres bilingue e a tua língua de todos os dias ser o francês. Penso que tiveste o cuidado de te manteres fiel à tua língua de origem.
Um beijo para ti.

 
At 22:50, Blogger António Chaves Ferrão disse...

Olá Alexandre
É sempre agradável conhecer a tua opinião aqui no blog.
Quanto à devastação provocada pela gripe em 1918, em que medida a fome que grassava na altura (fim da I Granda Guerra Mundial, afastamento de muitos jovens da agricultura) não terá contribuido? Num corpo debilitado as defesas imunológicas são menos eficazes.
Um abraço

 
At 23:49, Blogger António Chaves Ferrão disse...

Mais sobre este asunto:
http://vimeo.com/6790193

 
At 08:32, Blogger Alexandre Santos disse...

Olá Magda,

Obrigado pelo comentário sobre o meu português, eu vou tentando manter o meu património linguístico, lendo e escrevendo o mais possível. Infelizmente como ambas as práticas só implicam a forma escrita, é difícil evitar ter um nível de linguagem artificialmente literário e pouco espontâneo.

 
At 08:50, Blogger Alexandre Santos disse...

Olá Toneca,

É certo que as vicissitudes da guerra fragilizaram a população, aumentando a mortalidade.

No entanto acho que outro factor tão ou mais importante foi a circulação excepcional de milhões de pessoas causada pela guerra, que sejam tropas enviadas da América, África e Ásia para a Europa, e vice-versa, movimentos de populações desalojadas, tráfego intercontinental de matérias primas e equipamento para o esforço de guerra.

Ora a progressão fulminante da epidemia impede que esta perca virulência à medida que infecta mais pessoas: quando um vírus mata demasiado rapidamente o organismo que infecta, este não pode espalhar a epidemia muito longe. O que acontece portanto é que estirpes menos virulentas vão gradualmente espalhar-se mais rapidamente do que as variantes mais mortais. Com o tempo a frente da epidemia será menos virulenta, e as pessoas ganhando resistência já não sucumbem à forma mais perigosa quando esta as contamina.

É por esta razão (entre outras) que surtos de ébola são tão localizados, as vítimas morrem tão rapidamente que pouco tempo têm de se deslocar e contaminar outras regiões.

Ora quanto mais a mobilidade aumenta, menos este efeito protector pode jogar. Hoje em dia, como em 1918, o vírus da gripe é capaz de contaminar em poucos meses largas porções da população humana. Por essa razão penso que a humanidade no seu conjunto está hoje mais ameaçada pela gripe do que durante épocas mais recuadas, em que outros tipos de doença eram uma maior ameaça.

 
At 09:41, Blogger António Chaves Ferrão disse...

Olá Alexandre
Faz todo o sentido, aquilo que dizes. Há mesmo modelos para simular a mortalidade em função dos factores de contágio, factores de morbidade, mobilidade da população, estado de saúde, etc.
Vou aproveitar o teu post para colocar informação adicional disponível. Esta aqui intrigou-me:
German authorities have been accused of developing a two-tier system for immunizations. The federal government had ordered a vaccine for top politicians, federal government officials and soldiers that differs from the vaccine ordered for the rest of the population.
Deutsche Weller, 26/10/2009

 
At 07:54, Blogger José Ferrão disse...

Olá Alexandre,
Quando tiveres mais uns anitos vais aprender que em política, não existe a honestidade. Este conceito foi substituído pela despenalização.
Entretanto, acerca da vacina da gripe, todas essas teorias transformam-se em espuma das águas, no mesmo dia em que o teu rebento aparecer em casa com um certificado de vacinação contra a gripe dos porcos, acompanhado de um cândido pedido de autorização paternal para a tua ternura fazer uma visita de estudo.
Nessa radiosa manhã, irás aprender que uma coisa é a justiça ou a coerência em abstracto, outra coisa bem diferente é a acção do estado em concreto.
Não é o crime não merece a pena de morte, é o estado que não merece a confiança para aplicar a pena.

 
At 11:17, Blogger António Chaves Ferrão disse...

Anti-política?

 
At 13:00, Blogger José Ferrão disse...

Os piores inimigos da política, são os políticos.
Basta ver o que andam a fazer na educação.
Recusam-se a aceitar o conceito de co-avaliação, impondo que os professores não podem avaliar-se uns aos outros.
Em nome dessa recusa, discriminam arbitráriamente os professores em titulares e não-titulares, sem atender a quaisquer critérios relacionados com as suas habilitações.
Ou seja, impõem um princípio, em nome da recusa desse mesmo princípio.
Por mais anti-político que eu seja, nunca conseguirei chegar aos calcanhares dos políticos nessa matéria.
É por isso que eu, se vir que o criado do primeiro-ministro é aquele que está mais bem colocado para o deitar abaixo, é nesse mesmo que irei depositar o voto.

 
At 12:21, Blogger José Ferrão disse...

http://dn.sapo.pt/inicio/portugal/interior.aspx?content_id=1403354

 

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