sexta-feira, fevereiro 27, 2009

RigsofRods, ou como criar o mundo a partir de pedras e molas!

Apresento aqui a entrevista de um físico que discute um desenvolvimento interessante no campo da simulação por computador:



Como a entrevista está em Inglês, dou aqui o resumo dela (mas vale a pena ver as imagens, outros exemplos podem ser vistos aqui):

Há dois anos atrás, Pierre-Michel Ricordel, um investigador em informática , começou a desenvolver sozinho e no seu tempo livre RigsofRods, um novo motor de simulação a três dimensões. Em menos de um ano, e sem qualquer financiamento externo, RigsofRods era capaz de simular o comportamento de veículos diversos com um nível de realismo que nem era concebível para profissionais envolvidos em projectos com milhões de dólares de financiamento.

Como foi isso possível? Simplesmente atacando o problema da simulação de objectos a partir de um novo ângulo: Enquanto que até aí os motores de simulação utilizavam modelos físicos complexos e especializados (um modelo para o comportamento de pneus, outro para a torção de um objecto articulado), RigsofRods utiliza um modelo único e de base da mecânica newtoniana: o oscilador harmônico (que modela o movimento de um ponto com massa - ex: uma pedra - ligado a uma mola).

Em RigsofRogs, os veículos são compostos por uma colecção de "pedras" e "molas" com vários níveis de massa, rigidez e resistência. Simulando um camião como um conjunto destas partículas elementares ("pedras" e "molas"), RigsofRogs é capaz de simular comportamentos realistas num terreno acidentado, ou as deformações causadas por um embate frontal contra um muro.

Outro ponto importante é que esta nova maneira de simular objectos é tornada possível pela enorme capacidade de calculo dos computadores actuais, que permitem calcular o comportamento de um grande número de partículas elementares, e obter simulações realistas de veículos como propriedades emergentes das interacções entre estas partículas, em vez de tentar simular directamente as propriedades dos veículos.

RigsofRods é um programa totalmente livre e gratuito (licença GPLv3). Ele pode ser baixado e modificado por quem quiser, e beneficia de uma comunidade de voluntários extremamente activa que produziu mais de um milhar de objectos e veículos para o projecto.

Mas para quem ache que isto é demasiado abstracto e teórico, aconselho o fantastic contraptions, um jogo flash baseado no mesmo princípio e que reúne uma colecção de vinte quebra-cabeças que devem ser resolvidos utilizando apenas alguns objectos simples como bolas, paus rígidos e paus elásticos. É muito divertido produzir maquinetas com comportamentos variados a partir destes elementos de base, e admirar a ingenuidade dos outros jogadores.

E para quem não estiver satisfeito com os vinte níveis propostos, aconselho o World of Goo, um jogo baseado no mesmo princípio e disponível no Linux, Mac e Windows.

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sábado, fevereiro 21, 2009

Seal

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sexta-feira, fevereiro 20, 2009

Carnaval em Paredes de Coura

Carnaval em Paredes de Coura
Notícia em IOL Diário

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Joseph Stiglitz - Ligações perigosas

A macro-economia vai atingindo a maturidade. A validade universal de alguns conceitos é contestada por novos modelos. Os acontecimentos recentes levaram um grupo de investigadores a empreender um estudo que completa os conhecimentos adquiridos até à data nesta área. (AF)


Procurámos caracterizar o comportamento de uma rede de créditos financeiros ao longo do tempo por meio de um sistema de processos estocásticos interdependentes, cada um dos quais satisfazendo as condições da sua própria robustez financeira. A ligação entre os processos advem de a robustez de cada agente financeiro estar dependente da robustez dos seus parceiros, tornando os nós da rede acoplados e, por arraste, a própria rede acoplada. Os elementos de acoplamento são a partilha do risco (associado a cada operação de crédito), a propagação dos incumprimentos das dívidas e das bancarrotas em cascata. Neste cenário, considerámos o impacto da quebra de um nó particular em diversas redes, com o grau de conectividade (interdependências) cada vez mais forte. Assumidas determinadas condições à partida, à redução do risco individual - tornando-o partilhado - correspondia um incremento do risco sistémico - com o alastramento dos incumprimentos. Quanto maior o número de nós adjacentes a que cada agente se interligava, menor o risco de colapso individual, mas maior o risco sistémico. Por outras palavras, no nosso estudo, a relação entre grau de interligação e risco sistémico não decresce indefinidamente, contrariamente ao que está previsto na literatura. A intervenção isolada do factor risco seria o de diluir até ao desaparecimento completo o risco para o sistema global, à medida que o número de interligações da rede aumentasse. Quando associada aos outros dois factores, ao que se acrescenta ainda a auto-alimentação - isto é, o facto de a rede acabar por repercurtir num nó individual financeiramente frágil os efeitos da sua própria fragilidade - o choque inicial sai muito reforçado e pode conduzir à crise sistémica completa, caso excedam o contrapeso do risco partilhado.


Resumo de Liasons Dangereuses: Increasing Connectivity, Risk
Sharing, and Systemic Risk

Stefano Battiston, Domenico Delli Gatti, Mauro Gallegati, Bruce Greenwald e Joseph E. Stiglitz
17 de Outubro de 2008

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Margarida Moreira - Gramática criativa

Margarida Moreira não é uma aluna que tenha chumbado no exame da terceira classe no ano passado. É Directora Regional da Educação do Norte. Nessa qualidade, prepara-se para avaliar os principais responsáveis pela avaliação docente na sua área de jurisdição. Aqui se deixa uma comunicação da sua lavra para memória futura. (AF)


Margarida Moreira


Exmª Senhora
Presidente do Concelho Executivo do
AE Território Educativo de Coura


A confirmarem-se as notícias vindas a público sobre suspensão de actividades previstas no Projecto Educativo e no Plano de Actividades dessa Escola, e na salvaguarda primeira das obrigações da escola - cumprir a sua missão de processos de socialização e de aprendizagem para os alunos, razão central porque definiu as actividades nos documentos de acção educativa anteriormente referidos.
Tomando por base estes pressupostos, determino:
  1. O cumprimeto das actividades com os alunos previstas para esta época;
  2. O envio a esta DRE de um memorando clarificador dos problemas que têm vindo a ser denunciados pelas estruturas representativas;
  3. Sendo certo que muitos docentes não se aceitam o uso dos alunos nesta atitude inaceitável, acompanharemos de muito perto a defesa do bom nome da escola, dos professores, dos alunos e de toda uma população que muito tem orgulhado o nosso país pela valorização que à escola tem dado.


Margarida Elisa dos Santos Teixeira Moreira
17 de Fevereiro de 2009



Transcrição de A Educação do meu Umbigo

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terça-feira, fevereiro 17, 2009

Pedro Carvalho - Reflexões sobre a crise do sistema capitalista

Padro CarvalhoHoje é evidente para todos que a actual crise não é meramente financeira ou localizada num grupo de países. A crise financeira chegou à economia real. As principais potências imperialistas vão entrando em recessão. As últimas previsões do FMI e da OCDE apontam para uma contracção do produto em 2009 para os países capitalistas mais desenvolvidos no seu conjunto, pela primeira vez desde a segunda guerra mundial. Apontam para uma forte desaceleração do crescimento da economia mundial e, a CNUCED, aponta mesmo para um recuo do produto mundial por habitante. A crise é global e emana do centro do sistema capitalista mundial, sobretudo da sua potência central – os Estados Unidos.

Após o regresso da «estagflação» em 2007 e no primeiro semestre de 2008 e o aprofundamento da crise financeira no Outono de 2008, o fantasma da deflação e da depressão estão cada vez mais presentes. Os governos e os bancos centrais utilizam todos os instrumentos para estabilizar o sistema financeiro, estimular o «motor» do crédito do qual depende o sistema capitalista. Mas apesar das massivas doses de liquidez injectadas no mercado, das reduções das taxas de juro e de volumosos pacotes de investimento de influência keynesiana, a crise continua a aprofundar-se, evidenciando a aparente ineficácia das respostas clássicas de política monetária e orçamental. Vejamos alguns exemplos.

Tenta-se estimular o crédito. Mas esquece-se do já excessivo endividamento das empresas e famílias na Tríade (Estados Unidos, União Europeia e Japão) e os crescentes riscos de incumprimento dos créditos contraídos. Esquece-se que num contexto de restrições ao consumo e de sobreprodução, as empresas não irão contrair empréstimos para expandir a produção daquilo que não conseguem vender.

Os bancos centrais reduzem as taxas de juro de referência (com as taxas de juro reais a ficarem mesmo negativas), o que tendo impacto no serviço da dívida das empresas e das famílias face aos créditos existentes, não o terá da mesma forma na concessão de novos créditos, cujo prémio de risco será traduzido num maior spread. Por outro lado, as empresas contraem empréstimos para investir quando estão a ser lucrativas, ou seja, quando estão a realizar as taxas de lucro esperadas.

O aumento dos investimentos públicos previsto nos pacotes de estímulo orçamental contribui para compensar a «falta» de investimento de privado, mas este está limitado pela sustentabilidade orçamental das «operações de salvamento» do sector financeiro em curso e a capacidade dos Estados colocarem dívida pública. Um exemplo. O total de activos detidos pelos cinco maiores bancos ingleses equivale a quase cinco vezes o PIB da Inglaterra, ou seja, uma operação de injecção de capital de 1% custaria ao governo britânico quase 5% do seu PIB, por via do aumento da dívida pública. Então se forem necessárias operações de injecção de capitais de 5% ou 20%?

Continue a ler em ODiario.info

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segunda-feira, fevereiro 16, 2009

Ekaterina Gordeeva e Sergei Grinkov

Desde muito jovem este par fascinou, evoluiu, ganhou prémios. Campeão de patinagem no gelo é uma história de trabalho, ternura e amor. Um uníssono desfeito em plena actuação, em 1995, quando Sergei cai de ataque cardíaco e deixa para trás Ekaterina e a filha de ambos, Daria. Ekaterina escreve um livro: "My Sergei" e retoma a actividade numa actuação em que pretende descrever uma real "love story", num desempenho belíssimo.

Mais tarde recompôs a sua vida. Mas esta é feita de retalhos e alguns dos mais belos podem ser vistos neste pequeno video.

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domingo, fevereiro 15, 2009

Pensamentos pessoais

Venho partilhar convosco uns pensamentos postos por escrito um dia, tarde à noite.

É importante dar grande valor ás experiências passadas, pois são elas que nos permitem ser o que somos hoje. Precisamos encontrar amor para connosco no presente mas também no passado e no futuro.

Perdoar-nos pelos erros do passado,
Apreciar o nosso valor presente,
Ter esperança na nossa própria evolução.

sábado, fevereiro 14, 2009

Apoio aos Senhores Bispos

Na falta de interlocutores que se revelem dispostos a enfrentar o assalto da política aos valores mais nobres em que assenta a nossa sociedade, venho exprimir o mais sentido apoio à hierarquia católica que se levanta em defesa dos valores da vida humana.
Alheio aos preceitos religiosos, mas atento ao posicionamento de cada um perante aquilo em que acredito, e que dá sentido às opções que somos levados a assumir no dia-a-dia de cada um, não posso deixar de reconhecer que quem tem o trabalho de casa todo por fazer, não são os bispos católicos mas sim os governantes, com especial destaque para o partido no poder, que se revelam totalmente incapazes de legislar sobre tudo aquilo que se relacione com a vida humana.
A única lei capaz que foi produzida nesta matéria, é a proibição como é o caso da pena de morte.
Se se pretende legislar para além disso não pode sair um resultado diferente do horror da lei do aborto, que não fez mais do que subjugar os valores da vida às vantagens materiais das clínicas, sejam elas privadas ou estatais, que tiram mais proveito de um aborto do que de um parto.

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sexta-feira, fevereiro 13, 2009

Garcia Pereira - Parecer jurídico sobre legislação para a Educação

Foi publicada hoje a versão definitiva do parecer preliminar sobre legislação do Ministério da Educação deste governo, que havia sido pedido por um grupo de professores ciberneticamente ligados ao blog A Educação do meu Umbigo. A iniciativa foi já secundada por milhares de professores espalhados por todo o país, que agora dispõem de argumentos sólidos para que a legalidade e a normalidade sejam repostas na vida escolar, anulando-se os efeitos de uma equipa ministerial que brilha pela sua ignorância em matéria de leis.
O texto pode ser agora usado por todos os professores, nas suas escolas ou em tribunais.
O texto contém 64 páginas e ocupa 300 kilobytes.
Para o obter, carregue aqui.

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quinta-feira, fevereiro 12, 2009

Maria José Nogueira Pinto - Infâncias infelizes

Maria José Nogueira PintoA Confederação Nacional das Associações de Pais (Confap) apresentou ao Ministério da Educação uma proposta para as escolas do 1.º ciclo do ensino básico funcionarem entre as sete da manhã e as sete da tarde. Uma proposta radical que encerra em si própria a alteração do sentido último da escola e o sentido último da família. Algo que, tendo estado desde há muito subjacente a toda a discussão em torno do modelo de sistema educativo, modelo de escola e objectivos do ensino, surge agora claramente como um facto assumido, não já uma circunstância mas um dado adquirido, o de uma parentalidade em part-time.

Sabemos que muitos pais têm de depositar os seus filhos na escola durante 12 horas porque precisam dessas 12 horas para trabalharem - duplo emprego, biscates, o que seja - único modo de fazer face às necessidades do seu agregado. Mas também sabemos que uma criança confinada a um mesmo espaço durante 12 horas, um espaço que não é a sua casa, o seu habitat, provavelmente não se construirá feliz e equilibrada. Há pois, aqui, um conflito, que nem sequer é novo, e uma proposta, essa sim nova, dos pais, de que seja resolvido a favor de um modelo laboral e social profundamente errado e em desfavor dos filhos.

Os chamados ATL, actividades de tempos livres realizadas fora da escola mas em local adequado para o efeito, já existem há muito em Portugal como uma resposta social para aquelas famílias, que são confrontadas, na sua luta pela sobrevivência, com o dilema de pôr em risco ou o sustento dos filhos ou os próprios filhos. Com esta proposta da Confap transfere-se para a escola o prolongamento do horário, e aquilo que era excepcional e em função de uma circunstância concreta passa agora a ser uma regra assumida e incorporada no próprio sistema educativo. Aqui reside a diferença e a diferença é abissal!

Segundo os dados disponíveis, apenas um terço dos casais com filhos menores de 15 anos recorre a serviços de apoio às crianças, incluindo amas, creches, pré-escolar e ATL. À primeira vista, nada indica pois que uma escola a funcionar 12 horas seja uma necessidade sentida por todos os pais ou, sequer, pela maioria dos pais. Mas, uma vez aprovada uma medida como esta, rapidamente se interiorizará que as 12 horas são o horário escolar diário e que, independentemente das reais necessidades dos pais, por uma simples conveniência ou pura comodidade, o lugar da criança é na escola. A ser assim, não estamos perante uma solução mas perante um gigantesco problema a projectar-se, impiedoso, sobre o futuro de todos.

Primeiro, porque muitos dos problemas actualmente vividos nas escolas têm a sua causa na ideia errada de que estas substituem a família. A escola é meramente complementar, mas vê-se forçada a ir mais longe para compensar as fracas competências parentais que se revelam hoje como transversais à sociedade portuguesa e já não exclusivas de famílias mal estruturadas. Esta situação deve ser mudada e não institucionalizada.

Segundo, porque sendo sempre verdade que nada é tão importante como criar e educar crianças felizes, amadas e capacitadas para fazer face à vida, essa verdade é ainda mais evidente no nosso Inverno demográfico. Por isso, aqueles pais que apesar das suas vidas duras, do seu presente precário e do seu futuro incerto tiveram a coragem de ter filhos, não podem, de modo algum, ser penalizados. E também para isso servem as leis e as políticas públicas: novas formas de organização do trabalho, apoios às famílias, equidade no acesso aos serviços.

A decisão de transformar a escola num depósito, com base em precipitadas análises sociológicas, branqueando os dramas da míngua de afectos, laços e convivência entre pais e filhos, com jogos e brincadeiras escolares, é uma capitulação. As crianças não merecem. Nem as pobres nem as ricas.


Maria José Nogueira Pinto, Diário de Notícias, 12 de Fevereiro de 2009
(via A Educação do meu Umbigo)

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quarta-feira, fevereiro 11, 2009

Charles Hawley - Tratado de Lisboa em apreciação no Tribunal Constitucional Alemão

O Tribunal Constitucional Alemão olha agora com atenção para o Tratado Europeu de Lisboa, o documento que pretende substituir a falhada Constituição Europeia. Há indícios de que o Tribunal não gosta do que vê. Se a Alemanha disser não, o tratado cai morto. Os comentadores não conseguem dizer se isso é bom ou mau.

Não chega a ser novidade, caso o Tratado da União Europeia esbarre no Tribunal Constitucional Alemão. Por muitos anos, os guardiões da Constituição Alemã foram espreitando para a integração na União Europeia (UE), para confirmarem que Berlim não estava a alienar para Bruxelas uma parte demasido grande da sua soberania. A resposta foi sempre a mesma: desta vez passa, mas não abusem.

Porém, esta semana, com o Tratado de Lisboa - o livro azul da EU para a reforma dos processos de decisão do bloco dos 27 países - a ser considerado, crescem os indícios de que o tribunal alemão seja taxativo. Nas auscultações verbais da terça-feira, os juízes colocaram inesperadamente questões críticas e aventaram a hipótese de o tribunal rejeitar o tratado ou de exigir a realização de um referendo.

Relativamente à transferência de competências legislativas de Berlim para Bruxelas, o juiz Udo Di Fabio perguntou de maneira contundente se tal alienação, em vez de um benefício para a liberdade, não representaria antes uma ameaça.

O tom céptico do tribunal prosseguiu quarta-feira. Há que ver as coisas com seriedade: quanto poder resta ainda ao Bundestag (Nota do Editor - o Parlamento Alemão)? perguntou Di Fabio. Outro juiz, Rudolf Mellinghoff, disse não compreender que beneficío trazia a alienação de competências para o Parlamento Alemão.

O tribunal mostrou-se particularmente renitente quanto a disposições do Tratado de Lisboa que colocariam leis criminais na Alemanha na dependência de decisões da União Europeia. Dada a natureza das dúvidas apresentadas, é improvável que o Tribunal sele o seu acordo ao Tratado de Lisboa esta semana, sem exigir alterações. O Tribunal também invocou o Artigo 146 da Constituição, durante a sessão de quarta-feira. O parágrafo estipula que o referendo é obrigatório quando uma parte da Constituição é revogada.

O Tratado de Lisboa é a resposta da União Europeia à rejeição da Constituição Europeia de 2005, pelos referendos da França e Holanda. O documento pretende agilizar os processos de tomada de decisão e garantir mais poder legislativo ao Parlamento Europeu. A Alemanha é um dos quatro países que ainda não ratificaram o Tratado de Lisboa - juntando-se à Irlanda (que rejeitou por referendo em Junho), a República Checa e a Polónia. O Parlamento Alemão aprovou o Tratado em Abril do ano passado, mas o Presidente Host Köhler reteve a sua assinatura até que fossem esclarecidas questões apresentadas por numerosas interpelações, entre as quais o deputado Peter Gauweiler, membro da União Cristã Social da Baviera - um partido irmão do Partido Cristão Democrata da Chanceler Angela Merkel. Também Franz Ludwig Schenk Graf, o filho de Claus von Stauffenberg - que atentou contra Hitler em 1944 - está entre os que apresentaram objecções ao Tratado.

Como prova da importância que conferem à aprovação do Tratado, tanto o Ministro dos Negócios Estrangeiros, Franz-Walter Steinmeir, como o Ministro do Interior, Wolfgang Schäuble, compareceram no tribunal para o defenderam. Schäuble recomendou ao Tribunal que não veja em cada ganho de Bruxelas uma perda da soberania alemã. Steinmier disse que o Tratado de Lisboa fortalece enfaticamente as fundações da União Europeia.

Dieter Murswiek, conselheiro de Gauleiter, apelidou o tratado de uma camuflagem gigantesca e disse que o tratado outra coisa não é que uma versão recauchutada da constituição derrotada. Disse que o Tratado transformaria a União Europeia numa construção à imagem dos EUA e tornaria as evidentes falhas de democracia na Europa ainda mais graves.

Caso o Tribunal decida que partes do Tratado de Lisboa não estão em harmonia com a Constituição Alemã, plausivelmente isso será o fim do documento. Qualquer ajuste significaria o reinício das negociações envolvendo 27 estados membros. O Tratado já foi alterado a seguir às rejeições de 2005. Depois da repovação irlandesa em Junho, já foram ajustadas algumas disposições de pormenor, em antecipação a uma nova votação. Questões fundamentais como aquelas que o Tribunal Constitucional Alemão apresentou na quarta-feira, não seriam tão fáceis de alterar.

Charles Hawley, Europe Is Suffering from Too Little Democracy, Der Spiegel, 11 de Fevereiro de 2009

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Aveiro - Escola Secundária Dr Magalhães Lima

Ex.mo Sr. Director Geral dos Recursos Humanos da Educação


Relativamente ao vosso documento “Esclarecimentos solicitados pelas escolas – Fixação de objectivos individuais” emanado pela DGRHE na segunda-feira, dia 9 de Fevereiro, os professores da Escola Secundária c/ 3º CEB Dr. Jaime Magalhães Lima vêm tecer as seguintes apreciações:

Em primeiro lugar todo e qualquer documento legal carece de assinatura individualizada e nominal do responsável, ou responsáveis, pela procedência do mesmo, sob pena de o seu valor tornar-se legalmente incipiente, o que acontece com a vossa missiva informativa, pois no final da redacção apenas aparece “A DGRHE – Direcção Geral dos Recursos Humanos da Educação”, a qual é tão-somente uma instituição colectiva, mas abstracta, não possuindo, por si só autonomia suficiente para desenvolver qualquer acto legal. Só os seus membros e representantes legais poderão tomar actos em nome da própria instituição de forma a esses mesmos actos serem vinculativos juridicamente.

Apesar de um elevado número de escolas terem solicitado esclarecimentos sobre a fixação de objectivos individuais parece-nos não ter sido necessário encaminhar a resposta informativa dos vossos serviços para todas as instituições escolares, pois se algumas não o fizeram é porque entenderam, por bem, o conteúdo e a interpretação legal dos documentos jurídicos emanados pelo Ministério da Educação, do qual a DGRHE faz parte, relativamente ao assunto da fixação dos objectivos individuais.

Julgamos, deste modo, hiperbolizada a vossa função e exagerado o vosso âmbito ao contactarem as escolas que nada haviam solicitado, indiciando-nos uma prática de profunda falta de confiança para com as escolas que desenvolveram e continuam a desenvolver o seu trabalho, por um lado, e, por outro, subjazendo um reforço de cariz coactivo da liberdade e responsabilidade da acção assumida por cada docente, tal como também tem sido propalado pelos altos representantes ministeriais.

No ponto 1 do vosso documento afirmam que “os objectivos individuais são um requisito obrigatório…” sem, contudo indicarem a base legal onde está inscrita explicitamente essa obrigatoriedade, pois nos documentos legais aos quais fazem referência apenas nos pontos seguintes (não neste) não está expressa a obrigação de entrega dos objectivos individuais por parte dos docentes.

No ponto 2 do vosso documento aludem ao Artigo 16 do Decreto Regulamentar n.º 2/2008 de 10 de Janeiro, afirmando que “…é por referência aos objectivos individuais previamente fixados e ao respectivo grau de cumprimentos, que o docente efectua a sua auto-avaliação”. Conquanto, dos diversos números e respectivas alíneas do Artigo 16 apenas se referem ao número 1 e não na sua redacção total, pois este número expressa ainda que “a auto-avaliação tem como objectivo envolver o avaliado no processo de avaliação, de modo a identificar oportunidades de desenvolvimento profissional e de melhoria do grau de cumprimento dos objectivos fixados”. Este número tem redigido “objectivos” sem, todavia explicitar claramente objectivos individuais. Deste modo os objectivos poderão ser os “objectivos e metas fixadas no projecto educativo e no plano anual de actividades…” conforme está descrito na alínea a) do número 1 do Artigo 8º intitulado Elementos de referência da avaliação inserto na Secção I intitulada Princípios orientadores, âmbito e periocidade, ao contrário do Artigo 16 que pertence à Secção III intitulada Processo.
Para além disto, o número 2 do Artigo 16 afirma: “a auto-avaliação é obrigatória…”, ao contrário do que é redigido para os Objectivos Individuais que em nenhuma parte dos documentos legais afirma ser obrigatória a sua entrega, o que vem no seguimento do número 3 do Artigo 11º que apresenta a seguinte redacção: “constitui dever do docente proceder à respectiva auto-avaliação como garantia do envolvimento activo e responsabilização no processo avaliativo e melhorar o seu desempenho…”. Deste modo a auto-avaliação não só é obrigatória como também a prova cabal do envolvimento e da responsabilização do professor no processo de avaliação, o mesmo não se aplicando aos Objectivos Individuais, pois não encontramos em qualquer diploma legal este tipo de referência ou alusão aos elementos de referência individuais.
Para corroborar o acima exposto é o próprio número 1 do Artigo 9 do mesmo Decreto Regulamentar, referente aos Objectivos Individuais que expressa de forma “de modo a aferir o contributo do docente para a concretização dos objectivos constantes da alínea a) do artigo anterior”, ou seja do número 1 do Artigo 8 conforme já referimos anteriormente, que explicita “objectivos e metas fixadas no projecto educativo e no plano anual de actividades…” aos quais se referirão no número 1 do Artigo 16.
O número 4 do Artigo 9 afirma que “na falta de acordo quanto aos objectivos a fixar prevalece a posição dos avaliadores”, isto é, prevalecem os objectivos e metas fixadas no projecto educativo e no plano anual de actividades. Mais uma vez se constata que a relevância são os objectivos apresentados nos documentos internos do agrupamento de escolas ou da escola não agrupada.

Não podemos também deixar de mencionar que os elementos de referência de capital importância para aferir o grau de cumprimento desses objectivos, conforme esclarece o Artigo 10, no presente ano lectivo, tal como aconteceu no ano transacto, “não são considerados os itens previstos nas alíneas a) e b) do número 2” do Artigo 9 do Decreto Regulamentar 2/2008, de acordo com a redacção do número 1 do Artigo 5 do Decreto Regulamentar 1-A/2009. Deste modo o Artigo 10 fica vazio e desprovido de sentido e de operacionalização concreta devido à impossibilidade comparativa imposta por este último diploma legal, pois as restantes alíneas c) até g) não podem ser comparativamente quantificáveis, ainda que possam ser avalizadamente qualifcáveis.

No que concerne ao ponto 3 do vosso documento, voltamos a destacar o supracitado vazio e desprovido sentido e de operacionalização concreta do Artigo 10 por imposição do Decreto Regulamentar 1-A/2009, tal como também acontece com a alínea C) do número 1 do Artigo 18, ao qual o vosso documento informativo faz referência, porque os resultados escolares e as taxas de abandono não são, este ano lectivo, elemento de referência para a concretização da ficha de auto-avaliação. Quanto às restantes alíneas, a saber a), b), d), e) e g) não são comensuráveis em termos quantitativos, mas, sim, em termos qualitativos, nem tampouco perspectivados individualmente pelo docente porque enquadram-se num conjunto de acções e actividades, que estarão em constante mutação e reformulação, programadas, agilizadas e reguladas pelo agrupamento de escolas ou escola não agrupada. Deste modo não é exequível nem justificadamente possível ter em conta os elementos de referência individuais de cada docente.

Quanto aos três pontos seguintes consideramos o seguinte:

No ponto 1, a vossa informação afirma que “o prazo para entrega dos objectivos individuais deve estar definido no calendário aprovado pela escola”, afirmação que está incorrecta porque o calendário não é aprovado pela escola como é preconizado no número 2 do Artigo 14 do Decreto-Regulamentar 2/2008, mas sim “…fixado pelo presidente do conselho executivo ou director do agrupamento de escolas ou escola não agrupada” de acordo com o número 1 do Artigo 2 do Decreto-Regulamentar 1-A/2009 que veio alterar o primeiro diploma legal.

O ponto 2 afirma que “…deverá o director notificar o docente desse incumprimento, bem como das respectivas consequências”. Porém, como é que o director ou presidente do conselho executivo poderá fazê-lo se nos diplomas legais – Lei 15/2007 de 19 de Janeiro, vulgo Estatuto da Carreira Docente, Decreto-Regulamentar 2/2008 de 10 de Janeiro e Decreto-Regulamentar 1-A/2009 não existe qualquer menção ou referência explícita ou mesmo implícita às consequências da não entrega dos objectivos individuais? E não existe qualquer menção ou referência porque está de acordo o pensamento jurídico dos diplomas supracitados que não estabelecem, nem impõem a obrigatoriedade de entrega desses mesmos objectivos individuais.

Quanto ao ponto 3, a vossa redacção não é coerente, nem tão-pouco extraída, idêntica ou similar à redacção do número 4, do Artigo 9º do Decreto-Regulamentar n.º 2/2008, de 10 de Janeiro para o qual remetem, pois afirma o vosso documento “…poderá o director/presidente do conselho executivo… fixar os objectivos do avaliado…”, o que não é precisamente o mesmo de “na falta de acordo quanto aos objectivos a fixar prevalece a posição dos avaliadores” (número 4, do Artigo 9º do Decreto-Regulamentar n.º 2/2008, de 10 de Janeiro). E mesmo que a DGRHE queira dar aquela interpretação, então os docentes que não entreguem os objectivos individuais poderão exercer o direito consagrado no número 5, do Artigo 9º do Decreto-Regulamentar n.º 2/2008, de 10 de Janeiro que consta da seguinte redacção: “Verificando-se a situação prevista no número anterior pode o avaliado registar esse facto na ficha de auto-avaliação”. Este número vem confirmar a possibilidade de entregar a ficha de auto-avaliação sem consenso ou entrega dos objectivos individuais, de acordo com a vossa própria interpretação. Lamentável é que a vossa referência ao número 4, e consequente redacção, do supra mencionado artigo e respectivo decreto-regulamentar não venha, de todo, esclarecer ou clarificar, mas, sim, ainda confundir mais devido à adulteração que fizeram da própria redacção do ora número 4.

Na continuação da vossa exegese afirmam que “a avaliação de desempenho docente começa para os avaliados com a entrega dos objectivos para o período avaliativo (número 1, do Artigo 9º, do Decreto-Regulamentar n.º 2/2008, de 10 de Janeiro)…”. Conquanto, este mesmo número não afirma que a avaliação de desempenho docente se inicia com a entrega dos objectivos individuais, mas assegura que os “…objectivos individuais são fixados… através da apresentação de uma proposta do avaliado no início do período em avaliação”, portanto este número do diploma legal refere-se ao período em avaliação e não ao processo e fases desse mesmo processo de avaliação.
Por outro lado, o mesmo número do supracitado documento legal demonstra claramente que os objectivos são fixados no início do período em avaliação, o que contraria a exigência ministerial que quer obrigar os docentes a procederem à fixação dos seus elementos de referência no final do período em avaliação, ou seja, acerca de seis meses do término do período em avaliação de dois anos lectivos. No entanto a alínea a) do Artigo 15 do Decreto-Regulamentar n.º 2/2008 corrobora a nossa posição porque afiança que “o processo de avaliação compreende as seguintes fases sequenciais: a) Preenchimento da ficha de auto-avaliação”, omitindo por completo a entrega dos objectivos individuais.

Parece-nos também exagerada e completamente desfasada da competência da vossa instituição a comparação da Avaliação do Desempenho Docente com o SIADAP, pois sendo a DGRHE um organismo do Ministério da Educação deveria preocupar-se em atender os verdadeiros problemas relacionados com os recursos humanos do Ministério da Educação e neste caso concreto e específico com os recursos humanos docentes, nomeadamente em esclarecer devida e competentemente as dúvidas e não proceder a comparações levianas e medíocres de cariz claramente de propaganda político-governativa, tentando demonstrar que a classe docente é privilegiada, quando no fundo a profissionalidade docente apresenta uma especificidade muito concreta reconhecida internacionalmente pelas demais instituições e especialistas de renome ao nível da investigação em educação.

A vossa conclusão retoma a famigerada e propalada impossibilidade de concretização do processo de avaliação docente devido à não entrega dos objectivos individuais, sem contudo indicarem os diplomas legais que concretizam essa vossa repetitiva informação que de tão repetitiva levanta uma sub-reptícia dúvida de propensão para pressionar os professores a realizarem um acto que o Ministério da Educação exige, mas que a lei em documento algum obriga como ficou devidamente comprovado nas linhas anteriores. Deste modo, coercivo e de propaganda autoritária, está em causa a liberdade individual de cada cidadão e consequentemente a vivência democrática de um país que é um Estado de Direito Democrático, pois num Estado livre nenhum cidadão é obrigado a fazer o que a lei não obriga.

Assim sendo os professore abaixo-assinados mantêm a sua postura e decisão de não entregar os Objectivos Individuais conscientes da sua razão de acordo com as obrigações impostas pela lei.


O Reino da Macacada, 10 de Fevereiro de 2009

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terça-feira, fevereiro 10, 2009

NASA apresenta novo veículo de exploração



Investigadores da NASA disseram hoje que construiram e testaram um robô capaz de escalar escarpas, atravessar terrenos inclinados e rochosos e explorar crateras profundas. O protótipo do veículo, baptizado Axel, poderá ajudar a aprofundar as explorações e investigações de territórios exteriores à Terra, como Marte. Também na Terra, o Axel poderá ser útil em operações de busca e salvamento para atravessar terrenos impossíveis pelos veículos convencionais.

Michael Cooney - NASA fashions mountain climbing robot, Network World, 9 de Fevereiro de 2009

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Garcia Pereira - Sobre a obrigatoriedade de os professores entregarem os seus objectivos individuais

Especificamente quanto à “magna questão” da (não) entrega, pelos professores, dos objectivos individuais, há desde logo que ter presente o seguinte:
  1. Não existe de todo qualquer normativo com natureza de acto legislativo que estabeleça o dever da entrega, pelo professor, dos seus principais objectivos individuais, sendo certo que a única obrigação legalmente estabelecida é, nos termos do artº 44º, nº 1, al. c) do ECD, a do preenchimento e, pressupõe-se, a entrega da chamada “ficha de auto-avaliação” sobre os objectivos alcançados na sua prática profissional, nada se estipulando no sentido de que os ditos objectivos tenham de ser propostos ou até fixados pelo próprio professor.
  2. Como já atrás se demonstrou, onde a lei claramente não estatui não é lícito ao decreto-regulamentar pretender estatuir “ex novo”, pelo que qualquer divergência ou acrescento àquele regime legal que resulte de um dos diplomas com a referida natureza de decreto-regulamentar se terá de ter por manifestamente ilegal e, logo, não podendo vigorar na Ordem Jurídica, nem legitimar ordens ou exigências administrativas na base dessas mesmas “novas estatuições”.
  3. Em qualquer caso, e sem conceder quanto ao que antecede, o que o artigo 9º do Decreto-Regulamentar nº 2/2008 dispõe - e já aí dispõe “a mais” do que a lei - é que os ditos “objectivos individuais são fixados, por acordo entre o avaliado e os avaliadores, através da apresentação de uma proposta do avaliado no início do período de avaliação (…)” (nº 1) e que “na falta de acordo quanto aos objectivos a fixar prevalece a posição dos avaliadores” (nº 4)- sic, com sublinhados nossos.
Ora, relativamente a tal normativo - que, repete-se, se reputa de ilegal, tem desde logo de se reconhecer que os pressupostos de facto da sua aplicação não estão no presente processo de avaliação de todo verificados (a apresentação da proposta dos objectivos individuais, até para poder estar conforme à “ratio” de todo o sistema de avaliação, deve naturalmente ocorrer no início do período de avaliação , e não a 5 meses do seu termo, e se os ditos objectivos individuais se destinam “a aferir o contributo do docente para a concretização dos objectivos constantes da alínea a) do artigo anterior, ou seja, para a concretização dos objectivos e metas fixados no projecto educativo e no plano anual de actividades e tal contributo não pode ser aferido de forma minimamente rigorosa se os objectivos individuais são apenas definidos quando os objectivos mais gerais já vão a mais de meio do período da sua da sua execução).

Mas, para além do que se vem de referir, o certo é que se o analisado artigo 9º estabelece que, em caso de desacordo entre avaliado e avaliador quanto à definição dos ditos objectivos individuais, prevalece sempre a posição dos avaliadores, então - e porque a ausência de fixação de objectivos individuais deve e tem que ser logicamente equiparada à fixação de tal modo redutora ou reduzida que os avaliadores dela discordem e logo imponham, por eles, outra definição dos mesmos - tal só poderá significar que, nesse caso, a ausência de apresentação de uma proposta de objectivos individuais por parte do avaliado não impossibilita o decurso do processo de avaliação, antes determinaria - não fosse a já apontada ilegalidade deste artigo 9º que o impede de vigorar na Ordem Jurídica - que o mesmo prossiga a partir de objectivos fixados pelos avaliadores, e nada mais do que isso !

E o artigo 10º do mesmo Decreto Regulamentar nº 2/2008 - que vem estabelecer que “em todos os parâmetros de avaliação em que haja lugar à fixação de objectivos individuais nos termos do artigo anterior” (sendo certo que dos oito parâmetros fixados no artigo 9º há dois que se não aplicam neste ciclo de avaliação e diversos outros que dependem de factores em absoluto estranhos ao professor - nota nossa), é o grau de cumprimento daqueles objectivos - e não do cumprimento da pretensa obrigação burocrática de definição dos mesmos - que constituirá referência essencial da classificação atribuída.

Tudo isto, para além de que o próprio artigo 15º do citado Decreto Regulamentar nº 2/2008 relativo às “fases do processo de avaliação” não contêm qualquer referência à apresentação dos objectivos individuais pelo docente.

Mais ainda ! O Decreto Regulamentar nº 1-A/2009 - que padece de igual vício de ilegalidade nos termos já anteriormente explanados - do mesmo passo que procura impôr aos Presidentes dos Conselhos Executivos uma calendarização apertada do processo, com a fixação de datas-limite para as diversas formas sequenciais, também em lugar algum estatui a obrigação de apresentação pelo docente dos referidos objectivos individuais.

Contém, todavia, uma curiosa modificação relativamente ao Decreto Regulamentar nº 2/2008 (onde sempre se referiam os “avaliadores” .- cfr. artº 9º, nº 1 e 4) ao vir estatuir agora no respectivo artigo 5º, nº 2, que afinal a proposta dos objectivos individuais agora já não é dirigida aos ditos avaliadores mas sim “é exclusivamente dirigida ao Presidente do Conselho Executivo em quem aquela competência tenha sido delegada” numa tão curiosa quanto significativa preocupação “centralista” do sistema.

(…)

Em suma: nenhuma obrigação existe fixada por norma legalmente válida, de apresentação pelos docentes dos respectivos objectivos individuais. E, consequentemente, entendemos que, por tal razão, rigorosamente nenhuma consequência, seja ela de natureza disciplinar (e inexistindo qualquer pretensa infracção disciplinar pois que, em Estado de direito, não é devida obediência aos actos ou regulamentos da Administração que contrariem a Lei) ou de outra (v.g. de uma pretensa “suspensão” da respectiva contagem do tempo de serviço.


A Educação do meu Umbigo, 10 de Fevereiro de 2009

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segunda-feira, fevereiro 09, 2009

Sébastian Ticavet - O euro amplia a crise?

Slowdown in Europe
De leitura obrigatória é a publicação de investigação económica da Natixis, intitulada:

"Que futuro para os países da zona euro mais penalizados pela crise?" (datada de 3 de Fevereiro de 2009 e redigida pelo economista Patrick Artus).

Se é certo que o autor afasta a hipótese da saída do euro, nota-se contudo que só razões ideológicas determinam essa opção (a saída da zona euro é descrita como "não realista" (página 11), sem que o autor apresente outros argumentos além dos "custos técnicos" (quais?) e a "taxas de juro muito elevadas" (é possível demonstrar?).

As seis linhas que o autor dedica ao assunto (página 7) são insuficientes. Tanta ligeireza parece denunciar algum incómodo do autor ao lidar com a questão, o seu acondicionamento ideológico não o permite encarar a alternativa.

Sintomaticamente, as consequências da saída do euro merecem toda uma abordagem que tem sido desenvolvida por numerosos economistas menos temerosos.

Não se poderá imaginar o caso de ser a zona euro a padecer com a partida de um ou vários dos seus membros? Estaremos certos de que os mercados apenas castigariam pesadamente os países que partissem, poupando o euro que, no mesmo acto, acabaria por demonstrar a sua própria inviabilidade? Questão a meditar.

Tanta prudência não surpreende, vinda da parte de um economista conhecido pelas suas orientações muito "clássicas".

Deve, no entanto, ser-lhe reconhecido o mérito de ter revelado muitas fraquezas essenciais da moeda europeia.

O texto é, efectivamente, muito interessante sob vários aspectos:
  • Admite a fraqueza existencial do euro e lembra que a crise financeira e económica a revela com grande clareza:
    "É bem plausível a consequência, largamente antecipada por muitos economistas, de a zona euro não constituir uma zona monetária optimal: uma situação muito prolongada de taxa de desemprego elevada atingindo os países afectados por um choque desfavorável"
    (página 1).

    Para os não-iniciados, uma "zona monetária optimal" é uma região ideal para uma moeda única e uma política monetária única, devida à sua grande homogeneidade económica. Ou seja, precisamente aquilo que a zona euro não é.

    Um "choque desfavorável" é o resultado de uma crise que não afecta por igual todos os países, com a mesma intensidade. Assim, na zona euro, alguns países serão mais duramente atingidos que outros devido à posição que ocupam na escala da economia mundial, às suas especializações e a outras características próprias como a demografia, por exemplo.
  • O autor enumera quatro países mais fortemente penalizados pela crise e pelos efeitos amplificadores do euro: Espanha, Irlanda, Grécia e Portugal.
  • Também esclarece um outro problema maior da moeda única:
    "a reacção da política monetária da zona euro arrisca-se a ser ineficaz, porque é determinada para a situação média da zona euro"
    (página 4)

    Por outras palavras, uma política monetária única e uma moeda única sobre um território tão grande e diverso como o da zona euro não permite contemplar ajustes finos às necessidades de cada país, tão somente uma política "média".

    A analogia mais sugestiva é a de um hospital que prescrevesse o mesmo tratamento a todos os doentes, uma espécie de tratamento "médio". É fácil imaginar que alguns doentes não sobrevivam...
  • Desta situação resultará uma crise de desemprego explosiva nos países mais expostos:
    "um choque assimétrico e o crescimento do desemprego impossível de corrigir nos países afectados"
    (página 12)

    "Impossível de corrigir" porque, na falta da moeda nacional, não será possível usar a margem de manobra monetária.
  • O euro chega então ao cúmulo das suas contradições. O que tinha de acontecer, começou a acontecer. As consequências, segundo o autor, são
    "Um desemprego que não pára de crescer, cenário muito perigoso social e politicamente"
    (página 12)


Resta estalar o verniz ideológico que impede às "elites" admitir que a ultrapassagem deste impasse está na saída da zona euro.

Hoje, quatro países europeus, entre os quais a Espanha com os seus 40 milhões de habitantes, sofrem agudamente com o euro.

Poder-se-ía ainda acrescentar a Itália onde, de forma cada vez mais aberta, se questiona a reintrodução da lira. Amanhã, quando estes países se encontrarem asfixiados (o FMI prevê pelo menos 3 anos consecutivos de forte recessão em Itália) e nós próprios (*) muito enfraquecidos pela crise, pagaremos todos dramaticamente as consequências da moeda única.

É tempo de reagir.

No Vrai Débat, escrevemos que era necessário antecipar uma saída do euro para evitar que uma crise nos viesse impor os seus ditames, forçando-nos a pagar pela medida grande.

Não nos tendo antecipado, agora já estamos dentro dela. Reajamos ao menos com urgência, para que o preço não se torne demasiado alto.


(*) Em França - NT

Sébastian Ticavet -
L’euro amplifie-t-il la crise ?, AgoraVox, 9 de Fevereiro de 2009

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Renaud Laillier - A globalização é o caos acelerado

Nunca era certo onde pretendiam chegar os liberais, quando invocavam a necessidade de agir "mundialmente". Com a crise, viu-se ao que vinham...

Isto deveria servir de lição. Porém, não é caso para eleger o proteccionismo como o novo princípio da autoridade. Os países podem aderir a um proteccionismo não declarado, sem que isso resulte em grandes barreiras.

O paradigma da célula biológica é adequado para melhor compreender a relação dos países com o seu espaço económico. É necessária uma parede - no caso, uma fronteira - para que a célula possa viver e desenvolver-se, dispondo dos meios necessários. São as paredes que ajudam a célula a respirar e a efectuar as trocas; não a sua ausência, como nos querem fazer acreditar.

A globalização, tal como vem sendo praticada, só pode espalhar a ruína. Certos dirigentes pró-globalização trataram de abolir as "paredes", qualificando-as como obsoletas e como obstáculos ao desenvolvimento, o que não são de modo algum.

O sistema biológico indica-nos precisamente o contrário. Faltando a "parede", as defesas imunitárias sãs da sociedade são destruídas por dentro, ao serem expostas a todos os fluxos ao mesmo tempo, sem organização nem controlo. De onde resulta uma redução forçada das energias criativas locais e uma evolução acelerada para o caos nos planos económico, social, financeiro, cultural e civilizacional, bem como do ecosistema.

Além disso, a preservação do ambiente exige sempre algum grau de proteccionismo. É necessário preservar as estruturas, tal como na arquitectura se preservam os contrafortes, as trancas e as portadas. Isto é tanto válido para os EUA, cuja hegemonia mundial está em queda, como para cada uma das restantes nações do mundo.

Só assim o verdadeiro progresso se verificará. Destas condições depende o progresso que cada um poderá esperar: reforçando todas as comunidades, aproveitando toda a criatividade em benefício local para criar o máximo de riqueza.

A globalização é o caos acelerado.

Renaud Laillier, Le mondialisme, entropie accélérée, ContreInfo, 7 de Fevereiro de 2009

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sábado, fevereiro 07, 2009

Smile!

sexta-feira, fevereiro 06, 2009

O Clube Bilderberg... e os outros


(Clique sobre a figura para descarregar - 1,4 MB)


Foi publicado em língua portuguesa, em edição espanhola o livro de Daniel Estulin.
Em virtude de não se encontrar disponível no mercado local, junta-se em anexo a edição electrónica desta obra, para oferecer aos nossos leitores a possibilidade de se informarem sobre esta associação trans-nacional, que grupos de interesse não querem ver divulgada.
É nossa convicção, poder contribuir desta forma para o exercício do direito à informação, sem ofender quaisquer interesses conhecidos.
Caso exista o conhecimento da ofensa aos direitos alheios, agradecemos que informem na caixa de comentários, para podermos retirar no mesmo acto, substituindo o acesso à edição electrónica pela informação comercial que nos seja comunicada.

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quarta-feira, fevereiro 04, 2009

Paul Craig Roberts - A guerra ao terror é uma mistificação

Paulo Craig RobertsFazendo fé na propaganda, há células terroristas espalhadas por todo o território dos EUA, o que torna forçoso ao governo espiar cada cidadão, em violação da maior parte das restantes garantias constitucionais para além da segurança. Entre as últimas palavras do ex-Presidente Bush, proferidas antes de se retirar, está o aviso de que os EUA seriam atingidos novamente por ataques terroristas muçulmanos.

Se os EUA estivessem tão infestados de terroristas, o governo nem precisaria de nos esclarecer. Sabê-lo-íamos pelos factos. Porque os factos não confirmam, vem o governo propagando alarmes que avivem os nossos medos, para que aceitemos guerras não justificadas, violações dos direitos cívicos e dos registos de identidade nacionais, interpelações e perseguições ao viajarmos.

A prova mais forte de que não há células terroristas é que nem um único neoconservador foi assassinado.

Não aprovo os assassinatos e tenho vergonha de que o governo do meu país se tenha comprometido com assassinatos políticos. Os EUA e Israel deram um muito mau exemplo para al Quaeda seguir.

Os EUA lida com al Quaeda e com os talibãs assassinando os seus dirigentes; Israel lida com o Hamas assassinando os seus dirigentes. É razoável supor que al Quaeda lide com os instigadores e dirigentes norte-americanos das guerras no Médio Oriente da mesma maneira.

Hoje, todo o membro de al Quaeda está ciente da cumplicidade dos neoconservadores na morte e devastação inflingida aos muçulmanos no Iraque, Afganistão, Líbano e Gaza. Além disso, os neoconservadores são facilmente localizáveis e alvos comparativamente fáceis quando comparados aos dirigentes do Hamas ou do Hezbolá. Os neoconservadores estão identificados pela imprensa há largos anos e, como toda a gente sabe, existem mesmo listas com os seus nomes na internet.

Os neoconservadores não dispõem de protecção da polícia secreta. É terrível reconhecer, mas seria uma brincadeira de criança para al Quaeda assassinar quer um quer todos os neoconservadores. No entanto, os neoconservadores deslocam-se livremente e tal demonstra que os EUA não sofrem do problema do terrorismo.

Se, como os neoconservadores tanto insistem, os terroristas conseguem importar clandestinamente armas nucleares ou outras armas sujas, com as quais poderiam destruir as nossas cidades, com mais facilidade ainda poderiam adquirir armas ligeiras para assassinar cada um dos neoconservadores ou membro do governo anterior.

Porém, os neoconservadores norte-americanos mais odiados pelos muçulmanos permanecem intocados.

A "guerra ao terror" é uma mistificação que encobre o controlo exercido pelos EUA sobre os oleodutos, os lucros do complexo militar e de segurança e o assalto às liberdades dos cidadãos empreendida pelos que procuram internamente criar um estado policial e externamente expandir o território de Israel.

No Iraque, não existia al Quaeda até à chegada dos norte-americanos, aquando da invasão e derrube de Saddam Hussein, que os havia mantido afastados. Os talibãs não constituem uma organização terrorista, antes um movimento que tenta unificar o Afganistão sob a lei muçulmana. Os únicos norte-americanos que estão verdadeiramente ameaçados pelos talibãs são os que Bush enviou ao Afeganistão com a missão de os matar e impor um estado fantoche ao seu povo.

O Hamas é o governo democraticamente eleito na Palestina; ou no pouco que sobra da Palestina após as anexações ilegais de Israel. O Hamas é tanto uma organização terrorista quanto os governos de Israel e dos EUA. Numa tentativa de submeter o Hamas à sua hegemonia, Israel usa o terror das bombas e os assassinatos contra os palestinianos. O Hamas responde ao terror de Israel com foguetes artesanais e quase inócuos.

O Hezbolá representa os xihitas do Sul do Líbano, outra zona do Médio Oriente que Israel tem nos seus planos de expansão.

Os EUA classificaram o Hezbolá de "organização terrorista" pela simples razão de se posicionarem neste conflito do lado de Israel. Não há razões fundamentadas para que o Departamento de Estado dos EUA considere o Hamas ou o Hezbolá organizações terroristas. Não passa de mera propaganda.

Os norte-americanos e israelitas não chamam terrorismo aos bombardeamento que levam a cabo sobre civis. O que os norte-americanos e israelitas disignam por terror é a resposta desse povo oprimido, que não possui um estado porque o seu país foi governado por marionetes leais aos opressores. Este povo, despojado no seu próprio país, não tem um Departamento de Estado (Ministério dos Negócios Estrangeiros), nem um Ministério da Defesa, tampouco representação nas Nações Unidas ou voz nos grandes meios de difusão. A sua única opção é submeter-se à hegemonia estrangeira ou resistir com os meios exíguos que dispõe.

O facto de Israel e os EUA promoverem uma propaganda constante que impeça estes factos fundamentais de serem reconhecidos indica que tanto Israel como os EUA não têm razão e que os palestinianos, os libaneses, os iraquianos e os afegãos estão a ser enganados.

Alguns generais norte-americanos reformados, em serviço de propaganda na "Fox News", afirmam constantemente que o Irão fornece armamento ao Iraque e aos insurrectos afegãos e do Hamas. Mas onde estão essas armas? Para enfrentar os tanques norte-americanos, os insurrectos têm que construir engenhos explosivos em casa, desprovidos de invólucros balísticos. Passados seis anos de conflito, os insurrectos ainda não conseguem defender-se dos helicanhões norte-americanos. Compare-se este "armamento" com a artilharia que os EUA forneceram aos afegãos há três décadas atrás, quando estes se encontravam em guerra com a União Soviética.

Os filmes dos ataques mortíferos a Gaza mostram muitos palestinianos a fugir das bombas, outros mortos ou estropiados, mas nenhuma dessas pessoas está armada. A esta hora, era fácil acreditar que todos os palestinianos andassem armados, não apenas os homens, como as mulheres e até as crianças. Porém, o que vimos em todos os filmes dos ataques de Israel foi uma população palestina desarmada. O Hamas teve de construir bombas em casa, que pouco mais são que um sinal de protesto. Se o Hamas estivesse armado pelo Irão, o assalto a Gaza teria custado a Israel no mínimo alguns helicópteros e tanques e algumas centenas de mortos entre os soldados.

O Hamas é uma pequena organização armada de espingardas de pequeno calibre, inofensivas contra um corpo blindado de artilharia. O Hamas nem tem capacidade para impedir que pequenos grupos de colonos judeus caiam sobre aldeias palestinas do "West Bank", expulsem de lá os palestinianos e se apropriem das suas terras.

Difícil é compreender o facto de, passados já 60 anos de opressão, os palestinianos continuarem desarmados. Há certamente países muçulmanos cúmplices de Israel, tão certo como os EUA desejarem mantê-los desarmados.

A afirmação não fundamentada de que o Irão fornece armas sofisticadas aos palestinos assemelha-se a outra afirmação, igualmente sem fundamento, de que Saddam Hussein detinha armas de destruição massiva. Tais afirmações são atoardas propandandísticas destinadas a justificar a morte dos civis árabes e a destruição das infraestruturas urbanas com o propósito de impor a hegemonia de Israel e dos EUA no Médio Oriente.


Paul Craig Roberts, The War on Terror is a Hoax, publicado por Counterpunch a 4 de Fevereiro de 2009

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terça-feira, fevereiro 03, 2009

Joseph Stiglitz - Larguem os bancos falidos

Joseph Stiglitz
“O Reino Unido foi profundamente atingido porque os bancos assumiram enormes dívidas em moeda estrangeira. Porque devem os contribuintes ver reduzido o seu nível de vida nos próximos 20 anos para assim pagarem os benefícios de uma pequena elite?

Há uma razão para abandonar os bancos arruinados. Talvez cause perturbação, mas esta será a maneira mais barata de lidar com o problema. O Parlamento nunca ofereceu garantias cegas para todas as responsabilidades e produtos derivados destes bancos.”
Stiglitz defendeu que o Governo deveria garantir os depósitos para salvar o crédito doméstico e salvaguardar os mercados financeiros capazes de prosseguir com os empreśtimos. Usar então os despojos dos velhos bancos para criar uma estrutura bancária nova e mais saudável.
“Os novos bancos serão mais credíveis, dado que não arrastarão atrás de si essas responsabilidades.”


Telegraph, 2 de Fevereiro de 2009

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Henry Siegman - Mentiras de Israel

Henry SiegmanOs governos ocidentais e a maior parte dos meios de comunicação dos respectivos países aceitaram determinadas declarações israelitas, justificativas do assalto militar a Gaza: que o Hamas violou repetidamente a trégua de seis meses e recusou a sua renovação, tendo Israel respeitado as tréguas; que o Hamas é uma organização terrorista, fazendo parte da jihad global; que Israel actuou, não apenas em defesa própria, mas também como parte integrante da guerra que as democracias ocidentais movem contra os terroristas.

Não descobri um só jornal norte-americano de grande difusão, uma só estação de rádio ou um único canal de televisão, que tivesse questionado esta versão dos acontecimentos em toda a cobertura feita ao assalto a Gaza. O criticismo dos actos de Israel (totalmente omisso da administração Bush) resumiu-se a indagar sobre a necessidade (proporcionalidade) da carnificina perpetrada pelo exército de Israel face às ameaças invocadas, ou então sobre as cautelas tomadas para evitar baixas civis.

Os negociadores do Médio Oriente sumiram-se em eufemismos incompreensíveis, pelo que me vejo forçado a dizer sem subterfúgios que todas as justificações dadas por Israel são mentiras. Foi Israel, não o Hamas, quem violou as tréguas: o Hamas comprometeu-se a parar o lançamento de foguetes contra Israel; como contrapartida, Israel afrouxaria o bloqueio a Gaza. Na realidade, durante o cessar-fogo, o bloqueio foi ainda mais apertado. Isto foi confirmado não apenas por muitos observadores internacionais neutros e organizações não-governamentais que estão activas no terreno, mas também pelo Brigadeiro Shmuel Zakai, ex-comandante da Israel Defense Force (IDF) em Gaza. Numa entrevista ao jornal Ha'aretz em 22 de Dezembro, Zakai acusou o governo de Israel de cometer um erro capital durante o tadiyeh - o período de seis meses das tréguas - 'ao não aproveitar a acalmia para melhorar, em vez de degradar acentuadamente, a situação económica difícil dos palestinianos na Faixa de Gaza... Quando se criam tréguas e se mantem a pressão económica na Faixa', declarou o General Zakai, 'é claro que o Hamas procuraria alcançar um trégua mais favorável, sendo o disparo dos foguetes o meio para alcançar essa meta... Não parece razoável que, após fomentar a desgraça e a ruína económica em que os palestinianos vivem na Faixa de Gaza, se esperasse que o Hamas viesse sentar-se calmamente à mesa de negociações sem que movesse um dedo.'

A trégua começou em Junho do ano passado e estava prevista a sua renovação em Dezembro, com a condição de ambas as partes, reciprocamente, se absterem de acções violentas. O Hamas comprometeu-se a cessar o lançamento de foguetes e demover outros grupos, como o Jihad Islâmica, de o fazer (até os serviços secretos de Israel reconheceram que esse compromisso foi respeitado com uma eficácia surpreendente). Israel, por seu turno, poria termo aos assassinatos de dirigentes e às incursões militares. Este pacto foi gravemente violado no dia 4 de Novembro, quando o IDF entrou em Gaza e matou seis membros do Hamas. O Hamas retorquiu, lançando foguetes Qassam e mísseis Grad. Depois disso, manifestou-se ainda disponível para prolongar as tréguas, com a única condição de Israel levantar o bloqueio. Israel recusou-se. Poderia ter cumprido a sua obrigação de proteger os israelitas, assinando o fim do bloqueio, porém, nem sequer esboçou um movimento nesse sentido. Não é possível afirmar-se que Israel tenha desencadeado o assalto a Gaza para procurar proteger os seus cidadãos. Agiu assim para vincar a sua capacidade em esmagar a população de Gaza.

Toda a gente perece ter-se esquecido de que o Hamas declarou o fim dos bombistas suicidas e dos disparos de foguetes na altura em que decidiu juntar-se ao processo político palestiniano, tendo cumprido em grande medida durante um ano. Bush elogiou publicamente essa decisão, citando-a como um exemplo de sucesso da sua campanha em prol da democracia no Médio Oriente. Quando o Hamas ganhou as eleições, contrariando as expectativas ocidentais, Israel e os EUA procuraram imediatamente retirar legitimidade ao resultado e começaram a apoiar Mahmoud Abbas, líder da Fatá, que até então havia sido tratado pelos israelitas como a 'galinha depenada'. Armaram então e treinaram as forças de segurança da Fatá para que derrubassem o Hamas; e quando o Hamas - de forma brutal, para se impor - se defendeu desta violenta tentativa de inverter o resultado da primeira eleição democrática honesta no Médio Oriente, Israel e a administração Bush impuseram o bloqueio.

Israel tenta escamotear estes factos indesmentíveis, contrapondo que, através da retirada dos colonatos de Gaza em 2005, Ariel Sharon teria oferecido ao Hamas a oportunidade para se orientar no caminho da responsabilidade estatal; oportunidade essa que o Hamas teria desperdiçado, tendo, em vez disso, transformado Gaza num rampa de lançamento de mísseis contra a população civil de Israel. Esta acusação é uma dupla mentira. Em primeiro lugar, apesar de todos os erros, o Hamas conduziu Gaza a um nível de acatamento da lei e da ordem sem precedentes nos anos recentes. Fê-lo sem as avultadas contribuições monetárias com que os dadores encharcaram a Autoridade Palestiniana enquanto foi dirigida pela Fatá. Acabou com os gangs violentos e com os senhores da guerra que haviam atemorizado as populações de Gaza durante o governo da Fatá. Muçulmanos não praticantes, cristãos e outras minorias gozam de maior liberdade religiosa com o governo do Hamas que gozariam se vivessem na Arábia Saudita, por exemplo, ou em muitos outros regimes árabes.

A mentira maior é que a retirada de Gaza tenha constituido o pronúncio de outras retiradas e uma manifestação de boa vontade a favor da Paz. Eis a forma como o conselheiro sénior de Sharon, Dov Weiglass, chefe da delegação que negociou com a administração norte-americana, caracterizou a retirada de Gaza, em entrevista ao Ha'aretz de Agosto de 2004:
O que acordámos de facto com os americanos foi que uma parte dos colonatos [i.e. o maior colonato do West Bank] seria tratado até ao fim, estando o resto fora das negociações até que os palestinianos se convertam em finlandeses... O significado [do acordo com os EUA] é o de congelar o processo político. Quando congelas o processo político, impedes o estabelecimento de um Estado palestiniano e evitas as discussões sobre refugiados, fronteiras e Jerusalém. De facto, toda esta embrulhada chamada Estado Palestino, com todas as suas consequências, foram retiradas da agenda por tempo indeterminado. Tudo isto contando com os auspícios e a benção do Presidente Bush... e também com a ractificação de ambas as câmaras do Congresso.

Cuidarão Israel e os EUA que os palestinianos não lêem jornais israelitas, ou que não descobrem por si mesmos o que Sharon pretende quando vêem o que se passa no West Bank?
Israel gostaria que o mundo acreditasse que o Hamas começou a lançar foguetes porque é isso que fazem os terroristas e o Hamas é apenas mais um grupo terrorista. De facto, o Hamas não é uma 'organização terrorista' (o termo preferido por Israel) em medida maior que o movimento sionista foi uma organização terrorista por altura dos confrontos que marcaram a criação do seu país. Nas décadas de 1930 e 1940, os partidos que constituiam o movimento sionista dedicaram-se a actividades terroristas por razões estratégicas. Segundo Benny Morris, foi o Irgun o primeiro a disparar sobre civis. Escreveu no Righteous Victims que o surgimento do terrorismo árabe em 1937 'desencadeou um onda de bombardeamentos sobre multidões árabes e sobre autocarros, introduzindo uma nova dimensão ao conflito'. Também relatou atrocidades cometidas durante a guerra de 1948-49, pela IDF. Numa entrevista publicada no Ha'aretz em 2004, reconheceu que os documentos recém-libertados para consulta pública pelo Ministério da Defesa de Israel revelavam 'muitos mais actos de massacre que aqueles que supunha... Nos meses de Abril-Maio de 1948, unidades do Haganah receberam instruções operacionais que, de forma explícita, ordenavam que levassem a cabo o desenraizamento dos aldeões, expulsando-os das suas casas e destruindo as aldeias'. Em determinadas vilas e cidades palestinas, o IDF executou civis. Questionado pelo Ha'aretz se condenava tais práticas de limpeza étnica, Morris respondeu que não:
Não teria sido possível estabelecer um estado judaico sem desenraizar 700 mil palestinos. Assim, foi necessário desenraizá-los. Não havia alternativa à expulsão da população. Era necessário limpar o interior do território, limpar as suas fronterias e as vias de acesso principais. Era necessário limpar as povoações donde saiam os disparos contra as nossa colunas de transporte e os nossos colonatos.

Por outras palavras, quando o judeus disparam sobre civis inocentes e os matam para progredirem na sua luta nacional, são patriotas. Quando os seus adversários fazem exactamente o mesmo, são terroristas.

É tão fácil descrever o Hamas simplesmente como uma 'organização terrorista'. Trata-se de um movimento religioso e nacionalista, nascido do terrorismo, tal como o movimento sionista foi durante a luta pelo estabelecimento do estado, na convicção errada de que esta era a única via para pôr termo à ocupação opressiva e retomar o estado palestino. Mesmo que, conforme à ideologia do Hamas, se apele a que a construção do estado palestino se faça sobre as ruinas do estado de Israel, tal não caracteriza as políticas actuais do Hamas mais do que as declarações no mesmo sentido constantes da Carta da Organização da Libertação da Palestina (OLP) caracterizam hoje a política da Fatá.

As declarações a seguir citadas não foram feitas por um apologista do Hamas, mas antes por um ex-chefe da polícia secreta de Israel, a Mossad, e ex-conselheiro de Sharon para a segurança nacional, Ephraim Halevy. A liderança do Hamas sofreu uma transformação 'bem à frente dos nossos narizes', escreveu recentemente Halevy no Yedioth Ahronoth, ao reconhecer que 'a sua meta ideológica não se podia alcançar nos tempos próximos nem num futuro previsível'. Hoje está preparada para aceitar temporariamente o estabelecimento de um estado palestino com as fronteiras de 1967. Halevy notou que o Hamas não esclareceu quanto 'temporariamente' estas fronteiras se deveriam manter, 'eles sabem que, a partir do momento em que o estado palestiniano se tenha esbelecido, serão forçados a mudar as regras do jogo: ver-se-ão forçados a prosseguir uma via que os conduzirá para bem longe do seu fim ideológico inicial'. Num artigo anterior, Halevy também chamou a atenção para o absurdo de associar Hamas a al-Quaida.
Perante al-Quaida, os membros do Hamas são vistos como heréticos, uma vez que manifestaram o desejo de participar em acordos ou entendimentos com Israel ao longo do processo.[O chefe do bureau político do Hamas, Khaled] Mashl's fez declarações que contradizem frontalmente a abordagem de al-Quaida, oferecendo a Israel uma oportunidade, quiçá única na História, de alcançar a sua legitimação.

Porque estão os dirigentes de Israel tão determinados em destruir o Hamas? Porque acreditam que os dirigentes do Hamas, ao contrário da Fatá, não estão intimidados ao ponto de aceitar um acordo de paz que reduza o futuro 'estado' da Palestina a um conjunto desconexo de porções territoriais sobre os quais Israel pode manter permanentemente o seu controlo. O controlo do West Bank tem prosseguido sem interrupção pelos militares, serviços secretos e dirigentes políticos desde a Guerra dos Seis Dias. Acreditam que o Hamas não permitirá tal cantonização da Palestina, qualquer que seja o prolongamento da ocupação do território. Talvez Israel se engane àcerca de Abbas e a sua corte super-bem-remunerada, mas quanto ao Hamas está absolutamente certa.

Os observadores internacionais do Médio Oriente interrogam-se sobre as hipóteses de o assalto de Israel ao Hamas conduzir ao desmantelamento desta organização ou expulsá-la de Gaza. É uma questão irrelevante. Se Israel planeia manter no futuro o controlo sobre qualquer entidade palestiniana, não encontrará um interlocutor palestiniano. Se consiguisse agora destruir o Hamas, em tempo este movimento seria substituido por uma oposição palestiniana muitíssimo mais radical.

Se Barack Obama desaproveitar este momento, enviando para o Médio Oriente uma delegação de circunstância, convencida de que terceiras partes não têm que apresentar propostas próprias e orientadas para uma paz durável, um delegação incapaz de pressionar as partes em contenda e que se limite a assitir à exposição das suas divergências, estará então a contribuir para o surgimento de uma resistência palestina muito mais extremista que o Hamas - plausivelmente, aliada a al Quaeda. Para os EUA, a Europa e a maior parte do resto do mundo, esse seria o pior resultado. Talvez Israel, incluindo os chefes de alguns colonatos, acreditem que tal serviria os seus propósitos, pois ofereceria ao governo um convidativo pretexto para sujeitar pela força toda a Palestina. Esta é, porém, uma ilusão capaz de conduzir Israel ao seu fim como estado democrático judaico.

Anthony Cordesaman, um dos analistas militares mais sérios do Médio Oriente, que além disso é amigo de Israel, em relatório dirigido ao Centro de Estudos Estratégicos Internacionais no dia 9 de Janeiro, referiu que os ganhos tácticos alcançados pela continuação das operações em Gaza seriam suplantados pelos prejuízos estratégicos - sendo provável que ficassem aquém dos resultados anteriorememte alcançados por meio de ataques selectivos a instalações do Hamas.
Ter-se-á equivocado Israel, enveredando por um aprofundamento sistemático da guerra, desprovida de um objectivo estratégico claro ou, pelo menos, plausível de alcançar? Acabará Israel por contribuir para o fortalecimento político do seu inimigo, mesmo sendo este derrotado tacticamente? Irão as iniciativas de Israel comprometer seriamente a posição dos EUA na região? Irão comprometer as esperanças de paz e, subsequentemente, os regimes árabes moderados e as suas vozes? Tudo indica que a resposta a qualquer destas perguntas seja: Sim! Um dirigente pode sempre reclamar, engrossando a voz, que os ganhos tácticos são vitórias. Se for mesmo isso o que Olmert, Livni e Barak têm para responder, então ter-se-ão desgraçados a si próprios assim como terão desgraçado o seu país e os seus amigos.
Concluiu Cordesaman.

Henry Siegman, Israel’s Lies,
London Review of Books, 15 de Janeiro de 2009

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