quinta-feira, março 04, 2010

Não-violência: mitos e realidades

Marie-Ange Patrizio : O conceito de não-violência remete-nos imediatamente a Gandi. Que juízo fazes desta grande personalidade histórica?

Domenico Losurdo : Temos que distinguir duas fases na evolução de Gandi. Na primeira fase, Gandi estava longe de propor a emancipação geral dos povos coloniais. Bem pelo contrário, apelava à potência colonial, a Grã-Bretanha, para que não confundisse o povo indiano - capaz de ser vista pelos ingleses como fazendo parte de um estado muito antigo, com origens raciais "arianas" - não confundisse, dizia Gandi, com os negros, ou melhor, com "os cafres grosseiros, cuja ocupação principal era a caça e cuja única ambição era a de juntar determinado número de cabeças de gado para trocar por uma mulher, afim de poder desfrutar de uma vida de ócio e nudez" (sic).

Para conseguir a cooptação da raça dominante, para com o povo dos senhores (arianos e brancos), Gandi apelou, no princípio do século XX, aos seus co-nacionais para que se colocassem ao serviço do exército imperial, empenhado numa repressão feroz contra os zulus.

É sintomático que, durante a Primeira Guerra Mundial, o suposto campeão da não-violência se tenha proposto recrutar meio-milhão de homens para o exército britânico. Tal zelo dedicou a esta tarefa, que chegou a escrever ao secretário pessoal do vice-rei: "Tenho a impressão de que, se eu me tornasse o vosso recrutador-mor, podería submergi-lo em homens". Quer se dirigisse aos seus co-nacionais, quer ao vice-rei, Gandi insistia de forma totalmente obsequiosa à disponibilidade para o sacrifício a que todo um povo deveria estar preparado. Tornava-se necessário "oferecer o nosso apoio total e decidido ao Império"; a Índia deve mostrar-se pronta a "oferecer, nesta hora crítica, os seus filhos válidos ao sacrifício pelo Império"; "devemos, para a defesa do Império, dar todos os homens de que dispomos".

Com uma coerência à prova de fogo, Gandi desejou que os filhos da sua terra se envolvessem e participassem na guerra.

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