segunda-feira, fevereiro 18, 2008

Le Club des Cent

Elite francesaParis: De todos os clubes do mundo, o Clube dos 100 em França deverá ser o mais exclusivo. Nas suas fileiras há dirigentes dos negócios, da política e da lei; é porém a sua política de admissão que torna o Clube des Cent, como é aqui conhecido, verdadeiramente notável: só quando morre um dos seus membros há lugar à entrada de um novo membro.

Oficialmente, o clube, agora com 96 anos, está estritamente devotado à gastronomia e quando o grupo se junta aos almoços de quintas-feiras num dos restaurantes lendários de Paris, como o Maxim's, a política e os negócios ficam de fora. Claude Bébéar, o presidente da AXA, o gigante francês dos seguros e membro do clube há mais de duas décadas, afirma que hé "uma atmosfera real de amizade; somos muito próximos". O mesmo acontece com as instituições de negócios francesas. Uma irmandade cerrada - são quase todos homens - que partilham ligações escolares, lugares de administração e rituais como a caça ou a prova de vinhos, a elite de negócios francesa é um conciliábulo surpreendetemente pequeno numa nação com mais de 60 milhões de pessoas.

Mas no dealbar do prejuízo de 7 milhões atribuido a um especulador num dos bancos principais do país, a Société Générale, a aristocracia francesa dos nossos dias encontrou-se num lugar onde nunca desejou estar: debaixo dos holofotes.

Enquanto que o especulador John Kerviel, agora preso, nunca foi aluno numa escola de topo ou membro de um grupo de elite como o Clube des Cent, o blindado presidente executivo da Société Générale, Daniel Bouton, foi ambas as coisas. O facto de o Sr Bouton e outros gestores de topo do banco terem permanecido nos seus postos quando o escândalo irrompeu há cerca de um mês fez renascer a crítica de que a elite francesa é um ancien régime - jogando com regras antigas (basicamente as suas próprias) e rápidas em desviar as culpas para se protegerem a si próprias.

"Haverá uma tendência em França para que as elites sejam feitas do mesmo molde e fileiras fechadas?" - interroga-se Bernard-Henry Lévy, o filósofo e observador social francês. "Sim, é uma antiga doença francesa."

Nos Estados Unidos, no Reino Unido ou na Alemanha, acrescenta Lévy, "Daniel Bouton não só teria perdido o seu emprego, como estaria num tribunal a ser interrogado."

Claro está, a controvérsia chega num momento de mais ampla tensão tanto para os negócios como para a política, com uma nova geração lutando pelo poder contra velhos guardas empedernidos, diz Stéphane Fouks, o co-director executivo da Euro RSCG, uma das maiores firmas de marketing e comunicação em França.

"Neste momento o capitalismo francês está mergulhado num crise e a criar um ponto de mudança", disse o Sr Fouks. No status quo tradicional, disse, "eram todos amigos, muito diplomáticos e constituíam um clube onde, ao fim do dia, era sempre melhor procurar um entendimento".

Os membros da elite não fazem segredos das regras do jogo. "Quando pertences a um grupo pequeno, é difícil ter uma atitude de antagonismo para com qualquer outro", disse Valéry Giscard d'Éstaign, ex-presidente da França. "Num grupo maior, há menos interferências nas considerações pessoais".

O Sr Bouton não se dispôs a comentar. Mas Philippe Citerne, co-director executivo do concelho de administração da Société Générale disse que as ligações estatutárias nada têm a ver com a permanência do Sr Bouton.

"O concelho de administração reiterou por duas vezes e por unanimidade a sua confiança no Sr Bouton", disse. Não há maneira de oferecermos serviços a 27 milhões de clientes em 82 países, caso fôssemos um pequeno clude francês.

Pelo menos metade das 40 maiores empresas de França são dirigidas por graduados de duas escolas, a École Polytechnique, que ensina os melhores engenheiros franceses, e a ENA, a escola nacional de administração. Isso é especialmente notável se repararmos que estas duas escolas em conjunto apenas graduam 600 estudantes por ano, que podemos confrontar com um único curso em Harver, que gradua 1700 por ano.

"Comportam-se como se tivessem relações de sangue", disse Ghislaine Ottenheimer, um jornalista e autor que escreveu muito sobre a elite francesa. "Há um sentido de impunidade porque não há sanções na família."

No entanto, o caso Kerviel e principalmente o destino do Sr Bouton - até o Presidente Nicolas Sarkozy sugeriu que o sr Bouton deveria demitir-se - abanaram o status quo francês no seu âmago e encorajaram aqueles que, como a Sra Ottenheimer, pretendem a mudança.

"O velho sistema está a morrer; este é o seu último suspiro", disse. O Sr Boutom faz parte de uma geração que irá passar rapidamente o controlo do capitalismo francês para uma elite mais alargada."

Talvez. Mas não parece que o Sr Bouton esteja na iminência da guilhotina, ao contrário dos executivos dos EUA na Citigroup e na Merry Lynch, que foram obrigados a demitir-se depois dos seus bancos terem sofridos prejuizos imensos na crise das hipotecas de alto risco.

Enquanto alguns analistas prevêm que a resignação ao cargo de Bouton venha a ocorrer dentro de um ano, talvez mesmo mais cedo, o Sr Bébéar da AXA afirma que os executivos franceses gozam de maior poder de permanência que os seus congéneres nos Estados Unidos.

NELSON D. SCHWARTZ and KATRIN BENNHOLD in
In France, the Heads No Longer Roll
publicado pelo The New York Times em 17 de Fevereiro de 2008

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