Joseph Stiglitz - As consequências económicas do Sr Bush (4)

Desprezo pelo Mundo
Os défices orçamentais e comerciais atingiram níveis recorde sob a presidência Bush. Para falar a verdade, os défices não são em si próprios um problema. Se um empresário pede um empréstimo para comprar uma máquina, isto é uma coisa boa, não uma coisa má. Durante os últimos seis anos, os EUA - o seu governo, as suas famílias, o país inteiro - pediu empréstimos para manter o seu nível de consumo. Ao mesmo tempo, os investimentos em activos fixos - instalações fabris e equipamentos que nos ajudassem a amumentar a riqueza - foi declinando.Qual o impacto para o homem da rua? O ritmo de crescimento dos padrões de vida nos EUA irá certamente abrandar. A economia americana pode cometer muitos abusos, mas nenhuma economia é invencível e as nossas vulnerabilidades estão à vista de todos. A confiança na economia americana afundou-se, tal como o câmbio do dólar - que perdeu 40 porcento face ao euro desde 2001.
Os desarranjos das nossas políticas económicas domésticas seguem a par das nossa políticas económicas internacionais. O Presidente Bush culpou os chineses pelo nosso défice comercial gigantesco, mas a valorização do Renminbi (RMB, moeda chinesa), apenas nos levaria a comprar mais têxteis e aparelhagem ao Bangladesh ou ao Cambodja, em lugar da China; o défice manter-se-ía inalterado. O Presidente reclama-se adepto do comércio livre, no entanto promulgou medidas de protecção para a indústria nacional do aço. Os EUA pressionaram fortemente o estabelecimento de uma série de acordos comerciais bilaterais com países mais pequenos à custa de ameaças e levando-os a aceitar toda a espécie de condições draconianas, tais como alargar o âmbito das patentes de forma abrangerem os medicamentos de que esses países tanto carecem para lutarem contra a SIDA. Pressionámos o mundo inteiro a abrir o mercado, mas impedimos a China de adquirir a Unocal, uma pequena companhia petrolífera dos EUA cujos activos se encontram principalmente fora do país.
Sem surpresa, explodiram protestos contra as práticas comerciais dos EUA em países como a Tailândia e Marrocos. Mas os EUA recusaram os compromissos - por exemplo, para abdicar dos enormes subsídios agrícolas, que distorsem o mercado internacional e prejudicam os agricultores pobres dos países em desenvolvimento. Esta intransigência levou ao colapso das negociações empreendidas para a abertura dos mercados internacionais. Como em muitas outras áreas, o Presidente Bush esforçou-se por enfraquecer o multirateralismo - a noção de que todos os países precisam cooperar - substituindo-o pelo sistema de domínio americano. Afinal, não conseguiu impôr o domínio - mas conseguiu enfraquecer a cooperação.
O desprezo primário da administração pelas instituições globais atingiu o cúmulo quando, em 2005, designou Paul Wolfowitz, antigo Secretário-adjunto para a Defesa e mentor principal da guerra do Iraque, como Presidente do Banco Mundial. Alvo da suspeição geral e cedo apanhado nas malhas de uma controvérsia particular, Wolfowitz transformou-se numa vergonha internacional e foi obrigado a demitir-se passados menos de dois anos no posto.
Globalização significa que a economia americana se tornou intimamente ligada à economia do resto do mundo. Consideremos as más hipotecas americanas. À medida que as famílias falhavam as prestações, os detentores das casas hipotecadas descobriram que apenas possuiam pedaços de papel inútil. Os originadores destes empréstimos problemáticos já os haviam vendido a outros, que os fundiram de forma não-transparente com outros valores, transferindo-os depois para terceiros não identificados. Quando o problema se tornou visível, as bolsas de valores globais sofreram abalos reais: descobriu-se que milhares de milhões de dólares em empréstimos incobráveis se encontravam escondidos em títulos accionistas na Europa, na China e na Austrália e até nos bancos de investimento exemplares dos EUA, tais como o Golden Sach e o Gear Stearns. A Indonésia e outros países em desenvolvimento - espectadores realmente inocentes - sofreram quando o índice global de risco dos investimentos subiu e os investidores sacaram o dinheiro destes mercados emergentes, à procura de paraísos mais sólidos. Demorará anos a ultrapassar esta situação.
Entretanto, tornámo-nos dependentes de outras nações para financiarmos a nossa própria dívida. Hoje, a China sozinha detem mais de 1 bilião de dólares em títulos de dívida americana públicos e privados. O valor acumulado dos empréstimos contraídos no estrangeiro pela administraçao Bush ao longo dos seis últimos anos totaliza perto de 5 biliões de dólares. É plausível que estes credores não reivindiquem o seu dinheiro - se o fizessem, desencadeariam uma crise financeira mundial. Mas há algo de bizarro e perturbador no facto de a nação mais rica do mundo não conseguir, nem de perto nem de longe, viver pelos seus próprios meios. Tal como Guantánamo e Abu Graib feriram a autoridade moral dos EUA, assim a política doméstica da administração Bush desgastou a nossa autoridade económica.
Anya Schiffrin and Izzet Yildiz colaboraram nas pesquisas para este artigo.
in Joseph Stiglitz
The Economic Consequences of Mr. Bush
publicado por Vanity Fair em



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