terça-feira, novembro 24, 2009

Karl Müller - A base comum de valores de Ângela Merkel

Ângela Merkel invocou a «base comum de valores» que «aproximam e unem os Estados Unidos da América e a Europa. É uma visão comum do homem e da sua dignidade inalienável. é uma concepção comum da liberdade e da responsabilidade.» Razão pela qual Ângela Merkel estima que «para nós, o nosso modo de vida é o melhor de todos.»
Jürgen Todenhöfer é membro do mesmo partido que a Sra Merkel. Estudou durante anos o verdadeiro significado dos «valores fundamentais». Fez numerosas viagens ao Próximo Oriente e à Ásia central e publicou artigos a propósito. Por exemplo, no que respeita ao Iraque («Frankfurter Rundschau», 12 de Outubro), escreveu: «A chihita Manal tem 28 anos e vive com a sua mãe, tal como milhares de outros refugiados iraquianos de confissão muçulmana ou cristã, nos arredores pobres de Damasco, a capital da Síria. Foi lá que a encontrei e que ela me informou sobre o tratamento a que foi sujeita pelos militares dos Estados Unidos da América antes de fugir do Iraque. Teve que fugir, mas apresentou uma queixa contra o governo dos Estados Unidos da América.
No Inverno de 2004, os soldados dos Estados unidos da América invadiram a casa da família de Manal. Foi algemada, tal como a sua mãe e, com a cabeça enfiada dentro de um saco preto, foi levada por avião a uma prisão no aeroporto de Bagdad. Os soldados dos Estados Unidos da América acusaram ambas de serem terroristas. Mas, logo que as acusações se revelaram sem fundamento, endureceram os métodos do interrogatório: à noite, Manal viu-se sobressaltada por uma música infernal e projectaram-lhe água gelada no corpo. Os soldados embriagados ameaçaram-na de a violar caso ela não colaborasse.
Uma tarde, conduziram Manal para um quarto com uma mesa vazia ao centro. De seguida, um jovem iraquiano foi empurrado brutalmente para dentro da sala, imobilizado de barriga para baixo sobre a mesa, as suas pernas foram afastadas a pontapé e um soldado dos Estados unidos da América começou a viola-lo. Manal tentou desesperadamente baixar os olhos, mas foi obrigada a manter a cabeça direita. Logo que regressou à sua cla, cortaram-lhe os seus longos cabelos pretos que eram o seu orgulho.
Alguns dias mais tarde ameaçaram-na com o fuzilamento da sua mãe caso não colaborasse. Colocaram-lhe novamente um saco à volta da cabeça e depois ela escutou disparos de arma no quarto vizinho. Os soldados disseram que foram destinados à sua mãe. Manal chorou. Este jogo continuou no dia seguinte com a sua mãe. Ao fim de 33 dias, Manal foi abandonada à noite numa rua. A sua mãe esteve presa durante seis meses na tristemente célebre prisão de Abu Grahib.»

Horizons et Débats, 16 de Novembro de 2009

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quinta-feira, novembro 12, 2009

Cucha Carvalheiro - Porquê máquina de somar?

Cucha Carvalheiro


Para dirigir o espectáculo de inauguração desta nova etapa do Teatro da Trindade desafiei a Fernanda Lapa. Questão de confiança artística e profissional, questão também de homenagear uma Mulher de Teatro que desde sempre tem lutado por uma maior presença feminina no tecido teatral português. Com ela partilhei a minha vontade de apresentar um espectáculo musical e popular, cujo tema fosse relevante e actual, que simultaneamente divertisse e levantasse questões na ordem do dia.

Vivemos numa época em que a política tem vindo a ser reduzida à economia, a economia ao crescimento e ao lucro. Os cidadãos, convertidos em seres descartáveis que perderam referências e horizontes, refugiam-se na rotina entre o trabalho (aqueles que o têm) e a vida privada, sentindo-se impotentes perante um sistema que lhes é apresentado como inevitável. Cada vez convivemos menos, cada vez discutimos menos, cada vez nos confrontamos menos connosco próprios, cada vez ousamos menos expor sentimentos genuínos.

Máquina de somar, de Else Rice, escrita à 88 anos e cuja recente adaptação musical apresentamos, veio ao encontro destas preocupações, cumprindo uma das mais nobres funções do Teatro desde as suas origens atenienses, a reflexão sobre a condição humana e a Polis, o Teatro ao serviço do exercício da Cidadania.

Não posso deixar de agradecer ao António Lagarto que, desde o primeio momento, abraçou o Projecto; à Ana Zanatti, que aceitou o desafio de traduzir e adaptar o texto; ao João Paulo Soares, que assumiu a direcção musica; à Marta Lapa, que assina a coreografia e ao Paulo Sabino, responsável pelo desenho da luz.

Mas Máquina de Somar é mais do que a soma de algumas cumplicidades. è o encontro feliz de uma equipa cujo entusiasmo nos contagia, graças ao empenhamento de um brilhante conjunto de criativos e ao talento e entrega de todos os intérpretes.


Este espectáculo estreou-se no Teatro da Trindade de Lisboa, no Salão Nobre, a 17 de Outubro e está em cena até 24 de Novembro de 2009

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sexta-feira, junho 26, 2009

Triller

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sexta-feira, março 27, 2009

M. SHAHID ALAM - O Capitalismo na perspectiva das suas vítimas

Nunca foi fácil fazer uma crítica ao capitalismo ou aos mercados aos meus alunos do secundário. Muitos nunca terão escutado uma palavra menos simpática contra estas instituições basilares, que reconhecem como pilares do poder e da prosperidade dos Estado Unidos da América.

Estas são instituições sacralizadas. A capacidade do capital privado produzir empregos, riqueza e liberdade é um dos dogmas centrais que muitos norte-americanos absorvem com o leite materno. Ouvir um desafio a tal dogma - qualquer que seja o contexto - é perturbador. Às vezes, suspeito que esta pastilha amarga é ainda mais difícil de engolir pelo facto de eu não ser, notoriamente, um nativo dos Estados Unidos da América.

Nas últimas semanas, porém, essas convicções parecem ter enfraquecido. No passado tomava-se como certo que os mercados estavam a cumprir um papel benéfico, espalhando a prosperidade a alguns pontos centrais do capitalismo global. Fazem o trabalho para nós, ainda que isso possa não funcionar para os asiáticos, os africanos e os latino-americanos.

No entanto, a contestação de que o mercado "livre" raramente funcionava com economias afastadas dos grandes centros do desenvolvimento parecia carecer de fundamento. Aparentemente, tal não era uma falha do mercado. Por muito tempo, o Ocidente convenceu-se de que os asiáticos, os africanos e os latino-americanos não conseguiam porque eram preguiçosos, esbanjadores, corruptos e parcos em imaginação.

Os meus alunos - tal como a maior parte dos norte-americanos - encaram o capitalismo na perspectiva dos vencedores do capitalismo global. Por um acaso de nascimento, tornaram-se beneficiários das riquezas e do poder que o capitalismo global concentra em alguns pontos do sistema. Não concebem que o sistema que tão bem funcionou para eles seja capaz de produzir miséria na Ásia, África e América Latina.

Estive afastado das minhas ocupações docentes na altura em que os Estado Unidos da América conduziram o mundo para uma depressão profunda. Em poucos meses, os gigantes da Wall Street (Bolsa) estatelaram-se ao comprido, foram salvos da extinção por meio dos impostos dos contribuintes. Vacilando à beira da bancarrota, os gigantes da indústria automóvel sobrevivem hoje também à custa dos dinheiros dos contribuintes, sendo incerto qual será o seu futuro. Neste remoinho, os passos de Bernard Maddoff, o Einstein do esquematismo, prosseguiram o seu embuste colossal durante vinte anos sem que os reguladores dessem por isso.

Milhões de norte-americanos perderam o seu emprego; milhões estão ameaçados de perder as suas casas; milhões viram as suas poupanças de reforma evaporarem-se à frente dos olhos; milhões estão em vias de perder a assistência à doença. Enquanto os norte-americanos da rua eram devastados, os dirigentes dos bancos salvos por intervenção pública continuaram a receber milhões em bonificações. A corda esticada ameaça agora quebrar a aclamada tolerância dos norte-americanos para com as diabrites do sistema capitalista.

Usualmente, a democracia norte-amaericana dirige a sua verrina contra os escritores e activistas de esquerda, suficientemente loucos para procurarem defender os desprivilegiados. Desta vez, a fúria dos norte-americanos voltou-se contra os capitães da finança e os veneráveis banqueiros com uma violência invulgar - incluindo ameaças de morte.

Encontrava-me em licença sabática quando Al-Caida destruiu as Torres Gémeas, no 11 de Setembro. Fui, na altura, dispensado de acompanhar os meus alunos, por receio de que me pudessem tomar como um dos fautores daquele ataque.

Novamente me encontrava em licença sabática na altura em que as torres da Wall Street desabaram por cupidez, imprudência e fraude; por uma ideologia do mercado livre que não tem contemplações face à vida humana; por elites capitalistas e seus parceiros na Casa Branca e no Congresso, que transformaram o sector financeiro numa esquema gigantesco de embuste.

Os norte-americanos foram atingidos por actos de terrorismo com consequências a longo prazo para a vida humana de dimensão tal que, no balanço, farão com que o 11 de Setembro pareça uma sessão de chá das cinco. Os perpetradores deste terror são todos internos; não foram treinados nas montanhas do Afganistão, mas em Harvard, Yale e Stanford; foram banqueiros, directores e legisladores, que rezam nos Estados Unidos da América e se encontram entre a nata da sociedade desta nação.

Quando retomei as aulas no final deste ano, encontrei, como era de esperar, alunos marcados por esta experiência. Nada destói tão rápida e eficazmente a ideologia capitalista como as crises capitalistas. Nenhuma crítica ao capitalismo é mais contundente que a devastação do desemprego, a pauperização e a expulsão das suas casas que este inflinge às suas vítimas. Atingidas tão recentemente - no próprio centro do capitalismo global - talvez os cidadãos norte-americanos comecem a entender as vítimas do exterior dos EUA - as que estão em África, Ásia e América Latina - que já foram devastados por este sistema durante séculos.

As ideologias capitalistas procuram a todo o vapor desviar a angústia contra o sistema e apontá-la contra uns poucos vilões, umas tantas maçãs podres. As audições no Congresso identificarão os bodes espiatórios; crucificarão umas tantas bruxas. Serão sacrificados alguns barões do capitalismo. Ao esmorecer a fúria do público, tentar-se-á desviar a culpa para compradores de casas incumpridores e consumidores compulsivos. O espactáculo capitalista deverá então continuar com o mínimo possível de alterações.

Longe porém desta crise, as novas tecnologias, combinadas com o deslocamento irreversível da soberania de alguns segmentos do capitalismo para a periferia, alteraram a dinâmica do desenvolvimento desigual. Os trabalhadores de rendimentos mais altos - a chamada classe média dos países desenvolvidos - foram perdendo as prerrogativas que desfrutaram durante muito tempo, ao entrarem em competição com os trabalhadores de baixos rendimentos da China e da Índia.

Cada vez mais o capitalismo global enriquecerá alguns trabalhadores da periferia à custa dos trabalhadores do centro do capitalismo. Nos próximos anos, a grande aliança que foi forjada entre os capitalistas e os trabalhadores no centro do capitalismo ficará sujeita a uma grande tensão. Cada vez mais, os interesses destas duas classes divergirão.

Empresas poderosas insistirão na abertura, enquanto uma parte cada vez mais importante de trabalhadores reclamarão pelo proteccionismo. Este renascimento do conflito de classes no velho centro do capitalismo alterará as alianças políticas actuais. Depois de terem cooperado durante mais de um século, as instituições democráticas começarão a ameaçar as elitres das corporações. Serão apresentadas novas exigências aos mercenários da intelectualidade nos grandes meios de comunicação social e na academia para encontrarem novos e mais eficientes instrumentos destinados à imbecilização do povo.

Quando um número cada vez mais elevado de trabalhadores de altos rendimentos dos países ricos se tornar, ele próprio, vítima do capitalismo, será que aprenderão a olhar para o capitalismo do ponto de vista das vítimas costumeiras? Consegui-lo-ão nesta nova realidade emergente, com a economia ortodoxa a fugir dos velhos centros em Londres, Cambridge e Chicago rumo aos novos centros em Bangalore e Pequim?

Estranho mundo será este, visto a partir dos velhos centros. Na verdade, ocorrerá uma correcção muito atrasada por dois séculos de desenvolvimento desigual dominado pelas potências ocidentais. Tampouco esta correcção será suficiente: deixará de fora uma grande parte do mundo, mergulhada em pobreza e doença.

M. SHAHID ALAM, Capitalism From the Standpoint of Its Victims, Counterpunch, 23 de Março de 2009

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sexta-feira, março 20, 2009

Bancos e bónus

As palavras banco e bónus não devem ser usadas na mesma frase (Ministro dinamarquês das finanças).
NRC Handelsblad, 20 de Março de 2009

Congresso dos EUA aprova taxa de imposto de 90% sobre bonificações dos adminsitradores de bancos intervencionados.
The New York Times, 20 de Março de 2009


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sexta-feira, fevereiro 20, 2009

Joseph Stiglitz - Ligações perigosas

A macro-economia vai atingindo a maturidade. A validade universal de alguns conceitos é contestada por novos modelos. Os acontecimentos recentes levaram um grupo de investigadores a empreender um estudo que completa os conhecimentos adquiridos até à data nesta área. (AF)


Procurámos caracterizar o comportamento de uma rede de créditos financeiros ao longo do tempo por meio de um sistema de processos estocásticos interdependentes, cada um dos quais satisfazendo as condições da sua própria robustez financeira. A ligação entre os processos advem de a robustez de cada agente financeiro estar dependente da robustez dos seus parceiros, tornando os nós da rede acoplados e, por arraste, a própria rede acoplada. Os elementos de acoplamento são a partilha do risco (associado a cada operação de crédito), a propagação dos incumprimentos das dívidas e das bancarrotas em cascata. Neste cenário, considerámos o impacto da quebra de um nó particular em diversas redes, com o grau de conectividade (interdependências) cada vez mais forte. Assumidas determinadas condições à partida, à redução do risco individual - tornando-o partilhado - correspondia um incremento do risco sistémico - com o alastramento dos incumprimentos. Quanto maior o número de nós adjacentes a que cada agente se interligava, menor o risco de colapso individual, mas maior o risco sistémico. Por outras palavras, no nosso estudo, a relação entre grau de interligação e risco sistémico não decresce indefinidamente, contrariamente ao que está previsto na literatura. A intervenção isolada do factor risco seria o de diluir até ao desaparecimento completo o risco para o sistema global, à medida que o número de interligações da rede aumentasse. Quando associada aos outros dois factores, ao que se acrescenta ainda a auto-alimentação - isto é, o facto de a rede acabar por repercurtir num nó individual financeiramente frágil os efeitos da sua própria fragilidade - o choque inicial sai muito reforçado e pode conduzir à crise sistémica completa, caso excedam o contrapeso do risco partilhado.


Resumo de Liasons Dangereuses: Increasing Connectivity, Risk
Sharing, and Systemic Risk

Stefano Battiston, Domenico Delli Gatti, Mauro Gallegati, Bruce Greenwald e Joseph E. Stiglitz
17 de Outubro de 2008

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terça-feira, fevereiro 10, 2009

NASA apresenta novo veículo de exploração



Investigadores da NASA disseram hoje que construiram e testaram um robô capaz de escalar escarpas, atravessar terrenos inclinados e rochosos e explorar crateras profundas. O protótipo do veículo, baptizado Axel, poderá ajudar a aprofundar as explorações e investigações de territórios exteriores à Terra, como Marte. Também na Terra, o Axel poderá ser útil em operações de busca e salvamento para atravessar terrenos impossíveis pelos veículos convencionais.

Michael Cooney - NASA fashions mountain climbing robot, Network World, 9 de Fevereiro de 2009

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quarta-feira, fevereiro 04, 2009

Paul Craig Roberts - A guerra ao terror é uma mistificação

Paulo Craig RobertsFazendo fé na propaganda, há células terroristas espalhadas por todo o território dos EUA, o que torna forçoso ao governo espiar cada cidadão, em violação da maior parte das restantes garantias constitucionais para além da segurança. Entre as últimas palavras do ex-Presidente Bush, proferidas antes de se retirar, está o aviso de que os EUA seriam atingidos novamente por ataques terroristas muçulmanos.

Se os EUA estivessem tão infestados de terroristas, o governo nem precisaria de nos esclarecer. Sabê-lo-íamos pelos factos. Porque os factos não confirmam, vem o governo propagando alarmes que avivem os nossos medos, para que aceitemos guerras não justificadas, violações dos direitos cívicos e dos registos de identidade nacionais, interpelações e perseguições ao viajarmos.

A prova mais forte de que não há células terroristas é que nem um único neoconservador foi assassinado.

Não aprovo os assassinatos e tenho vergonha de que o governo do meu país se tenha comprometido com assassinatos políticos. Os EUA e Israel deram um muito mau exemplo para al Quaeda seguir.

Os EUA lida com al Quaeda e com os talibãs assassinando os seus dirigentes; Israel lida com o Hamas assassinando os seus dirigentes. É razoável supor que al Quaeda lide com os instigadores e dirigentes norte-americanos das guerras no Médio Oriente da mesma maneira.

Hoje, todo o membro de al Quaeda está ciente da cumplicidade dos neoconservadores na morte e devastação inflingida aos muçulmanos no Iraque, Afganistão, Líbano e Gaza. Além disso, os neoconservadores são facilmente localizáveis e alvos comparativamente fáceis quando comparados aos dirigentes do Hamas ou do Hezbolá. Os neoconservadores estão identificados pela imprensa há largos anos e, como toda a gente sabe, existem mesmo listas com os seus nomes na internet.

Os neoconservadores não dispõem de protecção da polícia secreta. É terrível reconhecer, mas seria uma brincadeira de criança para al Quaeda assassinar quer um quer todos os neoconservadores. No entanto, os neoconservadores deslocam-se livremente e tal demonstra que os EUA não sofrem do problema do terrorismo.

Se, como os neoconservadores tanto insistem, os terroristas conseguem importar clandestinamente armas nucleares ou outras armas sujas, com as quais poderiam destruir as nossas cidades, com mais facilidade ainda poderiam adquirir armas ligeiras para assassinar cada um dos neoconservadores ou membro do governo anterior.

Porém, os neoconservadores norte-americanos mais odiados pelos muçulmanos permanecem intocados.

A "guerra ao terror" é uma mistificação que encobre o controlo exercido pelos EUA sobre os oleodutos, os lucros do complexo militar e de segurança e o assalto às liberdades dos cidadãos empreendida pelos que procuram internamente criar um estado policial e externamente expandir o território de Israel.

No Iraque, não existia al Quaeda até à chegada dos norte-americanos, aquando da invasão e derrube de Saddam Hussein, que os havia mantido afastados. Os talibãs não constituem uma organização terrorista, antes um movimento que tenta unificar o Afganistão sob a lei muçulmana. Os únicos norte-americanos que estão verdadeiramente ameaçados pelos talibãs são os que Bush enviou ao Afeganistão com a missão de os matar e impor um estado fantoche ao seu povo.

O Hamas é o governo democraticamente eleito na Palestina; ou no pouco que sobra da Palestina após as anexações ilegais de Israel. O Hamas é tanto uma organização terrorista quanto os governos de Israel e dos EUA. Numa tentativa de submeter o Hamas à sua hegemonia, Israel usa o terror das bombas e os assassinatos contra os palestinianos. O Hamas responde ao terror de Israel com foguetes artesanais e quase inócuos.

O Hezbolá representa os xihitas do Sul do Líbano, outra zona do Médio Oriente que Israel tem nos seus planos de expansão.

Os EUA classificaram o Hezbolá de "organização terrorista" pela simples razão de se posicionarem neste conflito do lado de Israel. Não há razões fundamentadas para que o Departamento de Estado dos EUA considere o Hamas ou o Hezbolá organizações terroristas. Não passa de mera propaganda.

Os norte-americanos e israelitas não chamam terrorismo aos bombardeamento que levam a cabo sobre civis. O que os norte-americanos e israelitas disignam por terror é a resposta desse povo oprimido, que não possui um estado porque o seu país foi governado por marionetes leais aos opressores. Este povo, despojado no seu próprio país, não tem um Departamento de Estado (Ministério dos Negócios Estrangeiros), nem um Ministério da Defesa, tampouco representação nas Nações Unidas ou voz nos grandes meios de difusão. A sua única opção é submeter-se à hegemonia estrangeira ou resistir com os meios exíguos que dispõe.

O facto de Israel e os EUA promoverem uma propaganda constante que impeça estes factos fundamentais de serem reconhecidos indica que tanto Israel como os EUA não têm razão e que os palestinianos, os libaneses, os iraquianos e os afegãos estão a ser enganados.

Alguns generais norte-americanos reformados, em serviço de propaganda na "Fox News", afirmam constantemente que o Irão fornece armamento ao Iraque e aos insurrectos afegãos e do Hamas. Mas onde estão essas armas? Para enfrentar os tanques norte-americanos, os insurrectos têm que construir engenhos explosivos em casa, desprovidos de invólucros balísticos. Passados seis anos de conflito, os insurrectos ainda não conseguem defender-se dos helicanhões norte-americanos. Compare-se este "armamento" com a artilharia que os EUA forneceram aos afegãos há três décadas atrás, quando estes se encontravam em guerra com a União Soviética.

Os filmes dos ataques mortíferos a Gaza mostram muitos palestinianos a fugir das bombas, outros mortos ou estropiados, mas nenhuma dessas pessoas está armada. A esta hora, era fácil acreditar que todos os palestinianos andassem armados, não apenas os homens, como as mulheres e até as crianças. Porém, o que vimos em todos os filmes dos ataques de Israel foi uma população palestina desarmada. O Hamas teve de construir bombas em casa, que pouco mais são que um sinal de protesto. Se o Hamas estivesse armado pelo Irão, o assalto a Gaza teria custado a Israel no mínimo alguns helicópteros e tanques e algumas centenas de mortos entre os soldados.

O Hamas é uma pequena organização armada de espingardas de pequeno calibre, inofensivas contra um corpo blindado de artilharia. O Hamas nem tem capacidade para impedir que pequenos grupos de colonos judeus caiam sobre aldeias palestinas do "West Bank", expulsem de lá os palestinianos e se apropriem das suas terras.

Difícil é compreender o facto de, passados já 60 anos de opressão, os palestinianos continuarem desarmados. Há certamente países muçulmanos cúmplices de Israel, tão certo como os EUA desejarem mantê-los desarmados.

A afirmação não fundamentada de que o Irão fornece armas sofisticadas aos palestinos assemelha-se a outra afirmação, igualmente sem fundamento, de que Saddam Hussein detinha armas de destruição massiva. Tais afirmações são atoardas propandandísticas destinadas a justificar a morte dos civis árabes e a destruição das infraestruturas urbanas com o propósito de impor a hegemonia de Israel e dos EUA no Médio Oriente.


Paul Craig Roberts, The War on Terror is a Hoax, publicado por Counterpunch a 4 de Fevereiro de 2009

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terça-feira, janeiro 06, 2009

Joseph Stiglitz - Capitalistas estúpidos

Joseph Stiglitz
“Quando vierem a acalmar-se as ameaças mais urgentes colocadas pela crise do crédito, encontrar-nos-emos perante a tarefa principal de elaborar uma orientação para o caminho económico do futuro. Por detrás dos debates acerca da futura política económica há um debate acerca da história: um debate acerca das causas da nossa situação actual. A batalha sobre o passado determinará a batalha sobre o presente. Por isso é necessário compreender bem a história”.


ODiario.info, 5 de Janeiro de 2009

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quarta-feira, novembro 05, 2008

George Bush - o fim

Fim da era Bush

Der Spiegel, 31 de Outubro de 2008

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domingo, novembro 02, 2008

Simon Duke - Prémios para gestores da Goldman Sachs

Para quem não saiba, a Goldman Sachs é a instituição financeira de onde saiu o actual Secretério de Estado do Tesouro (ministro das finanças) dos EUA. Eis o sentido definitivo da alegada superioridade da gestão privada: saque directo dos impostos dos contribuintes. (AF)

A Goldman Sachs prepara-se para pagar aos administradores de topo prémios multimilionários, apesar de ter pedido ao governo um fundo de salvação de emergência.

Ontem soube-se que reservou 7 mil milhões de dólares para prémios e salários, respeitantes ao ano de 2008.

Cada um dos 443 parceiros da empresa está em vias de embolsar uma média de 3 milhões em prémios de Natal.

Simon Duke, Goldman Sachs ready to hand out £7bn salary and bonus package... after its £6bn bail-out, Daily Mail, 30 de Outubro de 2008

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terça-feira, outubro 21, 2008

Jim Brown - Tempestade no Deserto

Apresente-se, por favor.
Chamo-me Jim Brown. Sou veterano do exército americano com dez anos de experiência.

Quando esteve no Iraque?
Fui enviado para Arábia Saudita para apoiar as tropas que deveriam intervir no Iraque. Entrei em serviço em 25 de Setembro e deixei a Arábia Saudita em 16 de Fevereiro de 1991.

O que ocorreu ali que ainda não é conhecido?
Os militares americanos, junto com seus aliados, lançaram uma bomba nuclear de cerca de cinco quilotoneladas de potência na zona de Basrá, no Iraque.

Onde a lançaram?
Entre a cidade de Basra e a fronteira com o Irão.

Quem a lançou?
O serviço foi feito por militares americanos. É uma bomba nuclear de cinco quilotoneladas que tem o nome de ''bomba nuclear de potência variável''.

...


Não tem medo de falar disso?
É preciso entender o que é o medo. Há um ponto em que deve dizer: Basta! E quando você supera essa linha, não é por estar muito certo de si. Você faz ou não faz. Quando estava ao serviço levantei a mão direita e fiz um juramento, afirmando ''Isso é o que defenderei''.

Transcrição parcial da entrevista encontrada em Antreu, 20 de Outubro de 2008

Jim Brown
(Clicar sobre a figura para lançar o vídeo da entrevista)


Mais referências em:
L’accusa del veterano la terza bomba nucleare, RaiNews24, 8 de Outubro de 2008

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quarta-feira, outubro 15, 2008

Governo dos EUA nacionaliza bancos

Washington - Os directores executivos de nove dos maiores bancos dos EUA encafuaram-se numa sala de conferências apertada no Departamento do Tesouro (Ministério das Finanças), às 3 da tarde. Para seu espanto, cada um levava um papel na mão onde se declarava que concordava em vender acções ao governo. Mais tarde, o Secretário do Tesouro, o Sr Henry M. Paulson, informou-os que deveriam assinar o papel antes de abandonar a sala.

Ler o resto aqui.

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A crise do suprime

Recebido por email de Agostinho Rodrigues (AF)

Para quem não entendeu ou não sabe bem o que é ou gerou a crise americana, segue breve relato econômico para leigo entender...
É assim:
O seu Biu tem um bar, na Vila Carrapato, e decide que vai vender cachaça 'na caderneta' aos seus leais fregueses, todos bêbados, quase todos desempregados. Porque decide vender a crédito, ele pode aumentar um pouquinho o preço da dose da branquinha (a diferença é o sobre preço que os pinguços pagam pelo crédito).

O gerente do banco do seu Biu, um ousado administrador formado em curso de emibiêi, decide que as cadernetas das dívidas do bar constituem, afinal, um ativo recebível, e começa a adiantar dinheiro
ao estabelecimento, tendo o pindura dos pinguços como garantia.

Uns seis zécutivos de bancos, mais adiante, lastreiam os tais recebíveis do banco, e os transformam em CDB, CDO, CCD, UTI, OVNI, SOS ou qualquer outro acrônimo financeiro que ninguém sabe exatamente o que quer dizer.

Esses adicionais instrumentos financeiros, alavancam o mercado de capitais e conduzem a operações estruturadas de derivativos, na BM&F, cujo lastro inicial todo mundo desconhece (as tais cadernetas do seu Biu).

Esses derivativos estão sendo negociados como se fossem títulos sérios, com fortes garantias reais, nos mercados de 73 países.

Até que alguém descobre que os bêbados da Vila Carrapato não têm dinheiro para pagar as contas, e o Bar do seu Biu vai à falência. E toda a cadeia sifudeu !

Viu... é muito simples...!!!

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terça-feira, outubro 14, 2008

Explicação simples da crise financeira

(link recebido por email de Silva Santos)

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quarta-feira, outubro 08, 2008

Jochen Scholz - Projecto Europeu para o Novo Século (10)

(Início)

Perspectivas

A Europa não pode, pelo seu peso global, furtar-se a desempenhar um papel mundial. É escutada fora do «Ocidente» e nos níveis mais altos da ONU. Não, concerteza, por reproduzir ou se deixar envolver na actual ordem hegemónica. Uma ordem mundial conforme ao espírito europeu deveria antes apontar para que «a Europa e os USA se entendam, ainda que as suas posições não sejam no futuro tão dominantes como hoje.» Se substituirmos nesta afirmação «os USA e a Europa» por «A Inglaterra e a França», revelar-se-á a chave do sucesso desta proposta dentro da União Europeia. Helmut Khol, assim como os seus antecessores, estão conscientes disso, mas os sucessores, não havendo passado pela experiência da guerra, reclamam para a Alemanha uma normalidade que a sua História no Século XX não permite. Enviarão para os órgãos do governo, onde se encontram os escalões intermédios de gestão, um sinal errado. Os escalões intermédios estão já nas mãos de uma geração que nem havia atingido a idade da reflexão no tempo da Guerra Fria.
Só um empenhamento activo em prol de uma mudança nas condições da política internacional terá hipóteses de criar novas oportunidades. Cada euro que a Europa gaste para reparar os Estados despedaçados pelos golpes cirúrgicos dos EUA é retirado aos investimentos nacionais. O recurso às empresas sub-contratadas que lucram com isso, como no Iraque neste momento, não compensam as perdas para a economias domésticas. Cada yuan dispendido em dólares é retitado ao desenvolvimento interno da China. As tentativas europeias de inflectir a política não passaram, até à data, do estado embrionário, apesar dos sinais de apoio muito claros, vindos, por exemplo, da China. Os «encontros euro-asiáticos anuais e as visitas das chancelarias alemãs a Pequim nada alteraram. Logo, considerando as previsões de especialistas reputados do petróleo e a extrema fragilidade do sistema financeiro mundial, o tempo urge. Os recentes acontecimentos no Cáucaso anunciam, além disso, uma mudança de paradigma: a Rússia regressa à cena internacional. Os EUA encaixaram aqui o seu primeiro «contra-golpe», que Chalmer Johnson anteviu há oito anos:
«Os USA facilmente se arvoram em vitoriosos da Guerra Fria. Com toda a verossimilhança, quem espreitar retrospectivamente para este século, não o irá lá descobrir como vencedor, principalmente se os EUA se obstinarem na sua actual política imperial.»

A reacção de um jogador de boxe é conhecida. A História oferece-nos muitos exemplos de Estados que jogaram tudo na mesma carta, logo que se convenceram que estavam encostados à parede. O ex-diplomata Kishore Mahbubani anunciou, no seu livro aparecido em 2008 «O Novo Hemisfério Asiático. O Deslize Irresistível do Poder Global para Leste» o «crepúsculo dos deuses» do ocidente. Da imagem dada pelos media ocidentais durante a breve guerra na Geórgia, escreveu, a 20 de Agosto de 2008:
É, portanto, crucial para o Ocidente que tire lições dos acontecimentos na Geórgia. Deve ter em conta que o seu pensamento estratégico restringe as opções à sua disposição. Após o afundamento da União Soviética, os analistas ocidentais acreditaram que, para o Ocidente, seriam dispensáveis novos compromissos geopolíticos. Pederiam impôr os seus ditames. Agora, devem reconhecer a realidade. A população conjunta da América do Norte, União Europeia e Australásia é de 700 milhões, cerca de 10% da população mundial. Os restantes 90% lutam por deixarem de ser objecto da História, para se tornarem sujeitos da História. O ‹Financial Times› de 18 de Agosto de 2008 proclamava ‹Frente ocidental unida na Geórgia›. Melhor fora que escrevesse ‹resto do mundo ri-se do Ocidente por causa da Geórgia›
Estas análises, contudo, ainda não foram suficientes para convencer o conselheiro-chefe do candidato democrata à presidência dos EUA, Zbigniew Brzezinski, como mostram os comentários que fez à crise no Cáucaso. Eis como exprime o seu furor sagrado:
«Actualmente a Europa - apesar do seu crescimento económico e integração financeira, assim como da duração das suas relações transatânticas - é um protectorado militar de facto dos Estados Unidos da América. Esta situação gera necessariamente tensões e ressentimentos, especialmente desde que a ameaça directa que pendia sobre a Europa e que justificava essa dependência dos EUA se desvaneceu. É um facto que a aliança entre os EUA e a Europa é desiquilibrada, mas mais do que isso, é verdade que o desiquilíbrio existente entre os dois irá ampliar-se a favor dos EUA.»
Junte-se a lastimável estratégia de divisão empreendida pela entrada da Polónia e da República Checa no «Sistema Nacional de Defesa» [a instalação do escudo antimissil]. Tudo isto exige da Europa uma resposta adequada. Até para bem dos próprios EUA.

(Traduzido por Michèle Mialane, revisto por Fausto Giudice/Tlaxcala)

Tradução a partir da versão francesa:
Jochen Scholz, PNEC – Project for the New European Century, Horizons et débats, 15 de Seyembro de 2008

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sexta-feira, outubro 03, 2008

Jochen Scholz - Projecto Europeu para o Novo Século (7)

(Início)

Terrorismo: um meio de esconder os objectivos imperialistas

A nova ordem mundial, sob o lema «America first», baseia-se na supremacia militar, no dólar como moeda-padrão, no controlo dos fluxos de combustíveis, na mão firme sobre as instituições que dominam a economia mundial e no direito do mais forte. O «terrorismo internacional» só serve para justificar, aos olhos da população dos EUA, a manutenção de um aparelho de defesa gigantesco após o desaparecimento de todas as ameaças sérias. Paralelamente, o novo inimigo permite manter na trela os países emergentes e industrializados e forçar os países credores a aceitar uma moeda desgarrada da economia real.
Face à ordem do mundo, em que um dos actores beneficia de forma desproporcionada face aos meios de que dispõe, os restantes actores são forçados a colocar-se algumas questões às quais é possível encontrar dois tipos de respostas:

Adaptar-se - submeter-se - acompanhar contrariado - acomodar-se - reagir?

Os maiores riscos associados à primeira fórmula são: a dependência crescente indo até à vassalagem, a perda das margens de manobras próprias e do poder de iniciativa política autónoma, a insegurança jurídica, o comprometimento em guerras desestabilizadoras, a morte dos seus soldados, a delapidação dos seus recursos materiais e intelectuais, a emergência de contra-poderes agressivos, o descrédito da Europa e o perigo do afundamento do sistema democrático. A esperança de se encontrar no futuro entre os vencedores é bem pequena, na maior parte dos casos. A Europa e os países asiáticos alinhados com os EUA enganar-se-ão, caso procurem em anos vindouros os retornos económicos que caracterizaram os anos de 1945-1990. Estes deveram-se exclusivamente à Guerra Fria.

A Europa tem de encontrar aliados para reconduzirem os EUA à razão

De facto, o «bom mestre» de Joseph Joffe já não serve. O seu propósito de continuar a partilhar, como no passado, um bolo cada vez mais pequeno já não é viável. A concorrência está demasiado forte e ele está submerso até ao pescoço. A segunda via também comporta riscos. Mas oferece mais oportunidades que riscos, pois se trata de uma alternativa necessariamente oposta, leia-se «civil», e a dinâmica a que está associada oferece muitas possibilidades. A iniciativa, a dinamização e o suporte desta alternativa cabe somente à Europa, porque a sua economia é bastante forte, o seu processo de unificação está relativamente avançado e a sua postura de respeito por interesses díspares, pelo Estado de Direito, pela concertação diplomática dos conflitos é universalmente reconhecida. Não é, no entanto, suficientemente forte para avançar sozinha. Dificilmente os EUA aceitarão um projecto multilateral enquanto prevalecer uma situação em que consigam retirar todas as cantanhas do lume, sobrestimar a sua posição dominante e deixar que o resto do mundo pague as despesas. Além disso, não é possível concertar, sem a participação dos EUA, os problemas que se irão levantar. Portanto, a Europa tem de encontrar aliados que consigam reconduzir a os EUA à razão. Para contrariar a estratágia dos EUA, não são os meios que faltam Europa, o que tem faltado é uma visão lúcida dos diversos interesses em jogo, a coragem para distinguir os factos das arengas e a vontade de actuar em vez de reagir.
Mas, em vez de analisar com cuidado os seus próprios interesses e os alheios, a Europa, com a Alemanha à cabeça, tem-se desconsolado pela fé na «comunidade de interesses transatlântica» há muito perdida, de mistura com sentimentos de reconhecimento, respeito e reverência. A realidade é, portanto, a seguinte:
Em meados de Janeiro de 2004, Alan Greenspan, no seu discurso em Berlim, voltou a ludibriar sem vergonha a Europa, acusando-a de ser a responsável pela fragilidade do dólar e deixando a seguinte recomendação: para impedir o afundamento financeiro dos EUA, devem transformar os activos das pensões de reforma em fundos privados que seriam investidos nos EUA logo a seguir.

Libertar-se ou destruir as bases da sua própria economia

Em Davos, reunem-se todos os anos os altos responsáveis do mundo político e financeiro. Em 2004, Dick Cheney, vice-Presidente dos EUA, permitiu-se deslumbrar a sua audiência com o anúncio do crescimento de 8% da economia dos EUA no 3º trimestre de 2003, crescimento esse pago, graças aos benefícios fiscais, em grande medida pelos investidores estrangeiros. Ninguém retorquiu, nem em Berlim, nem em Davos. Desta forma, torna-se impossível quebrar o círculo vicioso dependência - obrigação de exportar - investir em dólares - acentuar o défice dos EUA - voltar a exportar.
Quem aceita os pressupostos dos EUA para fazer funcionar a economia mundial, acabará por destruir as bases da sua própria economia. De cada vez que o Presidente da Reserva Federal faz menção de tocar nas taxas de juro, as Bolsas começam uma dança de ping-pong por todo o mundo. Por quanto mais tempo as empresas e as economias nacionais inteiras irão aceitar esta dependência em prejuizo da população. Não existe outro devedor que dite as suas próprias condições aos seus credores .

Projecto para o Novo Século Americano (PNAC)

Tal é a formulação, voluntariamente agressiva e visionária, que transformou há oito anos o resto do mundo em excluídos. Mas rapidamente esta visão tomou contornos bem reais, porque foi aplicada no plano político: no Iraque, no Afganistão, no enfrentamento com a Rússia, nas divisões criadas na Europa, no Irão, no Paquistão. Logo bancos e empresas europeias se apressaram, antecipando-se às ordens, a romper os seus laços comerciais com o Irão, a tal ponto temiam a cólera dos auto-proclamados deuses do Olimpo EUA, em detrimento das economias nacionais. É urgente agir. Se a Europa e outros não desejam tornar-se vítimas e vassalos das imposições que lhes são feitas, devem demonstrar que são capazes de elaborar e pôr em prática a sua própria visão política. Não se limitarem a grunhir no seu canto.

(continua)


Tradução a partir da versão francesa:
Jochen Scholz, PNEC – Project for the New European Century, Horizons et débats, 15 de Seyembro de 2008

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quinta-feira, outubro 02, 2008

Jochen Scholz - Projecto Europeu para o Novo Século (6)

(Início)

As condições económicas

Actualmente e a médio prazo o gás e o petróleo são os elementos incontornáveis da economia, logo do desenvolvimento, do poder e da influência. Face ao projecto da «grand strategy» anunciado pelos EUA, é espantoso que um assunto da máxima importância continue a ser debatido apenas em círculos fechados a sete chaves, em vez de ser tratado em discussões públicas a nível mundial (como por exemplo as mudanças climáticas): o «pico petrolífero». Os economistas relativizam a situação, contando com as reservas anunciadas pelas companhias petrolíferas. Tem todo o aspecto de um embuste, pois adia o problema central e inclui nos valores dos «recursos» as reservas, que não passam de suposições. A questão principal, segundo especialistas conceituados da geologia petrolífera, é outra: Em que momento se verificará o máximo da produção petrolífera, dando início ao seu declínio inexoravel. Estes especialistas situam entre 2010 e 2020. Mas, ao mesmo tempo, a procura dos países emergentes irá aumentar. A China é hoje o segundo importador de petróleo, a seguir aos EUA, absorvendo 20% da produção mundial.

Controlo da economia mundial

O «Cheney National Energy Report», publicado em Abril de 2001, que tem em consideração as previsões dos geólogos da «grand strategy» do PNAC, oferece explicações mais convincentes quanto à política externa, económica e financeira, e às recentes intervenções militares dos EUA, que aquelas que nos são oferecidas pelos oráculos políticos e mediáticos especializados da Casa Branca. Tanto mais interessantes são essas explicações, quanto é certo que os seus autores não são spin doctors [doutores de imagem], antes funcionários superiores e decisores com assento em lugares-chave das administração das principais companhias petrolíferas dos EUA. O relatório contem uma lista de países - para além do Iraque - que são os "felizes" contemplados pela especial atenção dos EUA, tanto nos planos político como militar, onde também se encontram informações adicionais: a Venezuela, o México, a Colômbia, o Sudão, a costa ocidental da África (São Tomé e Prícipe, Argélia e Marrocos), a Líbia - atente-se à evolução dos últimos anos, assaz reveladora - a Geórgia e a região do Cáucaso, as repúblicas muçulmanas ex-soviéticas, o Irão, o Paquistão, a Índia (com o último negócio do acordo nuclear, entretanto abortado, sobre uma parceria estratégica), a Indonésia, o Afganistão, o Japão e a Coreia. A disseminação de forças militares americanas pelo mundo e os esforços para conseguir instalar bases militares nas regiões estratégicas para o aprovisionamento de petróleo, podendo ir até à ocupação de um país, enviaram uma mensagem clara: Queremos assegurar-nos do controlo sobre a economia dos nossos rivais, decidindo quem irá terá petróleo, quanto petróleo terá e qual o preço.
«Sendo certo que há muitas regiões com grandes oportunidades para a exploração do petróleo, é no Médio Oriente, com os seus dois terços das reservas mundiais, que o preço se define em última instância. Indo directamente ao ponto: a diferença mais importante entre a Coreia do Norte e o Iraque é que, economicamente, não temos alternativa válida ao petróleo do Iraque. Este país nada num oceano de petróleo.»
Não é possível ser-se mais claro. Escutando com o ouvido atento o «Autumn Lunch Speech» (discurso para o almoço de Outono [!]) feito pelo ex-Presidente do Conselho de Administração da Halliburton e actual vice-Presidente dos EUA Dick Cheney, nota-se em que carris ele já se movia em 1999. Desde essa altura se interrogava Cheney onde poderiam ser encontrados os 50 milhões de barris suplementares que a economia mundial iria precisar, por cada dia, no ano de 2010, caso 90% dos campos petrolíferos pemanecessem nas mãos dos diferentes governos e companhias nacionais. Para dar uma ordem de grandeza: a previsão do aumento de procura situava-se em quase dois terços da produção mundial total de 1999. Cheney considerava por isso a soberania nacional como um dos problemas principais. Eis porque a preparação de uma «opção militar» visando derrubar o regime iraquiano começou oito meses antes do 11 de Setembro de 2001.

Todas as cartas na mesa!

Nunca os Estados Unidos da América haviam usado de tamanha brutalidade, quer com os seus aliados mais próximos, quer com as Nações Unidas, criando factos consumados; tampouco haviam afrontado numa medida comparável a opinião pública do próprio país com falsidades, como o fez quando se tratou de justificar a guerra ao Iraque. Assumiram o risco de desestabilizar a região que representa para eles a prioridade das prioridades nos seus planos estratégicos e que ocupa um lugar charneira no funcionamento da economia mundial. Comprometeram a sua reputação de «potência tranquila» ao serviço da paz e da estabilidade e são hoje olhados pelo mundo inteiro como mentirosos. Ocorre, então, uma pergunta: o que impeliu políticos normalmente ponderados a enveredar por semelhantes aventuras e colocar todas as cartas na mesa? Se os agentes não eram incendiários, nem doentes mentais, uma explicação se impõe: os planos e as iniciativas do governo dos EUA basearam-se no conhecimento que dispõem relativamente ao pico petrolífero, e destinam-se a impedir que as suas consequências dramáticas ponham em causa a supremacia dos EUA.
Em socorro desta tese pode citar-se o programa económico estabelecido por Paul Bremer, em Setembro de 2003, constante no decreto 39. A exploração do gás e do petróleo iraquiano deveria permanecer sob controlo dos EUA. (As coisas alteraram-se mais tarde). Em seu favor pesa igualmente um facto que passou quase despercebido à opinião pública, embora fosse muito significativo: em Agosto de 2003, o Japão renunciou, sob pressão dos EUA, a assinar um contrato com o Irão, que já estava negociado e redigido, para a exploração de um importante campo petrolífero.
(continua)


Tradução a partir da versão francesa:
Jochen Scholz, PNEC – Project for the New European Century, Horizons et débats, 15 de Seyembro de 2008

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quarta-feira, outubro 01, 2008

Cheque mate ao liberalismo

Nestes dias o mundo tem os olhos postos na sorte que o Congresso dos EUA irá reservar à Wall Street, enquanto símbolo do primado da iniciativa privada para o desenvolvimento económico. Os primeiros derrotados foram a Reserva Federal e a administração Bush, que já só vêm no saque directo ao dinheiro dos contribuintes a solução para que uma elite anti-social continue a acumular capitais. No Congresso, porém, este pragmatismo não colhe. Há ainda quem queira interpretar os acontecimentos recentes como resultado da cupidez de alguns financeiros ou seus intermediários, como uma questão pontual de falta de honradez na administração dos dinheiros dos pequenos accionistas. Olhando para indivíduos, os congressistas teimam em ignorar que os grandes meios financeiros, cristalizando o trabalho de milhões de pessoas, têm um caracter irremediavelmente social. Têm de ser removidos da margem de manobra da propriedade privada. É notável que tenham sido maioritariamente os republicanos, mais enfeudados à ideologia liberal, a opor-se ao plano de salvamento de Bush. Tal também revela que os aspectos ideológicos têm mais força entre os republicanos que entre os democratas.
O jogo de forças ainda não terminou. Mas a pureza da ideologia liberal está irremediavelmente afectada. Se o plano não for aprovado pelo Congresso, o risco de recessão passa a ser imediato, segundo os próprios economistas do regime: demonstração pública do fiasco de tão ampla liberdade da Wall Street na gestão privada de recursos. No caso contrário, fica publicamente reconhecido que a sociedade - representada pelo estado - tem a obrigação de cercear liberdades excessivas dos cidadãos individuais em matérias de mercado. A regulação dos mercados sai da esfera privada e entra, por direito próprio, na esfera estritamente social. Esse é um pesadelo ainda maior para os apologistas do liberalismo económico. Vale, no entanto, a pena recordar que, enquanto ideologia, o liberalismo económico já estava ultrapassado pela realidade no final do século XIX. Nessa altura, as ilusões de que qualquer indivíduo poderia desempenhar um papel de igual para igual no crescimento da economia, já tinha suficientes desmentidos nos fenómenos de concentração monopolista, nas cartelizações, nas condições de sobrevivência cada vez mais difíceis das pequenas e médias empresas, dadas as condições de acesso ao crédito financeiro e no empobrecimento de sectores amplos da população e nas primeiras crises. De costas voltadas para a realidade, os ideólogos sobreviventes do liberalismo têm vivido os seus dias de piores pesadelos. Como aceitar condições regulatórias impondo limites aos fluxos de capitais na Wall Street? Como pode sobreviver a iniciativa criativa dos investidores, sujeitos a supervisões, a regulamentos, e a penalizações definidas pelo estado, essa entidade inerte e economicamente incapaz? Decididamente, o fim do mundo deve estar próximo: o mundo dos desmandos, do caos e da falta de transparência dos actos com severas repercursões na sociedade em geral. Tudo indica que, doravante, a lei passe a ser outra: a iniciativa privada é socialmente benéfica? Sim, talvez, mas não por definição dogmática. É preciso analisar caso a caso. Principalmente, é preciso impor-lhe limites de intervenção: tudo quanto ultrapasse esse limite, passa a ser assunto do estado: My dear friend liberal, you must stay out. That's just not of your business. I'm so sorry.

O debate ideológico não esgota, além disso, o problema. Ao serem definidas condições em Wall Street, fica aberta a porta para a fuga da alta finança para praças mais conformes às suas expectativas e às leis com que se sente confortável. Isso significa que a Wall Street perderá este importante atractivo, que até agora têm sabido defender, e que tem permitido a Washington controlar o mercado mundial. Esta questão prática é ainda mais aterradora ao olhos dos que têm procurado manter os EUA como potência hegemónica na economia. Como agir daqui para a frente? Fazer valer apenas a supremacia militar, desprovida de mecanismos de persuasão económica que tão bem têm funcionado nas relações diplomáticas? Decididamente, as coisas não vão bem para o lado republicano.

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terça-feira, setembro 30, 2008

Jochen Scholz - Projecto Europeu para o Novo Século (5)

(Início)

Símbolo da Liberdade?

E, no entanto, ainda resta o poderoso símbolo da Estátua da Liberdade, descontando que após o 11 de Setembro de 2001 a sua mensagem está cada vez mais extinta, mesmo no interior dos EUA, e que, quanto ao exterior, não desempenhou qualquer papel desde a presidência de John Quincy Adams. No seu discurso à Nação no dia 4 de Julho de 1821, Adams declarou que a guerra estava justificada logo que os direitos ou a segurança no interior do país estivessem directamente afectados, prosseguindo:
"Onde quer que a bandeira da liberdade ou da Independência flutue ou venha a flutuar, ela estará nos nossos corações, na nossa benção e nas nossas preces. Porém, ela não partirá do nosso território em perseguição de mosntros para os destruir. Servirá para todos como o testemunho da nossa liberdade e independência. Permanecerá como campeã e justiceira de si própria. Ela sabe bem que, uma vez engajada em causas que não a sua própria, ainda que se trate da independência de outro país, ver-se-ía envolvida com poderes de extorsão, com guerras de interesse e de intriga, de cupidez individual, inveja e ambição que estão sempre preparadas para usurpar as cores da bandeira da liberdade."
O mundo inteiro poderia dar-se por satisfeito se os sucessores de Adams aplicassem a mesma máxima.

Domínio dos EUA por intermédio da OTAN e da OSCE

Mas o que se passa é que a «a ameaça para a segurança nacional» é apenas o pretexto que mascara os interesses imperialistas. O que se passou com o Iraque em 2003 mistura interesses, métodos e retórica de legitimação dignos de um ensaio de laboratório. As 200 mil pessoas que se comprimiram à volta da Basílica de Berlim no passado dia 24 de Julho, ansiando por uma vitória do candidato presidencial Barck Obama, claramente ignoravam os princípios básicos, sempre confirmados, da política externa dos EUA; assim como as orientações geo-estratégicas desde os começos do Século XX, que são partilhadas pelos democratas e pelos republicanos. Os EUA conduziram duas guerras mundiais para se tornarem uma potência euro-asiática que irá dar o tom a este continente. O principal obstáculo ao acesso aos mercados e às reservas energéticas da Ásia Central desapareceu com o afundamento da União Soviética, em 1991. Esta chance histórica sem precedentes, os EUA usaram logo depois contra os seus próprios aliados com uma agressividade cada vez maior, enquanto a Europa expectante sonhava com os «divi­dendos da paz». Sobre o plano institucional, os EUA exercem o seu domínio através da OTAN e da OSCE. O perigo, ameaçador - segundo os EUA - de ver a Europa perturbar o cerco com a «Politica Europeia de Segurança e Defesa» (PESD), está provisoriamente afastado pelo acordo «Berlin Plus».

A Europa é corresponsável

Pese embora o facto de os EUA terem conseguido explorar habilmente os interesses divergentes na Europa e ressentimentos fronteiriços históricos, uma constatação se impõe: tal jogo não dispensou uma parceria. A Europa começou a aliar-se através da sua participação na guerra dos Balcãs, seguindo-se o alargamento para Leste da OTAN, a aceitação do novo conceito de intervenção da OTAN de 1999, contrário à Carta das Nações Unidas, o abandono de certas iniciativas controversas, culminando com a invasão, contrária ao Direito Internacional, do Iraque e do Afganistão. Resumindo: a Europa é corresponsável. Que tenha sido Clinton, um presidente democrata, a lançar esta política, só prova que as demarcações partidárias são irrelevantes para a defesa dos interesses em jogo.

Os interesses americanos transcendem as divergências partidárias

Um sobrevôo - necessariamente rápido - ao quadro em que se exerce a «nova ordem mundial», aos mecanismos e ferramentas de que dispõe, assim como a resposta à questão «cui bono?» (beneficiando a quem?) mostram, sem margem para dúvidas:
  • Após o rompimento do equilíbrio geo-estratégico, impôs-se o primado do direito do mais forte nas relações internacionais. Os EUA - outrora proclamados defensores da ordem jurídica internacional - consideram agora as Organização das Nações Unidas (ONU) como um obstáculo.
  • A supremacia da escola monetarista e do «consenso de Washington» na economia. Nenhum deles aparecu do nada. Estão firmemente enraizados no modelo de sociedade anglo-americana, diametralmente oposto ao modelo europeu continental. No entanto, os seus dogmas são aplicados principalmente no exterior, mostrando-se as finanças e a economia dos EUA firmemente pragmáticas.
  • Mão forte sobre as instituições internacionais «decisórias» como o Banco Mundial, o FMI, o G7/8 e o OMC e ainda a OTAN, sob a palavra de ordem «America first».
  • Preservação da situação sem precedentes do dólar como divisa padrão internacional: os bancos centrais precisam dele para combater as crises monetárias, os estados para as suas exportações e para importar petróleo e bens manufacturados, os países emergentes ou em desenvolvimento para reembolsarem as suas dívidas para com o FMI e os clubes «de Paris» e «de Londres». Todas as mercadorias importantes são facturadas em dólares no mercado mundial.
  • Após o abandono da paridade-ouro e o crescimento exponencial (acima dos 100%) da procura do dólar na sequência do aumento brutal dos preços do petróleo nos anos 70, os investidores perderam quase toda a influência sobre a máquina rotativa de impressão de notas nos EUA.
  • Desde há mais de vinte anos os EUA praticam quase sem interrupção uma política consciente de déficit orçamental e comercial. Apesar da inflacção que atinge o dólar, continua a aceitar-se este como meio de pagamento no mercado mundial de capitais. Razões mais importantes: o medo do afundamento, a falta de coragem para promover alternativas e a mensagem, até aqui aceite, que os EUA são o único país em condições de proteger face a qualquer ameaça. Onde esta crença é desafiada, promove-se a instabilidade, afim de reconduzir os tresmalhados ao bom caminho.
  • O sistema actual restringe as opções à prática de uma economia orientada para as exportações, logo, de bom ou mau grado, a observar as condições impostas via OMC, FMI e Banco Mundial. As principais vítimas do sistema são os países em desenvolvimento e os emergentes, pendurados na torneira do FMI. O qual impõe condições que canalizam os ganhos das exportações para pagamento do serviço da dívida em deterimento do desenvolvimento económico interior. As economias exportadoras de produtividade elevada, como a Alemanha por exemplo, ficam sujeitas à pressão da concorrência mundializada, cujos padrões são fixados além-atlântico. Esta pressão reprecute-se, por sua vez, no interior. Resultado? Declínio da Agenda 2010, que o Chanceler Schröder havia conseguido aprovar.
  • Os EUA podem dar-se ao luxo de um défice comercial exorbitante de 500 milhões de dólares, um défice orçamental equivalente a um endividamento bruto de 3700 biliões de dólares para com o resto do mundo. É este resto do mundo que financia o défice, enquanto os bancos centrais continuarem a investir os seus lucros na exportação dos títulos da dívida pública dos EUA, supostamente seguros. Os estados da ASEAN+3 reinvestiram neles 80% dos seus excedentes comerciais e detêm 90% das reservas de dólares mundiais. As reservas de divisas chinesas, que se elevam a esta hora a 1,8 biliões de dólares, são constituidas principalmente por títulos do Tesouro dos EUA. Simplifiquemos: Se for contraposto o deficit dos EUA ao seu orçamento militar de 400 milhões de dólares, verifica-se que os rivais dos EUA financiam os sonhos de potência ambicionados por Wolfowitz no seu texto, acresentando-lhe ainda um belo brinde. O que levou Helmut Schmidt, ex-Chanceler alemão e membro actual da comissão redactorial do semanário «Die Zeit» a colocar a seguinte questão ao candidato à presidência:
    «Será que a vossa política orçamental se destina a equilibrar a enorme dívida externa? Irão os EUA deixar de consumir uma grande parte das poupanças e da acumulação de capitais das restantes nações? Bater-se-ão os EUA a favor de uma ordem consensual e pela supervisão dos mercados financeiros mundializados altamente especulativos?»
  • Os principais beneficiários deste sistema são os Big Oil [as grandes companhias petrolíferas] e o conglomerado financeiro a elas associado, assim como o complexo militar-industrial. Entre os perdedores estão, não apenas partes importantes do resto do mundo, assim como vastas camadas da indústria dos EUA, que deixaram de ser concorrenciais no mercado mundial. A economia dos EUA tornou-se largamente importadora e consumidora, financiando-se pelo endividamento. O presidente cessante foi posto ao corrente desta situação no decorrer da campanha eleitoral, no Middle West, quando os operários furiosos o declararam taxativamente. Os auto-proclamados campeões do mundo da exportação continuam a deixar-se embalar por balelas.

(continua)

Tradução a partir da versão francesa:
Jochen Scholz, PNEC – Project for the New European Century, Horizons et débats, 15 de Seyembro de 2008

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