terça-feira, janeiro 20, 2009

Fátima Inácio Gomes - Carta Aberta aos meus Colegas de Departamento

Caríssimos,

Fátima Inácio GomesEm breve fará um ano que me elegestes Coordenadora do Departamento de Línguas. Um ano depois, escrevo-vos para vos comunicar que entreguei, hoje, o meu pedido de demissão do cargo. Sinto, pela confiança que em mim depositastes naquela data e desde então, que vos devo uma explicação. Conforme aleguei no meu pedido de demissão
"Os acontecimentos que se arrastam desde Janeiro de 2008 em torno do processo de Avaliação de Desempenho dos Professores, os avanços e recuos em matéria legal e funcional nesta matéria, assim como no Estatuto do Aluno do Ensino não Superior, a degradação do clima relacional e o desgaste provocado por um acréscimo de trabalho de ordem burocrático que acresce irremediavelmente por força de constantes alterações dos diplomas legais, criaram condições cada vez mais difíceis para o desempenho sério e rigoroso do trabalho que a professora reputa de maior importância – a leccionação da disciplina de que é titular e responsável.".

Creio que contribui, ao longo deste ano, para um debate sério e responsável das matérias que nos têm atormentado. Saio com a consciência de tudo ter feito para derrotar o monstro da prepotência ministerial em sede de pedagógico e de o ter feito olhando-o de frente. Não encaro a minha saída como uma desistência da luta que nos envolve a todos - conhecem-me sobejamente para saberem que estou longe de baixar os braços. A verdade é que o Conselho Pedagógico perdeu qualquer capacidade de acção – o Ministério tratou de o esvaziar, no último decreto – e em breve perderá até qualquer sentido de representatividade democrática – o novo modelo de gestão deu-lhe a estocada final. Não posso, de todo, manter-me num cargo que, como nunca, consagra o desnivelamento injusto entre os professores. Não serei parasita de um sistema contra o qual tenho lutado! Agora sim, seria fácil ficar… todo o trabalho está feito, o desgaste de horas e horas a tentar lapidar as perversidades de umas fichas insanas faz parte do passado, quase não terei de observar aulas, ou seja, nem vos avaliarei, poderia tirar proveito da redução que me deram para o meu merecido descanso, e, ainda por cima, até poderia trabalhar descansadamente para um Excelente (no pior dos casos, um Muito Bom), quando tenho o privilégio de não precisar de ser avaliada na componente científico-pedagógica! Pois agora é a hora certa para eu sair! Não quero, não posso, tirar proveito de algo que me repugna e contra o qual tenho lutado. Onde ficaria a minha dignidade? O meu amor-próprio? A minha decência? O meu sentido de justiça?

Por ter sido eleita, ainda tenho espaço para tomar uma decisão destas. Preocupava-me prejudicar-vos com a minha saída, mas agora até esse cuidado se desvaneceu – só quem solicitar aulas observadas precisará de mim e, num momento destes, como já vos disse pessoalmente, considero uma falta de solidariedade para com os colegas solicitá-las. Daí que não me sinta moralmente obrigada em relação a quem o fizer. Não sei o que o dia de amanhã me reserva. Não sei se serei obrigada a avaliar. Mas dormirei tranquila, com a consciência de que não me deixei vencer pela letargia, pelo comodismo, pelos meus próprios interesses. Continuarei a falar com a liberdade com que me tendes ouvido, porque terei sido coerente e verdadeira até ao fim. Porque a minha voz nunca se ergueu para defender uma causa própria, mas uma causa comum, uma causa justa. E não há nada que aqueça mais o coração!

Como despedida, e não querendo parecer arrogante, lembro-vos um hino à integridade:

Para ser grande, sê inteiro: nada

Teu exagera ou exclui.

Sê todo em cada coisa. Põe quanto és

No mínimo que fazes.

Assim, em cada lago a Lua toda

Brilha, porque alto vive.



Ricardo Reis


Um abraço a todos,

a vossa,



Fátima Inácio Gomes

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